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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Operação Overlord



‘O quão perverso se deve ser, de modo a vencer aqueles genuinamente desumanos’

As cenas iniciais revelam um filme de guerra que bombardeia as telas de cinema deixando nada a dever a qualquer produção realista bélica previamente concebida. Paulatinamente, como em um degrade que se intensifica com o passar da história, surgem pérolas nacaradas por ação intensa, sutil humor e terror repleto de cenas assustadoras, incrementadas por uma seleta gama de efeitos visuais, marcadas por sons ensurdecedores e impactantes capazes de abalar a tranquilidade do espectador que possui, até mesmo, nervos de aço.


Dessa forma, “Operação Overlord”, sob a precisa direção de Julius Avery, apresenta um argumento e costura um roteiro inusitados para o gênero terror – a despeito do estereótipo dos mortos vivos que não se prendem a hábitos noturnos, que não se limitam a vaguear, agem instintiva e conscientemente e carregam consigo, uma boa fração de sua personalidade previamente às suas mortes. 

Um soldado paraquedista tem como a sua primeira missão ir atrás das linhas inimigas, abrir o caminho para a Normandia e derrubar a antena de rádio instalada pelos alemães, no topo de uma antiga igreja francesa. No subsolo da torre, ele se depara com algo que vai muito além do que apenas soldados.

A produção de J.J. Abrams impõe as suas conhecidas reviravoltas, nem sempre surpreendentes, mas contempla um questionamento muito subjetivo – ‘o quão perverso se deve ser, de modo a vencer aqueles genuinamente desumanos’ – capaz de não gerar uma resposta direta, pelo simples pavor de se promover uma linha de raciocínio sobre o assunto.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Chacrinha: O Velho Guerreiro


Humor na proporção de um mar e do drama contido na produção, na escala de um grão de areia

Estruturado a partir de um roteiro meteórico assinado por Claudio Paiva, Julia Spadaccini e Carla Faour, o longa “Chacrinha: O Velho Guerreiro” entra para o hall das cinebiografias com foco no maior fenômeno da comunicação brasileira.

Sem mais delongas, os registros da escalada de Abelardo Barbosa rumo ao sucesso ganham evidência em detrimento de um olhar mais aprofundado nas passagens de sua vida pessoal, deixando no ar, uma série de pontos carentes de esclarecimento. Consequentemente, a esmerada direção de Andrucha Waddington pode passar a equivocada impressão de que a figura do mito Chacrinha dá a vez à imagem de Abelardo Barbosa, em carne e osso – um workaholic ausente na sua vida matrimonial e paterna, mas com tempo que permite, a si próprio, manter supostos relacionamentos extraconjugais – tudo envolto com o exacerbado humor presente no palavreado, na postura e no figurino do apresentador.

E por falar em humor na proporção de um mar e do drama contido na produção, na escala de um grão de areia, ninguém menos que os atores Eduardo Sterblitch e Stepan Necerssian para dar continuidade à essência de Abelardo Barbosa antes e no início de carreira e após a sua consagração como “Velho Palhaço”, respectivamente, capazes de levar ao público do cinema um espetáculo que, definitivamente, não acaba quando termina.



quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody


Um delicioso filme, de rápida absorção, sobre o gênese e a trajetória, rumo ao sucesso, da banda britânica que se tornou o pilar do Classic Rock

Ao explorar o peculiar estereótipo das cinebiografias  de estrelas do rock moldadas pelo núcleo familiar, pelas dificuldades, pela perseverança, pela transposição das barreiras, pelo reconhecimento do talento, pela aquisição de fãs e, finalmente, pela conquista do estrelato, "Bohemian Rhapsody" se apresenta como um delicioso filme, de rápida absorção, sobre o gênese e a trajetória, rumo ao sucesso, da banda britânica que se tornou o pilar do Classic Rock – Queen. Nessa empreitada, o produtor e diretor norte-americano Bryan Singer consegue a proeza de narrar a história de Freddie Mercury (Rami Malek) como o vocalista da banda, poupando o seu longa de ser rotulado por uma sugestiva e não intencional exclusiva biografia do pop star, porém uma generosa exposição dos demais membros da banda como elementos de uma família formada pela escolha pessoal. Com profundo respeito e a partir de um olhar clemente e flexível a todas das formas de amor, Singer delineia, despretensiosamente, a tão contestada e demandada ao juízo, sexualidade de Mercury.

O roteiro se desenvolve a partir do momento em que o trio de rock ‘Smile’ perde seu vocalista e é surpreendido pela performance de um de seus fãs mais atentos e esperançosos – Farrokh – ao se oferecer para uma audição, desprovida de qualquer formalidade que pudesse ser exigida para a contratação de um vocalista vislumbrado pelo guitarrista e estudante de astrofísica, Brian May (Gwilym Lee) e pelo baterista e estudante de odontologia, Roger Taylor (Ben Hardy), que se rendem, de imediato, ao talento daquele que ousaram ‘bullyinar’, por conta de sua dentição proeminente. Para a surpresa de May e de Taylor, Farrokh não apenas é um cara que conhece as canções da banda, mas demonstra, de imediato,  a sua capacidade de se harmonizar com a recente produção da ‘Smile’, potencializando-a com o alcance vocal do tímido, mas não menos arrogante fã.

A intrigante originalidade do longa se faz presente pelo título “Bohemian Rhapsody” – o nome da música mais popular do Queen, com duração de quase seis longos minutos, para um single pop em pleno 1975. A sua mistura barroca, mística, melodramática e sem refrão, define o que foi a banda britânica para o mundo musical – um furação com solo de guitarra de Brian May que abre espaço para uma ópera composta por Mercury, que termina com um hard rock memorável.

Paralelamente ao drama de Mercury compartilhado com a banda Queen, o longa revela o curioso processo do surgimento dos ritmos familiares a todas as gerações que testemunham os seus sucessos, até os dias de hoje, e se faz presente como uma nota adicional aos sucessos que projetaram a banda Queen no hall da fama.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O Doutrinador


‘Democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.


O sentimento de revolta frente à indignação, à injustiça, à afronta ao bem comum e, até mesmo, ao desprezo à ética social desencadeia em um cidadão consciente dos ilícitos políticos, uma demonstração de violência implacável por conta de sua inconformidade, diante de liminares, de habeas corpus, de desmentidos do indesmentível e de tantas pizzas que sua geração é forçada a engolir.

O filme “O Doutrinador”, baseado na HQ homônima de Luciano Cunha, tem a sua adaptação realizada por Gabriel Wainer que, com a sua elegante direção, além de adaptar, transpõe, de maneira brilhante, a revolta contra o sistema político, do qual o espectador também é vítima. Conta a história de uma nação chafurdada nos problemas sociais, onde a elite política corrupta se utiliza das brechas da constituição e das leis e da doutrinação pela bíblia e, com isso, tira proveito de um povo em busca de um Messias. O potente roteiro, realizado a oito mãos traz, à tona, o ledo engano dos ingênuos que costumam citar o voto como ferramenta de mudança social, diante de fatos que contrariam o bom senso, a ética e a decência, dando lugar ao sentimento de impotência por parte do anti-herói Miguel (Kiko Pissolato) que, cansado, exaurido e sem nenhuma ponta de esperança, decide fazer justiça com as próprias mãos.

O longa se insere em um cenário onde não há espaço para ambiguidades e que define como coadjuvante, o verdadeiro herói, Edu (Samuel de Assis) – alguém que acredita que a justiça se faz dentro das leis e que estas existem para proteger as pessoas contra os malfeitores,  incluindo os corruptos e os salvadores da pátria, para os quais, a palavra ‘democracia’ se torna, na maioria das vezes, uma mera etiqueta, segundo o Doutrinador.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Fúria em Alto Mar



O impacto junto ao espectador é potente e nocauteia, até mesmo, os menos aficionados em filmes de ação e guerra

Baseado no romance de 2012 “Firing Point”, de autoria de Don Keith e George Wallace, o filme “Fúria em Alto Mar” se concentra em uma missão, comandada por Joe Glass (Gerard Butler), em um submarino norte-americano, visando ao resgate do presidente da Rússia, refém de seu próprio ministro da Defesa Dmitri Durov (Mikhail Gorevoy), em pleno solo russo.


A produção subaquática, sob a direção de  Donovan Marsh, seria irretocável, não fosse o ranço de moral patriótica e a insipidez decorrente falta de humor. Em compensação, o impacto junto aos espectadores é potente e os nocauteia, até mesmo, os menos aficionados em filmes de ação e guerra.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O Fantasma Autoral


Vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina

O ponto de partida – um texto sem maiores pretensões, senão fazer rir, que conta a história de Miguel (Bemvindo Sequeira) – um diretor cênico frente ao desafio da produção de um espetáculo teatral. Imediatamente após a conquista de um amparo, Miguel se vê coagido a submeter seu trabalho a diversas alterações, por exigência do patrocinador.


Em meio ao despojamento de Sequeira, que não se contém diante da menor possibilidade de interagir junto à plateia, o espectador emerge sob o impacto da comicidade intrínseca em “O Fantasma Autoral”. O texto, assinado por Maria Queiroz Azevedo, promove um pensamento sobre as dificuldades enfrentadas pelo mercado artístico, tais como as barreiras impostas aos produtores na luta para a obtenção de patrocínio e a dualidade definida pelo respeito a uma obra em nome da arte e pela venda da alma ao diabo, imposta pelo sucesso conquistado às custas da banalização da arte em detrimento da obra.

A direção de Ernesto Piccolo é outorgante, tendo em vista os contumazes e arrastados improvisos – marca registrada de Bemvindo Sequeira – que, em alguns momentos, torna o entendimento do espetáculo um tanto confuso e disperso mas que, de modo algum, impacta negativamente a plateia a ponto de impedi-la demonstrar a receptividade com que acolhe os viciosos predicados cênicos do comediante mineiro de Carangola. Entregando-se à complacência de Piccolo, Alexandre Lino dá a vez à comicidade rasgada e faz brotar personagens díspares aos até então criados ao longo de sua carreira. Pedro Garcia compartilha com Sequeira, hilários instantes em que se permite rir das cenas em que toma parte com a estrela do espetáculo, em pleno palco e diante de uma plateia que, em não raros momentos, não se priva de instigar os atores com sugestões para proferirem novos cacos. As nuances dramáticas ficam por conta da carismática participação afetiva composta por Paulo Vilela, Maria Queiroz Azevedo, Pedro Roquette-Pinto e Giulia Boccaletti.

Os recursos cênicos “minimalistas”, conforme definição caricata dos mesmos pelo personagem Miguel, no texto de Azevedo, conferem dignidade à produção na medida certa, de modo a permitir que o brilho do espetáculo fique por conta do desempenho do elenco, seja no palco ou, invasivamente, na plateia. As restrições tão peculiares no universo teatral, onde a pouca verba se rende à enorme vontade de levar um espetáculo ao público é muito bem definido pelo projeto cenográfico e pelo figurino de Débora Cancio, retratando o diálogo entre bastidores e a realidade enfrentada pela grande maioria dos produtores. Nesse embate, o jogo de poder e o duelo de personalidades enquadram o desenho de luz de  Aurélio de Simoni que adota o conceito do menos ser mais.

Por entre mortos e feridos, a monocórdia fenda cômica de “O Fantasma Autoral” vibra e incorpora a mensagem direcionada ao público, ao romancear o artista que não se deixa corromper pela bizarra intervenção de quem patrocina e que não se rende à perversidade de entregar ao público uma obra que já teria nascido fadada ao fracasso.



sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Carmen


O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios

Dotada de profusa carga de criatividade na adaptação do roteiro e de sensualidade emanada pela triangulação amorosa definida pela linha mestra do argumento, a mais nova versão da trágica ópera francesa “Carmen” conta com a performance e a beleza de Natalia Gonsales que incorpora a protagonista, mantendo-se afastada do estereótipo de diva – o que confere à sua Carmen, um apelo que aproxima o espectador de uma realidade palpável. O segundo vértice do triângulo é ocupado pelo charme natural e generosamente doado por  Flávio Tolezani ao seu extremado José – cabo do exército enlouquecido por um sentimento desgovernado e passional. A formatação do relacionamento é definida pela virilidade do toureiro – o grande amor de Carmem – incorporado por Vitor Vieira.

Sob a espontânea e instintiva direção de Nelson Baskerville, o espetáculo é esculpido de modo a promover, ao espectador, impactos que vão muito além da obviedade de expressões faciais e de movimentos corporais já explorados em produções à luz do mesmo tema. Notavelmente, a viciosa e egocêntrica lascívia emanada pelos personagens torna-se fascinante através do olhar de Baskerville.

A direção de movimento e a coreografia de Fernando Bueno define um dinâmico bailar de corpos ao longo de toda a dramatização, com marcações de cenas e de bailado que explora a totalidade do palco com requintes de composição cênica, para o deleite do olhar do espectador. Ameaçado de privação de seu fôlego, o público acompanha a história de uma mulher sensual e independente, que seduz José a fim de aliciá-lo para a prática do contrabando. Cego de amor, José se entrega a Carmem e se permite mergulhar em um relacionamento amoroso triangular fadado a um final trágico.

Fomentando o drama, a trilha sonora de Marcelo Pellegrini reage à explosiva química entre Carmem e José e preenche a sala de espetáculos com retumbante flamenco, com potencial inebriante sobre todos os espectadores. A concepção do projeto cenográfico funde plateia e palco, aproxima público e personagens através de elementos simbólicos, muitos deles, artisticamente artesanais, conferindo intensa tridimensionalidade às cenas em comum união ao desenho de luz –  ambos assinados por Marisa Bentivegna – que incinera os espectadores com o fogo da paixão, asperge o sangue da tragédia por toda a sala de espetáculos, e chicoteia cada um dos presentes com jatos de areia que cobre as arenas da vida. Tecidos selecionados segundo textura, cor, transparência e densidade são moldados, recortados e costurados em obediência ao figurino concebido por Leopoldo Pacheco e Carol Badra e repousam sobre os corpos esculturais do elenco.

“Carmen”, com seu feminismo tácito contido, chega ao espectador como algo trágico e fatal. O desejo e a sensualidade servem de combustível para acender o pavio da violência e, com isso, se aproximar de um ascetismo decadente, muito atual em tempos sombrios.