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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Acabou o Pó


“Acabou o Pó” é humano, divertido e promove reflexão 

Nena e Kelly são as protagonistas de “Acabou o Pó” – um brilhante espetáculo sob a impecável direção de Vilma Melo a partir de mais um texto sacado por Daniel Porto, cuja produção é caracterizada pela revelação da comicidade inserida no cotidiano no povo brasileiro, levado à sério pelos personagens delimitados pelos temas abordados.

Em “Acabou o Pó”, Porto não define, com precisão, estratos sociais e localidades, poupando as personagens de qualquer tipo de segregação, dando-lhes total liberdade para que desenhem o encontro cotidiano de duas mulheres amigas, vizinhas, comadres, num total desabafo de suas vidas íntimas familiares, abrangendo temas, tais como: relacionamento, solidão, angústia, bullyng, maternidade e finanças - tratados de forma tão natural que chega aos espectadores como um retrato de pessoas que cuidam de suas casas, de seus filhos, que lhes servem cafezinho, que lhes fazem os pés e as mãos nos salões de beleza e que sobrevivem para não submergirem.

“Acabou o Pó” é humano, divertido e promove uma reflexão paralela sobre os personagens reais que fazem parte das nossas vidas, de uma forma ou de outra. Nena e Kelly são espantosamente reais e talvez, por esse fato, também se preocupem com a vida alheia, afinal, nada como a miséria do próximo para amenizar a sua própria. Ranços de egoísmo à parte, o “bate-mata” entre as duas amigas parece uma partida de ping pong bem disputada, tamanha a sinergia entre as personagens em função da excelente estruturação do texto que define em suas entrelinhas, dentre outros aspectos sociológicos, algo mais do que comédia, mas a caracterização de uma gente que não se importa com os meios para poder sobreviver, na sua visão, com o mínimo de dignidade – detalhe esse denunciado pela participação do marido de Nena, através de sua narrativa.
  
O Circuito Geral não considera a exposição dessas sutilezas como uma quebra de sigilo que desmistifica as surpresas ou encanto dos espetáculos, mas uma forma de aguçar a percepção dos espectadores que, por ventura, tenham acesso às resenhas sob a ótica do espectador, anteriormente à sua presença aos espetáculos, enriquecendo a sua assimilação do que de bom eles têm para lhes oferecer. No caso específico do binômio obra e direção de “Acabou o Pó”, a visão do espectador agradece ao não apelo à caricatura e ao travestismo, em se tratando de homens incorporando almas femininas. “Acabou o Pó” nos apresenta uma história contada por mulheres através de forte veia masculina, impedindo que se perca em meio a floreios e sonhos com finais felizes. Finaliza com a desconstrução das personagens, ao final do espetáculo, quando os talentosos profissionais da arte de fazer rir, a partir  de uma realidade nua e crua, Alexandre Lino e Leo Campos expõem ao público seus bigodes e músculos despidos de Kelly e Nena, mesmo presentes durante todo o espetáculo, mas habilmente ocultos, somente por suas capacidades na arte de representar.

Trata-se de um espetáculo com menos de uma hora de duração, que deixa os espectadores com aquele gostinho de “quero mais” – mas, infelizmente, “Acabou o Pó”. 

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