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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O Branco dos seus Olhos



Uma obra conclusiva, contemplando início, meio e fim, sendo, os dois primeiros, debruçados em reflexões e fantásticas deduções.

O dramaturgo Álvaro Campos estréia a sua carreira com um texto bem consolidado, forte e atual – “O Branco dos seus Olhos”, promovendo um espetáculo retilíneo e estrelado por um trio de atores que endossam a sua competência na condução dos papéis a eles designados. A montagem transforma, nesta temporada, o palco do Teatro Poeira, em Botafogo, numa arena onde se desenvolve o thriller psicológico, capturando toda a atenção e envolvendo a plateia de forma arrebatadora. Passado e presente se misturam de forma emblemática e coloca todos frente a frente a um futuro que, a partir do advento da internet, ninguém é necessariamente quem, realmente, se diz ser, da mesma forma que os segredos não são mais pessoais e intransferíveis – comprovadamente através de inúmeras postagens que mantém os adeptos às redes sociais conectados, como se contaminados por um vírus cuja inoculação promove, de acordo com a vulnerabilidade do hospedeiro em potencial, os mais variados sintomas.
“O Branco dos seus Olhos” é uma obra repleta de figurações, em função do timing do espetáculo, não tão passíveis de fácil identificação e assimilação, até mesmo pelo espectador mais atento, como se durante o processo de degustação de uma obra literária, permitindo-lhe releituras e grifos. Em função disso, o Circuito Geral, toma a liberdade de chamar a atenção dos companheiros espectadores para alguns pontos significativos que merecem especial atenção. A assinatura de Alexandre Mello na direção geral e de arte e no projeto cenográfico, em consonância com a iluminação cênica de Renato Machado transforma a sala de espetáculo em espaço quase adimensional, não fosse a marcação de cena delimitada por um retângulo definido por uma fita zebrada de sinalização de interdição de área, onde alguns elementos de composição do cenário – volumétrica e cromaticamente contrastantes e complementares - foram previamente eleitos para estarem dentro ou fora do polígono, sob o marcante controle de uma catraca escarlate. Da mesma forma, os personagens, ora dentro, ora fora daquele espaço, interagem como nos limites de um ringue de combate, sob a dramaticidade dos focos de luz concentrados ou sob um banho de luz difusa promovida por uma teia suportando fontes luminosas pontuais, incluindo, nessa segunda configuração, a plateia, no contexto de uma possível alusão à difusão das redes sociais. Os flashes de coreografia exibida e dirigida por Fabiano Nunes também devem ser apreciados em conjunto com o tratamento lumínico que dramatiza as cenas de dança. Tal interdependência, em alguns momentos, pode deixar os espectadores ávidos para que a operação de luz acompanhe, de forma mais marcante, o desenvolvimento da partitura corporal do bailarino, vez em outra, permanecendo na penumbra – impressão essa que também leva em consideração a possibilidade do “bailarino sob penumbra” estar inserido no contexto das figurações concebidas por Mello e Campos.
“O Branco dos seus Olhos” é uma obra conclusiva, contemplando início, meio e fim, sendo, os dois primeiros, debruçados em reflexões e fantásticas deduções, e permitindo-se o direito a um final menos mirabolante – contudo, eficaz e esclarecedor.

As duas últimas apresentações do espetáculo no Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro, acontecem hoje, dia 25, e amanhã dia 26 de fevereiro de 2015, às 21:00.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

No Gogó do Paulinho


O fio condutor do gaiato contador de histórias é definido pelos absurdos e bizarros relatos de seu personagem Paulinho Gogó

O humorista Maurício Manfrini fará as última apresentações do seu stand up comedy - “No Gogó do Paulinho”, no Teatro dos Grandes Atores, na Barra da Tijuca, nos dias 27 e 28 de fevereiro e 1º de março de 2015.
O fio condutor do gaiato contador de histórias é definido pelos absurdos e bizarros relatos de seu personagem Paulinho Gogó - um típico malandro suburbano, dotado de uma considerável fluência discursiva, apesar de sua cômica dislexia identificada pelos espectadores, à gargalhadas, a cada equívoco no emprego de palavras com sonoridade semelhante. Manfrini lança mão de um vocabulário e expressões de baixo calão, muitas vezes, escatológicos, mas o faz com segurança através de expressões faciais e gestual capazes de atenuar a atmosfera chula que se abate sobre a plateia, porém, muito bem recebida pelos espectadores que vêm lotando a sala de espetáculo. Craque na inserção de cacos e no improviso, possui dom e carisma em altas doses que facilitam a tão benvinda e aclamada interação com o seu público.
Apesar da reconhecida fama de Manfrini junto ao programa humorístico transmitido pela TV aberta, “No Gogó de Paulinho” não carece de conhecimento prévio do protagonista pelos que ignoram a sua trajetória artística, sendo capaz de distrair e extrair risos dos mais céticos quanto à tipologia de humor apresentada.


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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sim! Eu Aceito! – O Musical do Casamento


É o leito nupcial da parceria amorosa onde, quando as palavras não são suficientes para traduzir

Um dos mais consagrados musicais da Broadway, datado de 1966 – “I Do! I Do!”, com texto de autoria de Tom Jones, ganha uma versão de Flávio Marinho, intitulado “Sim! Eu Aceito! – O Musical do Casamento”, estrelado por Sylvia Massari e Diogo Vilela, protagonizando Michael e Agnes.
“Sim! Eu Aceito!” é uma viagem às mil facetas do sentimento mais contagiante do mundo - o amor, apresentando uma sequência de possíveis sintomas desde a empolgação inicial, passando pela solidão, ancorando no porto seguro da maternidade, culminando na saturação, desaguando na cumplicidade e debelado pelo companheirismo.
A direção de Cláudio Figueira lança mão da química entre Sylvia e Diogo para a definição da temporalidade do relacionamento do casal, através dos timbres vocais, do gestual, das expressões faciais e da sensibilidade de cada um dos atores na personificação dos personagens, a partir da dosagem correta de humor e de drama, visando à assimilação, por muitos da plateia, da vida à dois, como foi, como está sendo e como poderá ser – um show de competência à múltiplas mãos.
Fazem parte indissociável da requintada e zelosa produção, o projeto cenográfico e figurino assinados por Clívia Cohen, o desenho de luz de Marco Cardi e a caracterização de Sergio Azevedo que, através de sutis alterações dos elementos e objetos complementares de cena, da evolução do vestual, das alterações cromáticas lumínicas e do delicado visagismo, dão tons distintos à cronologia das cenas, tendo como base, o quarto do casal. A extensa composição linear das peças de mobiliário, tendo como eixo da boca de cena, uma cama de casal, promove a leitura, por parte dos espectadores, do distanciamento e da aproximação de cada um dos enamorados, nubentes e cônjuges ao longo de sua trajetória em comum, à despeito da participação em off de sua prole – Michael Jr. e Elizabeth.

 “Sim! Eu Aceito! – O Musical do Casamento” é o leito nupcial da parceria amorosa onde, quando as palavras não são suficientes para traduzir,  a música complementa e, então,  tudo é compreendido. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Martinho da Vila - Enredos e Sambas


O Circuito Geral teve o privilégio de estar presente - juntamente com uma plateia que lotou o Teatro Bradesco, no Village Mall - ao show de comemoração do aniversário de Martinho da Vila, que completou 77 anos de idade no dia 12 de fevereiro de 2015.
No palco, despojado como se num terreiro de samba, o artista endossa a sua maturidade cronológica e artística acolhendo a plateia como convidados a participar do seu seio familiar, imersos nesse show intitulado “Enredos e Sambas”, demostrando, ao vivo e à cores que, em sua casa, todo mundo samba. Martinho dá início ao show com seu cantarolar em capela, homenageando Noel Rosa com “A Presença do Poeta” e abre seu coração, com “Todos os Sentimentos”, numa declaração pública de amor a Cléo Ferreira, sua atual esposa.
A familiaridade com as músicas compostas e interpretadas por Martinho, fruto de quase cinquenta anos de uma carreira de sucesso, promove uma saudável falta de cerimônia para com o artista, resultando num coro composto pelos espectadores que respeitosamente acompanha o artista em canções como  “Disritmia” e “Ex Amor”.

A banda se molda à ginga e o jeito doce que Martinho entoa seus versos, composta por Claudio Jorge (violão), Ivan Machado (baixo), Paulinho Black (bateria), Wanderson  Martins (cavaquinho), Kiko Horta (Teclado), Victor Neto (Sopros), e dois componentes de sua talentosa prole - Tunico da Vila (percussão) e Juju Ferreirah (vocal).

Em continuidade à apresentação dos bambas de sua casa, sua filha pianista, Maíra Ferreira, abrilhanta a comemoração com sua interpretação de “Último Desejo” e oficializa a abertura do carnaval “chic” com “Máscara Negra” e “O Show Tem Que Continuar”, dando continuidade à apresentação do anfitrião Martinho que, através de mais um de seus sucessos, lamenta o dia que sonhou que não sonhava.
A descontração se abate ainda mais sobre a plateia quando Martinho chama ao palco Mart’nália, que soma à sua apresentação de “Devagar, Devagarinho” e de “Casa de Bamba”. A irreverente e cativante a artista se agiganta em cena, apresentando solo, alguns de seus sucessos, tais como: “Entretanto” e “Cabide”.

A participação familiar se consagra no espetáculo e a informalidade transportam, carinhosamente, o espectador para a casa de Martinho – dessa vez, com a presença de mais uma talentosa intérprete, sua filha Analimar Mendonça – sem deixar de lado todas as qualidades de um show imerso numa atmosfera apoteótica, quando todos se reúnem entoando “Kizomba, A Festa Da Raça”. O sucesso que marca o primeiro título do carnaval carioca conquistado pela Unidos de Vila Isabel, é homenageado com a apresentação do primeiro mestre-sala - Diego Machado, e da primeira porta-bandeira - Dandara Ventapane - neta de Martinho.

 

Após a “dispersão”, o público é levado à exaustão emocional com “Mulheres” e “Madalena do Jucu”. Sob o clamor do público pelo bis, a família  lidera, junto à plateia, uma seleção de marchinhas carnavalescas consagradas, como “Aurora”, “Pra Você Gostar De Mim”, “Linda Lourinha” e “Cidade Maravilhosa”.

 


“Enredos e Sambas” é um presente do aniversariante para todos os espectadores que compareceram a essa memorável festa.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Dzi Croquettes em Bandália


Uma ode à resistência e de que dias melhores podem nunca chegar

A história política e cultural de um país resumida em um espetáculo alucinante e debochado – dessa forma o Circuito Geral assimila o espetacular “Dzi Croquettes em Bandália”.
A partir de um humor inteligente e constrangedora irreverência, Dzi Coquettes usa a masculinidade para falar da fragilidade do ser humano a partir de atores e bailarinos que instigam, incitam, excitam e divertem, fazendo com que o espectador sinta nos nervos os efeitos nocivos promovidos por censuras ditatoriais atemporais.
Dzi Croquettes exala testosterona e encara qualquer tipo de preconceito ou preceito, como numa luta pela proibição ao ato de se proibir. A concepção, texto e direção do espetáculo por Ciro Barcelos são decisivas para o seu sucesso. O criterioso, preciso e despojado projeto cenográfico assinado por Pedro Valério, atende de forma funcional as marcações de cena e ao estratégico posto de Demetrio Gil – que além de incorporar um dos personagens, é diretor musical e responsável, juntamente com Flaviola, pela eletrizante trilha sonora. Claudio Tovar, através de seu figurino, orna os artistas surpreendentemente, com roupas e adereços - em sua maioria, dotados de extrema feminilidade – sem roubar-lhes a força de sua masculinidade. Colorindo a boca de cena, sob os efeitos de uma atmosfera esfumaçada, quase que permanente, o desenho de luz, de Aurélio de Simoni - sujo e friamente, compõe de forma seca e deslumbrante todas as impurezas que um ser humano é capaz de despejar nos oprimidos, acompanhando e abrilhantando a “pièce de résistance” do espetáculo – a coreografia assinada por Ciro Barcelos, Lennie Dale e convidados.

Os minutos finais de “Dzi Croquettes em Bandália” são tomados pelo resumo de todas as expressões artísticas presentes no espetáculo, quando derramada sobre a plateia a emocionante declamação de “Borboletas também Sangram”, de Bayard Tonelli, por ele mesmo, incorporando uma bizarra e encantada personagem -  uma ode à resistência e de que dias melhores podem nunca chegar, mas o fim do espetáculo, infelizmente, sim.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Antiga



Questionamentos e reflexões impregnadas de emoção 

Simplesmente imaginem - de uma hora para outra, perceber estar num lugar, não saber aonde fica, estar acompanhado por pessoas e não ter à menor idéia de quem são.
“Antiga”, de autoria de Gustavo de Damasceno, retrata essa bizarra hipótese com base em dezenas de horas de depoimentos reais, por parte de pessoas que vivenciaram tragédias, alegrias, encontros e desencontros - em suma, viveram ou vivem bem ou mal consigo mesmas. Transportado para o palco, o espetáculo tem a surpreendente e requintada direção de Charles Asevedo que, através de sua sensibilidade aplicada ao seu trabalho, transporta o espectador para um mundo paralelo, repleto de contradições, de fortes choques de realidade e imerso em surrealismo, durante setenta minutos de pura introspecção. As atrizes Regina Sampaio, Flavia Pucci e Daí Fiorati expressam, suntuosamente, questionamentos e reflexões impregnadas de emoção - um verdadeiro deleite em privilegio de uma plateia seleta, capaz de identificar especial empenho e qualidade uníssona na incorporação do trio no que lhe cabe como personagem.
O projeto de cenografia e figurino de Analu Prestes é primorosamente relacionável aos personagens, definindo, nitidamente, os hiatos temporais explicitados, porém, em tempo real perante a platéia. O desenho de luz de Rodrigo Portella é como água no deserto – insere todos numa escuridão não compartilhada com a protagonista, sendo ela iluminada de forma misteriosa e ao mesmo tempo reveladora. Através de inovadores recursos lumínicos cênicos, Portella dramatiza e redimensiona as proporções do palco e do foco visual dos espectadores como se lançasse mão de recursos de computação gráfica numa película, em plena sala de espetáculo teatral, independente de suas reais dimensões.
“Antiga” é autêntico enquanto deseja ser um conto de fadas, porém nunca o será. Ciente disso, nítida e perversamente, joga no colo do espectador tal intenção. E sob essa ótica, o Circuito Geral extrai uma pérola de um conto tido como infanto-juvenil – visando contribuir para o melhor entendimento, não do espetáculo, mas do que “Antiga” é capaz de provocar:

“Você não deve viver a vida como outras pessoas esperam que você viva; tem que ser sua escolha, pois quando estiver lutando, você estará sozinho” – Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas).

A Moça da Cidade


Difícil e lamentável é desligar o rádio ao final do espetáculo.

A atmosfera criada, quando da entrada do público na sala de espetáculo, visa à preparação de toda a plateia para o que há de vir, através de um fundo musical que os remete ao som de uma “bolacha” rotação 78 lida por uma eletrola datada dos meados do século XX, com todos os ruídos aos quais tem direito – singelas boas vindas de Rodrigo Pandolfo ao seu primeiro trabalho como diretor teatral. O conto - adaptado do original de autoria de Anderson Bosh, retrata uma inquieta jovem nordestina tentando concluir o seu curso ginasial no Rio de Janeiro - é narrado e encenado nos moldes das radionovelas, como se os espectadores estivessem nos bastidores da Radio Nacional, ou para os mais capazes de sublimar o local onde se encontram, na Santa Paz de seus lares, diante de seu rádio à válvula e que, de suas poltronas, só sairão após o término da história que dá nome ao espetáculo – “A Moça da Cidade”.
A montagem é acolhedora e coberta de magia, embalada, de tempos em tempos, por uma saudosa trilha sonora – para os que a identifica como tendo feito parte de suas vidas, ou simplesmente por fazer parte de seu acervo cultural – também criteriosamente definida por Pandolfo, dentre jingles comerciais e músicas românticas.
O projeto cenográfico, assinado por Miguel Pinto Guimarães, cria os bastidores de uma emissora de rádio, definidos por seus postos de trabalhos básicos, executados de forma muito próxima ao real daquela época. Planos verticais estruturando tecidos translúcidos servem como tela de projeção, fragmentos de boca de cena onde ocorrem cenas paralelas e secundárias ao cerne da narrativa e recanto sugestivo para a encenação dos magos da sonoplastia – profissionais responsáveis pela qualidade da interpretação da mente do espectador através de sensações, emoções, imagens, cores, impressões de movimentos, tempo e espaço. A precisa operação do iluminador Tomás Ribas faz com que a emissora se metamorfoseie em pensão, numa sala de cinema e em todos os pontos da cidade que a moça percorre durante a sua trajetória, transformando a escuridão em momentos compartilhados com o rádio ou em suaves momentos quando um sonho se desfaz. O figurino de Bruno Perlatto é adequado ao tempo em que se passa a história – saudosista, sem ranço de antiguidade – de forma experimental e agradável aos olhos. A eficiente preparação corporal de Ana Achcar só acrescenta à competente atuação dos atores Vitor Varandas, Gabriel Delfino Marques e Lu Camy.
Tudo isso e muito mais acontece no palco de “A Moça da Cidade”, como numa demonstração, quase didática, de como a arte é produzida e reproduzida – plástica, divertida e, ao mesmo tempo, emocionante.
“A Moça da Cidade”, com apresentações na sala Fernanda Montenegro, no Teatro Leblon – Rio de Janeiro, às terças, quartas e quintas-feiras às 21:00, até 12 de março de 2015, tem a duração de uma radionovela das antigas. Difícil e lamentável é desligar o rádio ao final do espetáculo.


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Cassia Eller


O hilário depoimento de Ângela Rô Rô sobre a canção “Malandragem” são pérolas que refletem a marcante personalidade de Cássia Eller

São cento e dez minutos de intensa emoção e de descobertas sobre a mais inquietante dentre as artistas nacionais – a produção cinematográfica “Cássia Eller” desnuda toda a sua estrondosa carreira.
A tecnologia do videografismo, habilmente utilizada ao longo de todo o trabalho, manipula camadas de imagens bidimensionais temporalizadas, transformando a escassez de pixels das imagens do século passado em verdadeiras obras de arte estilo pop, nesse marco da cinematografia bibliográfica, travestida em documentário, sob a direção de Paulo Henrique Fontenelle.
Os testemunhos de Nando Reis, de Zélia Ducan, de Oswaldo Montenegro e o hilário depoimento de Ângela Rô Rô sobre a canção “Malandragem” são pérolas que refletem a marcante personalidade de Cássia Eller que, através do forte controle de sua voz, meandrava dentre sucessos de Edith Piaf a Nirvana.
Assistir ao trabalho de Fontenelle é se entregar às lembranças de tantos sucessos como ao som do melhor de uma celebridade, modesta por auto julgamento - que rasgava o couro com os dentes e beijava uma flor sem machucar.


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Meu Nome é Reginaldson


Pode ser um título engraçado, mas vai muito além do significado dessa palavra. 


Existe uma linha tênue entre a carência e o excesso e, da mesma forma, entre a comédia e o drama. “Meu Nome é Reginaldson” excede, com seu texto concebido por Fernando Ceylão, que também é o principal e único ator do espetáculo - apesar da multiplicidade de personagens, o que demanda máxima desenvoltura à qual responde com muito talento. Apesar de sua veia cômica dar uma boa química ao conectar o seu nome ao humorista, a dramaticidade presente nas vidas representadas no espetáculo é passível de vergonha alheia, tamanha a força com que Ceylão humaniza os personagens, tornando-os críveis, enquanto problemáticos, invejosos, medíocres, maléficos e psicopatas. Sob a direção de Bruce Gomlevsky, a dupla coloca em cheque o estereótipo que muitos humoristas adoram interpretar. 
A partir de determinado ponto, o espetáculo torna-se melancólico e as gargalhadas projetadas pelo espectador se desviam do roteiro e atingem, em cheio, a máxima que argumenta que não há nada melhor do que a miséria alheia para aliviar as suas próprias – o que pode ser interpretado como uma transformação de momentos de lazer e diversão num exercício de egoísmo e de falta de solidariedade.
O espetáculo conta com o cenário muito bem concebido por Pati Faedo - remetendo aos quadrados agrupados de Mondrian, porém vazados, dando vez a um fundo infinito – que desenha um apartamento que pode ser interpretado como um cativeiro no qual muitos se colocam ou são colocados por alguns.  O desenho de luz de Elisa Tandera, o figurino de Ceylão e, até mesmo o som, cuja operação fica a cargo de Thiago Monteiro, são compatíveis com excelente nível de produção dedicado ao espetáculo. Com isso, endossa-se o respeito com o qual os apoiadores foram tratados pela equipe e para com os espectadores que se interessam pelo tema apresentado, ou com aqueles que, simplesmente, pagam para ver.

“Meu Nome é Reginaldson” pode ser um título engraçado, mas vai muito além do significado dessa palavra.