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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Soledad – A terra é fogo sob nossos pés



Evidenciando que a realidade atual pode assumir vieses tão árduos quanto os percorridos nos anos de chumbo

Para contar a história de um dos mais brutais crimes políticos cometidos no Brasil, em 1973 – conhecido como o Massacre da Chácara São Bento – quando a poeta e intelectual paraguaia, Soledad Barrett Viedma, foi cruelmente torturada e morta pela Ditadura Militar em Pernambuco, o espetáculo “Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés” se vale, como ponto de partida do processo de encenação, o livro do escritor pernambucano Urariano Mota - ‘Soledad no Recife’.


A dramatização universal de Hilda Torres – traduzida pela sua companheira de palco, intérprete de Libras, Juliana Gonçalves – que trilha todos os pontos nebulosos do regime instaurado que tomou o Brasil a partir de 1964, é regida pela emotiva direção de Malú Bazán, também responsável por aproximar o espectador dos bastidores emocionais dos torturados pela ditadura – impossibilitando que, à metáfora que adorna o subtítulo do espetáculo, seja imputada qualquer responsabilidade por uma eventual conotação fictícia, mas uma forte e densa implicação política, evidenciando que a realidade atual pode assumir vieses tão árduos quanto os percorridos nos anos de chumbo.


Exercendo a sua capacidade interdisciplinar dentro de sua própria direção, Bázan também é a responsável pela concepção cenográfica e do figurino, exaltando a sua clarividência e lucidez intelectual ao modelar a submissão dos excluídos entre as classes sociais. No palco, Bazán  estende um véu formado por um patchwork de páginas de arquivos da autocracia militar que se encaminha ao altar erigido sob a escusa do extermínio da diversidade em prol de uma utopia da construção de uma sociedade homogênea e massificada. A desesperançosa viagem de volta ao obscuro passado é iluminada pelo desenho de luz de Eron Villar que conduz os espectadores a um mergulho nas sombras, após serem superexpostos aos ofuscantes focos de luz e esquecidos ao sabor da penumbra que embala o silêncio pessoal, responsável pela exposição de suas fraquezas humanas. Lucas Notaro, com a sua direção musical conceitual, corrobora na narrativa sobre guerrilhas, mortes e torturas contidas na dramaturgia de Torres e Bazán, definindo uma paisagem sonora capaz de conduzir o espectador à reflexão sobre as incompreensíveis resistentes manifestações em favor da volta de uma ditadura acima de tudo, abençoada por um Deus que estaria acima de todos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Minha Fama de Mau



Não se propõe ao esclarecimento e ao mergulho nos fatos marcantes da vida do artista, mas, a despeito da compilação dos seus principais sucessos, passa ao largo de um viés dramático.


Uma proposta cinebiográfica de um dos ícones da Jovem Guarda fracassa ao se limitar ao universo abordado pelo livro homônimo, a partir do qual foi baseado. “Minha Fama de Mau” lança o seu olhar seletivo, ora em passagens felizes, ora engraçadas, reprisando o sugerido processo de estagnação que teria sido submetido o autor do livro - o cantor Erasmo Carlos - no início dos anos 1990.

A benevolente direção de Lui Farias sugere um voluntário empenho pela sonegação de fatos reais, sobrepondo-se à efetiva narrativa da história da fama de mau de um garoto que se tornou o Tremendão. Farias priva o espectador dos meandros da indústria fonográfica no período compreendido entre o fim dos anos 1950 e o começo dos anos 1970 – época em que o trio formado por Wanderléa, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, no programa de maior audiência nas tardes de domingo - Jovem Guarda. Também falta, ao espectador, saciar a sua demanda pelas diligências sobre os principais sucessos do astro, da mesma forma que sua história familiar não surpreende, sequer agrega muito ao roteiro. A repentina amizade com Roberto Carlos é tão pouco esclarecida quanto o destino de Wanderléa após a interrupção definitiva do programa televisivo. A intenção em homenagear o grande amor de Erasmo Carlos soa caricata, através de seu suposto envolvimento com mulheres distintas nomeadas Lara, Clara e Samara – todas interpretadas por uma única atriz, como uma metáfora a Narinha, mãe de seus três filhos.

“Minha Fama de Mau” não se propõe ao esclarecimento e ao mergulho nos fatos marcantes da vida do artista mas, a despeito da compilação dos seus principais sucessos, passa ao largo de um viés dramático e da psique de um Erasmo, ainda adolescente, que esteve a um passo de um portal para a marginalidade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Se a Rua Beale Falasse

Impacta o espectador, emocionalmente, desde os primeiros minutos de projeção

A história romântica de Tish e Fonny (KiKi Layne e Stephan James) – amigos de infância que se transformam em almas gémeas adultas – torna-se uma tenebrosa história quando Fonny é acusado de estupro por uma mulher e Tish se descobre grávida.

Baseado no romance homônimo de James Baldwin – o filme “Se a Rua Beale Falasse” impacta o espectador, emocionalmente, desde os primeiros minutos de projeção. A partir de uma linha de tempo não linear idealizada pelo diretor Barry Jenkins – o mesmo de ‘Moonlight’ – o longa revela, ao espectador, o que é velado aos olhos dos personagens, por isso mesmo, reservando, somente para quem assiste, qualquer fragmento de esperança por um final minimamente digno – como ocorre quando se assiste a noticiários que reportam pessoas condenadas a pena de prisão, quiçá de morte, mesmo quando sua inocência não tenha, em tempo, sido comprovada. 

Embora o longa retrate o Harlem dos anos 70, a essência de “Se a Rua Beale Falasse” confere com a atualidade mundial, onde as injustiças e o fanatismo religioso contribuem para que atrocidades, de todas as ordens, não tenham fim. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Verão na Lagoa - Blitz & Biquini Cavadão


A Blitz faz a festa para os saudosistas dos anos 1980 e deixa o público aceso para a atração seguinte da noite – a banda Biquini Cavadão que, com todo o gás, abre o show com “Vital e Sua Moto”

O palco do Clube Monte Líbano, na Lagoa – Rio de Janeiro, dá início à série de shows do Verão na Lagoa 2019 com as bandas Blitz e Biquini Cavadão, na sexta-feira, 1º de fevereiro.

A banda Blitz abre a temporada com os seus clássicos “Weekend” “Egotrip”, "Betty Frígida", "A verdadeira história de Adão e Eva", dentre outros, e a mais recente música em parceria com Roberto Frejat "Baile Quente" – com a banda configurada por Juba (bateria) e Billy Forghieri (teclados), Rogério Meanda (guitarra) e Cláudia Niemeyer (baixo) e as cantoras Andréa Coutinho e Nicole Cyrne. A Blitz faz a festa para os saudosistas dos anos 1980 e deixa o público aceso para a atração seguinte da noite – a banda Biquini Cavadão que, com todo o gás, abre o show com “Vital e Sua Moto”, “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, “Aonde Quer que Eu Vá” e músicas do seu mais novo álbum ‘Ilustre Guerreiro’ – uma homenagem ao cantor Herbert Vianna, da banda Os Paralamas do Sucesso. Dando continuidade ao show, o vocalista Bruno Gouveia arrebata o público com “Múmias”, “Tédio”, “Janaína”, “Impossível” e muitos outros sucessos de carreira da Banda, atualmente composta por Carlos Coelho (guitarra), Miguel Flores da Cunha (teclados) e Álvaro Birita (bateria).

A programação de Verão na Lagoa 2019 desta última sexta-feira  foi marcada por um público cantante e dançante, cem por cento do evento, que matou a saudade dos anos 80, uma vez que, a cada intervalo, o DJ tocou de Oingo Boingo a The Police, fazendo com que todos se divertissem como se não houvesse um amanhã.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Espelhos



Atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa


Lançando o seu olhar seletivo nos dois contos homônimos de Machado de Assis e Guimarães Rosa – “O Espelho”, o espetáculo “Espelhos” discorre sobre a dubiedade e a infidelidade intrínseca na propriedade reflexiva de um espelho, defendendo o descrédito da imagem refletida, tendo em vista as deformações, os aperfeiçoamentos e as desigualdades reprodutivas do ser retratado em sua superfície.

Ao defender a teoria de que cada indivíduo possuir duas almas – uma exterior e outra interior, Jacobina – um homem machadiano, de origem humilde, que conquista uma posição melhor na vida por conta de uma nomeação a um posto militar – torna-se objeto de uma profunda análise cênica por parte do ator paranaense Ney Piacentini que, através de sua singular faculdade interpretativa, descarrega sobre o espectador, pérolas  que induzem à reflexão sobre “o ser” versus “o parecer”, sobre “o desejo” versus “o disfarce”, sobre “a vida pública” versus ”a vida pessoal”.

Em perfeita mixagem de textos e prosseguindo como simbióticos exímio narrador e pantomimo marceauliano, Piacentin atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa e assume o personagem que não se reconhece ao se olhar no espelho, expondo o espectador ao seu próprio reflexo, induzido por Piacentin, a se entregar aos mesmos questionamentos do narrador.

O desenho de luz e o projeto cenográfico de Marisa Bentivegna fazem parte de uma instalação dependente da interatividade do elenco e da operação de luz e som com vistas ao aliciamento do espectador na participação do jogo de convencimento refletido em cena. O lirismo contido no figurino de Fábio Namatame traz marcas dos efeitos das paixões e das pressões psicológicas que dissimulam as máscaras que entravam a expectativa dos encontros. A enigmática paisagem sonora concebida por Miguel Caldas, de braços dados à luminotecnia cênica e ao cenário, sela o tom de magia e mistério do monólogo, desligando, por completo, o espectador do mundo exterior.

Segundo um referencial psicanalítico, o espetáculo, aborda o narcisismo como uma estruturação desenvolvida pelo eu interior e implanta, em sua derivação, o processo de identidade do ser medido pela consciência moral e ética decorrente do mito que acha feio o que não é espelho.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Vice



“Vice” – a cinebiografia sobre Dick Cheney, estilizada e sombriamente engraçada, inicia-se com Cheney (Christian Bale) como um bêbado de 22 anos em seu estado natal de Wyoming, na companhia de sua namorada, Lynne (Amy Adams), que lhe dá um ultimato tendo em vista o estado deplorável do jovem – ou ele conclui sua formação universitária ou ela sai de sua vida. Por amor e devoção a Lynne, Cheney se eleva em atenção à demanda de sua amada de que se torne um grande homem. Em 1969, Cheney torna-se estagiário do Congresso, trabalhando na Casa Branca sob a tutela de Donald Rumsfeld (Steve Carell). Em pouco tempo, Cheney sucede Rumsfeld como chefe de gabinete da Casa Branca, no governo do presidente Gerald Ford (Bill Camp).

A direção de Adam McKay prioriza os anos posteriores e anteriores ao 11 de setembro de 2001 e esmiuça os períodos intermediários que inclui o mandato de Cheney como secretário de defesa do presidente George H.W. Bush e suas atividades como CEO da empresa de serviços petrolíferos Halliburton.

O longa se aloca em um limbo, entre provocações e mensagens dicotômicas que despertam o interesse do espectador, ao questionar governantes e, até mesmo, ao analisar sua culpabilidade diante de um mundo inescrupuloso, onde as convicções ideológicas não são importantes para os eleitos, uma vez movidos pelo desejo de poder.


A Sereia: Lago dos Mortos




O novo longa de terror russo conta a história de uma noiva em apuros diante de uma força sobrenatural maligna.

Não se trata do filme ‘A Noiva’ (2017), mas “A Sereia: Lago dos Mortos” que, coincidentemente, também é dirigido por Svyatoslav Podgaevskiy, que se digna a substituir a nefasta figura da noiva por um personagem da mitologia Eslava - uma ninfa, considerada pelos russos como sereias –  bem distintas das que reconhecemos – metade mulher, metade peixe – desprovidas de calda.

A protagonista, interpretada por Viktoriya Agalakova, por obra e graça de uma nova coincidência, também protagonizou o longa ‘A Noiva’. O roteiro também não é muito diferente do filme de 2017. A história se desenrola a partir de uma família desajustada e cheia de segredos, de uma casa fantasmagórica no meio do nada, de uma mocinha bobinha e da figura feminina do mal como antagonista. O resultado de tudo isso não passa de um pouco mais do mesmo, para quem já está familiarizado com os filmes de terror e, calejado, ciente de cada um dos momentos eleitos para assustar os espectadores, tamanha a carga de obviedade projetada na telona. Em vez de medo, “A Sereia: Lago dos Mortos” é capaz de promover profundo tédio que, por uma nova coincidência, ‘A Noiva’ também se esmerou em fazê-lo.