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domingo, 9 de novembro de 2014

Manuscritos de Leonardo - Vertigem das Listas


Laboratório de movimentos, cujo resultado é destroçado por verborragia 

“Manuscritos de Leonardo”, criação e direção de Regina Miranda, transporta para o palco um laboratório de movimentos, dança, luz, música e composição de elementos - cujo resultado final é destroçado por uma verborragia totalmente dispensável, compreendida, mesmo por aqueles que se esforçaram muito para conectar as palavras às demais ocorrências em cena - numa tentativa de transcender algo que já era bom, em busca da arte pela arte, por pura vaidade pessoal. O volume do som da trilha musical, muito bem definida, por sinal, compete, em desigualdade de condições, com a projeção das vozes das bailarinas-atrizes ao declamarem o texto, tornando-os, em muitos momentos, incompreensíveis ou, até mesmo, inaudíveis dando uma conotação de que, de fato, são dispensáveis. É visível que Regina Miranda tem como meta apresentar algo inovador e que se diferencie dos espetáculos consagrados pelo Momix, por Deborah Colker e pelo Grupo Corpo, que se inovam a cada apresentação pela coreografia e ousadia, incorporando aos movimentos corporais ao som da música, o que fazem, brilhantemente, sem a necessidade de um texto.
O intervalo proposto pela produção do espetáculo se faz com a necessária retirada dos espectadores da platéia, com a escusa da troca do cenário visando à principal atração, nome do espetáculo, “Vertigem das Listas”. Em se tratando das apresentações no Teatro do Jockey do Rio de Janeiro, expõe o público a um constrangedor mini sarau poético apresentado por dois declamadores de textos de suas autorias e outros de poetas já consagrados, ocorrendo no diminuto “foyer”, onde os espectadores competem, em meio a cotoveladas e pés pisoteados, por um território que é invadido por pessoas que circulam em direção aos dois sanitários voltados para o recinto - verdadeiras fontes sonoras de fluxo de descargas das bacias sanitárias - por funcionários carregando baldes e vassouras para a sala de espetáculo e por crianças, inexplicavelmente presentes em se tratando de espetáculo com faixa etária recomendada para 16 anos – uma total falta de respeito, que só abriu as portas para evasões de alguns poucos pois, ao que parecia, muitos se tratavam de amigos ou familiares com os aplausos e gritos de “bravo” ensaiados desde a saída de seus lares.
“Vertigem das Listas” é outro show de dança, som, luz e movimento que sofre derrocada pela declamação de outro texto, igualmente desconectado – mesmo sendo, impiedosamente, uma adaptação da obra de Umberto Eco. Sofre da mesma forma que a apresentação anterior, com o duelo entre o som na caixa e as vozes das atrizes-bailarinas. Uma eventual solicitação por um breve resumo do texto e sua conexão ao que é apresentado no palco seria, no mínimo, um atentado à capacidade de compreensão e uma ameaça de constrangimento pessoal. Em meio a uma bela apresentação que envolve movimento, luz, música, composição cênica – ou seja, um trabalho que explora os sentidos ao extremo - melhor seria que as atrizes entrassem no palco mudas e saíssem caladas. Talvez seja a saída para uma tentativa de tornar o espetáculo menos enfadonho e mais palatável – uma verdadeira diversão, e não uma apresentação ideal para um eventual ensaio fotográfico.

Apesar de tudo, na ocasião das apresentações realizadas no Teatro do Jockey do Rio de Janeiro, os tropeços de “Vertigem das Listas” conectam-se com o trecho do poema de autoria de Alice Ruiz, declamado quando do constrangedor mini sarau no foyer do teatro durante o intervalo - “Saia do sério deixe os critérios, siga todos os sentidos, faça fazer sentido, pois a cada mil lágrimas sai um milagre”.

https://www.facebook.com/curtocircuitocultural

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