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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pantera Negra


Conduz à reflexão sobre o social, tornando-o em um divisor de águas no universo dos heróis


A representatividade e a essência do filme “Pantera Negra” no universo das HQs são consagradas desde a inserção do personagem, por Stan Lee e Jack Kirby, nas páginas do Quarteto Fantástico em 1966, marcando a estreia do primeiro super-herói negro no Universo Marvel Comics.

Com um elenco predominantemente negro e audaciosamente dirigido por Ryan Coogler, o longa é politizado, sério, consciente e maduro, garantindo-lhe um equilíbrio que transita em meio ao preconceito de raça, à segregação social, ao aviltamento aos direitos humanos e ao desafio do processo de aceitação sem deixar de lado a face do entretenimento que todo o filme de herói se propõe e dele é exigido pelos seus fãs expectadores.

A trama permeia os meandros das origens milenares dos Panteras Negras – manto que é passado de pai para filho e que, tradicionalmente, fica na linha de sucessão entre os aspirantes ao trono do evoluído reino da fictícia nação localizada no Leste Africano – Wakanda. Em passado remoto, Wakanda é atingida por um enorme meteriorito composto pelo elemento absorvente de som Vibranium. Desenterrado, o mais resistente, versátil e poderoso metal do universo torna Wakanda a nação tecnologicamente mais avançada do mundo. T’Chaka, rei de Wakanda, receoso das ambições de nações exteriores, contemplando o Vibranium, que poderiam ameaçar o seu país, o isola do resto do mundo e passa a comercializar pequenas quantidades do valioso elemento, o que viabiliza o envio de alunos expoentes para estudar no estrangeiro, fato este que eleva Wakanda à posição de um dos países mais tecnologicamente desenvolvidos na face do planeta. Após a morte do rei T’Chaka - em “Capitão América: Guerra Civil”, seu filho T’Challa passa pelo ritual de aceitação pelas cinco tribos de Wakanda e, desse momento em diante, os erros de seu pai, no passado, assombram o novo Pantera Negra.

Apesar da riqueza da qual detém Wakanda e dos exacerbados recursos tecnológicos apresentados ao longo do filme, em contraste com as condições de um continente marcado pela miséria, pela fome, e pela instabilidade política, a mensagem humanista de “Pantera Negra” conduz à reflexão sobre o social, tornando-o em um divisor de águas no universo dos heróis.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para um Crime


A cegueira da paixão, a falta de percepção da realidade e o silêncio da razão


Sete meses após a morte de sua filha e a ausência de qualquer ação concreta investigativa por parte da polícia local, Mildred Hayes (Frances McDormand) aluga três outdoors instalados na na mesma estrada deserta, nas proximidades onde sua filha fora assassinada, contemplando palavras de ordem através das quais tenta mobilizar a população local, questionando o desempenho da polícia, e chamar a atenção do próprio delegado da cidade – Bill Willoughby (Woody Harrelson) e demais autoridades, para a tragédia que envolve a sua família.

Com base nesse argumento, “Três Anúncios Para um Crime” discorre sobre a cegueira da paixão, a falta de percepção da realidade e o silêncio da razão. A inflamada direção de Martin McDonagh manipula, com maestria, esses desvios emocionais que vão de encontro à redenção debaixo de fúria, à descrença, à perversidade e ao sarcasmo – como mera consequência comportamental e não como solução dos fatos causadores daqueles distúrbios emocionais. A aniquilante atuação de Frances McDormand gera imediata empatia da personagem junto ao espectador – no que diz respeito à iniquidade através da qual se permite viver – que acolhe, como se natural o fosse, a sua forma de fazer com que a justiça saia da sua zona de conforto, provando o quanto a humanidade pode fracassar em suas “verdades” absolutas.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O Que te Faz Mais Forte


A desconstrução da expectativa criada por um tema tão forte


Um longa que tem como pano de fundo a série de ataques ocorridas em Boston no dia 15 de abril de 2013 – quando duas bombas feitas com panelas de pressão explodiram durante a Maratona daquele ano. O ataque causa a morte de três pessoas e ferimento em outras duzentas e sessenta e quatro – dentre elas, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), o protagonista de “O Que te Faz Mais Forte” que, por conta da explosão, perde as duas pernas.

A limitada direção de David Gordon Green abusa do uso exaustivo de clichês com perfil de auto-ajuda, trauma, superação, depressão e redenção. Tudo elaborado no desimaginativo roteiro de John Pollono que, em alguns momentos, consegue conduzir o espectador ao “riso nervoso”, tamanha a desconstrução da expectativa criada por um tema tão forte.

A inexistente de essência no contexto do filme “O Que te Faz Mais Forte” expõe, de certa forma, uma possível falta de interesse de Green em levar para a tela um drama inesquecível para aqueles que viveram, sofreram e assistiram o começo, o meio e o fim daquele fatídico dia na Boylston Street.

O Menino das Marchinhas – Braguinha Para Crianças


Delicadeza e respeito ao público infantil, acumulando, em paralelo, uma legião formada pelo público adulto ansioso pela próxima produção em tributo a mais um expoente da música popular brasileira

Carlos Alberto Ferreira Braga, mais conhecido como Braguinha ou, se preferirem, João de Barro – o compositor de mais de quatrocentas canções, dentre elas: “Balancê”, “Cantores do Rádio”, “Pirulito que Bate Bate”, “Carinhoso”, “Chiquita Bacana”, “Pirata da Perna de Pau”, “Tem Gato na Tuba” e “Yes, Nós Temos Bananas”, são apresentadas ao público infantil no musical “O Menino das Marchinhas – Braguinha Para Crianças”, que faz parte de uma série de espetáculos infantis que já se consagra como necessária para a formação de uma plateia intelectualmente ativa, que vai ao encontro da máxima que proclama nossas crianças como o futuro do país.

Diego Morais confere uma coerente direção com ar de contos de fadas que, debruçada no fluente e acessível texto de Pedro Henrique Lopes, imprime um ritmo dinâmico e convidativo à interatividade da plateia ao longo de toda a apresentação do musical. Não menos importantes do que a iniciativa de Morais e a regência técnica de Lopes, a deliciosa direção musical de Claudia Elizeu seduz gerações de espectadores com recordações por parte dos veteranos e manifestações positivas por parte dos calouros mirins. O dinamismo musical é ilustrado pela composição dos roteiros de movimento de Victor Maia, coreografando o espetáculo de forma tal a conferir qualidades assimiladoras quase didáticas às músicas de Braguinha. Os layers técnicos que compõem o musical não seria completo não fossem a ambientação concebida pela composição cênica minimalisticamente infantil e hiper carioca, assinada por Clívia Cohen e pelo cromatismo alegórico promovido pelo desenho de luz cênica de Pedro Mendonça. O alto nível de capacidade de diálogo com o público infantil, definindo plena identificação da plateia com os personagens, faz parte da índole artística do elenco formado por Pedro Henrique Lopes (Carlinhos), Martina Blink (Dona Isaura), Rodrigo Morura (Henrique), Augusto Volcato (Alvinho) e Beto Vandesteen (Sr. Jerônimo Braga).

Mais uma vez, a Entre Entretenimento mergulha no universo musical de grandes compositores – como o tem feito com Luiz Gonzaga e Milton Nascimento – com tamanha delicadeza e respeito ao público infantil, acumulando, em paralelo, uma legião formada pelo público adulto ansioso pela próxima produção em tributo a mais um expoente da música popular brasileira.



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Insulto


Humanizado e sensivelmente positivo, sem a menor intenção de extorquir lágrimas


O surrealismo incomodo e que retrata uma realidade específica – embora distante daquilo que aceitamos como crível – permite o espectador se entregar a interpretações extremamente radicais a partir do longa “O Insulto” – cujo roteiro e direção são assinados por Ziad Doueiri.

O argumento da história é concebido a partir de um desentendimento de motivo torpe que toma proporções inimagináveis, ocorrido entre o libanês cristão Toni (Adel Karam) e o refugiado palestino Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha), que trabalha irregularmente em uma empreiteira prestadora de serviços para o setor de obras públicas urbanas em Beirute, capital libanesa.  O impasse tem início quando Toni, ao regar rotineiramente as plantas de sua varanda, acaba molhando Yasser, por uma falha de execução do esgotamento de água de sua varanda. Utilizando a prerrogativa que seu ofício lhe confere como empreiteiro a serviço do poder público, Yasser entra em contato com Toni pedindo permissão de acesso ao interior da varanda, para que a falha no esgotamento seja corrigida. Diante da recusa da entrada da equipe de Yasser na sua residência, uma vez identificada a sua nacionalidade, o empreiteiro executa o conserto pelo lado de fora do apartamento, despertando um sentimento de ira em Toni, que o leva a destruir, a marteladas, o serviço executado pelo palestino e que, por sua vez, o insulta.

Ao mostrar os dois lados da moeda, Doueiri expõe a dor sentida por Tony ao se achar insultado e as razões que levam Yasser a recusar se desculpar pelo insulto, conforme exigido pelo libanês. O tema político, humanizado e sensivelmente positivo, sem a menor intenção de extorquir lágrimas dos espectadores, torna essa obra de Ziad necessária, tanto sob a ótica da ficção convertida em dramaturgia quanto da realidade transmutada em arte, retratando o confronto entre de dois povos, de forma imparcial, e permitindo a exposição dos pontos de vista individuais sobre o real significado de um simples pedido de desculpas.


Cabaret do Milton


Plumas e paetês, beijos e abraços, consagrando um cabaret que jamais fechará suas portas

O universo carnavalesco abre alas no Rio de Janeiro, na noite de quarta-feira, dia 07 de fevereiro de 2018, na Sala Baden Powell, com o “Cabaret do Milton”. O roteiro e a direção por Milton Cunha transportam o espírito momesco para o palco do teatro com a mesma autenticidade de quando as primeiras agremiações de samba se propuseram abrir as portas de seus terreirões, para ali reunir seus instrumentistas, compositores, intérpretes, passistas e toda a sorte de artistas que brotam das comunidades. Cunha lança mão de sua popularidade decorrente da sua veia espontânea e do estreitamento que a sua profissão promove junto ao público de todo o país, reunindo um elenco de vinte e um artistas – dentre passistas, ritmistas de escolas de samba, e apresenta um pot-pourri de sambas, sambas enredos, funk e música brega executados por uma banda composta por músicos da Unidos da Tijuca, Grande Rio e Estácio de Sá, interpretado por Sandra Portela e pelo cantor Zé Paulo Bolinha.

Jocosa e carinhosamente, Cunha chama ao palco a dupla que intitula “gêmeas univitelinas” - as performáticas Drag Queen Samile Cunha e a anã Viviane de Assis, a musa da Viradouro e Rainha do bloco “Senta que eu te Empurro”, formado por cadeirantes – que roubam a cena do espetáculo. Também apresentam-se Marquinhos, ex-mestre-sala da Mangueira e da Paraíso do Tuiuti, a passista Karla Moreno e a dançarina Camila Reis, dentre outros que, em perfeita sintonia com o público, fazem rir, cantar, tietar e relembrar que os da terceira idade ainda têm garra para buscar muito ritmo no pé para sambar.

Não obstante da calorosa recepção de cada um dos espectadores, ao acessarem a sala de espetáculos pela escadaria que os leva à plateia, o apoteótico encerramento do espetáculo conduz artistas em pleno desempenho e seu público, em total interatividade, ao foyer e à calçada do número 360 da avenida mais consagrada da zona sul carioca – Nossa Senhora de Copacabana – para celebrarem aquela noite com muitas fotos e selfies, plumas e paetês, beijos e abraços, consagrando um cabaret que jamais fechará suas portas enquanto Milton Cunha for o fiel depositário de sua própria reputação, em meio à folia de Momo.


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Luiz & Nazinha – Luiz Gonzaga Para Crianças


Belíssima colagem das canções do Gonzagão, amplificando a narrativa, sem a necessidade de artifícios cênicos pirotécnicos

Em pleno sertão nordestino, passagens da infância do menino Luizinho e a descoberta de seu amor por Nazinha – filha do rígido e austero Coronel Raimundo – são transportadas para o palco do teatro infantil, contando uma história livremente adaptada da biografia do Rei do Baião – Luiz Gonzaga. “Luiz & Nazinha – Luiz Gonzaga Para Crianças” é materializada pela singela direção de Diego Morais e introduz, ao público infantil, uma belíssima colagem das canções do Gonzagão, amplificando a narrativa, sem a necessidade de artifícios cênicos pirotécnicos.

Guilherme Borges – o responsável pela empolgante direção musical – celebra a alegria a cada quadro apresentado. A pureza infantil compõe a dramaturgia de Pedro Henrique Lopes – como Luizinho – que divide a protagonização do conto com a docilidade de Aline Carrocino – no papel de Nazinha. Martina Blink e Sergio Somene se proliferam no palco, como num passe de mágica, assumindo os papéis de Santana e Elvira e de Januário e Raimundo – os pais de Luizinho e de Nazinha, respectivamente. Agregado ao conjunto da obra, a concepção cenográfica minimalista de José Claudio Ferreira não se contém em sua carga artística, salpicando a boca de cena com bandeirinhas que remetem à marca de Alfredo Volpi, estampando o horizonte com roupas penduradas no varal, pontilhando o céu com gambiarras de lâmpadas e alinhando a ribalta com gravatás luminosos com a mesma inocência das obras de Heitor dos Prazeres. Em plena sintonia com o cenário, Wanderley Nascimento veste os personagens com um figurino segundo estilo e cromatismo que se identificam com o espírito infantil do espetáculo. Finalmente, o desenho de luz de Pedro Mendonça realça todas as qualidades dos recursos cênicos com objetividade tamanha a satisfazer os anseios das crianças e dos adultos enquanto vítimas de uma injeção de cultura travestida de grande brincadeira – o que, de fato, o espetáculo se propõe a oferecer. 

“Luiz e Nazinha” faz parte de uma experiência de sucesso, o estopim de um projeto que não deve ter fim, tamanho o universo das produções artístico musicais por grandes talentos nacionais a ser introduzido ludicamente às crianças e relembrado pelos adultos.