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quinta-feira, 18 de julho de 2019

A Bela Adormecida | Aposta no potencial cognitivo do público infantil

Aposta no potencial cognitivo do público infantil


Longe de se enquadrar no rol das histórias de princesas loiras de olhos azuis, coadjuvadas por animais falantes, cantantes, dançantes e fofos, o espetáculo “A Bela Adormecida” – flexionado no primoroso e onírico texto assinado por Janine Rodrigues e ludicamente dirigido pela pulsante veia artística multidisciplinar de Alexandre Lino – é repleto de mensagens ocultas, valores morais, simbolismos e crenças capazes de anestesiar o espectador, diante de uma realidade que aposta no potencial cognitivo do público infantil, com vistas ao aprimoramento de sua capacidade interpretativa e de seu senso crítico.

Dedicando-se, de corpo e alma, ao seu desempenho solo, a atriz/bailarina Silvia Patricia transmite, de forma didática e imaginativa, a importância do despertar da consciência do ser, sem as amarras das clicherias produtoras das batalhas entre o bem e o mal – sendo o primeiro definido pela beleza e pela nobreza e, o segundo, pela feiura e pela picardia.
O figurino de Karlla de Luca desmistifica as vestes principescas engessadas nas mentes dos pequerruchos pelas versões animadas e publicações gráficas estereotipadas e eleva a protagonista ao patamar da mulher batalhadora, alimentada pela perseverança em busca do despertar para a vida. A escuridão que comanda os egos e que se dispersa durante a caminhada da heroína conta com a direção de movimento de Giselda Fernandes que lhe injeta a força da cadência das origens em busca dos desígnios, conduzindo o espectador ao âmago da história contada com muita consciência e respeito ao próximo. Uma força impulsionada pela trilha sonora MAD que, sob a ousadia do sangue pernambucano pulsante da direção de Lino, confronta a essência do ritmo afro brasileiro nordestino de Jaraguá Mulungú e a disciplina clássica do pós romantismo russo da partitura deTchaikovsky. O arquétipo feminino sob o olhar masculino do diretor é evidenciado quando o desenho de luz de Paulo Denizot envolve a personagem como o sol em sua incessante doação a quem possa aquecer.
Encantadora por sua beleza e que se entrega ao sono profundo a ponto de fazer acordar a sua alma, Bela traça a sua existência, transformando-a em  alimento intelectual direcionado ao público infantil. Não obstante, o legado para os adultos acompanhantes, fruto do vazio existencial da protagonista, provoca o desejo pelo despertar das ideias, das verdades e dos conceitos sobre como viver melhor a vida.






sábado, 13 de julho de 2019

Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar | sensação de impotência e a constatação da impunidade



Um dramático documentário de horror com viés catastrófico

Um registro cujo marco se dá em pleno carnaval de 1998. Um registro que tem início com projetos de vida. Um registro cujas raízes remontam à chegada dos portugueses na Terra Brasilis. Um registro que revela causas e consequências, visíveis e invisíveis, diretas e indiretas, que se alastram pelo passado, explicam o momento presente e desenham um futuro obscuro de uma nação que ainda clama por uma justiça travestida de sopro de esperança na pele da impunidade. Um documentário intitulado “Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar” com lançamento nacional previsto para 18 de julho de 2019 – mais que oportuna lembrança de um dos maiores desastres dos anais da engenharia civil brasileira, levada para a tela dos cinemas, pela direção de Gabriel Correia e Castro e Rafael Machado que, ao lançarem mão da linguagem jornalística na condução da obra, denunciam a perturbadora sensação de inoperância da justiça no trato dos direitos dos cidadãos comuns.

Edifício residencial contemplando cento e setenta apartamentos – cuja construção se deu ao longo da década de 1990, sob a responsabilidade da Construtora Sersan do deputado federal Sérgio Naya – o Palace II, que para muitos representou a realização do sonho de morar na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro,  foi marcado pelo seu desabamento, em 22 de fevereiro de 1998, decorrente de vícios de cálculo estrutural conjugados ao uso de materiais de baixa qualidade, causando a morte de oito pessoas e deixando cento e cinquenta famílias desabrigadas.

O longa de Castro e Machado reacende chamas do passado alimentadas por falsidade ideológica, por falsificação de documento público, por sonegação e fraude de execução fiscal, por ganância, por desprezo à ética e por quebra de decoro no sentido mais abrangente do desrespeito ao ser humano – conferindo à produção, qualidades de um dramático documentário de horror com viés catastrófico. Ao retratar a luta jurídica das vítimas do Palace II pelos seus direitos, contra o dono da construtora Sersan, o documentário navega pelos meandros do litígio, em meio à morosidade dos trâmites da justiça, cuja inércia se mantém, vinte e um anos após o desastre, contra os que não têm foro privilegiado ou recursos financeiros para comprar uma sentença que favoreça seus interesses.

A sensação de impotência e a constatação da impunidade, fartamente concedidas nos quase noventa minutos de filme, é algo desolador, para o espectador incapaz de não se ver em cada um dos padecedores do Palace II que brigam por algo que deveria ser uma garantia para todos os cidadãos de bem ou do mal – a justiça, cuja cegueira não se explica, se decorrente de total imparcialidade ou de mero equívoco.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Ta Azor! a Lucidez de Artaud - Sonhos travestidos de lucidez

Sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão



Ao conduzir toda a sua obra pelo incessante desejo de se encontrar, o poeta, pintor, escritor, ator e dramaturgo Antonin Artaud renega a consciência estética, fundamentada em simulacros – a realidade empírica da sobrevivência – embora, manipule a vida como se fosse, supostamente, regida por forças mágicas, a partir de uma consciência cósmica, firmada entre o universo e o divino.

As metáforas associadas às obras do artista são desenhadas no espetáculo “Ta Azor! - A Lucidez de Artaud”, sob o roteiro de Calé Miranda, que gera uma aura dolorosa em torno de um espírito inquieto. A concepção de Calé preenche o espaço cênico com os movimentos, quase coreografados, e pelo texto, austeramente, articulado por Mônica Izidoro, Fátima Colin, Júlio César Pires e Arthur Vinciprova. Como se acometidos por um devaneio onírico, os personagens elegem a cura da dor e da impotência intelectual como o ponto forte da peça, ao discursarem sobre a síntese entre a matéria e o espírito.

Em meio a um espetáculo eminentemente sensorial, o espectador pode se dar ao luxo de cerrar os olhos e compreender o que se passa, simplesmente, através do sentido do olfato – inebriado pela fragrância do mix de ervas composto por hortelã, alecrim, arruda, dentre outros – e pela percepção dos movimentos e da insana coreografia em meio a uma paisagem sonora fantasmagórica, ao mesmo tempo, alucinante, por Marco Netto – consolidando a brutalidade, a promiscuidade, o sofrimento e as privações sofridas por Artaud. Porém, longe da intenção de promover ao espectador a experiência de estar na plateia de um teatro cego, Calé promove uma riqueza cromática a partir da inconsciente leveza orgânica do desenho de luz assinado por  Eliza Moreira, associado ao policromatismo de seu figurino, em busca pelo sentido obscuro da essência de Artaud.

Dessa forma, o espectador é induzido a experimentar uma terapêutica possibilidade de renascimento e de regeneração através de sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão. A arena ambientada, acolhe o público em meio à história, segundo um teatro, sob um novo formato, que dramatiza a escrita e que se dirige ao leitor-espectador. “Ta Azor - A lucidez de Artaud” dá lugar ao corpo humano proferindo palavras em busca de uma cura que se afasta da crueldade, que se apresenta poética e volátil – como a vida de um indivíduo qualquer, inconscientemente lúcido.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Homem-Aranha: Longe de Casa - uma continuação, mais do que satisfatória

Uma continuação, mais do que satisfatória

Veneza, Berlim, Londres e Praga são as cidades icônicas que servem de cenário para a sequência das aventuras do jovem Peter Parker, no filme “Homem-Aranha: Longe de Casa”.

Condicionalmente, a plena compreensão do filme demanda que o espectador esteja bem atualizado junto ao universo Marvel – em especial, ter assistido ‘Vingadores - Ultimato’, com vistas à assimilação do real significado do evento apocalíptico apelidado ‘The Blip’ e, não ser impactado com o spoiler apresentado, de cara, na abertura do filme, ao som de Whitney Houston – ‘I will always love you’.

Com o mundo livre de Thanos, os professores do Midtown planejam um passeio escolar para Europa. Consequentemente, Parker vislumbra a oportunidade de desfrutar a tão almejadas férias e abrir o coração para a sua amada MJ em solo europeu. Ao chegarem ao seu destino, eis que surge um monstro, causando destruição geral. Entra em cena um homem que, se intitulando Mysterio, luta contra a monstruosa criatura. Com isso, acaba conquistando a simpatia de Parker, com quem cria laços de amizade, com o aval de Nick Fury.
  
A direção de Jon Watts tem uma veia imaginativa pirotécnica impactante, além de não poupar o espectador de uma avalanche de cenas de humor teen e de uma boa e adequada dose de realidade aguda, ao se tratar de vida e morte – um somatório que faz do longa uma continuação, mais do que satisfatória, de uma franquia ansiada por uma legião de fãs do Aranha. Seja no início, no meio ou no fim, tudo tem o seu porquê. As cenas pós créditos aprofundam, ainda mais, o que o Universo Marvel promete para a próxima sequência. 

‘Longe de Casa’ contempla um roteiro inteligente e maduro, assinado por Chris McKenna e Erik Sommers – dupla que consegue a proeza de manter a refrescância juvenil inserida em um capítulo da saga dos Vingadores.

O Olho e a Faca - sem referencial emocional, que confunde sonho com realidade


Sem referencial emocional


De um lado, um acidente bizarro em uma plataforma de petróleo, cuja responsabilidade recai sobre o líder do grupo de embarcados. De outro, um cara gente boa, muito querido pelos companheiros de labuta que, na disputa pelo cargo de gerente da plataforma, vê todo o carinho e camaradagem, dispensados pelos colegas, se perder no fundo do mar. Em terra firme, esse homem, apesar de casado, com filhos e pais vivos, também dá suas escapadinhas e tem uma vida em paralelo com uma amante – linhas gerais do filme “O Olho e a Faca”, filosoficamente dirigido por Paulo Sacramento.

O elenco é composto por Roberto Birindelli, Caco Ciocler , Maria Luísa Mendonça, Luís Mello e conta com uma rápida aparição, quase sem texto, de Débora Nascimento. Maciçamente, o cast parece servir apenas de escada para Rodrigo Lombardi e seu personagem sem referencial emocional, que confunde sonho com realidade, encara todos que o cerca como inimigos, e tenta, de todas as formas contidas em um surto psicótico, voltar à terra e abandonar o mar interno de sua alma atormentada.

Apesar do argumento deixar o espectador a ver navios quanto à meta pretendida pela produção, o longa é agraciado com produção sonora estruturada pela expertise de Miriam Biderman, Ricardo Rei e André Tadeu e com a primorosa fotografia de José Roberto Eliezer – que impedem que  “O Olho e a Faca” se posicione em patamar abaixo daquele reservado para um filme regular.

Quem tem medo de Travesti - Acende a chama do absurdo que vela o preconceito


Acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade

A discussão central inserida no espetáculo “Quem tem medo de Travesti” é definida por uma perspectiva humana que compreende um posicionamento defensivo frente ao preconceito, mantida por muitos conservadores – quando não pela identidade de gênero capaz de acirrar a homofobia, pelo seu debate contemporâneo, de caráter ético, à sombra da inatividade. A discriminação polemiza as boas intenções dos paladinos do Senhor em nome da família e transforma a orientação sexual e as discussões sobre sexo biológico, em algo contextualizado, em embates historicamente retrógrados.


“Quem tem medo de Travesti” é uma conjunção de talentos, idealizada por Silvero Pereira que também dirige o espetáculo, juntamente com Jezebel De Carli – dupla essa que não pode ser dissociada de BR Trans, peça escrita e protagonizada por Pereira e dirigida por De Carli, na qual o ator, ao mesmo tempo, autor, conta experiências de vidas,  desempenha números musicais e torna visível um segmento da população ignorado pela sociedade.


“Quem tem medo de Travesti” é elencado por uma trupe de artistas militantes, composta por Denis Lacerda, Diego Salvador, Italo Lopes,  Patrícia Dawson, Verònica Valenttino, e Rodrigo Ferreira (Mulher Barbada), que incorporam, com excelência dramatúrgica, diversos personagens do universo transformista. Com teatralidade ímpar, incomum nesse segmento performático, as personagens contam histórias de suas vidas, desnudando o que há de mais precioso no ser humano – a empatia. O cerne do espetáculo não aparenta, apenas, atentar para a diversão do espectador, uma vez que também expõe, de forma dramática, ao mesmo tempo, apoteótica, o repúdio ao preconceito e à discriminação que vitimizam os travestis, ao fazer com que a intolerância seja desmascarada no contexto do espetáculo que denuncia um Brasil que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais.


Apesar de ser um espetáculo viabilizado sem patrocínio, mas por meio de financiamento coletivo, “Quem tem medo de Travesti” conta com recursos musicais, cuja pesquisa se deve à polivalência de Silvero Pereira, cuja preparação vocal é zelosamente trabalhada pela professora Angela Moura e contemplando a música original assinada por Verónica Valenttino. Expondo a essência desnuda e trajada das artistas os figurinos e adereços concebidos por Antônio Rabadan, complementados pelo mais que adequado e personalizado vizagismo, definem a veia humana, bestial e artística de cada uma das personagens. O projeto cenográfico, não só, é pragmático, atendendo à facilidade de montagem e desmontagem ao longo das turnês, mas lhe é conferido ares cosmopolitanos tão evidentes quanto os são cidadãs do mundo, as protagonistas do espetáculo. Dramatizando o que é tragédia e exaltando as performances musicais e coreografadas, o desenho de luz cênica assinado por Ricardo Vivian, acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade.


Sem escapismo, “Quem tem medo de Travesti” não foge à luta e enfrenta as adversidades diárias que são impostas aos indivíduos que resolvem defender a sua sexualidade, com perseverança e resistência – mesmo que, no momento de seus desempenhos, não estejam, declaradamente, representados pela plateia – apenas, subliminarmente.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Divino Amor - Um sinal de alerta para um obscuro futuro para o qual o país está sendo conduzido



Um sinal de alerta para um obscuro futuro para o qual o país está sendo conduzido

Como se, a partir de um olhar remoto, uma criança relata, em ‘off’, uma história que se passa em 2027, num Brasil que, segundo ela, havia passado por uma transformação e que a festa mais ansiada pelo povo não seria mais o Carnaval, mas as raves religiosas estatizadas. A cena se passa em meio a uma dessas festas, onde iluminação e som se impõem como agentes perturbadores – levando o espectador se questionar a partir de quando essas mudanças teriam sido, marcantemente, deflagradas.

As imagens sensuais traduzidas pelo olhar inflexível de Gabriel Mascaro alicerçam, sob sua direção, uma ficção científica erotizada, tendo como pano de fundo um regime evangélico conservador de extrema direita. Um regime que toma de assalto a população brasileira que, privada de sua individualidade e de sua privacidade, dispõe a sua vida ao ato de amar a Deus. Aqueles que não se enquadram ao sistema, padecem com o excesso de burocracia que lhes recaem de forma exponencial e inversamente proporcional ao amor e ao temor que prestam ao “Senhor nosso Deus”.

O seleto elenco de “Divino Amor” serve de alicerce a uma busca incessante, pela maternidade, por Joana, performada pela talentosa Dira Paes, definindo o fio condutor do filme de Mascaro, em meio aos absurdos de um futuro que espelha um Brasil onde os direitos humanos encontram-se tão dilacerados quanto atualmente ameaçados pela liderança de pregadores evangélicos empossados como ministros. O longa é um sinal de alerta para um obscuro futuro para o qual o país está sendo conduzido. A atual leitura biométrica digital, da íris e da face ocupa um patamar primitivo se comparada com o escaneamento dos indivíduos ao atravessarem portais comerciais e institucionais, a partir dos quais têm suas informações pessoais e orgânicas expostas a qualquer um que direcione o seu olhar para o monitor à serviço daquela exposição invasiva, outrora considerada privada e inviolável. O atendimento psicológico é prestado por um “confessionário” travestido de “Drive-Thru da Fé”, onde um pastor presta seu serviço de orientador espiritual, arrematado por um canto gospel ao final do atendimento, cujo acesso é controlado por um terminal de cobrança.

Uma sinopse mais detalhada do longa sugere spoiler e priva o espectador de se surpreender com o seu conteúdo absurdamente inusitado. Mas classificar a produção como algo assustador funciona como um despertar de interesse pelo tema, com vistas à constatação do desenho de um quadro tão nefasto para um País onde, até mesmo a chegada de um Messias serve, apenas, como um embrulho com vistas à sedimentação do retrocesso humano.