Counter

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Os Miseráveis



Um coquetel molotov


A construção de um confronto define o viés dramático do novo longa de Ladj Ly – “Os Miseráveis”. O panorama do filme apresenta o distrito de Montfermeil, localizado a leste de Paris, conhecido por seu alto índice de violência e, também, como o cenário do romance homônimo de Victor Hugo.

O novato policial Stéphane (Damien Bonnard) ingressa na patrulha da unidade de crimes de rua, sob o comando de Gwada (Djibril Zonga) – notoriamente cínico e reacionário – e Chris (Alexis Manenti) – que inicia o treinamento de Stéphane. Durante a ronda pelas ruas de Montfermeil, as abordagens junto à comunidade local demonstra uma total falta de afinidade e empatia da polícia para com os cidadãos - todos tidos como suspeitos e, consequentemente, passíveis de assédio policial, sem qualquer justificativa plausível. 

Ao trazer à tona temas polêmicos como racismo e violência, Ladj Ly arremessa um coquetel molotov no espectador que, ao mesmo tempo, vitimado pelo impacto, aplaude o resultado de uma Copa do Mundo, fervorosamente, como se fosse o bastante para a conquista da alegria de viver. Esse mesmo espectador também se demonstra abalado pela opressão profundamente enraizada nos atuais governos de quase todo o mundo – só restando o pensamento de Victor Hugo como consolo – “Meus amigos, lembrai-vos sempre de que não há ervas daninhas nem homens maus: - Há, sim, maus cultivadores”.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O Escândalo




Uma produção que denuncia erros que se fazem presentes em tempos passados e atuais.

A partir de narrativas de mulheres assediadas por um, não somente, poderoso homem do mundo da mídia, mas também um desprezível assediador sexual, o irretocável longa “O Escândalo” dispara contra o sol, com o que há de mais podre na imprensa racista, machista e homofóbica, da republicana Fox News. Nos bastidores, política se mistura com o desrespeito às minorias, por sua vez, objeto de denúncia pelas âncoras femininas da emissora que, para serem admitidas ou promovidas, rendem lealdade e, até mesmo, favores sexuais ao presidente da FNC – Roger Ailes - capturado pelo consagrado ator e cantor norte americano, John Lithgow, que presta uma interpretação digna de premiação.

Baseado em eventos reais vivenciados pela comentarista da Fox News, Gretchen Carlson, em 2016, o longa, dirigido com intensidade ímpar pelo realizador e produtor cinematográfico Jay Roach, reencaminha às telas de cinema, a inebriante estrela Nicole Kidman, no papel de Carlson, que se diz forçada a abandonar o seu emprego após a sua recusa frente aos avanços sexuais de Ailes. Mas não somente de Kidman e de Lithgow, Roach extrai fortes interpretações, mas de outras tantas estrelas que desempenham papéis de forte relevância no drama, presenteando o espectador com uma história definida por uma narrativa instigante e pela nitidez com que é traçado o universo psicológico dos homens assediadores e da forma que o sofrimento atinge as suas vítimas.

“O Escândalo” é uma produção que denuncia erros que se fazem presentes em tempos passados e atuais, e se mostra eficaz ao juntar as histórias de um grupo improvável de mulheres em prol de uma nova narrativa de um mundo empresarial menos misógino, numa era marcada por imponentes torres codinominadas Trump.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Ameaça Profunda



Excesso de superficialidade


Um thriller de ficção reúne uma equipe científica que enfrenta riscos desconhecidos nas profundezas abissais de algum ponto do oceano, retratado pelo cineasta William Eubank, como um ambiente inóspito onde um gigantesco complexo de estações de pesquisa foi construído, sem maiores esclarecimentos sobre sua origem e o objeto de sua investigação.

Dessa forma, é montado o cenário de “Ameaça Profunda” – um longa cujo roteiro foi desenvolvido de tal forma a fadá-lo ao hall das produções desnecessárias, apesar da tentativa de levar às telas um filme condecorado por classificações que percorrem o horror, à claustrofobia e ao apocalipse, espelhado a partir de produções já, há muito, exploradas em meio ao espaço intergaláctico. Não obstante, Eubank deflagra um processo de destruição das estações de pesquisa a partir do ataque de um ser marinho nos moldes da criatura de Ridley Scott, concebida segundo um ser alienígena resgatado por uma nave de pesquisa interestelar. Não fosse suficiente o acumulado paralelismo à saga alienígena, Eubank aposta suas fichas no desempenho dos personagens Norah Price e o Capitão da missão, incorporados por Kristen Stewart e por Vincent Cassel, respectivamente, como se num resgate de protagonistas da quadrilogia iniciada há cerca de quarenta anos.

Nem mesmo o padrão da matriarca Xenomorfo com sua ninhada escapa da mira do jovem diretor – em seu “nada a acrescentar” sci-fi – sendo retratados quando de um ataque coletivo da espécie aos humanos, sob a projeção de uma luz escarlate, contrastante com a mesmice cromática azul esverdeada que toma conta de, praticamente, todo o longa - o mesmo que assume o nervosismo trêmulo de uma lente que impede, intencionalmente, a visualização consciente da forma dos seres abissais. Em tempo, as duas personagens femininas, a despeito do corte de cabelo e do figurino que, além de remeterem aos concebidos para a estrela de Alien – Sigourney Weaver protagonizando Ellen Ripley – assumem uma configuração Miles Cyrus em seu Wrecking Ball – sugerindo uma exploração do corpo feminino, tão em desuso, em tempos de empoderamento feminino.

A instauração do naufrágio de "Ameaça Profunda" ocorre a partir dos primeiros minutos de projeção do longa, quando um abalo estrutural fatal da estação modular, onde se encontram os pesquisadores, os obriga a migrar para o módulo onde estão localizadas as cápsulas de escape de volta à superfície, fundamentais para salvar as suas vidas. Mas uma criatura desconhecida e, perigosamente fatal, escondida na profundeza das águas, ameaça a integridade da estação submarina e de todos os seus ocupantes, como uma reação dos habitantes das profundezas à tentativa de ocupação de seu território.

A histérica demanda por emoção constante desenhada para "Ameaça Profunda" torna os noventa minutos mais exaustivos do início do ano cinematográfico, dispensando qualquer empenho por uma sequência, devido ao excesso de superficialidade do roteiro, concretizando, somente, a soberania do oitavo passageiro de Scott.

Adoráveis Mulheres



Extremo requinte e relevante atualidade


Escrito na década de 1860, o romance “Adoráveis Mulheres” conta a história de quatro irmãs – a impulsiva Jo (Saoirse Ronan), a moleca Meg (Emma Watson), a pacificadora Beth (Eliza Scanlen) e a artística Amy (Florence Pugh) – e de sua amada mãe Marmee (Laura Dern), que lutam para sobreviver durante a Guerra Civil Americana. Enquanto o pai das meninas encontra-se em combate na guerra, as quatro iniciam uma amizade com Laurie (Timothée Chalamet) – o garoto que mora na casa defronte.

Com extremo requinte e relevante atualidade, o clássico escrito por Louisa May Alcott é adaptado pela cineasta Greta Gerwig – com potencial de ser considerada a melhor dentre aquelas levadas ao público cinéfilo em 1933, 1949 e 1994 – através da qual molda quatro lindas mulheres, que sentem sede de conhecimento, batalham para o crescimento pessoal e desbravam a vida para que possam entender a morte.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O Caso Richard Jewell



Muito além de uma simples cinebiografia


Richard Jewell – um guarda de segurança em atividade no Centennial Olympic Park de Atlanta, durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1996 – identifica, em meio à multidão, um volume suspeito de conter um dispositivo explosivo, se empenha em evacuar a área e alertar as autoridades, minimizando o número de vítimas fatais e de feridos. Num primeiro momento, aclamado como um herói, Jewell acaba sendo apontado como possível suspeito pelo atentado, pelo FBI. A partir de então, o homem sonhador, fiel aos seus conceitos de integridade moral e profissional, vê a sua privacidade e a de sua mãe, com quem vive sob o mesmo teto, se esvair com a força das acusações e do assédio do público e da imprensa.

Sob a não menos aguardada e surpreendente direção de Clint Eastwood, o filme “O Caso de Richard Jewell” dramatiza fatos reais, resgatando uma história que retrata a moral e a justiça como ícones que representam uma produção cinematográfica, muito além de uma simples cinebiografia. Eastwood denuncia a imprensa como uma instituição que, nem sempre, é fiel ao seu compromisso com a verdade dos fatos, mas com o que o seu leitor deseja como fontes de leitura, mesmo que incondizentes com a realidade – da mesma forma com que a maioria dos governantes fazem com os seus eleitores.

O roteiro desenha uma triste jornada de um homem ingênuo que se torna vítima da imprensa e da justiça corrupta, definida por um sutil viés tendencioso a uma política de direita. Contudo, Eastwood supera a sugestiva afluência formada por atos terroristas, e ideologias político-religiosas, reunindo fatos conflitantes e as polêmicas advindas das acusações. Com isso o espectador é presenteado com um filme que transborda tensão, com suspense na dose certa e repleto de emoções que se manifestam à flor da pele – o registro de um erro judiciário que parece, cada vez mais vital, nos dias obscuros que o mundo vem atravessando.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O Farol



O sombrio e introspectivo universo da solidão

Crença fielmente adotada por marinheiros romanos e gregos - uma antiga superstição condena à má sorte aqueles que matam aves marinhas que, por sua vez, incorporam as almas de marinheiros mortos.

Com base nesse argumento, Robert Eggers concebe o seu segundo longa, “O Farol” – a poderosa, porém, cansativa história de um antigo faroleiro (Willam Dafoe) e de seu mais novo aprendiz (Robert Pattinson). Ambos vivem uma rotina de trabalho diário na costa da Nova Inglaterra.  Em meio ao isolamento, segredos e visões míticas tomam conta de suas mentes até apodrecerem cobertas de fezes e lama – situações repugnantes e irritantes capazes de incomodar o menos sensível dentre os espectadores que ousam explorar o sombrio e introspectivo universo da solidão e a carência de comunicação interpessoal contida no terror existencial do longa em preto e branco.


“O Farol” atinge a meta definida por Edders, graças ao desempenho dos protagonistas que souberam assimilar a aura de pavor saturado por exageros e contrastes entre claros e escuros, que dificultam a assimilação da história desenhada pelo diretor, que meandra por entre dor, raiva, sexo, ódio, carinho e desespero. Apesar da considerável quantidade de absurdos presentes, o filme cativa o espectador mais pelo seu teor artístico e pela fragilidade dos estados mentais de seus protagonistas, fazendo com que a espera pelo facho de luz do farol travestido de uma, possivelmente inatingível, tábua da salvação, conduza alguns presentes à sala de projeção que, porventura, se encontre à deriva.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Frozen II



Ação, emoção, e muita música para aquecer o cantinho mais gelado do coração


Frozen II –  uma continuidade ao confortável enredo estabelecido pelo seu filme embrião, com potencial latente para se tornar uma franquia - A rainha Elsa, com suas habilidades mágicas, prospera como agente de pacificação e de prosperidade para a cidade de Arendelle; sua irmã, a princesa Anna, ainda configura uma excelente escada para a protagonista, como apoiadora e conselheira; Kristoff, o galante namorado de Anna,  apesar de decidido a lhe pedir a mão em casamento, falha a cada tentativa; por fim, o boneco de neve Olaf, neste episódio, imune ao derretimento, sustenta o filme com suas entradas e sacadas cômicas.

Apesar da aparente paz reinante, Arendelle encontra-se ameaçada por forças advindas de uma misteriosa floresta encantada. De modo a combatê-las, Elsa, na companhia de sua irmã e de seus amigos, deve transpor a névoa que circunda a floresta, domesticar as forças do ar, da água, do fogo e da terra, e descobrir o segredo sombrio que ameaça o seu reino.

O impressionante visual e a vibrante realidade gráfica da animação, transportam para tela do cinema cenas fantásticas que irrigam a imaginação do espectador, independente de sua idade. A digna direção Jennifer Lee e Chris Buck injeta ação, emoção, e muita música para aquecer o cantinho mais gelado do coração dos que buscam Fronzen como forma de entretenimento, sem qualquer demanda por um belo príncipe para solucionar os conflitos desenhados para a trama.

Ao apostar no amor fraterno e na cooperação mútua, os estúdios Disney molda a primeira princesa que não sonha em viver feliz para sempre ao lado de seu príncipe encantado. Na contramão dessa premissa, moldada à base de clichês retrógrados em vias de extinção, o discurso feminista torna a personagem consistente e orgânica para as novas gerações de espectadores, esperançosos por mais calor no coração e por menos frieza nas atitudes.