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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Inquietos


“Cartoonesco” 

Existir – olhos abertos focados em um destino traçado, que fora elaborado com base em conceitos e sistemas de escolhas focando ideais sob autenticidade do, simplesmente, se fazer presente.

O espetáculo “Inquietos” – um dos últimos trabalhos estruturados pelo ator e diretor gaúcho, falecido em janeiro de 2011, Marcos Barreto, que destruiu os grilhões travestidos em verdades pessoais e exaltou o medo de existir em um mundo repleto de emoções insólitas – em sua atual produção, conta com a supervisão de Leonardo Talarico que estabelece um horizonte de significados no mundo “cartoonesco” dos protagonistas da história. O texto de Daniel Freitas assenta-se em um rápido panorama da comunicação dos personagens caracterizados por meio dos diversos conceitos: clínico, filosófico e estrutural. No elenco, Francine Thomas, Daniel Freitas e Fabiano Bernardelli dão vida a subjetivas, objetivas, filosóficas e inquietantes manifestações do cotidiano. De forma surpreendente, a sonorização toma a sala de espetáculos com qualidade ímpar, pulsando uma trilha sonora de Marcelo Lehmann que expressa toda a reciprocidade que provém da captação transcendental e que consegue se misturar com os sentidos, os pensamentos, e a divagação em meio  ao conceito definido pelo roteiro. Sérgio Pascolato, além de ser co-responsável pela trilha sonora, também assina o projeto cenográfico que remete a platéia a uma rua deserta, caracterizada por elementos gráficos que estilizam equipamentos urbanos, e que também se desdobra em um consultório médico. Tornando o teatro soturno e sem nenhuma vibração cômica, incumbência que fica a cargo exclusivamente dos atores, o projeto luminotécnico cênico, assinado por Wagner Pinto, também recebe especial atenção com foco nas situações limites que são marcadas pelo desespero e pela angústia. O figurino de Allan Kardec é adequado aos fatos e aos acontecimentos em situações originais e ilimitadas ao tratar a tendência absoluta ao incondicional modo de vida de cada personagem. Impossível deixar de mencionar a direção de movimento que torna “Inquietos” um espetáculo conceitual e atento ao porquê e  aos questionamentos sobre a existência do ser.




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Macbeth – Ambição e Guerra


A entrega total ao poder

A degradação da natureza humana, a personificação do mal, a escuridão da alma e a entrega total ao poder – Justin Kurzel comanda a direção do acirrante “Macbeth – Ambição e Guerra”, imerso em latente, atual e tenebrosa atmosfera, do início ao fim da película.

Após uma vitoriosa batalha, três bruxas semeiam o desejo de poder e profetizam o reinado do nobre e ambicioso escocês Macbeth, incorporado, de forma impactante, por Michael Fassbender. Marion Cotillard, com sua Lady Macbeth –  trágica, cúmplice, mentora e não menos ambiciosa que seu marido – faz com que, após o assassinato do rei Duncan (David Thewlis) pelas mãos de Macbeth, a história desça por uma espiral que desenha uma série de crimes para encobrir o primeiro. A frieza, o autoritarismo e a cegueira pelo poder fazem com que o roteiro de Todd Louiso e Michael Lesslie adapte-se de maneira objetiva à obra de Shakspeare, injetando dinamismo ao contar uma das mais importantes peças do dramaturgo inglês. A trilha sonora de Jed Kurzel é crescente e sufocante, legitimando a tragédia que toma toda a sala de projeção. A fotografia de “Macbeth – Ambição e Guerra” define o forte teor de violência impressa pela tirania de um Rei - um filme que contraria a essência das palavras do próprio tirano: “É uma estória contada por um idiota cheia de som e fúria que nada significa. Nada!"


sábado, 19 de dezembro de 2015

A Voz Humana


“Meu Querido”

Cena inicial: uma mulher atende o telefone – antigo aparelho estilo Ericsson em baquelite preto anos 1930, conectado através de um fio longo espiralado anos 1970.
Do outro lado da linha, um homem, carinhosamente chamado de “Meu Querido” pela mulher – “Meu Querido” esse que, o Circuito Geral, segundo sua leitura do espetáculo, toma a liberdade de considerá-lo protagonista de “A Voz Humana”, cujo texto é assinado pelo dramaturgo surrealista e encenador de teatro francês – Jean Cocteau.

Em poucos minutos de espetáculo, o público passa a compreender o motivo de “Meu Querido” ter abandonado sua interlocutora – incorporada por Claudia O’Hanna – que se entrega à fantasia por um relacionamento já findo, que mendiga afeto e atos de gentileza de um homem que não mais a quer e transforma o ser “Meu Querido” em uma figura que, sem qualquer esforço, conquista a solidariedade por parte da platéia – composta, em sua grande maioria, de mulheres acompanhadas de seus pares. A direção de Jose Lavigne expõe ao espectador a figura de uma mulher sem amor próprio, rejeitada, ameaçadora, ciumenta, sabotadora – e chata. Ponto para  “Meu Querido” que, mesmo sem ter sua voz revelada, sequer através de um simples murmúrio, torna-se digno de piedade e de compreensão, por ter sido alvo e, até mesmo, ter sobrevivido a um relacionamento com uma verdadeira stalker.

O projeto cenográfico de Edgard Divivier apresenta, como pano de fundo à frente de um fundo infinito negro, um grande teste de Rorschach perspectivado no qual, a partir do seu borrão central, desenvolve-se sequências de imagens que, conjugadas ao padrão cromático composto por cores eminentemente quentes, são passíveis de interpretação por parte dos espectadores – cada um, de acordo com seu critério e percepção, a partir do abstrato.

Sobrepondo ao peso visual ocupado pelo grafismo concebido por Divivier, Felipe Lourenço carrega no desenho de luz contemplando cores em tons igualmente avermelhados, porém, demasiadamente estático e desprovido de contrastes. Intencional ou não, a monotonia presente na iluminação cênica contribui para potencializar o clima de ansiedade do diálogo – ceifado por uma linha telefônica e transformado num monólogo – e transportá-lo diretamente para a platéia sob forma de aparente irritação manifestada por alguns espectadores, na ocasião em que o Circuito Geral se fez presente na platéia. O figurino de Carla Garan e o visagismo de Pino Gomes extrapolam suas intervenções em cena, captando os indícios de desequilíbrio emocional da personagem de O’Hanna, desde o seu início ao final da ligação, em total contraste com as fotos de divulgação estampadas no cartaz oficial do espetáculo e em outros veículos de comunicação. Nas fotos, modelo fotográfico e fotógrafo ensaiam semblante e postura de modo a retratar uma mulher sensual, e dona de si. No palco, O’Hanna se apresenta – como mera ex, debulhada em lágrimas – merecidamente solitária, como tantas outras que se permitem amar demais, desprovidas de sensatez e de qualquer filtro auto crítico.

Finda a apresentação, fica claro, pela reação dos casais ao sairem da sala de espetáculo que, no caso específico do trabalho dirigido por Lavigne, toda a lenga-lenga verbalizada – através de um pronunciamento que assume o tom de auto piedade – é algo, no mínimo, enfadonho pois, o que a maioria dos indivíduos tidos como reféns de desafetos amorosos não desejam, é ouvir as famigeradas e irritantes vozes de seus ex-parceiros, no papel de insanos  perseguidores.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Labirinto


Os recursos cenotécnicos valem por todo o espetáculo

A vida – labirinto onde se nasce, se aprende, se falha e se retoma o curso natural pela sobrevivência, enquanto o fio condutor que conduz à saída estiver íntegro e ao alcance das mãos; uma rede de caminhos que se intercomunicam e que se auto bloqueiam, configurando uma infinidade de escolhas que podem ser encaradas como livre arbítrio com a possibilidade de condução a um outro labirinto – o da consciência do ser.

A peça teatral “Labirinto” é estruturada na fundamentação de formas, de energia e da funcionalidade no ato de levar ao público uma história consagrada, com raízes na mitologia grega - mais uma versão para o célebre embate entre Teseu e o Minotauro, através de um formato eminentemente sensorial. Ao longo de toda a apresentação, as cenas de “Labirinto”, repletas de recursos técnico-cênicos, se transformam diante dos olhos da platéia. Mais uma vez, a associação de um desenho de luz a um projeto cenográfico transcende a simplicidade da coexistência de um dispositivo iluminador e um elemento a ser iluminado. No caso de “Labirinto”, esses se mimetizam em um sistema único, gerador de luz sobre si mesmo e generoso, porém dramático compartilhador de luzes com os atores. A transformação do invisível no imaginável e do visível no sugestivo dedutível possibilita a exploração de possibilidades de percurso de novos caminhos a serem descobertos por aqueles que se encontram no labirinto, driblando os riscos de uma seletividade da natureza que possam ser ameaçadores à vida. A partir dessa composição, fachos de luz assumem densidade de volumes prismáticos que duelam com os personagens, caracterizados e revelados com essência mitológica e forte veio contemporâneo, através de suas vestes e maquilagem e diante de uma constante alternância de cenas artísticas. Por um lado, o espectador tem sua visão permeada pela luminotecnia de Renato Machado, pela ambientação cênica de Brígida Baltar, pelo figurino de Paula Stöher e pelo visagismo de Rafael Fernandez; por outro, tem sua audição fortemente estimulada, com qualidade raramente detectada em um espetáculo dessa natureza, tamanha a sua veia experimental. Praticamente todo o espaço sensorial não ocupado pelo estímulo visual parece ser preenchido com uma gama de ruídos das mais diversas frequências – que exercem forte influência sobre as ondas cerebrais do espectador, que podem transitar entre a total placidez ao impacto profundo capaz de devolver aquele que casualmente tenha sua atenção dispersada do foco do espetáculo, por motivo qualquer. A trilha sonora e direção musical de Cadu Tenório e Rômulo Fróes são inseridas como se reverenciassem o mal de forma tridimensional, cegando as mentes dos envolvidos e impedindo-lhes acesso à consciência universal. Como se através de técnicas ilusionistas, o campo de visão do espectador sofre variações de acordo com os diversos formatos e tridimensionalidade assumida pelas cenas, posicionando e esculpindo os personagens de forma quase pictórica pela preparação corporal de Toni Rodrigues e Carol Franco, que resumem a simplicidade do certo em uma perfeita justificativa em prol da ignorância incrustada em cada um dos aprisionados no labirinto.

Alcemar Vieira, Otto Jr. e Paula Calaes compõem o elenco de “Labirinto” – espetáculo e que brota da necessidade de conceder voz àqueles que nunca tiveram – segundo o texto original, cuja adaptação leva o espectador a sessenta minutos de compensadora contemplação visual e auditiva, que acaba deixando em segundo plano, o proferimento do texto de autoria de Alexandre Costa e Patrick Pessoa. Apesar da excelência da direção de Daniela Amorim, por se tratar de um produto voltado, especificamente, para os adoradores dos sarais culturais e de apresentações verborrágicas, se torna um volume demasiadamente pesado para ser carregado sala de espetáculo afora, em companhia do espectador, para ser dissecado e debatido sob a forma de lazer, mas somente eventual exercício para o intelecto que não chega a termo, tal e qual a busca por uma saída de um labirinto – onde os recursos cenotécnicos valem por todo o espetáculo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O Hóspede



A perfeição, apesar de ser possivelmente bela, também pode ser amarga


Passamos a vida cruzando com indivíduos os quais nunca atravessam nossos caminhos uma segunda vez; também nos deparamos com indivíduos que invadem nossas vidas sem termos a real noção de onde vieram, sequer a direção que o destino os reserva – mistérios da existência, muitas vezes justificados a partir de explicações mágicas e ilusórias mas que, no final das contas, a relevância dos fatos se encontra, muito mais na essência das ocorrências e muito menos nas suas causas e consequências.

Um típico lar burguês, figurativamente estabelecido numa grande residência composta por dezenas de aposentos, abrigando um casal – formado por um homem e por uma mulher; um casal de filhos – cujas idades são aparentemente indefinidas; e uma empregada – configurando um núcleo familiar que se expõe ao público no espetáculo cujo texto e direção são de autoria e de responsabilidade do dramaturgo e diretor Francis Mayer –  sob a livre inspiração no filme “Teorema”, de Pasolini, ao conceber “O Hóspede”.   

Eleito por Mayer para assumir a narrativa da história, Vinicius Vommaro se entrega ao texto, de forma tão sedutora quanto a que o símbolo da iconografia de São Sebastião costuma ser retratado no ato de sua execução e morte pelos corações enfraquecidos diante de torturas – dessa forma, agindo como catalisador dos acontecimentos que se tornam focos da visão e da audição do espectador, e o conduzindo ao mais profundo e obscuro âmago do seu ser. O paralelo entre a família para a qual trabalha e a sociedade em que vive é traçado de forma precisa por Elisa – a empregada – interpretada por Luciana Albertin, com a sagacidade de um delator que se apropria do prato que come e da cama em que dorme em prol de si mesmo. A imagem opressora de um pai, cujo currículo de vida sexual a define como infrutífera, é projetada no palco através da dramática fragilidade com que Regis Farah personifica Antero. Esposa reprimida por um casamento desgastado, possivelmente, desde a sua união com Antero, em paralelo ao seu papel de mãe repleto pela aridez afetiva junto à sua prole, Flavia Maria Santa traz Laura à luz da vida como ela, de fato, o é. Estudioso e extremamente sensível, Felipe Salarolli incorpora o semblante e a insegurança do filho mais velho – Michel – passivamente à espera de algo que lhe arraste de sua inércia diante de seus desejos fortemente reprimidos. Sua ausência no mundo real, sua constância no mundo virtual e seu vazio frente aos seus ideais fazem de Ornela – a filha mais nova de Laura e Antero – um desafio para Izabella Guedes, que desempenha sua personagem numa amplitude que se estende desde a ingenuidade infanto-juvenil até a sensualidade de uma ninfeta.

O simbolismo perceptível para aqueles que assimilam o texto de Mayer – com a sede pelo desvendar da qualidade no conteúdo daquilo que consomem culturalmente – é evidenciado ao longo dos cem minutos de espetáculo. Símbolo que se faz presente como a imperfeição latente e caustica citada por Arthur Rimbaud – “Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos – E achei-a amarga – E injuriei-a”. Em “O Hóspede”, Mayer deixa claro que a perfeição, apesar de ser possivelmente bela, também pode ser amarga. E de maneira dócil, gentil e sensual, Lucas Malvacini assume, icônica e misteriosamente, o hóspede – personagem que invade a intimidade cada um dos personagens, com a simultaneidade que o timing teatral define como possível de ser assimilado por parte da plateia, em cada um dos quartos habitados daquela enorme casa, e que faz ruir a estrutura daquela família construída a partir de um modelo almejado por tantas e viável por tão poucas – praticamente, nenhuma.

A catarse definida como o início de uma nova vida, escolhida por cada membro daquela família, presenteia o espectador que se depara com um espetáculo repleto de conteúdo e que demanda reflexão sobre o seu preparo e sobre a sua capacidade de convívio com a eventual materialização de algo com que, um dia, sonhou e que ainda anseia. Diante de um cenário que nos remete a um cadafalso, onde todos transitam como se cientes de que, a qualquer momento, o chão é passível de se abrir, bem debaixo de seus pés – anunciando que, aqui ou ali, jaz mais um enforcado. O desenho de luz que esculpe tanto a perfeição quanto a imperfeição, necessariamente presentes no palco; o projeto cenográfico repleto de simbolismo; o figurino, despojado e provocante, meticulosamente definido para cada personalidade desenhada pelo texto; e a trilha sonora, sombria e marcante, enfatizando o desempenho de cada personagem e respectivos dilemas – também ficam por conta da capacidade intelectual produtiva e da seletividade de Mayer.

Durante o espetáculo, o espectador incauto é capaz de se permitir reagir das mais variadas formas diante de tantas cenas contemplando suposta exacerbada exibição de libertinagem e permissividade, movido por uma equivocada interpretação sobre o que, de fato, representam o hóspede e cada um de seus hospedeiros. Objeto de tantos desejos, o personagem vivido por Malvacini se encontra disponível nas áreas comuns da habitação daquele núcleo familiar e que, acaba, de certa forma, sendo aliciado por cada um de seus membros, pelo simples fato de estar, passivamente, acessível a qualquer um deles – até mesmo para qualquer um dos presentes na plateia. A partir de tal premissa, o bizarro mundo inserido no espetáculo “O Hóspede” se torna, indubitavelmente, coerente, enquanto representa a fusão da divergência entre utopia e desejo palpável na pluralidade de cada ser humano, o que torna o protagonista um fato real, diante do qual o espectador também se torna capaz de conduzi-lo de acordo com seus próprios desejos. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

Mamãe


No limbo entre palco e realidade

Para alguns, a morte não passa da extinção definitiva da alma e do início de um processo progressivo da deterioração do corpo. Para outros, trata-se do perecimento da carne e o início de uma nova jornada da alma junto ao mundo dos espíritos. Dentre essas e várias vertentes sobre o real significado da morte, eis que surge o desabafo de Álamo Facó em forma de um espetáculo teatral intitulado “Mamãe”, demonstrando reconhecer o bem e o belo inseridos em meio ao inatingível mundo dos sentimentos. Também dá vida ao corpo independente da alma imutável de sua progenitora e o configura como simples lembrança da vida, em uma interpretação orgânica na qual o seu corpo é sua máquina de guerra – desempenho esse respaldado e trabalhado criteriosamente pela direção de movimento de Luciana Brites.

Trata-se da história da arquiteta Marpe Facó, acometida por um tumor no cérebro, descoberto em 2010 e que, em exatos cem dias em meio a sintomas, diagnósticos e internações, transmutou-se em apenas um instante de progressão fatal, definida para aqueles que continuaram a viver – o fim da indefinição sobre a duração da existência. Nessa empreitada, Facó divide a direção do espetáculo com o fundador, ator, diretor, produtor e cenógrafo da Companhia dos Atores – César Augusto. Juntos, lançam luzes sobre a imortalidade das idéias, sobre os reflexos decorrentes dos desejos, e sobre a luta inglória de não se viver o momento presente, preservando tal vivência para um tempo futuro que, em dado momento, poderá ser diagnosticado como perdido para sempre. A trilha sonora assinada por Facó, em parceria com o músico, compositor e produtor carioca – Rodrigo Marçal, é instintiva como “Summertime” interpretada por Janis Joplin, mas ao mesmo tempo tende mostrar o “caminho” que todo ser vivo, um dia, é fadado a seguir, depois de sua morte ou passagem – à vontade do freguês. A suprema liberdade demonstrada por Facó, sobre todas as possibilidades utópicas para o final do espetáculo, ganha força exatamente pela simplicidade do figurino concebido por Ticiana Passos. Angústia, rejeição, desvio de caráter, limites da sujeição e a revolta contra vícios de um sistema aético são ações e reações vivenciadas pelo autor e protagonista de uma realidade retratada durante os derradeiros dias junto ao leito hospitalar de sua mãe. De forma compactada, a cenógrafa e diretora de arte Bia Junqueira, registra a falta de zelo por parte de uma fração de profissionais e a arrogância de quem deveria ser mentor de cura, depositando no palco elementos cenográficos sombrios, incolores e assépticos que transmitem a frieza da história de Marpe, a começar pelo seu fim. Com a fluidez de um rio que percorre os meandros de um relevo, o desenho de luz de Felipe Lourenço abrilhanta o que lhe falta reflexo, pigmenta o que lhe falta cor, sombreia o que lhe falta caráter, ilumina o que lhe falta clareza e contrasta a carência da vida pelo que lhe deveria ser justo – fim do espetáculo.

Despindo-se do personagem, Facó se despede da platéia em meio a um desabafo, como se no limbo entre palco e realidade – nominando a instituição hospitalar na qual deposita sua repulsa pela falta de empenho por parte dos profissionais que deveriam ter se debruçado frente ao quadro clínico de Marpe; discorrendo sobre a história que envolve um enorme inseto lepidóptero que se faz presente em meio ao nada e a surpreendente reação de seu filho frente ao porta retrato que abriga a foto de sua avó; concluindo que o quase intransponível muro da crença pode ser escalado e que, ao se enxergar o outro lado, não mais se faz necessário perguntar que tipo de “pessoa” aquela “doença” tem.

Hilda e Freud


Sessenta minutos de lirismo e de terapia
“Hilda e Freud”, espetáculo cujo texto é de autoria do psiquiatra Antonio Quinet, tem como base as compilações dos diários de Hilda Doolittle – poetisa que manteve uma relação mais do que médico-paciente com o criador da psicanálise. Quinet também assina a direção do espetáculo, imprescindivelmente compartilhada com a coreógrafa, diretora teatral e analista de movimento – Regina Miranda.
Num extremo, o espectador percebe Bel Kutner, no papel de Hilda, processando os medos, as alucinações e os sonhos da poetisa com a solidez de quem vivera, na própria pele, os traumas da 1ª Guerra Mundial. Noutro, se depara com Antonio Quinet, incorporando Freud, discorrendo sobre a psicanálise de forma quase didática, totalmente assimilável, até mesmo para os não familiarizados com a matéria. As zelosas intervenções simbióticas de Quinet e Miranda são fundamentais no processo de convencimento e de transporte do espectador rumo ao inconsciente relatados por Hilda, alcançando uma dimensão que ultrapassa os limites do texto e da sala de espetáculos. Os palpáveis e geométricos elementos cenográficos minimalistas de Analu Prestes, definidos por três hexaedros nos quais os personagens se revezam a cada pronunciamento, são fluidicamente complementados pela marcante presença do videografismo, duplamente projetado no diedro formado pelo palco e pela estilizada rotunda, sugerindo a complexidade simbólica – presente nos momentos de estado complementar ao da vigília e durante os instantes de percepção real de algo inexistente, independente de estímulos externos. Noutros dois planos verticais ortogonais que ladeiam o palco, sombras dos personagens projetadas pela incidência da luz vermelha, tenta revelar ao público, algo mais do que o óbvio, mas o que se entranha no subconsciente de ambos. Respeitando a identidade da essência do espetáculo, a lisérgica luminotecnia cênica induz o espectador a acreditar que ele comunga das alucinações de Hilda – dessa forma, convalescendo com a personagem em meio a um inconsciente que não lhe pertence e compartilhando de um divã estilizado pela zebrada incidência de luz sobre o palco – efeito colateral do espetáculo induzido pela dupla de designers de luz, Fernanda e Tiago Mantovani. A percepção sonora musical que complementa a da verbalização, também é cuidadosamente definida por Regina Miranda que – respaldada pela sua especialização e função à frente da direção artística do Centro Coreográfico do Rio de Janeiro e do Centro LABAN-RJ – define uma trilha debruçada na arte dos sons do compositor e intérprete da música eletroacústica - Rodolfo Caesar; do compositor espanhol, autor de diversas trilhas cinematográficas, incluindo produções de Pedro Almodovár – Alberto Iglesias; e do experimentalismo minimalista do grupo musical encabeçado por Philip Glass – Ensemble. O figurino de Beto de Abreu insinua a libido e os recalques nas variações freudianas dos personagens em processo de aceitação psicológica, imprimindo estilos que variam do clássico ao contemporâneo, complementado pelo dosado o visagismo de Uirande Holanda.
Na sessão em que o Circuito Geral confere a excelência do desempenho do espetáculo, é registrada uma fração da platéia como parte da sonoplastia, em função das esparsas e involuntárias manifestações de sintomas tais como tosse, pigarros, estalar de dedos e da compulsão pelos comentários entreouvidos, gerando com isso, uma síndrome que acomete à vulnerabilidade desses espectadores, possivelmente em função da impossibilidade de vislumbrarem respostas imediatas para aplacarem suas aparentes neuroses em potencial, durante os sessenta minutos de lirismo e de terapia presentes na sessão psicanalítica, travestida no espetáculo teatral - “Hilda e Freud”.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Ibsen Venusianas


Uma realidade que pode ser a sua ou, até mesmo, do espectador sentado ao seu lado

As várias camadas de tinta que os dramaturgos Weydson Leal e Maurício Arruda Mendonça depositam em “Ibsen Venusianas” tem início em Cabo Verde, atravessa o Atlântico como num movimento livre de uma espátula até o Brasil – onde os pigmentos se fazem presente numa obra de arte viva, definida por uma paleta cromática que percorre a euforia da paixão, o egocentrismo da posse e o sofrimento diante do desgaste de uma relação – e ensaia seu final, de volta ao país insular africano. A dramaturgia é materializada nos palcos de forma quase pictórica, sob a direção de Moacyr Góes que – valendo-se de sua consolidada expertise e segurança que a sua trilha profissional, naturalmente, lhe confere – permite que a dupla de atores encarnem seus personagens e expressem suas emoções individuais pigmentadas pelo texto. Tânia Pires interpreta, com lucidez incontestável, a independente Milena –  atriz brasileira, produtora e estudiosa, em especial, da obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen que, ao lecionar em Cabo Verde, se apaixona pelo nativo Antônio - artista plástico obsessivamente dedicado ao seu trabalho – visceralmente incorporado por Vinicius Piedade, que transborda os limites do palco, como tintas lançadas a ermo por um punhado de trinchas,  todo o seu egocentrismo e a sua insegurança que, após dois anos de matrimônio com Milena, no Brasil, acaba por sufocar a individualidade e a carreira artística de sua cônjuge.

“Ibsen Venusianas” grita pela liberdade e pela igualdade dos direitos femininos através de caminhos que supostamente conduzem ao binômio amor e felicidade plenos, incondicionais e eternos entre casais.

A partir do conceito da cor como percepção visual proporcionada pela reflexão da luz, percebe-se a luminotecnia de Maneco Quinderé como o recurso cênico que alavanca a dramaticidade do espetáculo enquanto responsável pela explosão de cores presentes nos elementos cenográficos de Teca Fichinski, no figurino maculado de Carol Lobato e na sensualidade das marcas de tintas nos corpos dos protagonistas  - decorrentes, tanto dos impulsivos momentos de desejo mútuo quanto dos explosivos momentos de embate frente às discórdias – eleitas pelo visagismo de Hudson Lemos. Como uma instalação viva materializada a partir da sua concepção pelo quarteto técnico-cênico, os protagonistas percorrem, no tempo e no espaço, a forte tridimensionalidade sugerida por um perímetro formado por andaimes que definem o espaço do casal cuja personalização visa somente ao atendimento do que se julga ser prioridade para Antônio – simultaneamente, como um atelier de pintura para o desempenho de seu ofício e como um cativeiro onde, num primeiro momento, não se pode definir quem é o sequestrador e quem é o sequestrado mas, tanto um quanto o outro, aparentemente acometido pela síndrome de Estocolmo. A movimentação no palco que é fortemente influenciada pela dominância masculina – sem com isso, desvalorizar a luta pelos anseios femininos – caracteriza o relacionamento entre amantes e estimula o florescimento psíquico de ambos, genuína e intensamente. Apesar da carga dramática das cenas, percebem-se suavidade e delicadeza no semblante dos personagens, a despeito das marcas de expressão sugeridas ao espectador pelo simples ato de se entregarem ao texto com total empenho. O espectador, diante da clausura fragmentada de Milena e Antônio, é pego de surpresa pela trilha sonora que imprime soft art nas idas e vindas da história, através de James Blake – com “Overgrown” e  “Retrograde”; e de Benjamin Clementine, com “Cornestone” e  “Condolence”.
Ao final de setenta minutos de apresentação de “Ibsen Venusianas”, o espectador se sente gratificado em ter pago o resgate do sequestrado e ter sido contemplado para o testemunhar a liberação do encarcerado – como se adquirido o direito de ingressar em uma galeria de arte e de se posicionar, de forma contemplativa, diante de uma obra mundialmente consagrada – tempo convenientemente dosado para não ser dragado pela carga dramática expelida pelo casal, mas suficiente para permitir levar consigo as impressões de uma realidade que pode ser a sua ou, até mesmo, do espectador sentado ao seu lado.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Race


O confronto comparativo dos “iguais” – totalmente distintos

Nunca é demais, mas sempre oportuna, a reflexão sobre consciência – da que se baseia na ciência para explicar o que ainda não tem explicação; da que atua na psique humana; da que crê no corpo e na alma; da que tem a moral ilibada; da que distingue o certo e o errado com precisão cirúrgica; da que evolui com o passar dos anos; da que faz os indivíduos se sentirem superiores, espiritualizados, solidários, pessoas de bem, moralistas e diferenciadas de seus semelhantes.

“Race”, texto assinado por David Mamet, desbrava um caminho que passa pelo contraditório para chegar ao que é, genuinamente, reconhecido por consciência humana. Trilhando o conceito ilusório de um modo de vida exemplar, Gustavo Paso, com sua direção maquiavélica, trabalha o confronto comparativo dos “iguais” – totalmente distintos.

“Race”, o segundo drama da trilogia Mamet – em composição com “Oleanna” e “Speed the Plow” – narra a história de Charles, um homem religioso, casado e com boa situação financeira, que acaba se apaixonando por uma jovem garota de programa, a qual ele ajuda em todos os aspectos. Ela o acusa de estupro e o leva a procurar o escritório de advocacia de TJ e Jack onde, com a participação da auxiliar Susan, dá-se início à construção da defesa de Charles. Personagens pretensiosos, banais, insensíveis e indiferentes às questões alheias que não somam aos seus interesses, são defendidos – com legitimidade, por Luciano Quirino e Heloísa Jorge, nos papéis de TJ e Susan, respectivamente – e  com distorções humanas, por Gustavo Falcão, incorporando Jack e Yashar Zambuzzi, interpretando Charles.

O cenário de Gustavo Paso e Luciana Falcon faz alusão a um escritório de advocacia, contudo, concebido num formato tão psicoativo quanto uma sala montada especificamente para fins inquisitivos.  Suas dimensões horizontais se perdem através do fundo infinito negro, enquanto que seu pé direito é sugestivamente limitado pelo parco espelhamento presente no piso e por telas de led que assumem o papel de um teto virtual – uma concepção que beira aos mais bem elaborados grafismos literários contemporâneos, agindo no cérebro do espectador de forma rápida e indolor. Falcon também assina o figurino imerso em idealismo tendencioso, com intenções que, de forma velada, se baseiam na violência moral. O desenho de luz Paulo Cesar Medeiros se insere ao alto nível dramático que o espetáculo se propõe, definindo precisamente o contraste e nuances dentre claros, escuros e penumbra que desenham personagens e elementos cenográficos. Uma peça de vestuário feminino flutuante em destaque lumínico e cromático – como se fora dos limites daquela realidade – é cuidadosamente manipulado a seis mãos por Paso, Falcon, e Medeiros – cravado de lantejoulas, essencial ao desenrolar da trama. A trilha sonora de Andre Poyart agiganta, progressivamente, cada uma das cenas dando forma corpulenta ao drama, aparentemente contemporâneo, mas com raízes no colonialismo.

Diante dos simbolismos lançados em meio à sala de espetáculos travestida em um figurativo subconsciente obscuro – cujos limites são desprovidos de luz, de cores-luz, como se absorvendo todos os raios luminosos, sem qualquer reflexão efetiva e, consequentemente, carente de clareza – “Race” nocauteia o espectador que cultiva uma postura reacionária despolitizada, alienada, que valoriza a superioridade moral em nome da raça sem preconceito e que mantém a consciência tranqüila, pelo simples fato dessa consciência também ser desprovida de cor.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Pastor


“Cult” religioso

O Circuito Geral abre um precedente ao publicar uma nova resenha sobre um espetáculo já coberto – “O Pastor” que desponta como um promissor “cult” religioso. Quando de sua primeira apresentação no Solar de Botafogo, com seu roteiro inovador e repleto de interatividade com o público, “O Pastor” surpreende o espectador como se este tivesse sido acometido por uma miopia capaz de lhe turvar a leitura daquilo, que de fato, se apresenta em cena – se mera ficção teatral ou se um exercício da fé através da prática da programação neurolinguistica.

De uma temporada regular em Botafogo para uma participação invasiva relâmpago no OI Casa Grande – no Leblon, “O Pastor” se apresenta em curtíssima temporada em Ipanema e vislumbra galgar patamares cada vez mais próximos ao Altíssimo, levando ao seu distinto público, formado pelos fiéis “irmãos” espectadores, um cultuado espetáculo atemporal, contemporâneo e auto renovável, graças à flexibilidade do engenhoso texto de Daniel Porto. A direção de Carina Casuscelli dá seguimento às possibilidades de efetivas intervenções por parte do espectador e permite que os atores tomem a liberdade de conduzirem o “culto” conforme as oscilações das “condições de temperatura e pressão” da plateia a cada nova “sessão”. Percebe-se que o pastor Antônio, apropriado pelo ator Alexandre Lino, tem se aprimorado no proferimento das palavras que assumem o molde de um ataque verborrágico em nome do cordeiro divino na mente daqueles que as escutam. Kátia Camello, incorporando, quase que literalmente, a irmã Janaína, evidencia, de forma exacerbada – e por incrível que possa parecer, sem ser caricata – a teatralidade da natureza humana diante da tão apregoada temência a Deus. Cesário Candhi, no papel do simplório e humilde praticante Paulo, lança mão de sua habilidade de se tornar invisível aos olhos de todos, se materializando em cena de forma surpreendente. A cenografia e figurinos de Karlla de Luca permanecem dosada e adequadamente imaculados, da mesma forma que o videografismo de Fábio Jardim e a direção musical de Alexandre Elias, ficando o aprimoramento por conta do modo em que o “culto” é desenvolvido.  E quanto a esse compromisso, o Circuito Geral é testemunha que “O Pastor” queima!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Idéia Fixa


Amor, paixão e dúvida


Amor, paixão e dúvida – três sentimentos voláteis e transferíveis em atendimento à conveniência dos personagens do espetáculo “Idéia Fixa”, cujo texto, assinado por Adriana Falcão, retrata o estado de duas mulheres e um homem que não percebem, ou preferem não perceber, que os limites em que se encontram é pequeno demais para o tamanho de seus desejos.

A direção de Henrique Tavares retrata – com a clareza antagônica à cena em que se passa o drama – o egocentrismo arraigado em cada personagem, e a patologia da paixão – enquanto corpo e mente transitam em uma viagem temporal e passageira cujo roteiro é de total responsabilidade de cada um dos três protagonistas: Guta Stresser - que incorpora a personagem compromissada em formatar seus ideais sobre o amor verdadeiro, mas que acaba por perceber o tempo perdido com uma paixão que se tornou amor e que desaguou na dúvida; Sílvia Buarque – que se entrega à personagem desapegada e consciente de que o ser cultuado é apenas um produto de sua imaginação e não de carne e osso; e Rodrigo Penna – que assume ser a fonte de ciúmes, de insegurança, de egoísmo, de paixão, de amor e de dúvida.


O projeto de luz de Beto Bruel define seus focos com base no simbolismo e na virtualidade, aplicando suas apaixonadas e protetoras pinceladas lumínicas aos elementos que contemplam o projeto cenográfico de Ronald Teixeira, mais do que sobre os protagonistas – um caminho de folhas secas proveniente de uma trajetória indefinida, até uma mandala formada por revistas dispostas harmoniosamente no chão, definindo a base do drama; uma espiral formada por um bambu mossô aparentemente sem vida, definindo o espaço aéreo sob o qual pairam as dúvidas, as incertezas e o egocentrismo; delimitando o conjunto, as grades de uma gaiola são materializadas num modo intermitente pelos focos de luz concêntricos provenientes da gambiarra, bem acima da percepção dos espectadores – conjunto esse que delimita o universo no qual os personagens se aprisionam. Teixeira também assina o figurino, despojado, roto, esmaecido e envelhecido, em conformidade com o passar do tempo como se guardado numa gaveta ou esquecido dentro de um armário, tal e qual as vidas dos protagonistas, em curso pela acomodação e pelo conformismo. Tais condições são complementadas pelo visagismo de Chico Toscano que neutraliza as suas intervenções no semblante dos personagens, em especial nos de Guta e de Sivia, que ora aparentam serem imersas em ingenuidade infantil, ora mulheres amadurecidas e prontas a se entregarem à paixão incondicional. Preenchendo o apelo sensorial da dramaturgia, a trilha sonora de Penna e Ricco Vianna disciplina a razão a ponto de torná-la infalivelmente desapegada dos personagens, como uma paisagem sonora fora da lumínica gaiola virtual, de forma imperceptível aos ouvidos dos menos atentos às preciosas sutilezas inseridas no contexto das cenas de “Idéia Fixa” por um amor aprisionado e sedento por liberdade. 


fotos: assessoria de imprensa

No Coração do Mar


Dose cavalar de adrenalina durante um embate onde a caça é o caçador

Seguindo a tendência de elucidar as origens das histórias que fazem parte dos clássicos, sejam eles infantis ou juvenis, “No Coração do Mar”, sob a direção de Ron Howard, leva para as telonas a adaptação do livro homônimo escrito por Nathaniel Philbrick publicado em 2000.

Conta a história do baleeiro Essex que, em 1820 é atacado por um descomunal e enfurecido cachalote branco perseguido pela embarcação, naufragando logo em seguida. À deriva em três botes nas águas do Pacífico, tripulantes e pescadores sobreviventes ao naufrágio experimentam toda a sorte de provações por um período de três meses – fome, sede, doença e transgressões morais através do canibalismo como um dos últimos recursos visando à sobrevivência.  Historiador e profundo conhecedor dos assuntos marítimos, Philbrick conduz seu relato de forma tal a explicar as origens da obra publicada em 1851 pelo escritor e poeta norte-americano, Herman Melville – “Moby-Dick, a baleia branca”, por sua vez, baseado em fatos reais sobre o desastre marítimo envolvendo o Essex.

A produção, em estilo hollywoodiano, apresenta o ator Ben Whishaw, no papel de Melville – ainda muito inseguro de suas capacidades como escritor – que, a partir de um contato com o sobrevivente do naufrágio – o velho Thomas Nickerson, incorporado por Brendan Gleeson – consegue, depois de muita insistência, que lhe fosse relatado o que, de fato, se passou durante a fatídica viagem.

Comandado pelo capitão George Pollard (Benjamin Walker) e seu imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), a embarcação à vela parte com a sua tripulação em uma viagem que tem como meta, encher seus porões com dois mil barris de óleo de baleia. Contudo, a ganância pela busca por um dos principais recursos energéticos que movia a economia daquela época, resulta na destruição do baleeiro e na morte de quase a totalidade de sua tripulação e pescadores. As incríveis cenas panorâmicas transportadas para o cinema a partir de uma cidadela de pescadores e da aventura em alto mar abordam a temática da busca do homem civilizado pela sua prosperidade e sobrevivência, a despeito das intervenções junto à natureza, como se uma denúncia dos fatos que ocorrem impunemente no atual mundo capitalista, gerando a desigualdade de classes, a violência e a degradação do meio ambiente.

Por hora, “No Coração do Mar” ingressa na lista dos grandes clássicos do cinema com base na literatura juvenil, com dose cavalar de adrenalina durante um embate onde a caça é o caçador, e com a vitória da morte empunhada pela descomunal criatura marinha, levando à reflexão  sobre os limites da capacidade de sobrevivência humana.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Califórnia


Jovial e, ao mesmo tempo, saudosista, mas sem a intenção de decretar a moral da história.

Os anos 80 estão de volta no primeiro longa de Marina Person – “Califórnia”, onde a primeira menstruação, a primeira transa, a primeira perda e a primeira descoberta da vida se passam ao som da banda inglesa – The Cure; do músico, ator e produtor musical inglês – David Bowie; e da banda de rock brasileira – Titãs, dentre outros ícones daquela década.

Clara Gallo – no papel da protagonista Estela – sonha em passar as férias na Califórnia com o seu tio Carlos – interpretado por Caio Blat – que retorna ao Brasil de forma súbita e inesperada para surpresa da sobrinha.

“Califórnia” transcorre a partir de um roteiro jovial e, ao mesmo tempo, saudosista, mas sem a intenção de decretar a moral da história em meio às dúvidas e descobertas da jovem Estela.

Cena marcante, ao som de “The Caterpillar”, os espectadores são transportados para a telona, quando de um dos momentos mais libertadores do filme, em que Estela corre, cabelo ao vento, ao encontro do simples ato de viver – registrando um genuíno processo que empoeira as mentiras bobas do passado, em prol das verdades insanas do presente.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Festival Natura Musical 2015


Uma tempestade de ovações

Domingo, 29 de novembro de 2015, em meio a uma tarde chuvosa na praia de Copacabana, a temperatura se mantém elevada, em pleno posto 2 da Princesinha do Mar, por conta da quinta edição do “Festival Natura Musical”, pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro.

Respeitando o horário programado para seu início e contemplando uma programação eclética e de qualidade inquestionável, o Festival tem sua abertura decretada pela cantora carioca Karla da Silva, que apresenta as músicas do seu primeiro CD – “Quintal”. Enfrentando corajosamente a nebulosidade que já começa a encobrir o Corcovado, Karla da Silva e sua banda se mantém firme como um sinaleiro em alto mar, como chamariz de uma promissora plateia tarde a dentro, finalizando com “Fé”, Tempero e Amor” e “É D’Oxum”.

Dando sequência à programação do Festival, Tulipa Ruiz empolga a areia e a transforma em uma gigantesca pista de dança ao som de “Prumo” e de “Proporcional”, além de homenagear a cantora de axé – Sarah Jane. Diante da coreografia individual do seu grande público ao comando de suas músicas, Ruiz presencia o céu lavar as areias da praia, sem que isso afaste a plateia até o final de sua apresentação, sequer durante o entusiástico e aclamado show do rapper Emicida, que fecha a tarde do Festival com o acompanhamento uníssono do público, cantando “Casa”.

Sob a benção de uma trégua nas adversidades climáticas que aplaca a Cidade Maravilhosa, nesse fim de tarde, sob a forma de garoa, Chico César deflagra a sua apresentação com “Beradêro” e “Caninana”, importando o som do nordeste diretamente para a praia de Copacabana, enquanto contempla o seu público no embalo de “Palavra Mágica”. Cesar dá sequência ao seu show com “Da Taça” e ”Onde Estará o Meu Amor”, imbuídas de uma vestimenta em estilo beirando à “sofrência” e presenteia a plateia praiana com seu convidado especial – o cantor Marcelo Jeneci, que traz consigo a chuva, ainda mais intensa, ao entoar “Felicidade”.

Sob o véu da noite, o palco Natura Musical brilha com a atração principal do Festival – a cantora Gal Costa, que arrebanha uma cota adicional de espectadores para a pista de areia, sob ininterrupta e insistente garoa, da qual seus fãs se protegem – alguns com guada-sóis, outros com guarda-chuvas, alguns outros com capas de chuva e, a grande maioria, sem qualquer tipo de abrigo, numa demonstração de que pagam qualquer preço para presenciarem seu ídolo entoar, dentre outros sucessos, “Sem Medo Nem Esperança”.  A apresentação de Gal é delírio só, a partir de uma mescla de seus sucessos consagrados – como “Não Identificado” e “Baby” – com lançamentos do CD “Estratosférica” e da exposição de sua faceta rockeira com “Cartão Postal”, de Cazuza. Convidado especial de Gal, Milton Nascimento desempenha um duo com a estrela baiana ao som de “Paula e Bebeto”, e fecham a primeira edição carioca do “Festival Natura Musical” com “Fé Cega, Faca Amolada” debaixo de uma tempestade de ovações e aplausos em uma noite em que a chuva não dá trégua.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Victor Frankestein


Pouco empolgante


Uma nova versão cinematográfica da história de Frankenstein conta a história de “Victor Frankestein”, estrelando  - Daniel Radcliffe no papel do quasimodo auto didata, sensível  e maltratado por todos os integrantes do Circo no qual ele é obrigado a trabalhar; e James McAvoy, incorporando o cientista Victor que salva a criatura do Circo, lhe cura de sua corcunda e lhe dá o nome de Igor.

A combinação do roteiro pouco empolgante, de autoria de Max Landis, com a direção pálida de Paul McGuigan transforma a história – que não é a do monstro, mas sim do seu criador – em um produto dispensável, se não fossem as excelentes interpretações de Radcliffe e de McAvoy, e a sutil lembrança da história do mostro mais famoso do cinema, que faz valer a afirmação colocada por Igor, já no final da película: “As pessoas não vão lembrar de Frankestein – o homem, mas sim de Frankestein – o monstro”.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo


Vocês querem mais?

“A Mulher do Fim do Mundo” – título do espetáculo homônimo do 34º disco de Elza Soares, em curtíssima temporada no OI Casa Grande, Rio de Janeiro – síntese embrionária de um ícone da música popular brasileira. Noite de 1º de dezembro de 2015 – o Circuito Geral confere a surpreendente produção de um show que, pela brilhante sexagenária carreira da cantora, poderia assumir os moldes de um mero tributo. Ao contrário, Elza Soares presenteia toda uma legião de fãs e admiradores da música que se identificam com a sua postura diante da vida e dos princípios éticos e humanitários, com uma apresentação contemplando seu primeiro disco somente de inéditas de toda a sua trajetória.

Dando início ao espetáculo, o descortinar do palco revela uma mulher sentada no topo da boca de cena, como se em um trono ao qual faz jus, com suas vestes com ares de realeza, engenhosamente desenhadas e executadas com sacos de lixo, cuja trama da saia descende os degraus e se espraiam pelo palco como raízes que se fortalecem a partir da mãe terra. Diante da negra rotunda, Elza se destaca diante de um gigantesco cenário em formato de esplendor, igualmente executado com sacos de lixo, cuja magnificência é proporcional à grandeza de seu talento e representatividade dentre as vozes afro descendentes brasileiras.

O poema de Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik – “Coração do Mar” – abre a sequência de músicas que toma todos com emoção a partir de “Mulher do Fim do Mundo”, de Rômulo Fróes e Alice Coutinho. Sem deixar a mística do show ser descoberta antes de seu final, “O Canal”, música de Rodrigo Campos, com a sua estranheza rítmica beirando ao acústico  que extrapola os limites popularmente conhecidos, Elza detona o teor político com foco na atual crise hídrica – desenhando o roteiro do show a partir de forte comprometimento com a reflexão sobre diversos assuntos em voga no país. “Luz Vermelha”, de Kiko Dinucci e Clima, com pegada mais pesada atenuada com arranjo dançante, ensaia uma ameaçadora chamada para o início de uma monstruosa balada, diante da quantidade de espectadores que lota a sala de espetáculos, contaminadas pelos ritmos e arranjos de cunho experimental. “A Carne”, de Seu Jorge, Marcelo Yuca e Ulisses Capelletti - canção datada de 2002 que não faz parte do álbum, assume a responsabilidade de fazer com que todos se levantem de suas poltronas e ovacionem a cantora e compositora por não menos que cinco minutos, arrancando-lhe lágrimas de emoção e de agradecimento pela calorosa audiência. De forma comovente, Elza discursa sobre a violência contra as mulheres e detona “Maria da Vila Matilde” – que diz muito sobre o seu passado – transformado em um samba-punk de primeiríssima qualidade e comanda palavras de ordem junto ao o público presente, através do refrão “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Inesperadamente, como se o show não tivesse mais espaço para surpreender, eis que surge um convidado especial – o performático Rubi, dando imagem a forte “Benedita” com música e letra de Celso Sim. “Malandro”, de Jorge Aragão, música datada de 1976 e que também não faz parte do novo álbum, ganha uma nova roupagem com arranjo de instrumentos de cordas que fomenta desejo do público de fazer a segunda voz em parceira com Elza Soares.

Não é a primeira vez que Elza Soares se entrega à parceria de instrumentistas que a acompanham numa produção de forte cunho experimental. Dessa vez, com a seguinte banda, cuja omissão da menção dos músicos e respectivos instrumentos, seria como esconder o outro lado da moeda – Gulherme Kastrup, bateria e direção musical; Kino Dinucci, violão e guitarra; Rodrigo Campos, guitarra e cavaco; Luque Barros, baixo e synth; Felipe Roseno, percussões; a banda Bixiga 70 com Cuca Ferreira, sax barítono; Dasniel Nogueira, sax tenor; Douglas Antunes, Trombone; Daniel Gralha, Trumpet; o quarteto de cordas Qadril, com Mica Marcondes, violino; Elisa Monteiro, vola; Mariana Amaral, violoncelo e Alice Bevilaqua, violino.
Após a apresentação das belíssimas e líricas “Solto” e “Comigo”, ao cerrar das cortinas, o público, se dando conta do fim do espetáculo, se recusa a se retirar da plateia e, após algum tempo de ininterruptas palmas, a “Mulher do Fim do Mundo” cede à reivindicação de seus admiradores e retorna, perguntando aos seus súditos: “Vocês querem mais?” – com a graça e meiguice de uma adolescente, amadurecida pelas açoitadas que a vida lhe reservou, fortalecida pelo seu desempenho artístico e domínio de sua voz – que a capacita a duelar com toda a sorte de instrumentos e sintetizadores.

Ao ensurdecedor e durador brado do público – “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” em resposta ao comando de Elza Soares – “reconhece a queda e não desanima” – versos de Paulo Vanzolini – seguem o agradecimento aos presentes, o reconhecimento à equipe de produção do espetáculo, a devoção a Oxalá e a derradeira “Pressentimento”, de Elton Medeiros.

A emoção acompanha a retirada do Circuito Geral do Oi Casa Grande, certo de que o refrão entoado pela Mulher do Fim do Mundo – “me deixem cantar até o fim” não se trata de um simples verso de uma canção, mas um apelo de Elza Soares para o mundo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Sambra – O Musical, 100 anos de Samba


Mais do que um simples espetáculo para entretenimento dos admiradores do estilo.

As raízes que arborizaram a estrada que atravessa a Bossa Nova, o Partido Alto, o Pagode e os Enredos Carnavalescos são reverenciadas através de muita ovação, palmas, batidas de pés e gingados, no palco e na plateia, ao longo do espetáculo “Sambra - O Musical, 100 anos de Samba” – a partir do texto e sob a da direção, ambos assinados por Gustavo Gasparini – que discorre sobre tais referências musicais responsáveis pelo nascimento do samba.

A direção de movimento e coreografia assinada por Renato Vieira é impregnada pela tradição das rodas de samba e exalta a importância da cultura negra, com sua dança e sapateado de cadência rítmica – uma trajetória facilitada à compreensão do espectador muito em função da ambientação gerada pela direção de arte cenográfica por Hélio Eichbauer, transformado a boca de cena numa janela, hora com vista para um terreirão, hora para um banco no contexto de uma praça sob um céu enluarado, hora nos bastidores de um teatro dentro de outro teatro. O figurino, sob os cuidados de Marília Carneiro e Reinaldo Elias, define uma rica trajetória dos costumes de época juntamente com a evolução da musical dos bambas do samba, complementado pelo visagismo de Graça Torres que colore os atores com sua paleta, de forma nos festiva, conforme a demanda do gênero musical. Carlos Esteves assume o compromisso de invadir cada um dos espectadores com seu desenho de som de forma contagiante, crescente e retumbante em uníssono com o desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros que, simbolicamente e de forma mágica, é capaz de transformar a atmosfera de cunho religioso ou uma localidade qualquer em uma festa pagã com endereço certo, onde a contagiante celebração promove intensa luz para todos. Ilustrando visualmente todo o estímulo auditivo provocado pelos números musicais, o videografismo de Thiago Stauffer consolida o roteiro quase didático do espetáculo, garantindo-lhe identidade e sinergia entre palco e plateia, apelando, positivamente para a emoção, ao projetar diante da cortina de fundo, dentre diversas imagens, as de consagrados e  inesquecíveis ícones do samba. A preparação e arranjos vocais de Maurício Detoni formata a exposição dos artistas cantores sem criar hiatos temporais entre uma coreografia e outra, o que demanda fôlego e energia por parte do corpo de baile. “Sambra” conta com um elenco grandioso e de primeira linha, do qual, mencionar qualquer nome em destaque, seria incorrer em uma enorme injustiça.

Mais do que um simples espetáculo para entretenimento dos admiradores do estilo, “Sambra – O Musical, 100 anos de Samba” enriquece o cenário teatral que confere ao Brasil o título de terceiro maior produtor de musicais do mundo.

domingo, 29 de novembro de 2015

Ricardo III Está Cancelada ou Cenas da Vida de Meyerhold


"Como nossos Pais"


Os alunos formandos do segundo semestre de 2015 da Casa de Artes de Laranjeiras - CAL apresentam, sob a direção de  Bruce Gomlevsky,  “Ricardo III Está Cancelada ou Cenas da Vida de Meyerhold”, cujo texto original é de autoria de Matei Visniec.

Tão logo dá-se início ao espetáculo, o espectador se depara a complexidade de uma produção teatral inserida no contexto do próprio roteiro, com o totalitarismo do poder e com um labirinto emocional transfigurado em um campo de batalha disposto em cena, decorrente de um elaborado exercício dramatúrgico para a montagem de Ricardo III, concebido em uma época na qual a autocensura era o nosso politicamente correto de hoje.

A trilha sonora, igualmente assinada por Gomlevsky, transita entre a lavagem cerebral que alguns personagens são submetidos até a truculência que bate com força, a ponto de subjugar a sensibilidade do espectador. O figurino de Carol Lobato e Tiago Ribeiro remete aos anos de chumbo e, ao mesmo tempo, a uma carnificina pós moderna, de forma tão dramática quanto o desenho de luz de Elisa Tandeta, aliando a preciosidade de uma história de Shakespeare à censura política da vida de Meyerhold, desbotando as cenas, como se fossem negativos de uma já aposentada câmera fotográfica. O projeto cenográfico de Pati Faedo prima pela sua eficiência e simplicidade delineada pelas luzes de Tandeta, como croquis rascunhados quando da concepção de sua estrutura tubular, juntamente com outros elementos que remetem a uma oficina de teatro, cuja secura é quebrada pelo vermelho dos elementos que dão acesso ao poder, custe o sangue que custar.


Em um dado momento, a recém formada trupe se coloca no caminho da liberdade suprema, ao dedicar toda uma cena entoando “Como nossos Pais” – de Belchior, mesmo ciente do risco de se tornar enfadonha ou um simples apêndice sem nada a acrescentar à mística de uma obra dentro de outra obra, recheada de simbolismos, enaltecendo a inocência da morte e se prevalecendo das maldades da vida.