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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Silêncio!




“Silêncio!” grita ao final do espetáculo

“Silêncio!” se passa na casa de uma tradicional família judaica onde um jantar, preparado por uma das filhas, visa à comemoração do aniversário da mãe, que coincide com um Shabat.
O auge do drama eclode quando o tema “as prostitutas judias polacas no Rio de Janeiro” vem à tona e impacta a todos, a partir do comportamento reacionário e preconceituoso da matriarca da família interpretado por Suzana Faini, cujo talento, marca de sua trajetória como atriz televisiva e teatral, dispensa elogios.  As interpretações não menos vigorosas do elenco de primeira linha, complementado por Alexandre Mofati, Gabriela Estevão, Jitman Vibranovsky, Karen Coelho, Verônica Reis e Vicente Coelho, comprovam a qualidade atemporal e provocativa do texto de Renata Mizrahi, dirigido eficientemente pela autora e por Priscila Vidca.  O espetáculo instiga o espectador, naturalmente, sobre as razões pelas quais a grande maioria dos encontros informais em família ou em datas definidas nos diversos calendários religiosos e pagãos, acabam, paradoxalmente, em desentendimento.
“Silêncio!” tem muito a dizer através dos diálogos, expressões faciais e gestuais dos personagens. A configuração do teatro em arena - no caso específico das duas temporadas estreadas no Rio de Janeiro; atualmente no Teatro Tom Jobim no Jardim Botânico até 26/10/2014 – permite a percepção dos semblantes entre os espectadores que participam silenciosamente do encontro familiar, diante do impacto que o texto lhes provoca, como se a história fosse suas. Essa sutil interatividade, intencional ou não, só foi possível pelas propriedades refletoras do piso, como elemento marcante do cenário assinado por Nello Marrese e pela iluminação de Renato Machado, projetada de forma difusa e seletivamente dramática quando necessária, revelando, a todos, durante o espetáculo, a presença de uma platéia em torno do palco. Finalmente, a ambientação não teria sido mais convincente e capaz de transportar todos para atmosfera familiar judaica com tanta eficiência, não fosse o mais que adequado figurino de Bruno Perlatto.
“Silêncio!” também pode ser traduzido nas rodas familiares como a negativa à abordagem de determinados temas tidos como tabus ou segredos de família, através do “Vamos mudar de assunto”. A introdução das judias polacas como tema da obra, mira num alvo e acerta noutro, não tão menos importante - a hipocrisia de uma sociedade constituída, não inerente à totalidade de seus indivíduos, mas a grupos que se consideram os defensores das tradições e respeito incondicional à família, mesmo que esse núcleo seja um nêmesis de suas convicções.
“Silêncio!” grita ao final do espetáculo, demonstra que nada tem apenas um lado e nos força a conhecer o outro.


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