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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crocodilagem




“Lágrimas de crocodilo”

Ao devorarem suas presas, crocodilos e jacarés as ‘mastigam’, promovendo intensa pressão no céu da boca e, consequente, compressão de suas glândulas lacrimais, a ponto de lhes estimular a lacrimação – daí surgindo a expressão “lágrimas de crocodilo”, usada quando alguém simula o choro, mesmo sem um sentimento genuíno por detrás daquela manifestação. Não somente a expressão alusiva à hipocrisia é imputada às espécies de animais que, atualmente, depois das aves, são as mais próximas das dos dinossauros, mas também, o  termo “crocodilagem” expressa, informal e pejorativamente, o ato ou efeito de trair ou enganar.


Em meio aqueles conceitos, Afonso e Luci são protagonistas de uma passagem comum, cuja aproximação os leva, assustados e ofegantes, à copa de um jatobá – árvore considerada sagrada por povos indígenas, cujos frutos eram servidos previamente aos rituais de meditação. Para Afonso e Luci, a tábua de salvação como porto seguro contra a perseguição de um jacaré é ponto de partida para uma DR entre desconhecidos, ligados por laços comerciais.

Afonso é o guia de uma excursão que tem Luci como cliente única – cujo encontro pode ser justificado, hipoteticamente, pelo desejo de realização de um sonho, através do qual, Luci se aproximaria da natureza, ao visitar algum paraíso ecológico pantaneiro, repleto de animais silvestres. Espreitados pelo jacaré, Afonso e Luci travam uma batalha de modo a conceber uma forma de descer da árvore sem serem devorados pelo animal – argumento do espetáculo “Crocodilagem”, a partir do qual são expurgados arrependimentos, dores e mágoas, ao longo de um tempo que se esvai, aproximando-se, cada vez mais, do horário biológico da próxima refeição do réptil.

As impressões do Circuito Geral, relativamente ao texto e à direção de Cláudio Torres Gonzaga, denunciam um espetáculo que é entregue ao expectador com vocação desejável cem por cento cômica, ao mesmo tempo que contempla ameaças, perigos, medos e perturbações de ordem piscoemocionais minimizados, numa situação muito pouco provável, negligenciando a possibilidade de alavancar o produto traçado a partir de uma leitura mais contemporânea de humor.

A estrutura dos sintomas possível de ser observada, pelo desempenho de Dani Brescianini e Pablo Diego Garcia, intensifica a avaliação de quão longa se traduz a estrada através da qual os personagens devem trilhar, com vistas a atingirem a maturidade compatível com a vida de um adulto. O comportamento de ambos frente a incapacidade de conceber uma solução outra que não se transformarem em comida de jacaré, promove uma inerte desorganização conflitante com a lógica do pensamento racional do espectador. A despeito de tais distorções, o figurino de Brescianini e Fabio Camara se aproxima de uma verdade subjetiva, que funciona, levando-se em conta a veia cômica proposta. O mérito da concepção do micromundo sugerido pelo texto, contemplando a copa de um jatobá, se deve ao projeto cenográfico minimalista assinado por Tôrres, capaz de se adequar às dimensões das bocas de cena que se apresentem ao longo das temporadas do espetáculo, muito em função do desenho de luz por César Pivetti, cuja sutileza aplicada à dinâmica intensidade e à mutação cromática definem a dramaticidade e a linha temporal traçada pela incidência da luz solar, durante um aflitivo dia, em meio à nebulosa armadilha reservada aos protagonistas. A privação das necessidades primárias dos personagens, tais como fome e sede, da mesma forma que os instintos básicos de sobrevivência são amenizados pela trilha sonora de Tomas Gonzaga que, não permite que a plateia se esqueça de que tudo se trata de uma comédia.

Em meio aos perceptíveis esforços empenhados com vistas a provocar reações risíveis por parte da plateia, a veia cabeça de “Crocodilagem” deixa claro que não existe ponto de vista imparcial e, muito menos, verdades toleráveis, quando se trata de luta pela sobrevivência - mesmo que, para isso, se lance mão de mentiras sinceras, mesmo que, em solo sagrado

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Doutor Sono



Sem qualquer herança da genialidade de Kubrick

O cineasta, roteirista, produtor e fotógrafo norte-americano Stanley Kubrick consagra a sua peculiar genialidade, como diretor cinematográfico, no trato com fantasmas, telepatia e surtos psicóticos, ao adaptar, para as telas do cinema, o romance de terror de Stephen King – “O Iluminado” e ao transformá-lo em um enigmático clássico em 1980 que, desde então, se faz intrigante, muito em função de seu complexo conteúdo psicológico. A despeito da frustração de King – em decorrência do distanciamento de Kubrick das suas expectativas, relativamente à leitura de sua obra, “O Iluminado” ainda ocupa o destaque de um dos mais sinistros filmes de terror na história do cinema.

Confrontando o seu olhar contra a direção de Kubrick, em 2013, King escreve uma sequência para sua obra original, intitulada “Doutor Sono” – adaptada para o cinema pelo cineasta e escritor Mike Flanagan – sem qualquer herança da genialidade de Kubrick e surfando na superfície da obviedade.

O longa se apresenta como solo fértil às ideologias através das quais os bons merecem viver e os maus merecem morrer – como em contos de fadas, com uma visão escassa sobre a complexidade humana ou sobre humana – com duração aproximada de extensos cento e oitenta minutos, para contar uma história que tem início em 1980, extensiva aos dias atuais. A sequência é protagonizada por Danny Torrance – jovem telepata, em vias de aprender a lidar com os fantasmas que o atormenta, desde a ocorrência do surto que tomou conta de seu pai, que tenta matá-lo juntamente com sua mãe, no remoto Overlook Hotel – localizado nas Montanhas Rochosas, no estado norte-americano do Colorado e fonte de inspiração para a obra “kubrickiana” – “O Iluminado”.

Danny (Ewan McGregor) – agora, um alcoólatra de meia-idade – se esforça para manter a sua capacidade paranormal, contudo, em segredo para o mundo. As subtramas periféricas contidas no longa conferem a dignidade contida no título, com potencial de indução à madornice.


“Doutor Sono” representa a encampação de um clássico cinematográfico de quarenta anos de idade – do qual se ramifica uma história que negligencia o aprofundamento de contextos essenciais – que não deveria ter assumido o formato de um longa metragem, mas de uma minissérie televisiva, em total respeito às suas fontes originais e o que representaram no passado como um clássico de sucesso.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Link Perdido



Trama com perspicácia e emoção


A rica mixagem entre animação stop motion e os aprimorados efeitos de computação – potencializados pela impressionante técnica de indução à percepção em 3D – aponta para novos caminhos para visualização de filmes de animação, a partir da produção do longa “Link Perdido”, com seu enredo intelectualizado – o que o configura como um filme de assimilação não trivial por parte de um público infantil não habituado a ser estimulado intelectualmente por seus responsáveis.

Substancial e ambientado na Era Vitoriana, o filme conta a história de um explorador – cujas ideias não são aceitas pelo clube de elite de aventureiros, do qual ele deseja pertencer – e um ser ancestral primitivo solitário – o último de sua raça, que quer deixar o noroeste do Pacífico e se juntar a seus primos no Himalaia.

Ao tecer trama com perspicácia e emoção, o roteirista, escritor e cineasta britânico Chris Butler, habilmente, impressiona o público com tamanha energia emocional, a ponto de envolvê-lo, durante todo o longa. A habilidade com que o humor é introduzido na história é muito bem sucedida e funciona para a abordagem de assuntos, tais como: insulamento e distinção.

A duração de “Link Perdido” é agradavelmente dimensionada, com ritmo milimetricamente pensado e objetivo em sua mensagem, embora, para alguns, parecerá um tanto quanto ausente – possivelmente, por não terem atentado para a importância do combate à obsolescência.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Bate Coração



Um conto espírita


Segundo a doutrina espírita, as células humanas são governadas pelas leis da natureza, sob o influxo do espírito, tornando-as, assim, um organismo individualizado. Uma vez retiradas desse organismo, as células voltam à sua condição primitiva, adaptando-se, com certa facilidade, aos organismos para os quais são transplantadas. Um coração retirado, por exemplo, perde a relação com o espírito do doador.

Lançando mão da liberdade poética, o filme “Bate Coração” conta a história de Sandro – um playboy mulherengo, interpretado por André Bankoff, que sofre um infarto em plena noite de réveillon. A alguns quilômetros do evento, a travesti Isadora – vivida por Aramis Trindade – morre em um acidente. O garanhão recebe o coração de Isadora e, dessa forma, ganha uma segunda chance de vida. Desse momento em diante, o diretor e roteirista cearense Glauber Filho atira para todos os lados – em direção à doação de órgãos, à homofobia, ao abandono e ao espiritismo – mas sem a menor intenção de se aprofundar nos assuntos abordados, tornando o filme pouco eficiente como denúncia e raso como serviço social.

Pelo simples fato das constatações hipotéticas, que influenciam a história dos protagonistas, não chegarem a lesionar o bom humor e a moral da história tatibitati, assistir “Bate Coração” não se torna um sacrifício – para quem não espera, do longa, mais do que um conto espírita.

domingo, 3 de novembro de 2019

Versão de 2



A comédia e seus exageros


O casamento, para muitos, é de suprema importância para a conquista de status ou de estabilidade psicossocial. Contudo, quando a união não corresponde às expectativas dos envolvidos, crescem as possibilidades do desejo de separação, como consequência das projeções das mentes estruturadas para viverem as suas individualidades, em prol do próprio ego.

Contemplando todas as ferramentas para conquistar a cumplicidade do espectador, ao compartilhar os sentimentos do casal protagonista do espetáculo, “Versão de 2” aposta no potencial risível de sua mensagem pois, sem quaisquer apelo à reflexão ou compromisso intelectual, apresenta um patchwork de coisas categorizadas como engraçadas, de fácil assimilação. O texto, assinado por Mariana Rebelo, desenvolve situações e conflitos do cotidiano de um casal recém separados, sempre a partir de dois pontos de vista - o dele e o dela. Os conflitos rasgados no palco, que se enquadram em diversas relações do complexo sóciofamiliar, se enquadram, no espetáculo, timidamente no universo da relação, pura e simplesmente, conjugal, sugerindo estarem sob uma lente de aumento, que compartilha suas propriedades com diálogos interpretados, espirituosamente exagerados, visando, exclusivamente, à comicidade em detrimento da sagacidade.

A dinâmica entre flashback e tempo presente conta com a perspicaz direção de Rodrigo Sant’anna, que explora a comédia e seus exageros, sem a preocupação de alinhar sensibilidade a humor. O jogo da vida à dois é desenhado por Mariana e Paulo Mathias Jr. que assumem o protagonismo do espetáculo e abusam de linguagem corporal e modulação vocal - muitas vezes atravessando os limites entre teatro e animação. O tom adotado ao longo do desenvolvimento narrativo é, por muitas vezes, estabelecido pelo desenho de luz de Genilson Barbosa, que garante o vigor das interpretações de Rebelo e de Mathias, facilitando o entendimento de que a saída natural de um relacionamento insatisfatório e desgastado, é a separação. Uma solução que se traduz em se jogar uma pá de cal sobre uma vida à dois, para cujo desgaste, não há solução - da mesma forma que o conteúdo do espetáculo poderá chegar inerte na consciência do espectador.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A Cidade dos Piratas




Inquietante e abusiva metalinguagem

Baseado nas HQs de Laerte Coutinho, a animação “A Cidade dos Piratas” é construída por personagens emblemáticos da obra do cartunista. A obra contempla várias tramas desenvolvidas e muito bem marcadas para facilitar o entendimento do espectador, com tópicos sobre críticas políticas, sobre a elaboração do longa, sobre dupla identidade e repleto de entrevistas. O resultado é condizente com o espírito de subversão, historicamente conhecido desde 1983, quando o Capitão de “Piratas do Tietê” estreou na revista ‘Chiclete com Banana’.


O cineasta Otto Guerra é responsável pela mistura corrosiva que, dentre diversos assuntos, insere Laerte, bombardeado pela imprensa, vendo a sua intimidade tornar-se domínio público. Matheus Nachtergaele e Marco Ricca dão voz à inquietante e abusiva metalinguagem do longa, que costura retalhos de várias narrativas misturadas à poesia de Fernando Pessoa, em ritmo frenético, que parecem muitas vezes não fazer sentido. Mas tudo não passa de uma questão de tempo para que opiniões sejam revistas, levando-se em conta a jornada de vida percorrida por Laerte e por Otto – em meio à prática pública do crossdressing e pela identificação como transgênero, por parte do primeiro e pelo diagnóstico de câncer conferido ao segundo.

Tudo em “A Cidade dos Piratas” e, talvez por isso, a realidade se misture à fantasia da animação, como uma compulsão de um não alado em se lançar num abismo.

Follow me, Baby



Nem sempre, é possível deter o poder da escolha


“O marketing como filosofia de vida” – mote que se adensa como denúncia, com sutil dose de comicidade, ao longo do espetáculo “Follow me, Baby”.

Com extrema habilidade, o texto assinado por Ivan Jaf – consagrado dramaturgo carioca e autor de livros de ficção direcionados aos leitores infanto-juvenis – aborda as demandas do universo composto por fabricantes de novos produtos e seus consumidores em potencial – um prato cheio para o dinâmico jogo de direção de Rose Abdallah que, como atriz, acumula a sua inclusão na ficha técnica do espetáculo – no papel de Laura, ao lado dos atores Diogo Camargos e Ivan Vellame que interpretam Cavalcante, em dias alternados.

“Follow me, Baby” denuncia a “comercialização” da história de vida de Laura – uma atriz decadente que volta a trabalhar em uma grande emissora de TV – que recebe uma proposta comercial de grande monta e considerada irrecusável pelo ambicioso diretor de marketing Cavalcante. Diante da oferta, Laura se sente pressionada a optar pela preservação do seu passado ou pela a conquista de sua estabilidade econômica. Ao confrontar, friamente, os interesses empresariais como agente ativo com os sonhos de consumo como agente passivo, Jaf define pontos de vista distintos, através da divergência entre interesses e ações humanas, sob o ponto de vista ético. O conceito transmitido pelo personagem diretor de marketing, de que a vida em sociedade não é possível sem a realização de trocas, é a base propulsora para o planejamento e execução de cada cena dramatizada pela dupla de protagonistas, com total domínio do contexto que define o tênue limite entre drama e comédia, capaz de embarcar o espectador em uma deliciosa experiência, seja numa pequena arena, seja numa sala de espetáculos de maiores proporções.

Estética, funcionalidade e relevância - nomenclaturas presentes na essência do espetáculo - são estrategicamente introduzidas no palco quando da concepção do despretensioso projeto cenográfico, assinado por Lorena Lima, através de elementos destacados pelo fundo infinito negro, que interagem na teórica montagem de um sistema, a partir do qual, ambos os lados se beneficiam da mesma jogada de marketing. O aporte do casamento de interesses que une os personagens ganha distinção ao caracterizar “vendedor” e “consumidor” através do figurino de Trinca de Ás e pelo visagismo de Diego Nardes e Lucas Souza, que modelam os dois lados da mesma moeda porém, concedendo ao espectador, a visualização do produto final – o fator humano.  Da mesma forma, de mãos dadas à voluntária proposta de uma modéstia montagem, a luminotecnia cênica de Ricardo Meteoro surpreende, ao lançar mão de uma diversidade de efeitos de luz, capazes de aproximar e distanciar cenas do espectador, além de demarcar, nitidamente, os momentos cômicos e dramáticos do espetáculo – uma fidelidade que também é identificada quando da radiografia do caráter dos personagens pela trilha sonora de Paulo Mendes.

Ao reconhecer que a tomada de decisão, nem sempre, é algo fácil e que, quase sempre, os caminhos a serem trilhados podem se mostrar mais árduos do que se espera, o espetáculo “Follow me, Baby” transmite saciedade e estabelece a serenidade necessária, para quem está ciente de que, nem sempre, é possível deter o poder da escolha.