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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Sueño Florianópolis



Momentos familiares, desarmados por diálogos flexíveis e camadas ininterruptas de agradáveis pseudos-improvisos, conferindo, ao espectador, a credibilidade desejada

O desconcertante fluxo errático emocional estruturado na essência de “Sueño Florianópolis” resulta em um longa regado por uma DR, em potencial, condutora de análises reveladoras sobre o cotidianos de uma família argentina, em férias no Brasil.


Lucrecia (Mercedes Morán) e Pedro (Gustavo Garzón), ambos psicanalistas, se encontram em um complicado processo de separação, dormindo em casas separadas, mas ainda em estado de compartilhamento de todos os rituais familiares de um matrimônio que gerou dois filhos. A família parte, em férias, em uma viagem de carro, de Buenos Aires – Argentina rumo a Florianópolis – Brasil, como última tentativa de salvar o casamento ou como apenas uma chance de pensar em conjunto sobre as possibilidades que possam se concretizar diante de uma separação sumária.

A empatia, naturalmente desenhada pela direção de Ana Katz, cría intuitivos momentos familiares, desarmados por diálogos flexíveis e camadas ininterruptas de agradáveis pseudos-improvisos, conferindo, ao espectador, a credibilidade desejada e, sutilmente, transmitindo o seu recado de que os momentos felizes devem ser enxergados nas pequenas coisas do dia a dia – enquanto isso, urge a luta cotidiana em busca de conquistas de maiores proporções na vida.



Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald


O longa não enfatiza a amizade, mas os males corrosivos da humanidade tomada pela intolerância e pela corrupção

Expandindo o universo ‘Animais Fantásticos e Onde Habitam’ deflagrado em 2016, J.K. Rowling  dá continuidade à pré-sequência de cinco histórias da obra derivada da série  Harry Potter – “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”.

Tudo começa com o recrutamento do bruxo Newt Scamander (Eddie Redmayne) por seu ex-professor em Hogwarts – Albus Dumbledore (Jude Law) – para enfrentar o terrível bruxo das trevas – Gellert Grindelwald (Johnny Depp) – que se encontra fugitivo da custódia da Macusa (Congresso Mágico dos Estados Unidos) e que reúne seguidores, visando à segregação dos mundos dos seres magos sangue puro e seres não-mágicos. Na sequência, Scamander se reencontra com os amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein ( Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler).

O sexto filme do mundo de Rowling sob a direção de David Yates é tomado por camadas repletas de novas criaturas, efeitos visuais que impressionam e um enredo alimentado por três entradas finais instigantes. O longa não enfatiza a amizade, mas os males corrosivos da humanidade tomada pela intolerância e pela corrupção, deixando em aberto qual o lado que optará em meio à guerra pelo poder, entre bruxos e trouxas. 

A Rota Selvagem



A crueza e a inflexibilidade pungente sobre o amadurecimento e perseverança diante das adversidades da vida de um adolescente, constrói um filme pesado, porém, contemplado por uma essência cativante.

Assumindo corajosamente uma possível capacidade de indução do espectador ao erro diante da possibilidade de seu roteiro ser interpretado como base de uma história de um ‘menino e seu cavalo’, “A Rota Selvagem” supera, em muito, as produções carregadas de obviedades e clichês emocionalmente apelativos. A brutal, porém genuína direção de Andrew Haigh endossa tal assertiva carregando a película com o retrato de uma vida, sem atenuar suas dores com filtros ou qualquer outros subterfúgios capazes de atender à demanda do espectador por um final feliz ou, ao menos, consolador.


A crueza e a inflexibilidade pungente sobre o amadurecimento e perseverança diante das adversidades da vida de um adolescente, constrói um filme pesado porém, contemplado por uma essência cativante. Charley (Charlie Plummer) é um jovem de dezesseis anos que, levando-se em conta a sua pouca vivência temporal, é lançado a uma precoce e dura experiência de vida, lidando com abandono e uma overdose de tristeza provocados por perdas pessoais e afetivas consecutivas. Paulatinamente, o mundo se abre aos seus pés, expondo o espectador às passagens mais sombrias da vida do jovem, ao longo de uma conturbada viagem desde Portland - estado de Oregon, noroeste dos Estados Unidos – rumo ao leste, até o estado de Wyoming, durante a qual, o taciturno Charley enfrenta um mundo cheio de dificuldades e total falta de empatia.

Evitando sucumbir ao sentimentalismo sobre a relação ser humano e animal, o espectador é manipulado de modo a distanciá-lo das emoções triviais e o direciona à preservação da memória da inocência, da sutileza e da vulnerabilidade, mesmo que, angustiante, ao longo da narrativa. Privilegiado pela trilha sonora por James Edward Barker e pela direção de fotografia assinada por Magnus Nordenhof Jonck, “A Rota Selvagem” se faz crível, brutalmente sensível, passando ao largo do sentimentalismo barato, intencionalmente por parte de Haigh.


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Operação Overlord



‘O quão perverso se deve ser, de modo a vencer aqueles genuinamente desumanos’

As cenas iniciais revelam um filme de guerra que bombardeia as telas de cinema deixando nada a dever a qualquer produção realista bélica previamente concebida. Paulatinamente, como em um degrade que se intensifica com o passar da história, surgem pérolas nacaradas por ação intensa, sutil humor e terror repleto de cenas assustadoras, incrementadas por uma seleta gama de efeitos visuais, marcadas por sons ensurdecedores e impactantes capazes de abalar a tranquilidade do espectador que possui, até mesmo, nervos de aço.


Dessa forma, “Operação Overlord”, sob a precisa direção de Julius Avery, apresenta um argumento e costura um roteiro inusitados para o gênero terror – a despeito do estereótipo dos mortos vivos que não se prendem a hábitos noturnos, que não se limitam a vaguear, agem instintiva e conscientemente e carregam consigo, uma boa fração de sua personalidade previamente às suas mortes. 

Um soldado paraquedista tem como a sua primeira missão ir atrás das linhas inimigas, abrir o caminho para a Normandia e derrubar a antena de rádio instalada pelos alemães, no topo de uma antiga igreja francesa. No subsolo da torre, ele se depara com algo que vai muito além do que apenas soldados.

A produção de J.J. Abrams impõe as suas conhecidas reviravoltas, nem sempre surpreendentes, mas contempla um questionamento muito subjetivo – ‘o quão perverso se deve ser, de modo a vencer aqueles genuinamente desumanos’ – capaz de não gerar uma resposta direta, pelo simples pavor de se promover uma linha de raciocínio sobre o assunto.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Chacrinha: O Velho Guerreiro


Humor na proporção de um mar e do drama contido na produção, na escala de um grão de areia

Estruturado a partir de um roteiro meteórico assinado por Claudio Paiva, Julia Spadaccini e Carla Faour, o longa “Chacrinha: O Velho Guerreiro” entra para o hall das cinebiografias com foco no maior fenômeno da comunicação brasileira.

Sem mais delongas, os registros da escalada de Abelardo Barbosa rumo ao sucesso ganham evidência em detrimento de um olhar mais aprofundado nas passagens de sua vida pessoal, deixando no ar, uma série de pontos carentes de esclarecimento. Consequentemente, a esmerada direção de Andrucha Waddington pode passar a equivocada impressão de que a figura do mito Chacrinha dá a vez à imagem de Abelardo Barbosa, em carne e osso – um workaholic ausente na sua vida matrimonial e paterna, mas com tempo que permite, a si próprio, manter supostos relacionamentos extraconjugais – tudo envolto com o exacerbado humor presente no palavreado, na postura e no figurino do apresentador.

E por falar em humor na proporção de um mar e do drama contido na produção, na escala de um grão de areia, ninguém menos que os atores Eduardo Sterblitch e Stepan Necerssian para dar continuidade à essência de Abelardo Barbosa antes e no início de carreira e após a sua consagração como “Velho Palhaço”, respectivamente, capazes de levar ao público do cinema um espetáculo que, definitivamente, não acaba quando termina.



quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody


Um delicioso filme, de rápida absorção, sobre o gênese e a trajetória, rumo ao sucesso, da banda britânica que se tornou o pilar do Classic Rock

Ao explorar o peculiar estereótipo das cinebiografias  de estrelas do rock moldadas pelo núcleo familiar, pelas dificuldades, pela perseverança, pela transposição das barreiras, pelo reconhecimento do talento, pela aquisição de fãs e, finalmente, pela conquista do estrelato, "Bohemian Rhapsody" se apresenta como um delicioso filme, de rápida absorção, sobre o gênese e a trajetória, rumo ao sucesso, da banda britânica que se tornou o pilar do Classic Rock – Queen. Nessa empreitada, o produtor e diretor norte-americano Bryan Singer consegue a proeza de narrar a história de Freddie Mercury (Rami Malek) como o vocalista da banda, poupando o seu longa de ser rotulado por uma sugestiva e não intencional exclusiva biografia do pop star, porém uma generosa exposição dos demais membros da banda como elementos de uma família formada pela escolha pessoal. Com profundo respeito e a partir de um olhar clemente e flexível a todas das formas de amor, Singer delineia, despretensiosamente, a tão contestada e demandada ao juízo, sexualidade de Mercury.

O roteiro se desenvolve a partir do momento em que o trio de rock ‘Smile’ perde seu vocalista e é surpreendido pela performance de um de seus fãs mais atentos e esperançosos – Farrokh – ao se oferecer para uma audição, desprovida de qualquer formalidade que pudesse ser exigida para a contratação de um vocalista vislumbrado pelo guitarrista e estudante de astrofísica, Brian May (Gwilym Lee) e pelo baterista e estudante de odontologia, Roger Taylor (Ben Hardy), que se rendem, de imediato, ao talento daquele que ousaram ‘bullyinar’, por conta de sua dentição proeminente. Para a surpresa de May e de Taylor, Farrokh não apenas é um cara que conhece as canções da banda, mas demonstra, de imediato,  a sua capacidade de se harmonizar com a recente produção da ‘Smile’, potencializando-a com o alcance vocal do tímido, mas não menos arrogante fã.

A intrigante originalidade do longa se faz presente pelo título “Bohemian Rhapsody” – o nome da música mais popular do Queen, com duração de quase seis longos minutos, para um single pop em pleno 1975. A sua mistura barroca, mística, melodramática e sem refrão, define o que foi a banda britânica para o mundo musical – um furação com solo de guitarra de Brian May que abre espaço para uma ópera composta por Mercury, que termina com um hard rock memorável.

Paralelamente ao drama de Mercury compartilhado com a banda Queen, o longa revela o curioso processo do surgimento dos ritmos familiares a todas as gerações que testemunham os seus sucessos, até os dias de hoje, e se faz presente como uma nota adicional aos sucessos que projetaram a banda Queen no hall da fama.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O Doutrinador


‘Democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.


O sentimento de revolta frente à indignação, à injustiça, à afronta ao bem comum e, até mesmo, ao desprezo à ética social desencadeia em um cidadão consciente dos ilícitos políticos, uma demonstração de violência implacável por conta de sua inconformidade, diante de liminares, de habeas corpus, de desmentidos do indesmentível e de tantas pizzas que sua geração é forçada a engolir.

O filme “O Doutrinador”, baseado na HQ homônima de Luciano Cunha, tem a sua adaptação realizada por Gabriel Wainer que, com a sua elegante direção, além de adaptar, transpõe, de maneira brilhante, a revolta contra o sistema político, do qual o espectador também é vítima. Conta a história de uma nação chafurdada nos problemas sociais, onde a elite política corrupta se utiliza das brechas da constituição e das leis e da doutrinação pela bíblia e, com isso, tira proveito de um povo em busca de um Messias. O potente roteiro, realizado a oito mãos traz, à tona, o ledo engano dos ingênuos que costumam citar o voto como ferramenta de mudança social, diante de fatos que contrariam o bom senso, a ética e a decência, dando lugar ao sentimento de impotência por parte do anti-herói Miguel (Kiko Pissolato) que, cansado, exaurido e sem nenhuma ponta de esperança, decide fazer justiça com as próprias mãos.

O longa se insere em um cenário onde não há espaço para ambiguidades e que define como coadjuvante, o verdadeiro herói, Edu (Samuel de Assis) – alguém que acredita que a justiça se faz dentro das leis e que estas existem para proteger as pessoas contra os malfeitores,  incluindo os corruptos e os salvadores da pátria, para os quais, a palavra ‘democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.