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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Incansável Dom Quixote

Vai além dos moinhos de vento e nos leva para uma realidade menos dura, mas não menos real


O espetáculo “O Incansável Dom Quixote”, por Maskin Oliveira, pode ser considerado uma versão pop do texto original de Miguel de Cervantes - O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha.
Brilhantemente dirigido por Reynaldo Dutra, o ator de seu próprio monólogo, Maskim é um surpreendente, encantador e carismático contador de histórias, que nos comove e nos faz rir, transportando toda a platéia, através de um portal delimitado por uma corda,  para a aldeia espanhola da Mancha, convidando-a a participar da loucura e esquizofrenia do protagonista que se deixa levar por sua imaginação e passa a viver num mundo ilusório em busca de um mundo melhor.
Apesar de sua atuação solo, a mágica atuação de Maskin leva o espectador à falsa percepção de um palco cheio de atores e animais coadjuvantes, diante do convincente gestual, das ricas figuras de linguagem e da precisa operação do desenho de luz assinado por Pedro Struchiner, que o leva para ora para Mancha como Dom Quixote, ora de volta ao palco como o contador de histórias - uma nítida impressão, durante os sessenta minutos do espetáculo, que todos os personagens se encontram dentro da linha ilusória delimitada por Maskin, até mesmo, o amor imaginário de Dom Quixote por Dulcinéia, tudo tão convincentemente interpretado por um único homem. Uma menção especial ao versátil figurino de Leonam Thurler, responsável por ser o único elemento concreto que remete a plateia à época em que se passa a história.
Maskin, tão incansável quanto intitulado é o seu protagonista, e com todo o seu vigor e talento, coloca o espectador no bolso e cria uma simbiose entre a fábula e a realidade provocando os mais diversificados sentimentos e reações por parte de cada um dos espectadores.

“O Incansável Dom Quixote” vai além dos moinhos de ventos e nos leva para uma realidade menos dura, mas não menos real.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Mulher Sem Pecado - O FIlme



Estréia dia 04 de novembro no SESC Rio Casa da Gávea às 21H

Sinopse
Olegário vive preso a uma cadeira de rodas, ele é marido de Lídia, por quem demonstra um ciúme patológico. Na tentativa de controlar os passos da mulher, usa o motorista Umberto e a empregada Inézia como espiões. Mas os testes de Olegário acabam tendo um efeito contrário.

Direção e Roteiro: Jorge Farjalla

Garanta o seu convite em nossa página https://ello.co/circuitogeral

(sujeito à lotação)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Silêncio!




“Silêncio!” grita ao final do espetáculo

“Silêncio!” se passa na casa de uma tradicional família judaica onde um jantar, preparado por uma das filhas, visa à comemoração do aniversário da mãe, que coincide com um Shabat.
O auge do drama eclode quando o tema “as prostitutas judias polacas no Rio de Janeiro” vem à tona e impacta a todos, a partir do comportamento reacionário e preconceituoso da matriarca da família interpretado por Suzana Faini, cujo talento, marca de sua trajetória como atriz televisiva e teatral, dispensa elogios.  As interpretações não menos vigorosas do elenco de primeira linha, complementado por Alexandre Mofati, Gabriela Estevão, Jitman Vibranovsky, Karen Coelho, Verônica Reis e Vicente Coelho, comprovam a qualidade atemporal e provocativa do texto de Renata Mizrahi, dirigido eficientemente pela autora e por Priscila Vidca.  O espetáculo instiga o espectador, naturalmente, sobre as razões pelas quais a grande maioria dos encontros informais em família ou em datas definidas nos diversos calendários religiosos e pagãos, acabam, paradoxalmente, em desentendimento.
“Silêncio!” tem muito a dizer através dos diálogos, expressões faciais e gestuais dos personagens. A configuração do teatro em arena - no caso específico das duas temporadas estreadas no Rio de Janeiro; atualmente no Teatro Tom Jobim no Jardim Botânico até 26/10/2014 – permite a percepção dos semblantes entre os espectadores que participam silenciosamente do encontro familiar, diante do impacto que o texto lhes provoca, como se a história fosse suas. Essa sutil interatividade, intencional ou não, só foi possível pelas propriedades refletoras do piso, como elemento marcante do cenário assinado por Nello Marrese e pela iluminação de Renato Machado, projetada de forma difusa e seletivamente dramática quando necessária, revelando, a todos, durante o espetáculo, a presença de uma platéia em torno do palco. Finalmente, a ambientação não teria sido mais convincente e capaz de transportar todos para atmosfera familiar judaica com tanta eficiência, não fosse o mais que adequado figurino de Bruno Perlatto.
“Silêncio!” também pode ser traduzido nas rodas familiares como a negativa à abordagem de determinados temas tidos como tabus ou segredos de família, através do “Vamos mudar de assunto”. A introdução das judias polacas como tema da obra, mira num alvo e acerta noutro, não tão menos importante - a hipocrisia de uma sociedade constituída, não inerente à totalidade de seus indivíduos, mas a grupos que se consideram os defensores das tradições e respeito incondicional à família, mesmo que esse núcleo seja um nêmesis de suas convicções.
“Silêncio!” grita ao final do espetáculo, demonstra que nada tem apenas um lado e nos força a conhecer o outro.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Estufa


Um trabalho imperdível, denso e repleto de sutilezas

“A Estufa”, espetáculo cujo texto de autoria de Harold Pinter é datado de 1958, encontra-se em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim sob a talentosa e brilhante, para não defini-la como indescritível, direção de Ary Coslov e encenado por um grande elenco criteriosamente escalado, composto por Mário Borges, Isio Ghelman, Paula Burlamaquy, Pedro Neschling, Marcelo Aquino e Thiago Justino – aqui relacionados segundo a ordem de entrada em cena.
A história, levada ao palco, pela primeira vez, em 1982, é repleta de simbolismos e se passa numa instituição que supostamente abriga pessoas perturbadas mentalmente ou prisioneiros políticos, representados por personagens de comportamento bizarro e onde a burocracia é levada ao extremo. Tudo isso inserido numa atmosfera cheia de mistério, violência e sexo, constantes no cotidiano de todos que ali trabalham e habitam. Porém, em plena noite de Natal, dois acontecimentos norteiam o desenrolar da história, quando um dos internos é encontrado morto e uma interna dá à luz a uma criança.
Coslov trata todos os itens técnicos e cada cena desse grande espetáculo com extrema minúcia, como se o comportamento de cada personagem contasse uma história à parte - uma profunda imersão naquilo que se define como arte teatral. Os atores comungam de talento, potência vocal, expressão facial e gestual impressionantes, tal e quais personagens de quadrinhos clássicos do início do século XX, surpreendendo e cativando a platéia com seus diálogos, muitas vezes, sem nexo e revestidos por sutil comicidade. O drama do espetáculo, vez em quando é quebrado por uma deliciosa trilha sonora selecionada por Coslov, tão estranha dentro do contexto quanto absurda a história é. Os elementos que compõem o cenário, também assinado pelo diretor, e os adereços cenográficos de Elísio Filho são selecionados e tratados criteriosa e escultoricamente, dispostos diante de um fundo infinito negro, e valorizados por Aurélio de Simoni que surpreende a todos com o seu riquíssimo desenho de luz cênica – destaque para as pilhas de processos junto à mesa de trabalho do personagem de Mário Borges e para o surreal relógio permanentemente iluminado como se fosse uma luz cheia e cujos ponteiros, de tempos em tempos, corrigem a hora certa sob o comando do pantomímico personagem de Marcelo Aquino. Coslov também ousa no jogo de luz e sombra, redimensionando a boca de cena, redefinindo as diversas formas do palco e transformando, até mesmo, sombra em cenário, com rara maestria. O figurino de Bizza Viana é preciso para cada um dos personagens e define suas personalidades – destaque para o par de sapatos usados pela personagem de Paula Burlamaquy, cuja cor vibra em igual intensidade da cor de seu batom.

“A Estufa” é um trabalho imperdível, denso e repleto de sutilezas a serem descobertas pelo espectador atento, antenado e consumista da arte que se apresenta em palco, graças a uma direção, um elenco e uma equipe técnica por detrás dos bastidores que promovem oitenta minutos de rara qualidade de lazer, durante os quais a história de Pinter toma rumos distintos, até desaguar num final intrigante, e cuja assimilação de cada detalhe se torna uma experiência pessoal e intransferível.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Cara

Sem margem de dúvida, Paulo Mathias é o espetáculo.


A Peça O Cara de Miguel Thiré é um espetáculo surpreendente, apesar da veia moralista convencional e discutível com a qual o autor conduz o texto, tornando-o previsível e sem muita inovação. Contudo, a atuação de Paulo Mathias Jr. consagra o seu talento ao fazer com que o público imagine e desenhe o cenário com seus objetos, apesar do palco desnudo, complementado pela a iluminação de Felipe Lourenço, que contracena em sincronia com o ator e explicita ao público as diversas situações, desde a abertura de uma geladeira imaginária até aos delírios do personagem principal em um “spa” igualmente imaginário.


Em O Cara, sem margem de dúvida, Paulo Mathias é o espetáculo, como se o texto fosse escrito para o ator e, sem ele, não ganharia vida. Sua capacidade de capturar a atenção do público sobrepõe sua presença de palco à narrativa como um espetáculo à parte, fazendo com que valha a pena assistir o artista e a história que o corpo dele conta.