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sábado, 7 de fevereiro de 2015

A Moça da Cidade


Difícil e lamentável é desligar o rádio ao final do espetáculo.

A atmosfera criada, quando da entrada do público na sala de espetáculo, visa à preparação de toda a plateia para o que há de vir, através de um fundo musical que os remete ao som de uma “bolacha” rotação 78 lida por uma eletrola datada dos meados do século XX, com todos os ruídos aos quais tem direito – singelas boas vindas de Rodrigo Pandolfo ao seu primeiro trabalho como diretor teatral. O conto - adaptado do original de autoria de Anderson Bosh, retrata uma inquieta jovem nordestina tentando concluir o seu curso ginasial no Rio de Janeiro - é narrado e encenado nos moldes das radionovelas, como se os espectadores estivessem nos bastidores da Radio Nacional, ou para os mais capazes de sublimar o local onde se encontram, na Santa Paz de seus lares, diante de seu rádio à válvula e que, de suas poltronas, só sairão após o término da história que dá nome ao espetáculo – “A Moça da Cidade”.
A montagem é acolhedora e coberta de magia, embalada, de tempos em tempos, por uma saudosa trilha sonora – para os que a identifica como tendo feito parte de suas vidas, ou simplesmente por fazer parte de seu acervo cultural – também criteriosamente definida por Pandolfo, dentre jingles comerciais e músicas românticas.
O projeto cenográfico, assinado por Miguel Pinto Guimarães, cria os bastidores de uma emissora de rádio, definidos por seus postos de trabalhos básicos, executados de forma muito próxima ao real daquela época. Planos verticais estruturando tecidos translúcidos servem como tela de projeção, fragmentos de boca de cena onde ocorrem cenas paralelas e secundárias ao cerne da narrativa e recanto sugestivo para a encenação dos magos da sonoplastia – profissionais responsáveis pela qualidade da interpretação da mente do espectador através de sensações, emoções, imagens, cores, impressões de movimentos, tempo e espaço. A precisa operação do iluminador Tomás Ribas faz com que a emissora se metamorfoseie em pensão, numa sala de cinema e em todos os pontos da cidade que a moça percorre durante a sua trajetória, transformando a escuridão em momentos compartilhados com o rádio ou em suaves momentos quando um sonho se desfaz. O figurino de Bruno Perlatto é adequado ao tempo em que se passa a história – saudosista, sem ranço de antiguidade – de forma experimental e agradável aos olhos. A eficiente preparação corporal de Ana Achcar só acrescenta à competente atuação dos atores Vitor Varandas, Gabriel Delfino Marques e Lu Camy.
Tudo isso e muito mais acontece no palco de “A Moça da Cidade”, como numa demonstração, quase didática, de como a arte é produzida e reproduzida – plástica, divertida e, ao mesmo tempo, emocionante.
“A Moça da Cidade”, com apresentações na sala Fernanda Montenegro, no Teatro Leblon – Rio de Janeiro, às terças, quartas e quintas-feiras às 21:00, até 12 de março de 2015, tem a duração de uma radionovela das antigas. Difícil e lamentável é desligar o rádio ao final do espetáculo.


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