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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Juízo



Uma história sombria, caótica e sem emoção


Um homem decide se mudar, com sua esposa e seu filho, para uma fazenda de propriedade de sua família – local que carrega uma maldição secular, sob o manto da traição e da escravatura.

O argumento do longa “O Juízo” projeta uma história sombria, caótica e sem emoção, definida por um roteiro previsível sob a direção de Andrucha Waddington. Desprovido qualquer densidade mística, o longa remete a um desnecessário arremedo de um clássico de terror. A carência de identidade do longa se deve, essencialmente, à incorporação de clichês retratados por fantasmas vingativos, por paranoias “tarja preta”, por praga dramática e histórica transmitida de geração a geração e por conflitos existenciais. Tudo isso, a serviço de um anticlímax para o espectador que busca o medo, o susto e a razão, mas que encontra apenas a expectativa do desenrolar da história que, de tão frágil, sequer é capaz de sugerir a defesa de uma crítica social.

Em contrapartida, o texto de autoria de Fernanda Torres é esplendidamente interpretado por um elenco, escolhido a dedo que, em muito, transpõe qualquer possível carência do roteiro pontada pela crítica – ninguém menos que Felipe Camargo, Carol Castro, Criolo, Joaquim Torres Waddington, Lima Duarte e Fernanda Montenegro. Em total simbiose com as primorosas tomadas fotográficas externas e internas, associadas ao figurino e à maquiagem, o semblante dos personagens incorporados pelos atores se faz suficiente para abrilhantar a produção e justificar a presença do público às salas de projeção. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Carcereiros - O Filme



Deixa a desejar


Desprezando a possibilidade de realizar uma produção amparada por denúncia social, focada no dia a dia dos profissionais carcerários e os de seus detentos – como o fora impresso nas duas temporadas da série ‘Carcereiros’ veiculadas pela TV – José Eduardo Belmonte modela a sua direção de “Carcereiros - O Filme”, segundo os moldes dos filmes contemplando, eminentemente, ação explosiva.

Rodrigo Lombardi torna-se o ícone da série televisiva e, consequentemente, leva o longa de Belmonte nas costas, como Adriano – um historiador graduado, defensor da antiviolência, que segue os passos de seu pai e torna-se carcereiro no Complexo Penitenciário do Carandiru, na zona oeste da grande São Paulo.

Em “Carcereiros - O Filme”, a chegada do perigoso terrorista internacional – Abdel (Kaysar Dadour) – ao Carandiru deflagra um estado de tensão entre duas facções criminosas. A partir de então, Adriano assume a difícil tarefa na qual enfrenta a rebelião, ao mesmo tempo que deve garantir proteção ao terrorista – uma overdose de cenas que contempla uma fotografia digna de filme de terror, através da qual é impossível identificar o que acontece diante de câmeras nervosas, sob flashes de luz em meio a escuridão, sem uma trilha sonora que, pelo menos, instigue a imaginação do espectador, enquanto tenta entender quem corre atrás de quem, quem corre de quem, quem atira em quem e quem é baleado por quem.

No frigir dos ovos, o longa – mesmo com ressalvas de que se trata de um filme baseado na série televisiva de mesmo nome – deixa a desejar e desmerece, em muito, as histórias de Drauzio Varella publicadas no livro “Carcereiros” em 2012.

Aspirantes



Uma autêntica história sobre a natureza humana


Ao se apropriar da temática futebolística, como foco do seu olhar diante das minorias, o diretor Ives Rosenfeld constrói uma autêntica história sobre a natureza humana, através da figura de um jovem que tem, como meta de vida, se tornar um profissional do futebol. Para isso, precisa travar uma luta pessoal contra a inveja, latente e crescente, das conquistas de seu melhor amigo, com quem compartilha as atividades atléticas como aspirante – comprometendo o amor que lhe é dedicado pelo próprio amigo e por sua namorada.

O confronto entre a vida dura da periferia e a ambição pelo controle da bola em campo define narrativa de “Aspirantes” que, durante o seu desenvolvimento, estanca do nada e passa a bola para o espectador que, por sua conta e risco, se incumbe de estabelecer o seu nível de empatia com os personagens.

Os conflitos existenciais suportados pelo protagonista passam ao largo das experiências de vida dos demais personagens, configurando uma luta, intimamente pessoal, entre o inconformismo diante do que a vida lhe reserva e a expectativa da sociedade – em especial, daqueles que lhe são próximos – enquanto deveres e compromissos morais.  O jovem ator cearense, Ariclenes Barroso, incorpora esse papel e o defende sob a ótica de quem vê, no futebol, a única saída para sair miséria – estampando, em seu semblante, a revolta do protagonista, de forma exuberantemente real.

Rosenfeld não dá sinais de preocupação para com um final ameno, retratando fatos que minam e destroçam o ser humano que, nem mesmo sendo um craque, sem qualquer marcação, consegue a proeza de realizar um chute a gol, sequer.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Entre Cinzas, Ossos e Elefantes



Criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início


Uma força criadora – que dispensa definições e rótulos, e que assume configuração misteriosa, desprovida de nomenclatura estética – expande-se como um Big Bang durante o espetáculo “Entre Cinzas, Ossos e Elefantes”.

Cem por cento dependente da interação do público, a dinâmica definida pela direção de Renato Rocha manipula o espectador, remotamente, através de um fluxo exploratório informal, em busca da compreensão da essência da obra escrita por intermédio de seus performers Claudia Wer, Dani Barbosa, Daniel Bouzas, Dandara Patroclo, Eduardo Ibraim, Gabriela Freire, Gabrielle Novello, Luiz Marques, Maria Cândida Portugal, Miguel Kalahary, Nina Rodrigues, Raquel Polistchuck, Renan Fidalgo, Stella Brajterman, Tatyane Meyer e Thaisa Santoth. O cenário é composto pelo conjunto de instalações efêmeras que renascem de suas cinzas, a cada espetáculo que, por sua vez, se desenrola na multiplicidade de cômodos e recantos que compõem a Casa da Glória, no Rio de Janeiro – na temporada de novembro a dezembro de 2019.

Os fragmentos de arte viva aspergidos pelos palcos internos e externos da casa de espetáculos são inspirados em produções das artes plásticas e literárias de consagrados artistas e escritores - dentre os quais: Paul Klee, Walter Benjamin, Michel Foucault, Richard Schechner e Ericson Pires - que se manifestam diante do progresso em direção ao futuro; dos estudos sobre lugares transitórios, construções de lugares possíveis e dos novos habitats; de histórias e memórias soterradas por escombros; do processo de vida e morte, renascimento e semeadura; e da estética carnavalizada e o espírito do carnaval de rua do Rio de Janeiro. Trata-se de um processo que estimula os cinco sentidos do espectador, vitimado por experiências pessoais e intransferíveis, e dosadas pelo seu envolvimento nos episódios que desconstroem, que movimentam, que reeditam e que humanizam os espaços, amparados pela energia e o pelo prazer, beirando ao bacante, em seu desfecho épico e festivo, inscritos pela alucinógena instalação sonora de Daniel Castanheira.

Performers, em franco desempenho enérgico, se alternam e se camuflam em meio às instalações sob a direção de movimento de Eléonore Guisnet, que molda os caminhos traçados pelo espectador diante de uma obra pulsante. Renato Machado concebe um desenho de luz de tal forma a conduzir a atenção do espectador para que, os quatro cantos do casarão sejam aleatoriamente explorados. Sem a esfera da inércia humana, o desbloqueio dinâmico da percepção do que está sendo contado só é possível pelo figurino da NAI – Núcleo de Artes Integradas, que fornece a fixidez necessária para a farsa que inflama a curiosidade.

“Entre Cinzas, Ossos e Elefantes” é um ato de criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início – o infinito que prolonga o conceito do finito que se vê a olhos nus; o ciclo do fim dos vínculos; a circularidade dos movimentos que não elimina a norma que independe de onde se começa a caminhada, através da qual, nem sempre, chegamos ao nosso destino.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Pink Floyd Experience in Concert



Uma noite soberba a uma legião de fãs da banda britânica mais influente e bem-sucedida da história do rock


Em única apresentação – sábado, dia 16 de novembro de 2019, no Teatro VillageMall, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – o fascinante show “Pink Floyd Experience in Concert” oferece uma noite soberba a uma legião de fãs da banda britânica mais influente e bem-sucedida da história do rock. Sem qualquer demérito para com o espetáculo, não se trata de show de uma banda cover, mas um tributo, mais do que respeitoso e generoso, prestado às mentes brilhantes e únicas, de David Gilmour e Rogert Waters.

A genialidade contida na experiência musical tem início com ‘Shine on you crazy diamond” que arrebata a plateia, surpreendida  pelos primeiros acordes e efeitos visuais promovidos pelas projeções em mapping 3D e pelo pirotécnico desenho de luz, que acompanham os embalos de sucessos consagrados da banda, tais como: ‘Wish you were here’, ‘Time’ e ‘Money’. Fato notório, a banda transita por entre sutis variações dos arranjos originais das gravações de estúdio sem, com isso, prejudicar a sua leitura e credibilidade por parte do espectador.

O clímax tão esperado pelo público em transe e sedento por mais “Pink Floyd” acontece ao final da apresentação – sob as luzes e sons de helicópteros que simulam sobrevoo na plateia e que assumem a ótica e a acústica da sala de apresentação – com a apresentação de  ‘Another Brick in the Wall’.

Assumem, à frente da banda, três interativos instrumentistas – de guitarra, de violão e de baixo – dois dos quais, vocalistas masculinos. Bateria e teclado dividem o segundo plano do palco com a surpreendente backing vocal feminina. A generosidade do projeto leva ao palco uma compacta orquestra regida pelo maestro Eduardo Pereira, que faz de cada canção um espetáculo à parte ao promover emoção coletiva para todos os presentes no teatro lotado, em pleno feriadão, na cidade do Rio de Janeiro.

O bis ratifica não se tratar, apenas, de um banda que canta e toca músicas do Pink Floyd, mas um grupo que presta seu testemunho de paixão e louvor à banda icônica do rock, visivelmente entregue ao seu ofício quando da interpretação de ‘Comfortably numb’ – que fecha a inesquecível noite de show que se enquadra na categoria "não perca esse espetáculo quando de seu retorno ao Brasil”.

Fogo Contra Fogo



Destaque dentre os dramas biográficos sobre a luta contra o sistema segregacionista promovido pelo Apartheid


“Fogo Contra Fogo” – longa de estreia da diretora Mandla Dube, contemplando conteúdo dramático e biográfico fascinante.
Conta a história do ambulante de dezenove anos – Solomon Kalushi Mahlangu (Thabo Rametsi), nascido em 10 de julho de 1956, na cidade de Mamelodi, localizada nos arredores de Pretória - África do Sul.

Quando do Levante de Soweto em 16 de junho de 1976 – um dos mais sangrentos episódios de rebelião negra, desencadeado pela repressão policial à passeata de protesto contra a política racista do governo que alimentava a inferioridade das ‘escolas’ para negros na África do Sul – Kalushi é barbaramente espancado pela polícia, pelo simples fato de ser negro. Em busca pelo exílio, Kalushi se associa ao movimento de libertação junto ao Congresso Nacional Africano (ANC) para ser treinado como soldado, em Angola. De volta à África do Sul, durante sua primeira missão, seu amigo camarada Mondi (Thabo Malema) perde o controle psicológico e atira em duas pessoas inocentes na Goch Street, em Joanesburgo. Enquanto Mondi passa por um brutal processo de espancamento e tortura, Kalushi é julgado de forma assustadora, sob a ameaça, pelo Estado, de ser condenado à maior pena – morte por enforcamento.

A comovente direção de Dube retrata, de maneira convincente, o drama das pessoas que perderam a vida lutando pela liberdade na África do Sul. Sem qualquer escrúpulo capaz de deslocar o espectador da sua zona de conforto, o longa registra a dura, violenta, injusta e dolorosa história que transformou Kalushi em um ícone internacional do Levante de Soweto.

A veracidade embutida no longa, muito se deve ao elenco composto por artistas totalmente locais. “Fogo Contra Fogo” ocupa lugar de destaque dentre os dramas biográficos sobre a luta contra o sistema segregacionista promovido pelo Apartheid, no final dos anos 1970, na África do Sul. 

A Grande Mentira




Um suspense familiar

O ano é 2009; local, Londres. Um homem e uma mulher, ambos septuagenários, mantém contato através de um site de namoro, até transferirem o relacionamento virtual para a vida real. O início da amizade entre Roy (Ian McKellan) e Betty (Helen Mirren) é amparado pelo fato da mulher ser viúva recente. Certo dia, a caminho de um encontro com Betty, Roy sente o seu joelho - devido a uma anomalia pré-existente – sendo, prontamente, acolhido pela viúva, em sua própria casa. A partir de então, Betty abre a sua guarda de tal forma a assumirem compromissos contratuais, envolvendo bens de ambos, deflagrando o início de uma relação em meio a qual, verdades e mentiras podem ser conjecturadas e dimensionadas proporcionalmente aos dramas vivenciados, no passado, por cada um dos protagonistas.


“A Grande Mentira” é um suspense familiar, articulado pela perspicaz direção de Bill Condon, prologado com ares de comédia romântica. Não obstante, a sequência de cenas assume contornos sombrios e desconfortáveis, até os momentos finais da película, maciçamente sustentada pelo desempenho do elenco protagonista e pelo rocambolesco roteiro assinado por Jeffrey Hatcher, baseado no romance de Nicholas Searle - ‘The Good Liar’.