Counter

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Tudo que Quero


Digerível, mas não consegue transcender as inconsistências, sequer diminuir a incredibilidade do conceito global do longa, ao não se aprofundar em temas, tais como auto realização e família


Wendy (Dakota Fanning) é uma jovem autista, órfã de mãe e que vive separada de sua irmã, cujo filho, um bebê relativamente recém-nascido, pode ser, a qualquer momento, vítima de sua incapacidade de controle da própria raiva. Fã da saga "Jornada nas Estrelas", Wendy decide concluir o roteiro de um filme épico, composto por um total de quinhentas páginas, para ser submetido a um concurso patrocinado pela Paramount Pictures.

A partir desse quadro, observa-se uma série de infortúnios que recaem sobre a protagonista, provocados por ladrões, por funcionários públicos insensíveis, dentre outros agentes, que surgem durante a tentativa de entregar o seu roteiro a tempo de participar do concurso. A direção de Ben Lewin é digerível, mas não consegue transcender as inconsistências, sequer diminuir a incredibilidade do conceito global do longa, ao não se aprofundar em temas, tais como auto realização e família, remetendo às demandas pró-forma de um roteiro inconvincente, assinado por Michael Golamco.

A inegável integridade de “Tudo que Quero” – ao estruturar a jornada de uma autista em direção de seus objetivos, o torna previsível. No entanto, o fantasioso universo do longa é belo, alegre e fantasioso, e conta com uma trilha sonora que estimula os sentimentos.

O Papagaio


A chama da solidão alimentada pela maturidade e que se apodera de alguns indivíduos, gradativa, silenciosa e impiedosamente


Contos adaptados para o teatro, a partir de dois livros assinados por Thiago Picchi – “O Papagaio e Outras Músicas” e “A Arte de Salvar um Casamento” – conduzem aos palcos a chama da solidão alimentada pela maturidade e que se apodera de alguns indivíduos, gradativa, silenciosa e impiedosamente. Um espetáculo que alça voo em direção a uma realidade surreal, a começar pelo relato sobre a fuga de um papagaio de seu cativeiro. Embora distinto do primeiro, o conto seguinte dá continuidade à dramatização sob a temática da solitude e apresenta um idoso diante do desafio de um novo emprego no setor público. O exílio pessoal é continuado pelo drama vivido por conta das provocações, de parte a parte, entre um casal de irmãos, aparentemente atreguadas pela morte da irmã. Finalmente, após a travessia de uma tênue fronteira entre contos, o espetáculo introduz um telespectador que se apaixona pelas mãos de uma apresentadora de um programa televisivo de leilão de joias.

Como a ave da história, que foge em busca da sua liberdade, “O Papagaio” inspira-se em personagens que vivem as suas loucuras em plenitude cotidiana e perverte a realidade de maneira perturbadora. A fluida direção de Thiago Picchi dramatiza cada conto, de tal forma, a estabelecer ligações sutis nas motivações de cada personagem, ao definir seus textos como foco do espetáculo – ora sufocante, ora libertador. A inusitada e louvável atuação de Marcelo Picchi, frente à sua trajetória artística, até o presente momento, prende a atenção do espectador, a ponto de levá-lo à dúvida quanto ao momento do desfecho do espetáculo - mesmo após o apagar dos projetores de luz, toma-se por surpreendido e sem ação ao sinal auditivo derradeiro de agradecimento por parte do ator.

Definindo o corriqueiro cotidiano traçado pelo texto, a cenografia de Zé Carlos Garcia é simplória e se basta, da mesma forma que o desenho de luz cênica de Pedro Paulo, que faz imprescindível frente à tenuidade presente nas passagens de cenas, de um conto para outro. A trilha sonora de Beto Ferreira, apesar de discreta, ameniza a verborragia do monólogo e emociona, a partir de seus cantos por Marcelo Picchi.

“O Papagaio” é pleno de linguagem provocante relacionada com domínio de palco e com a responsabilidade por manter o espectador como foco receptor de experiência dramatúrgica, reivindicada pela excelência de texto e de atuação.

sábado, 21 de abril de 2018

Os Monólogos da Vagina


A equilibrada alternância entre humor elegante e comoventes esquetes dá voz à reivindicação feminina - de seus corpos e de seus direitos

Baseado na peça teatral “Os Monólogos da Vagina” – aclamado em 2006, como a obra mais importante do teatro político dos anos 1990 pelo New York Times, de autoria da jornalista, dramaturga artista, feminista e ativista norte-americana, Eve Ensler – a atual turnê do espetáculo comemora 18 anos desde a sua primeira condução aos palcos cariocas, em 2000, com adaptação e direção de Miguel Falabella. O texto de Ensler é fruto de depoimentos de mais de duzentas mulheres em todo o mundo, tomados pela própria autora, que construiu um espaço isento de estigma e, de forma inteligente, consciente ao extremo. Em sua adaptação, Falabella define um roteiro inédito para o espetáculo no qual o texto é encenado por três atrizes – formato esse adotado, a partir de então, em todas as produções em todo o mundo, assim definido por Ensler, presente à estreia do espetáculo no Brasil.

No palco, quatro atrizes – Cacau Melo, Maximiliana Reis, Rebeca Reis e Sônia Ferreira se revezam em meio ao trio de encenadoras – assim definido por Falabella. A contida permissividade da direção das atrizes, por Maximiliana Reis, não só mantém acessa a essência do texto original, mas conduz a dramaturgia com respeitosa celebração à dignidade feminina, fazendo pulsar em cada espectador o sentimento de admiração e reverência às mulheres, independentemente de sua etnia e cultura – mesmo naquelas onde o estupro, o espancamento, a prostituição, as mutilações, os assassinatos e o assédio são práticas banalizadas ou, até mesmo, silenciadas em nome do temor, que pode ter sua origem desde a infância.  A dramatização transforma o palco em um campo de batalha, cuja guerra declarada ainda tem como foco a desrespeitosa desvalorização da mulher. Não obstante, a equilibrada alternância entre humor elegante e comoventes esquetes dá voz à reivindicação feminina - de seus corpos e de seus direitos. O acentuado visagismo de Anderson Bueno confere identidade aos diversos papéis interpretados pelo trio e, ao fazê-lo, evidencia o poderio necessário a cada uma das personagens, ora acentuado, ora atenuado pelo consistente desenho de luz de Matheus Chaves que interage para com a acuidade visual do espectador, como um receptáculo de raiva, de violência e de agressão, mas cuja leitura é atenuada com pela sutileza da alma feminina. A simbiose entre refinado humor e reverente dramaturgia, capacitada para promover diversão e indignação, é adornada pelo espirituoso figurino de Anderson Bueno e Milton Fucci Júnior que preenche, com vivacidade, o processo criativo e de movimento das atrizes. A cenografia videográfica de Cássio L. Reis se faz presente por meio de uma pesquisa de imagens alusivas ao título do espetáculo, por sua vez concebidas segundo os preceitos artísticos plásticos, além de elementos complementares minimalistas.

‘Vagina´- uma palavra ainda cercada de tabus, capaz de provocar impactos negativos quando proferida fora do contexto do espetáculo. “Os Monólogos da Vagina” carrega consigo uma dose pungente de humor, de poemas, de fatos inebriantes e de um leque de emoções que, emparelhados com a atmosfera acolhedora promovida pela direção do espetáculo, cativa o espectador, com suas vertentes antropológicas, sociais, ritualísticas e exorcísticas, totalmente teatrais.

Circuito Geral - Os Monólogos da Vagina

sexta-feira, 20 de abril de 2018

7 Dias em Entebbe


Não se entrega um ponto de vista político ou histórico relevante, mas se distancia de um thriller descartável

A história do sequestro de um avião francês, em 27 de junho de 1976, sob autoria de um grupo de ativistas pró-Palestina liderado por Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike) – a mais nova versão de fatos reais de José Padilha, “7 Dias em Entebbe”. O longa político propulsivo direcionado a um perigo crescente tenta conectar o espectador aos diálogos ‘revolucionários’ que, em alguns momentos, tornam-se desmotivadores diante da trajetória do avião que parte de Tel Aviv - Israel com 248 passageiros e é desviado para o aeroporto de Entebbe – Uganda. A negociação parte da exigência dos sequestradores para que o governo de Israel liberte 53 terroristas mantidos em prisões israelenses. Caso contrário, seriam mortos todos os 100 israelenses dentre os 248 passageiros da aeronave sequestrada.

Padilha concede uma atmosfera épica ao longa, sem definição de fronteira entre o bem e o mal, mas transformando uma questão complexa diante de ações repreensíveis realizadas por aqueles que se intitulam combatentes da liberdade. Padilha não se aprofunda no conflito entre Israel e a Palestina que dura mais de 40 anos. Consequentemente, não se entrega um ponto de vista político ou histórico relevante, mas se distancia de um thriller descartável, ao lembrar que houve um breve período durante o qual as conversações de paz pareciam viáveis. Mas que, nos dias atuais, tal utopia se encontra cada vez mais distante.

Circuito Geral - 7 Dias em Entebbe

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Todo Clichê do Amor


O desfecho não entrega o produto por inteiro, sendo delegado a cada um dos espectadores a montagem de um quebra-cabeças sem que percebam, durante um bom tempo da projeção, que são convidados para uma tarefa de raciocínio lógico e surpreendente, acrescido pelo legado, sob a forma de questionamento


“Clichê” – palavra que se tornou sinônimo de tudo o que já foi objeto de repetição excessiva e que perdeu a originalidade.

O particular olhar da direção do ator, cineasta, escritor e dramaturgo paulista Rafael Primot projetado no seu mais recente longa – “Todo Clichê do Amor” – aquece o coração ao compartilhar espaço com a estrutura predominante das comédias românticas. Primot se aproveita dos lugares comuns, nada revolucionários, para contar três histórias com um suave frescor de genialidade, tendo em comum triângulos amorosos formados por – duas amigas e um jovem tímido; uma madrasta e sua enteada velando o falecido marido e pai, respectivamente; um homem separado de seu verdadeiro amor, um ator pornô e sua mulher prostituta que sonha em dar à luz. Histórias que se entrelaçam sem a obviedade linear da intercessão de núcleos de personagens de origens distintas.

A qualidade da ficha técnica mesclada com os clichês dispostos de maneira eficiente por Primot, não cai na mesmice. O desfecho não entrega o produto por inteiro, sendo delegado a cada um dos espectadores a montagem de um quebra-cabeças sem que percebam, durante um bom tempo da projeção, que são convidados para uma tarefa de raciocínio lógico e surpreendente, acrescido pelo legado, sob a forma de questionamento, do que há de tão equivocado na adoção de clichês. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Quase Memória



“Quase romance” ou uma “quase lembrança”, deixando o terreno imaginativo “quase pantanoso”



Baseado no romance homônimo de Carlos Heitor Cony, o longa “Quase Memória” funde uma narrativa atemporal que transita entre a emissão do Ato Institucional número 5, em 1968 e a morte do piloto brasileiro de Fórmula 1, Airton Senna, em 1994.

A partir desses fatos, a circense direção de Ruy Guerra define dobras no tempo sem qualquer lampejo de esperança – quando a loucura, a ilusão, os fragmentos da memória, o choque de realidade, o esquecimento, a alienação, a ditadura, a fuga do consciente, os traumas e a sobrevivência ganham camadas de teatralidade, picardia, excentricidade, sarcasmo, inocência e humor. Guerra tem  a seu favor o performático elenco protagonizado por um Tony Ramos – interpretativamente condenado na estrutura do velho Carlos – diante de um subversivo Charles Fricks – aprisionado no jovem Carlos. Ambos ambientam um universo psicológico que permite o encontro do jovem com o velho, quando este recebe um estranho pacote, envolto em um nó, acompanhado por um envelope endereçado e cuja grafia somente poderia ser imputada a seu pai, morto há anos.

Essa obra de Guerra que, ao parecer tratar das escolhas feitas durante uma vida que se refletem na velhice, tocam o espectador mais sensível de maneira poética e transcreve as lembranças do protagonista com um “quase romance” ou uma “quase lembrança”, deixando o terreno imaginativo “quase pantanoso”.


Submersão


Impressiona diante da sua abordagem sobre a necessidade de amar, mesmo quando a escuridão em que mergulha a solidão, torna-se o terceiro elemento de uma relação, seja ela social, humana, sexual, política, científica ou religiosa

Uma adaptação do romance do ex-correspondente de guerra J.M. Ledgard – conta a história de amor entre uma bio-matemática e um suposto engenheiro da água, satisfatoriamente interpretados por Alicia Vikander e James McAvoy. Sob o título de “Submersão”, o mais recente longa de Wim Wenders leva às telas uma produção cinematográfica, rica em simbolismo global, discorrendo sobre assuntos que permeiam por entre o meio ambiente e aspectos ligados ao “jihad” - termo árabe que se traduz em luta, esforço ou empenho e que pode ser considerado um dos pilares da fé islâmica, defino por deveres religiosos visando ao desenvolvimento do espírito da submissão a Deus.

Em meio a esse universo temático, eclode um romance não convencional, traçado por caminhos divergentes, que definem a separação dos protagonistas durante grande parte do filme, dando lugar a lembranças, a palavras e à certeza de que o amor e a paixão nem sempre recompensam as partes envolvidas. Wenders compensa a provável ironia do destino ao apresentar os personagens já mergulhados em seus sentimentos, onde a atração súbita é tão poderosa que faz com que o espectador, definitivamente, acredite no amor à primeira vista. O roteiro, equivalente à mortalidade presente no filme, conta com a concepção de iluminação cênica crucial, em alguns momentos, totalmente esmaecida, como uma tentativa de aprofundamento nas memórias do casal romântico e de fazer com que os espectadores acreditem que aquela experiência amorosa é tão poderosa quanto a luz do dia.

O ciclo de qualidade que envolve “Submersão” impressiona diante da sua abordagem sobre a necessidade de amar, mesmo quando a escuridão em que mergulha a solidão, torna-se o terceiro elemento de uma relação, seja ela social, humana, sexual, política, científica ou religiosa.