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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Desobediência


Uma sóbria avaliação da insalubridade religiosa

Um célebre rabino da comunidade judaica ortodoxa de Londres sucumbe ao término de seu sermão sobre o livre-arbítrio, onde fala de anjos, bestas e os únicos seres que são ‘livres para escolher’ – os humanos. Sua filha, uma fotógrafa de Nova York, volta para aquele universo imutável de sua infância, que há muito tempo deixou para trás, tendo que ser alvo dos olhares de parentes e de velhas amizades, e constatar, de forma dolorosa, que seu pai, declara, em seu testamento, não possuir herdeiros, deixando a casa, o seu único bem, como herança para a sua comunidade, ignorando os direitos de sua filha de sangue.

A modelagem do assunto pela direção de Sebastián Lelio permite um aprofundamento da análise sobre as maneiras com as quais as sociedades repressivas enquadram o gênero feminino, através da história de amor entre duas mulheres – uma paixão proibida, aflorada na adolescência, que promove uma sóbria avaliação da insalubridade religiosa. Contudo, a inércia assumida pelo roteiro não permite que a temática tome rumos, minimamente conclusivos, fazendo de “Desobediência” uma experiencia frustrante e desanimadora, conduzida por personagens perdidos em seus dilemas frente à ‘liberdade’ e às suas ‘escolhas’.

Tungstênio


Alusivo ao metal mais pesado da tabela periódica que, indiretamente qualifica o peso carregado pela sociedade brasileira que convive com o crime, com a violência, com a exclusão social, com o poder paralelo e com a inoperância do Estado

A primeira graphic novel assinada por Marcello Quintanilha, lançada em 2014 – “Tungstênio”, impulsiona a veia criativa do diretor, roteirista e ator pernambucano Heitor Dhalia que leva às telas do cinema, a partir de 21 de junho de 2018, o longa homônimo, adaptação da HQ do quadrinista brasileiro premiado no Festival Internacional de Quadrinhos de Angulême – França. Passível de ser interpretado livremente pelo leitor e pelo espectador, o título da obra de Quintanilha é alusivo ao metal mais pesado da tabela periódica que, indiretamente qualifica o peso carregado pela sociedade brasileira que convive com o crime, com a violência, com a exclusão social, com o poder paralelo e com a inoperância do Estado.

Atemporal, considerando-se as últimas décadas de mandos e desmandos que o Brasil tem passado, “Tungstênio” conta uma história situada, geograficamente, nas proximidades do forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, litoral da capital baiana, tendo como protagonistas o policial casca grossa – Richard (Fabrício Boliveira), sua mulher Keira (Samira Carvalho), Cajú - um jovem envolvido com tráfico e pequenos roubos (Wesley Guimarães) e Seu Ney - um sargento reformado (José Dumont), sendo narrada em off pelo ator Milhem Cortaz.

Quatro vidas e a ocorrência corriqueira de um crime ambiental definem o roteiro original, compartilhado na produção do longa entre Quintanilha, Marçal Aquino e Fernando Bonas, sedimentado pela proposta hiper-realista cinematográfica de Dalhia, que traduz os enquadramentos gráficos da HQ em fotogramas e mantém compromisso de fidelidade para com os diálogos, com o linguajar coloquial e com a estrutura sequencial definida por flashbacks e flashforwards tão acentuados quanto o compromisso do cartunista com a realidade de fato, refletida em suas obras.


Hereditário


O espectador que, apesar de não enxergar uma luz no fim do túnel, mantém-se em estado de atenção e de forte expectativa durante as duas horas de projeção


Uma mulher casada, mãe de dois filhos, maquetista por profissão – após a morte de sua própria mãe, torna-se insegura quanto à sua vocação como cuidadora de seus filhos e estranhamente perturbada para com o seu relacionamento familiar. Entre símbolos pagãos, invocações e sessões com velas, o ocultismo se apresenta à sombra e não define a essência da história que, lentamente, derrama no espectador algo pungente, não explícito, mas os conflitos presentes dentro dos núcleos familiares –  partir dos quais perseguem-se os responsáveis pelas causas de problemas e por distorções morais, sejam os componentes daquele núcleo , divindades, demônios, ou algo qualquer, mesmo incapaz de ser identificado.

A desconfortante direção de Ari Aster domina todo o longa – manipula os personagens com requintes de crueldade, da mesma forma que o faz com o espectador que, apesar de não enxergar uma luz no fim do túnel, mantém-se em estado de atenção e de forte expectativa durante as duas horas de projeção, que retrata uma doutrina horrorosa e terrível, que passa de geração em geração, como um maldito gene dominante que mina as relações e destrói qualquer vestígio de crescimento em comum.

A crueza ameaçadora do iniciante Aster na direção demonstra a frenética vontade de acertar e inovar em um gênero que já se encontra convalescendo há um tempo considerável e que ganha carga de fôlego em “Hereditário” – por seu aflitivo esforço na tentativa de subtrair dos fãs de filme de terror, o marasmo ou, jargonescamente falando, tirá-los da sua zona de conforto.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O Amante Duplo

Parece não ter sentido. Contudo, a cada momento de seu roteiro, o longa desperta forte ansiedade no espectador

A direção insana do labiríntico e delirante melodrama psicossexual francês, por François Ozon, desperta o estado cognitivo do espectador ao penetrar na teia psicológica da protagonista onde, intrometimento de vizinhança, exotismos felinos, abugalhação ocular e estilo musical causam forte impacto frente às vigorosas e ousadas cenas de sexo, capazes de escandalizar os espectadores mais conservadores. Ozon manipula, com esmero, a psiquê de uma jovem perturbada que se apaixona por seu psicanalista e que, logo em seguida, desposa aquele homem que aparenta esconder algo de seu passado – segundo a fantasiosa mente, em processo de degeneração, da protagonista.

Assuntos correlatos a transtornos dissociativos de identidade à parte, “O Amante Duplo” parece não ter sentido. Contudo, a cada momento de seu roteiro, o longa desperta forte ansiedade no espectador e torna-se um vício. Sua atmosfera inquietante, reviravoltas, revelações instigantes e sequências repletas de tensão o torna assustadoramente pulsante a ponto de excitar e aterrorizar sua plateia.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Aproximando-se de A Fera na Selva


Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais

Personagens tonalizados pela incidência da luz solar difusa, em alguns momentos, sem contornos definidos, projetando silhuetas luminosas e matizadas em conformidade com os princípios das complementares, em franco contraponto com as sombras negras delineadas por diversa incidência luminosa, dessa vez, precisa. Como inertes esculturas vivas, fundem luz e sombras em meio ao relevo de seus corpos e do panejamento que os cobrem, postando-se como se obras inacabadas o fossem, para serem contempladas através de janelas abertas para o impressionismo, a partir do interior de uma caliginosa arquitetura barroca, saturada de emoções e do apelo aos sentidos visuais e auditivos.

Um texto, de cujas sementes germinam puro intelecto ao longo de três séculos, aborda condições inevitáveis a todo ser humano, incluindo os anseios, os receios e as frustrações. Uma visão contemporânea de dois universos que se atraem e que se consolidam em nome do apreço capaz de vencer os abismos existenciais individuais.

A indagativa dramaturgia de Marina Corazza lança o seu olhar em ‘A Fera na Selva’ – obra de um dos mais marcantes escritores do realismo do século XIX, o americano, britânico naturalizado, Henry James, datada de 1903. Inspirada na sua relação com a escritora Constance Fenimore Woolson, James discorre sobre admiração, amizade e confiança, sobre narcisismo egoísta, entrega comedida e amor velado. Corazza, obstinada pela compreesão do mecanismo das relações interpessoais, escreve Aproximando-se de “A Fera na Selva”, aprofundando-se na alusiva embriagues dos processos emocionais que caracterizam os diferentes comportamentos humanos que direcionam e intensificam as decisões, evocando a capacidade analítica do espectador, de suas próprias reações diante dos obstáculos que a vida o reserva.

Com pitadas de sarcasmo, de ceticismo e de verdades abissais amparadas pela relação entre Woolson e James, o texto de Marina Corazza confere a base necessária para a arte da ficção desempenhada nos palcos, delineando os personagens May Bartran e John Marcher de maneira peculiar. As verdades retratadas durante todo o espetáculo são reveladas pela criteriosa direção de Malú Bazán, que valoriza cada pormenor factível de lapidação, merecedor de toda a percepção e apreciação por parte do espectador, a começar pela concepção cenográfica de Renato Caldas, capaz de converter a atmosfera pulsante em um vácuo seletivo – onde a luz não se propaga e que extermina qualquer vestígio de vida proveniente do inesperado – atenuado pelo desenho de luz de Miló Martins que, se por um lado, rompe o equilíbrio entre o sentimento e a razão, por outro, traz à luz, as verdades dos personagens sob efeitos, ora da aurora, ora do crepúsculo. Os registros simbólicos capturados por Bázan transmutam os figurinos, assinados por Mareu Nitschke, em obra de arte – estejam em estado dinâmico ou estático – até o desenlace, quando lhes são conferidos status de reflexos inanimados dos próprios protagonistas. Sombria, ao mesmo tempo, delicada, a trilha sonora de Daniel Maia, intriga, ao criar expectativas que não se cumprem, entre a surdez do destino incerto e a cegueira do amor improvável. Incorporando os protagonistas, declamam o texto de Corazza com clareza de dicção ímpar e interagem com os recursos técnicos de palco como se extensão de seus desempenhos os fossem, os pictóricos Helô Cintra Castilho e Gabriel Miziara se relacionam no palco como mulher instigante, lúcida, serena e apaixonada e como homem preso às conjecturas que controlam a sua vida.

Seja intencional por parte da dramaturga ou voluntario pela direção de um espetáculo impregnado de sentimentos, perdas e sequelas, Aproximando-se de “A Fera na Selva”, com desvelo ao espectador, lhe concede, em seu final, nada mais que fragmentos desconjuntados de certezas arrebatadoras que sugerem convicções merecedoras de plena confiança – uma angustiante advertência expressa nas entrelinhas não menos tortas, do que as linhas certas escritas por mãos divinas.




quinta-feira, 14 de junho de 2018

Sol da Meia-Noite


A história de amor toma um rumo desconcertado, por não se aprofundar em meio aos protagonistas

Uma adolescente, se exposta à mais baixa radiação solar, tem a sua vida ceifada pela doença herdada de sua falecida mãe - Xerodermia Pigmentosa, conhecida como XP – um mal genético que se caracteriza por uma extrema sensibilidade à luz do sol e que resulta no desenvolvimento de um tipo de câncer de pele e de problemas severos no sistema nervoso. Uma história na qual a protagonista passa os dias vendo o mundo através de uma abertura vedada por vidros escurecidos, sendo educada pelo pai, escrevendo letras de músicas, dormindo e que descobre o amor quando, de sua janela, avista um jovem que passa por sua casa todos os dias a caminho da escola.

Uma temática estranha abordada por um filme que é claramente direcionado ao público adolescente. “Sol da Meia-Noite” é desenhado pela sensível direção assinada por Scott Speer, trazendo à luz do conhecimento coletivo, uma doença genética que afeta 0,0004% das pessoas do grupo demográfico dos Estados Unidos da América. Vertente documentária à parte, a história de amor toma um rumo desconcertado, por não se aprofundar em meio aos protagonistas.  O roteiro é pouco esclarecedor omitindo, ao espectador: o lado familiar do jovem enamorado; o fato dele não levantar suspeitas quanto a razão pela qual os encontros são marcados para ocorrerem somente à noite; a fonte de sua renda justificar gastos elevados, como alugar um estúdio de gravação para que a sua amada pudesse gravar uma canção de sua própria autoria.

Possivelmente, por essas razões, o longa assume um caráter extrema e absurdamente melodramático, além de confundir o espectador ao optar pela reflexão ou pelo sentimentalismo – escolha que acaba pairando no ar, de forma tão clara quanto um adorável dia nublado.



Talvez uma História de Amor


A rocambolesca direção de Rodrigo Bernardo se baseia no livro de Martin Page, porém, subtraindo as reflexões e o finíssimo humor, tão peculiares ao escritor


Um homem inupto, tomado por costumes muito rígidos, monomaníaco com aversão à vida social, inclusive, ao casamento – é o que de melhor pode se afirmar sobre a personalidade do protagonista do filme “Talvez uma História de Amor”.

Um dia, ao voltar do trabalho, o personagem encontra uma mensagem de uma mulher, em sua secretária eletrônica, rompendo o relacionamento entre eles. Mas a questão é que lhe falta lembrança de qualquer relacionamento recente.

A rocambolesca direção de Rodrigo Bernardo se baseia no livro de Martin Page, porém, subtraindo as reflexões e o finíssimo humor, tão peculiares ao escritor. O protagonista de Bernardo não é cativante e sem capacidade de sustentar, sequer, a loucura necessária para dar convencimento à delirante história, tão bem arquitetada por Page.