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sábado, 7 de fevereiro de 2015

Antiga



Questionamentos e reflexões impregnadas de emoção 

Simplesmente imaginem - de uma hora para outra, perceber estar num lugar, não saber aonde fica, estar acompanhado por pessoas e não ter à menor idéia de quem são.
“Antiga”, de autoria de Gustavo de Damasceno, retrata essa bizarra hipótese com base em dezenas de horas de depoimentos reais, por parte de pessoas que vivenciaram tragédias, alegrias, encontros e desencontros - em suma, viveram ou vivem bem ou mal consigo mesmas. Transportado para o palco, o espetáculo tem a surpreendente e requintada direção de Charles Asevedo que, através de sua sensibilidade aplicada ao seu trabalho, transporta o espectador para um mundo paralelo, repleto de contradições, de fortes choques de realidade e imerso em surrealismo, durante setenta minutos de pura introspecção. As atrizes Regina Sampaio, Flavia Pucci e Daí Fiorati expressam, suntuosamente, questionamentos e reflexões impregnadas de emoção - um verdadeiro deleite em privilegio de uma plateia seleta, capaz de identificar especial empenho e qualidade uníssona na incorporação do trio no que lhe cabe como personagem.
O projeto de cenografia e figurino de Analu Prestes é primorosamente relacionável aos personagens, definindo, nitidamente, os hiatos temporais explicitados, porém, em tempo real perante a platéia. O desenho de luz de Rodrigo Portella é como água no deserto – insere todos numa escuridão não compartilhada com a protagonista, sendo ela iluminada de forma misteriosa e ao mesmo tempo reveladora. Através de inovadores recursos lumínicos cênicos, Portella dramatiza e redimensiona as proporções do palco e do foco visual dos espectadores como se lançasse mão de recursos de computação gráfica numa película, em plena sala de espetáculo teatral, independente de suas reais dimensões.
“Antiga” é autêntico enquanto deseja ser um conto de fadas, porém nunca o será. Ciente disso, nítida e perversamente, joga no colo do espectador tal intenção. E sob essa ótica, o Circuito Geral extrai uma pérola de um conto tido como infanto-juvenil – visando contribuir para o melhor entendimento, não do espetáculo, mas do que “Antiga” é capaz de provocar:

“Você não deve viver a vida como outras pessoas esperam que você viva; tem que ser sua escolha, pois quando estiver lutando, você estará sozinho” – Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas).

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