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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Estufa


Um trabalho imperdível, denso e repleto de sutilezas

“A Estufa”, espetáculo cujo texto de autoria de Harold Pinter é datado de 1958, encontra-se em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim sob a talentosa e brilhante, para não defini-la como indescritível, direção de Ary Coslov e encenado por um grande elenco criteriosamente escalado, composto por Mário Borges, Isio Ghelman, Paula Burlamaquy, Pedro Neschling, Marcelo Aquino e Thiago Justino – aqui relacionados segundo a ordem de entrada em cena.
A história, levada ao palco, pela primeira vez, em 1982, é repleta de simbolismos e se passa numa instituição que supostamente abriga pessoas perturbadas mentalmente ou prisioneiros políticos, representados por personagens de comportamento bizarro e onde a burocracia é levada ao extremo. Tudo isso inserido numa atmosfera cheia de mistério, violência e sexo, constantes no cotidiano de todos que ali trabalham e habitam. Porém, em plena noite de Natal, dois acontecimentos norteiam o desenrolar da história, quando um dos internos é encontrado morto e uma interna dá à luz a uma criança.
Coslov trata todos os itens técnicos e cada cena desse grande espetáculo com extrema minúcia, como se o comportamento de cada personagem contasse uma história à parte - uma profunda imersão naquilo que se define como arte teatral. Os atores comungam de talento, potência vocal, expressão facial e gestual impressionantes, tal e quais personagens de quadrinhos clássicos do início do século XX, surpreendendo e cativando a platéia com seus diálogos, muitas vezes, sem nexo e revestidos por sutil comicidade. O drama do espetáculo, vez em quando é quebrado por uma deliciosa trilha sonora selecionada por Coslov, tão estranha dentro do contexto quanto absurda a história é. Os elementos que compõem o cenário, também assinado pelo diretor, e os adereços cenográficos de Elísio Filho são selecionados e tratados criteriosa e escultoricamente, dispostos diante de um fundo infinito negro, e valorizados por Aurélio de Simoni que surpreende a todos com o seu riquíssimo desenho de luz cênica – destaque para as pilhas de processos junto à mesa de trabalho do personagem de Mário Borges e para o surreal relógio permanentemente iluminado como se fosse uma luz cheia e cujos ponteiros, de tempos em tempos, corrigem a hora certa sob o comando do pantomímico personagem de Marcelo Aquino. Coslov também ousa no jogo de luz e sombra, redimensionando a boca de cena, redefinindo as diversas formas do palco e transformando, até mesmo, sombra em cenário, com rara maestria. O figurino de Bizza Viana é preciso para cada um dos personagens e define suas personalidades – destaque para o par de sapatos usados pela personagem de Paula Burlamaquy, cuja cor vibra em igual intensidade da cor de seu batom.

“A Estufa” é um trabalho imperdível, denso e repleto de sutilezas a serem descobertas pelo espectador atento, antenado e consumista da arte que se apresenta em palco, graças a uma direção, um elenco e uma equipe técnica por detrás dos bastidores que promovem oitenta minutos de rara qualidade de lazer, durante os quais a história de Pinter toma rumos distintos, até desaguar num final intrigante, e cuja assimilação de cada detalhe se torna uma experiência pessoal e intransferível.

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