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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Elza



Fala sobre a mulher, sobre a pobreza, sobre a cor da pele, sobre a igualdade, sobre a diversidade, sobre a resistência feminina, sobre as perdas e, sobretudo, sobre as conquistas.

Uma criança nascida em uma favela carioca, feliz, apesar de pobre e de ter que carregar latas d’água na cabeça, por sobrevivência. Uma menina compelida pelo pai a largar os estudos e a se casar com um homem já maduro e que a submetia à violência doméstica. Uma ainda menina que dá à luz um garoto cuja vida foi interrompida por conta de enfermidade. A mesma menina, que na busca pela cura da doença de seu filho, participa de um programa no auditório de uma grande emissora de rádio, sendo vitimada moralmente pela arrogância de seu apresentador. Uma adolescente que perde seu segundo filho para a fome que se impõe aos habitantes do “planeta” em que nasceu. Uma jovem adulta que enviúva e, com cinco filhos para criar, não teve outra saída senão trabalhar como doméstica. Uma mulher que jamais declinou do seu propósito na vida que era cantar.


Sete fases de uma vida que se desdobra em sete vidas – um breve prólogo do espetáculo biográfico “Elza”.

O extremo sofrimento, contido na história de vida de uma das maiores cantoras do Brasil – Elza Soares – conta com a estruturada direção de Duda Maia, que não concebe a possibilidade de transformar o musical em um melodrama lacrimejante. Muito pelo contrário, Maia presenteia o espectador com um testemunho de vida marcado pela garra e pela luta, para muito além da tristeza.

“Elza” fala sobre a mulher, sobre a pobreza, sobre a cor da pele, sobre a igualdade, sobre a diversidade, sobre a resistência feminina, sobre as perdas e, sobretudo, sobre as conquistas. No palco, treze mulheres – sete notáveis atrizes e cantoras – Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz – desafiam o espectador ao desnudarem todas as mulheres que Elza representa; seis explosivas musicistas – Antonia Adnet (vilões, cavaquinho e voz), Georgia Camara (bateria e percussão), Guta Menezes (trompete, flugelhorn e gaita), Marfa Kourakina (baixo), Neila Kadhí (programações, pandeiro, guitarra e voz) e Priscilla Azevedo (teclado, sanfona, escaleta e voz) escoltam as sete “Elzas” e potencializam a essência do espetáculo, sob a atenção e a emoção de uma plateia delirante.

O encantador texto de Vinícius Calderoni expõe ao público, sem o menor esforço, os tributos humanos e artísticos da primeira mulher brasileira a puxar um samba enredo. A beleza e a sensualidade furiosas que afloram da carne negra de cada uma das sete Elzas que representam Soares no palco são adornadas, de forma precisa e personalizada, pelo figurino de Kika Lopes e Rocio Moureque e pelo visagismo de Uirandê de Holanda. Definindo uma atmosfera mixada em meio à bossa, ao samba e à contemporaneidade, o cenário de André Cortez joga com o simbolismo, as marcas da trajetória de Elza Soares desde a sua infância até os dias atuais, permitindo a concepção de um desenho de luz cênica, por Renato Machado – que passa ao largo dos hiatos depressivos nos quais a vigorosa forte biografia poderia mergulhar a plateia – de tal forma a ofuscar as amarguras e as tristezas e a iluminar a voz da mulher de pele preta que clama por deixarem-na cantar até o fim. No embalo da retrospectiva da filha do operário tocador de violão, consagrada a cantora do milênio em 2007 pela BBC de Londres, é deflagrado um amistoso duelo entre a potente sonoridade das vozes que representam a voz da mulher do fim do mundo – em franca sintonia com a transformação da obra musical escrita em arranjos inebriantes sob os arranjos assinados por Letieres Leite – e o extasiante desenho de som Gabriel D’Angelo, atualizando o que já é de vanguarda, atingindo, em cheio, o leque de gerações que compõem os ainda crescentes admiradores de Elza Soares.


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Megatubarão



Aparente tributo bem-humorado, aos filmes protagonizados por criaturas que excedem as proporções daquelas consideradas como normais dentro de sua espécie



“Megatubarão” – um longa com ares Xing Ling que, apesar de impregnado de clichês identificados em filmes do gênero terror suspense tubaronesco, sem exageros, é capaz de satisfazer os anseios do público de cinema, consumidor de pipoca com guaraná, em busca de instantes de diversão.

Uma estação de pesquisa subaquática, onde um grupo de cientistas explora os limites das profundezas do Oceano Pacífico, é atacada por um ser descomunal, deixando inoperante, um módulo submarino e sua respectiva tripulação. Para salvá-los a base recorre a um especialista em evacuação marinha, que há cinco anos, não realizava tal função, em consequência de uma ocorrência de iguais proporções, identificada pelo mesmo, como um ataque por um monstruoso ser abissal.

Ao tentar estabelecer trajetórias distintas para cada um dos personagens, Jon Turteltaub atola a sua direção em meio a extensos e enfadonhos argumentos, com indesejáveis efeitos anticlímax, mas que não desmerecem, de modo algum, o seu aparente tributo bem-humorado, aos filmes protagonizados por criaturas que excedem as proporções daquelas consideradas como normais dentro de sua espécie, caçadas por exploradores e cientistas, movidos pela ganância.

Sem margem de dúvida, o longa de Turteltaub cumpre todos os requisitos para ser o blockbuster do momento. Contudo, para que a experiência seja comprovada como satisfatória, minimamente, as salas contempladas pelo formato IMAX e pelo recurso 3D são recomendadas, em benefício das tomadas no fundo do mar e do design de som, permitindo que o espectador se sinta parte integrante das cenas.


Vidas à Deriva



A coragem que triunfa sobre a força da mãe natureza em seus momentos mais alucinantes

Em setembro de 1983, Tami Oldham Ashcraft e seu noivo, Richard Sharp, foram contratados para conduzir um iate de 44 pés em uma viagem de 4.000 milhas, do Taiti a San Diego. Na metade da travessia do Pacífico, o casal se depara com o furacão Raymond – Sharp é jogado ao mar e Ashcraft permanece no iate durante quarenta e um dias, à base de manteiga de amendoim.

Baseado na história real do casal, o cineasta Baltasar Kormákur descreve uma relação de amor e de uma luta por sobrevivência que vai muito além do termo ‘superação’, fazendo de “Vidas à Deriva”, um longa inspirador sobre a coragem que triunfa sobre a força da mãe natureza em seus momentos mais alucinantes.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Acrimônia


A conflitante direção de Tyler Perry se confunde com produtivos surtos de transtorno de personalidade limítrofe, durante os quais, desenha protagonistas de caráter moralmente ambíguos, situações cruéis e doentias

Uma história na qual amargura e ira se exacerbam e tomam para si totalidade da tela, bem diante dos olhos do espectador atordoado, impossibilitado de se posicionar diante das cenas que evoluem durante o longa “Acrimônia” - a narrativa de uma mulher sobre seu conturbado relacionamento conjugal com um homem, razão da sua raiva corrosiva. Ele, obstinado por seu projeto de ciência como perspectiva única para conquista de uma vida abastada e permanentemente estável; ela, a provedora financeira de sua ambição, durante anos de matrimônio, até o momento em que é decretada a falência financeira do casal, juntamente com a sua tolerância, reduzida a zero – fato não menos instigado por suas irmãs e respectivos cônjuges – levando-a, a não menos, que à decisão pela separação judicial, afastando, ainda mais, a conquista de quem parece nunca declinar de seu projeto de vida.

A conflitante direção de Tyler Perry se confunde com produtivos surtos de transtorno de personalidade limítrofe, durante os quais, desenha protagonistas de caráter moralmente ambíguos, situações cruéis e doentias sob o manto do verdadeiro amor e da ruptura dos sonhos que se sonham juntos.

Ao incentivar a participação do espectador diante de suas reviravoltas dinâmicas, “Acrimônia” evidencia o prolífico roteiro que parece advertir sobre a pior das hipóteses comportamentais inspiradas na emoção, independente de gênero, de raça e de status do psiquismo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

De Carona Para o Amor


Uma deleitosa comédia e cuja essência desabrocha em uma linda história de amor


Um protagonista mitômano – grande empresário e típico madurão paquerador, que fantasia a sua condição física como se fosse portador de necessidades especiais e se passa por paraplégico para conquistar uma jovem mulher. Ela, por sua vez, lhe apresenta a irmã – uma mulher extraordinária, atraente, educada, bem-sucedida e, de fato, paraplégica. A partir desse momento, o longa “De Carona Para o Amor” sofre uma metamorfose, transformando-se em uma deleitosa comédia e cuja essência desabrocha em uma linda história de amor.

Franck Dubosc, além de interpretar o ardiloso personagem, também debuta na bem-vinda direção, ao se permitir o uso dos clichês na medida certa, sem vitimizar quem quer que seja, independentemente de suas “deficiências” morais, sociais ou fisiológicas.

A leveza e o bom humor previsível do roteiro isentam a obra de Dubosc de qualquer tipo de preconceito e, mesmo não se aprofundando na questão de acessibilidade, irradia alto astral em sua aparente inacabada obra cinematográfica.

O Nome da Morte


O filme faz da mira do calibre a solução do seu enredo violento e muito longe de um final tranquilo


Exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2017, o longa “O Nome da Morte”, de Henrique Goldman, tem estreia prevista para o dia 2 de agosto de 2018.

“O Nome da Morte” conta a história de Júlio Santana – matador de aluguel responsável por 492 homicídios em várias regiões do país. Santana foi apresentado ao ‘ofício’ por seu tio – um policial militar, quando Júlio ainda tinha 17 anos de idade.

Ao deixar o espectador indeciso na tentativa de identificação do matador como mocinho ou bandido, Goldman revela os ‘Brasis’ que desconhecemos onde, o que impera é a pobreza extrema e, a única forma de sobrevivência são os atos de frieza, impunidade e desigualdade desenhado no filme, sob o manto da lei e da justiça seletiva.

Baseado no livro homônimo, o filme faz da mira do calibre a solução do seu enredo violento e muito longe de um final tranquilo.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Missão Impossível: Efeito Fallout”


Convence o espectador a tal ponto de demovê-lo do questionamento quanto aos possíveis exageros vistos por seus próprios olhos

O super agente Ethan Hunt (Tom Cruise) e seus amigos do FMI – Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg) – são convocados para uma nova missão: recuperar três núcleos de plutônio antes que o terrorista John Lark, em conluio com uma organização conhecida como Apóstolos, possa usá-los para destruir o Vaticano, Jerusalém e Meca, em um único ataque coordenado – uma brevíssima sinopse do sexto filme da franquia “Missão Impossível”.

Em “M.I: Efeito Fallout”, as artimanhas de Cruise, ao desafiar a morte pendurado em helicópteros, correndo pelos telhados e saltando de um edifício para o outro, fazem da franquia um sucesso absoluto. A estilosa direção de Christopher McQuarrie convence o espectador a tal ponto de demovê-lo do questionamento quanto aos possíveis exageros vistos por seus próprios olhos, preferencialmente, no formato IMAX. Uma fotografia excepcional que captura ações em ousadas tomadas em cenas urbanas e em ambientes naturais, acompanhadas pela trilha sonora de Lorne Balfe – que exala a adrenalina que o filme oferece ao espectador – ao longo da Champs-Élysées e ao redor do Arco do Triunfo, em Paris, nas cercanias da Catedral de St. Paul, em Londres e em meio às geleiras em pleno processo de descongelamento da Caxemira.

A impetuosidade de Cruise e a incapacidade de McQuarrie em conceber um fracasso impressiona de maneira incrivelmente revigorante, e torna “Missão Impossível: Efeito Fallout” um filme irretocável.