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segunda-feira, 30 de março de 2015

Tomo Suas Mãos Nas Minhas


Implacável habilidade de não nomenclaturar os sentimentos que nascem com o tempo

Um dos mais famosos escritores e dramaturgos russos de todos os tempos - Anton Pavlovitch Tchecov - é desnudado de forma poética e emocionante em “Tomo Suas Mãos Nas Minhas”, sob direção de Leila Hipólito. Também responsável pela tradução e adaptação do texto dessa sedutora montagem, Hipólito, imbuída de um profissionalismo desmedido e que salta aos olhos do público, elege uma ficha técnica que prima não menos do que pela excelência em qualidade.

Assistir a esse espetáculo equivale consumir visualmente a obra de Tchecov, fartamente ilustrada, onde a iluminação de Maneco Quinderé, concebida com requintes de pinturas clássicas renascentistas, pincela as cenas com inigualável jogo de luz, sombras e cores. O preciosismo cênico com que o trabalho de Hipólito é regido, também se deve aos conceituados projetos cenográficos e de figurino assinados, respectivamente, por Fernando Mello da Costa e por Kika Lopes, em harmoniosa fusão simbiótica. A aconchegante rusticidade da atmosfera amadeirada, quente e dramática, onde se passam as cenas, é capaz de estimular o olfato dos espectadores mais sensíveis ao mesmo tempo que captura a essência dos personagens envolvidos. Um terceiro sentido também recebe o afago da diretora – a audição, através do equilíbrio obtido entre a sedutora feminilidade da voz de Miriam Freeland – no papel de Olga Knipper, a companheira de correspondências e de vida do médico que se rendeu ao teatro; a aveludada masculinidade da voz de Roberto Bomtempo – no papel do protagonista, seu combalido esposo; e a sonoridade da trilha musical assinada por Alexandre Pereira, que de tempos em tempos, age como liga, engajando o contexto ao todo dessa obra teatral. Freeland traduz, de forma fascinante e suavemente palatável, a relação do escritor com suas obras – “As Três Irmãs”, “A Gaivota”, “Tio Vânia” e “O Jardim das Cerejeiras”, em perfeita sintonia com a autoridade técnica de Bomtempo que, imerso no personagem, consegue trazer à tona o fascínio por Tchecov, através do qual o espetáculo se propõe junto ao espectador.

“Tomo Suas Mãos Nas Minhas” transborda, em romantismo, uma história de vida com todos os ingredientes da melancolia, da tristeza e de muita dor, que transita pelo virtuosismo da distância à implacável habilidade de não nomenclaturar os sentimentos que nascem com o tempo.

O espetáculo cumpre a sua temporada no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, até o dia 12 de abril de 2015, às sextas e aos sábados, às 21:30 e aos domingos, às 20:00.



sábado, 28 de março de 2015

Vortice Dance Company - “Your Majesties, Welcome to the Anthropocene



Um grito de alerta quanto à falência dos homens como seres dominantes na face da Terra

A inspiração dos coreógrafos Claudia Martins e Rafael Carriço é materializada, de forma espetacular, em duas únicas apresentações no Rio de Janeiro. Na estréia ocorrida no dia 27 de março de 2015, o Circuito Geral presenciou a imponente performance que discorre sobre seres – os humanos, o ser natureza, o ser planeta e a essência de ser em meio a tantos dilemas – consagrando o mais recente trabalho da lusitana Vortice Dance Company intitulado “Your Majesties, Welcome to the Anthropocene”.

Embora subliminar, a mensagem de “Your Majesties” é uma impactante constatação e um grito de alerta quanto à falência dos homens como seres dominantes na face da Terra - cada vez mais solitários e egoístas. Sua meta é levar ao público sua versão do fatal distanciamento e das possibilidades de aproximação entre seres desprovidos de capacidade emocional, da ambiguidade entre a falta de solidariedade e a crescente aceitação da banalização do desamparo, e da eliminação do diálogo corpo a corpo dando vez à comunicação através de dispositivos e ícones. Além da linguagem simbólica fartamente utilizada durante o espetáculo, “Your Majesties” lança mão do idioma inglês na sonorização de discursos e vocábulos projetados a despeito da linguagem corporal que se basta para a compreensão do conteúdo do espetáculo por parte da plateia.

Para isso, a produção do espetáculo abusa da tecnologia de ponta para transmitir aos espectadores - através de recursos cênicos que conjugam cenários, coreografias, vídeos e desenhos de luz e de som, incluindo a eletrizante trilha sonora, na qual se destaca Radiohead – Pyramis Song (Zed Dead Illuminati Remix) - o choque entre as relações humanas e sociais sob a mira da globalização que alimenta o cenário de uma guerra fria, no sentido literal e aterrorizante do termo.

Quem Matou Laura Fausto?



Um produto de qualidade, lapidado a partir da valorização de fragmentos transformados em espetáculo.

Na sala de espetáculos, ainda imersa no breu da escuridão, antes mesmo do descerramento do palco, ouvem-se gritos de mulher, supostamente, vítima de uma ação violenta. O espectador atônito, não sabe do que se trata, o que ocorreu, como se sucedeu e o que teria sido o agente detonador de tal desespero. Abrem-se as cortinas - luz, olhares dos espectadores, ação – dá-se início a uma instigante e criativa história de suspense envelopada por uma pergunta latente e perturbadora: “Quem Matou Laura Fausto?” - uma trama concebida sob a solidez do texto de Gustavo Berriel e Raphael Antony, que aproxima a plateia em fina sintonia com os personagens e aguça a curiosidade de todos quanto à identidade do assassino. Como num transe coletivo, o espectador se resguarda em silêncio, até mesmo nos momentos que o texto sugere algum humor, de certa forma, não muito correspondido pela plateia como se qualquer manifestação de riso pusesse em risco a sua linha de raciocínio em busca de alguma pista que possa levar ao homicida de Laura.

Conduzidas por um elenco bem entrosado, a partir da direção de Antony e de seu assistente Felipe Miguel, as cenas se tornam prazerosas aos olhos de quem as vê, gerando toda uma instantânea empatia junto ao público a partir dos dilemas e personalidades dos personagens: a conturbada relação entre as irmãs Arieta e Rebeca, incorporadas por Adriana Torrres e Katya Alessi; os segredos do genro Egídio, vivido por Raphael Antony; a lascívia da secretária Sheila, encenada por Ilona Wirth; a fidelidade do mordomo e da “criada muda”, defendida por Gustavo Berriel e Cecília Vaz; e o alter ego inflado do inspetor Lino Martino, dominado por Marcello Andreata.

“Quem matou Laura Fausto?” é um espetáculo no qual, o mais importante é a história contada, que não se prende à temporalidade, dando margem para que, tanto os projetos de figurino e de cenário, assinados pela Cia Objetores se permitam ousar na falta de escala e na mistura de estilos, de forma quase caricata, contudo, mantendo a atmosfera tipicamente inglesa, conforme a veia criativa condutora desse thriller – o que torna a sua concepção, pessoal e intransferível. A Iluminação de Ericeira Jr. corrobora com o mistério instaurado na mansão e, algumas vezes, atua como spoiller, para a compreensão de algumas cenas que exigem textos longos. A trilha sonora é um outro tiro certeiro, ratificando a liberdade temporal inserida no espetáculo, com a execução de “It Had To Be You”, conduzida pelo vocal de um dos personagens, de forma surpreendente e inesperada, quebrando o suspense e ratificando a veia irônica do espetáculo.

A produção de “Quem Matou Laura Fausto?”, sob responsabilidade de Cecília Vaz e Marcello Andreata, ganha o público pelo seu despojamento e pela sua criatividade, pois o que se vê no palco não é, de fato, a morte de uma personagem, mas sim, um produto de qualidade, lapidado a partir da valorização de fragmentos transformados em espetáculo, digno de ovação pelo público teatral.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O Sal da Terra



Inunda o olhar do espectador, de forma impactante

Sob a direção investigativa de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, o documentário “O Sal da Terra” inunda o olhar do espectador, de forma impactante, com imagens e fotos contextualizando a trajetória artística do fotógrafo Sebastião Salgado, segundo um roteiro que discorre, predominantemente, sobre três de suas principais fases e obras.

Ao longo desse documentário arte, imagens dinâmicas e estáticas que percorrem a grande tela desnudam, em sua obra – “Sahel”, a miséria provocada pela seca na região africana que afetou os habitantes do Chade, da Etiópia, do Mali e do Sudão de 1983 a 1986 e denunciam os conflitos militares, a pobreza, a fome, a superpopulação, a peste, a degradação ambiental, e outras formas de catástrofe.

Na sequência, em “Êxodo”, a obra de Salgado retrata a discrepância entre o discurso e a prática sob o ponto de vista da globalização econômica e seus reflexos junto a migração internacional.

“Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma” – com essas palavras extraídas do prólogo de “Êxodo”, Salgado já demonstra sua preocupação com a reconexão do homem com a natureza com vistas à sua restauração e preservação.  Através de sua mais recente obra - “Gênesis”, o artista imortaliza paisagens, a flora e a fauna – nesta, incluído o ser humano – como se em suas condições nos primórdios da sua evolução na face da Terra.

“O Sal da Terra” emociona aqueles que se identificam, não somente com a arte fotográfica, mas com a força da natureza – nesta inserida a devastação e a capacidade de regeneração por parte do ser humano. Através do atento olhar de Sebastião Salgado, o planeta se imortaliza em singulares momentos, banhados por luz e sombra.


sexta-feira, 20 de março de 2015

Cinquenta Tons de Cinza


Roteiro asséptico e sem qualquer lampejo de criatividade


A leitura feita pelo Circuito Geral, da película “Cinquenta Tons de Cinza”, leva a identificá-la como um trabalho cinematográfico sem conteúdo, contemplando uma história de fácil assimilação e desatualizada em sua proposta, mas somente atingir um público carente de personagens com base nos quais possam sonhar ou, até mesmo, nunca realizar os seus próprios sonhos.

Longe de ser uma obra que revela a beleza da nudez artística, a tentativa de cativar comercialmente o público cinéfilo com cenas de cunho erótico, em pleno século XXI,  torna-se uma apelação simplória diante de outras produções impactantes no contexto da época de seus lançamentos ou pelo alto nível de seu roteiro nos quais as cenas se inserem. Mas “Cinquenta Tons de Cinza” não perde em qualidade somente em função da sua temática sexual, mas pelo seu roteiro asséptico e sem qualquer lampejo de criatividade, o que facilita a direção de um produto facilmente descartável.


quinta-feira, 19 de março de 2015

Barbaridade - Uma Comédia Musical


Um deboche contra a ditadura que impõe as mais variadas técnicas utilizadas para se conquistar a eterna aparência – aparentemente - jovial. 

O Circuito Geral se faz presente ao ensaio aberto de “Barbaridade - Uma Comédia Musical”, no dia 17 de março de 2015, no Teatro Oi Casa Grande, Rio de Janeiro – espetáculo produzido a partir do texto de Rodrigo Nogueira, fruto da fértil concepção conjunta dos consagradíssimos autores brasileiros - o cronista Luis Fernando Veríssimo, o cartunista Ziraldo e o escritor Zuenir Ventura. O texto se debruça no processo de envelhecimento dos indivíduos contemporâneos e de consequentes sintomas apresentados por aqueles que estão prestes a ingressar ou que já ingressaram na terceira idade – desde a gerascofobia, até as expectativas de se manterem produtivamente integrados na sociedade, a despeito das marcas físicas deixadas pelo tempo. Esse tema - cujo tabu, atrelado ao ostracismo social, muitas vezes eclodido no núcleo familiar e agravado por fatores financeiros - vem sendo atenuado, gradativamente, permitindo que a faixa etária pós sessenta anos, seja desfrutada dignamente, demandando, cada vez mais, uma visão mais acurada sobre como envelhecer.

O tema, aparentemente mórbido, é levado aos espectadores à luz da comédia, sob a orgânica direção geral, de movimento e coreografia de Alonso Barros que trabalha atores das mais variadas gerações - todos, sem exceção, inseridos no contexto da representação, do canto e da coreografia - respeitando uma cadência fundamental para o andamento e timing do espetáculo. Sob a ótica do espectador, o Circuito Geral vislumbra a possibilidade de uma correlação simbólica entre os três autores – Veríssimo, Ziraldo e Ventura – com os três idosos protagonistas, interpretados por Edwin Luisi, Marcos Oliveira e Osmar Prado, que são contratados para escreverem uma peça sobre a velhice. Embora, aparentemente familiarizados com o tema, os idosos sofrem um bloqueio mental que os impedem de desenvolver o trabalho, demandando um pacto com um ancião do além – proveniente da criatividade e da liberdade literária assumida por os envolvidos com a idealização da obra, apelando para o realismo fantástico - para que, após uma imersão nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais da velhice, pudessem dar início ao seu processo criativo. Em oposição ao trio que vive o seu momento cronológico com toda dignidade, se impõe Daniela Gordon - a impetuosa e gerascofóbica produtora de espetáculos que sente ojeriza a todo e qualquer ser desprovido de colágeno e elastina, que não tem a menor paciência com atores novatos e que tudo faz para se manter, aparentemente, na flor da idade - que ganha vida por meio do talento, beleza e elegância de Susana Vieira.

O espetáculo, dividido em dois atos, é um verdadeiro festival de divertidas paródias escritas a partir de sucessos da MPB, tais como: “Perigosa”, interpretada por Luisi; “Amante Profissional”, por Oliveira; e “Show das Poderosas”, por Prado – num pout pourri capaz de provocar duradoura e espontânea ovação por parte da plateia. A personagem Daniela Gordon, por sua vez, entoa “Malandragem”, eternizada por Cássia Eller, desta vez, relida em compasso de tango, transformando o título original e conteúdo da letra em “Maquiagem” e empunhando o seu lema: “Eu sou mulher e não vou despencar” - um deboche contra a ditadura que impõe as mais variadas técnicas utilizadas para se conquistar a eterna aparência – aparentemente - jovial. Dando sequência a esses e outros sucessos que endossam a máxima que proclama que “saudade não tem idade”, Guilherme Leme Garcia - que dá vida a um personagem que, embora seja o diretor da peça ainda carente de texto, possui um currículo que inclui alguns fracassos no mundo dos musicais – assume o momento nostálgico de “Barbaridade” interpretando "They Can't Take That Away From Me”.  Mas não só de paródias vive “Barbaridade”, mas de toda voz e coreografia desempenhada pela trupe de atores cantores e exímios bailarinos que movimentam espetáculo, sob direção musical e preparação vocal de Felipe Habib e da coreógrafa convidada, não menos que, Dalal Achcar.

O engenhoso cenário mecanicamente articulado, concebido pelo Estúdio Radiográfico, reproduz os bastidores de um teatro que acolhe uma orquestra regida por um maestro pianista e composta por um seleto time de instrumentistas à frente de bateria e percussão, guitarra e violão, baixo elétrico e acústico, trompete, clarinete, sax alto, clarone, clarinete, sax tenor, flauta e trombone, cujo contagiante impacto na percepção auditiva dos espectadores é potencializado pelo desenho de som concebido por Carlos Esteves. Apesar da marcante presença da orquestra no palco, devido às suas proporções, que ocupa, visualmente, quase um terço do campo visual da boca de cena, o preciso e dinâmico desenho de luz de Daniela Sanchez, conjugado à atmosfera esfumaçada prevista ao longo do espetáculo, ressalta as composições em primeiro plano e transporta o conjunto de músicos para um plano secundário como se camuflado como elemento cenográfico. O despojado figurino de Claudio Tovar e o visagismo de Martim Macias colorem o espetáculo e caracterizam os atores, de forma alegórica, em conformidade com a proposta da produção, em alguns momentos, quase que circense.

Com estreia prevista para o dia 19 de março, às 21:00, “Barbaridade - Uma Comédia Musical” revela, de forma descontraída, a construção de uma etapa do melhor da vida, a qual só é desconhecida por quem parte desta sem saber como envelhecer.


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terça-feira, 17 de março de 2015

Piaf! O Show


Grandes momentos capazes de tirar o fôlego de todos os presentes.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi palco, nos dias 14 e 15 de março de 2015, da meteórica temporada de “Piaf! O Show” – espetáculo escrito a partir de roteiro de Gil Marsala, dirigido por Remy Dell’Ajuto, produzido por Poladian e estrelado por Anne Carrere, uma jovem e polivalente artista que revive os sucessos de umas das maiores divas da música francesa, descoberta em 1935, pelo então gerente do cabaret Le Gerny’s, situado na avenida Champs Élysées, em Paris – Édith Piaf.

Longe de ser um musical que discorre sobre a vida íntima e pessoal da protagonista, “Piaf! O Show” transporta toda a plateia do suntuoso Theatro Municipal do Rio de Janeiro através da trajetória de sua produção artística, cronologicamente ilustrada a partir de fotografias históricas e de localidades que coincidem com os momentos dos seus sucessos – recurso concebido por meio de sutis projeções no fundo de cena, cujo brilho fora cuidadosamente dosado e atenuado de modo a não competir com os elementos principais do espetáculo, por sua vez, dividido em dois atos.

O primeiro conduz os espectadores, lentamente, a uma imersão, quase hipnótica, na produção artística de Piaf, a partir de quando passou a cantar nas ruas do bairro de Montmartre, em 1930.

No segundo, entoando os sucessos da diva, já consagrada internacionalmente, Anne Carrere consegue a façanha de levar toda a plateia a um inesperado e surpreendente delírio emotivo. Sua doce e faceira presença de palco cativa a totalidade dos espectadores, mesmo aqueles localizados no nível mais alto da galeria do teatro, atingindo os sentimentos arraigados em cada um dos presentes com sua potente voz e vigorosa interpretação das músicas da inesquecível protagonista.

O cenário concebido, devida e intencionalmente simples, reserva, num extremo, junto a um banco de praça, um epicentro instrumental, contemplado pelo piano - por Arnaud Fuste, pelo contrabaixo – por Nicolas Luchi, pela percussão e bateria – de Laurent Sarrien, e por aquele que caracteriza a atmosfera romântica francesa, o acordeão – por Guy Giuliano, que percorre todas as estâncias do palco, contribuindo para com a composição, quase pictórica, das cenas concebidas por Dell’Ajuto. No outro extremo, um poste de luz junto a um conjunto de peças de mobiliário que remete a um café – local onde se passa algumas das mais encantadoras cenas, concebidas de forma tal que toca profundamente no coração do público. O desenho de luz acentua a dramaticidade presente na maioria das composições de Piaf, ao mesmo temo que lança fachos de luz dançantes que rodopiam por todo o palco como num salão de baile. O figurino não poderia ser mais francês, completando a ambientação necessária para a transposição da percepção dos espectadores para além da sala de espetáculo - diretamente para o mundo de Piaf.

Incapaz de ocultar suas emoções quanto à receptividade do público carioca, Anne Carrere enxuga lágrimas de seu rosto, esboça expressões de êxtase através de seu jovial e incontido sorriso e acena para o público em sinal de profundo agradecimento pela audiência e pelos genuínos e emotivos aplausos ao final de cada número musical, dentre “La Vie en Rose”, “Jézebel”, “Milord', “Hymme à l'amour” e “Non, Je Ne Regrette Rien”. A alegria estampada no semblante de Carrere, mostra, nitidamente, a sua satisfação e alegria em prestar a sua homenagem à pardalzinho, com seu esplendoroso trabalho.

Encerrando esta resenha, o Circuito Geral – sob a ótica do observador se dá o direito de preparar o grande público para o que lhe espera, tendo em vista, o primeiro ato ser um galopante aquecimento para o segundo, e que neste, estão reservados os grandes momentos capazes de tirar o fôlego de todos os presentes.

“Piaf! O Show” continua com a sua turnê, definida para o mês de março, da seguinte forma: dia 17 – no Bourbon Country, em Porto Alegre; dia 19 – no Teatro Positivo, em Curitiba; e nos dias 20, 21 e 22 – no Teatro Bradesco, em São Paulo. Devido ao sucesso de bilheteria no Rio de Janeiro, a Poladian Produções anuncia o retorno do espetáculo à Cidade Maravilhosa, em maio de 2015.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Beto Guedes - Amor de Índio


A trajetória pela doce trilha sonora, que faz parte da vida de todos os presentes ao show 

O Circuito Geral teve o privilégio de comparecer ao Teatro Rival, no Centro do Rio de Janeiro, em 13 de março de 2015, para contemplar - sob a ótica do espectador - a primeira das duas únicas apresentações do show “Amor de índio” do compositor, cantor e instrumentista, Beto Guedes.

A expectativa do público que lota a tradicional e carioquíssima casa de espetáculo é que, no palco, ao descerramento das cortinas, dando início ao espetáculo, se apresente um Deus, tamanha a adoração e ansiedade que demonstra pelo início do show. De forma não decepcionante e coerente com a sua postura durante quase cinco décadas de estrelato junto à música popular brasileira, Betinho se faz presente como o homem simples e tímido que sempre foi e que, sob emocionante sincera e devota ovação da plateia, inicia a sua apresentação com a canção que dá título ao show. Com sua doce e delicada voz, Betinho preserva a inigualável interpretação de suas canções através de um involuntário gestual, como se demonstrando ao público, quase que didaticamente, o significado de seus versos.

Acolhido pela descontração da casa de espetáculo que aproxima o público do palco e os espectadores entre si, como numa grande família, o consagrado Betinho dá continuidade ao set list com “Feira Moderna”, “Sol de Primavera”, “Espelhos D’Água” – numa homenagem a Dalton e Claudio Rabello, e “O Sal da Terra”, permitindo se sentir completamente à vontade ao acionar sua equipe presente nos bastidores para regular a alça de sua guitarra e recomendá-la quanto ao volume do som da banda em contrate com o de sua voz, acatando às observações emanadas pela própria plateia. Percalços aos quais qualquer show está sujeito, o aconchego do Rival faz com que sejam relevados com extrema informalidade e amenizados pela descontração que o artista tem junto ao seu público – e vice-versa, de tal forma que este se impõe ao artista como parte integrante do show num consonante vocal de apoio. A expressão de amor do público para com Betinho - como  aclamado, aos brados, por inúmeros fãs - por muitas vezes, abafam a voz do cantor, demandando especial zelo da produção, nessa segunda apresentação, com o equilíbrio da sonorização, dentre voz, instrumental e, considerando a inevitável e muito bem-vinda participação vocal do público, visando não deixar a declamação dos versos, por Betinho, incompreensíveis aos ouvidos dos expectadores e viajarem, somente, através das mãos de Betinho.

Ao final do espetáculo, em atendimento à histriônica aclamação pelo bis por parte da plateia e de incontroláveis fãs, o artista homenageia, em primeiro lugar, Irving Gordon, cantando, quase em capela, “Unforgettable” e, em seguida Smokey Robinson com “ My Girl”.


A trajetória pela doce trilha sonora, que faz parte da vida de todos os presentes ao show “Amor de Índio”, termina com “Paisagem da Janela” sob os aplausos de um saudoso público – no qual se inclui o Circuito Geral que assume, respeitosamente, através desta resenha, o papel de um mensageiro natural para que, mais uma vez, a plateia do Teatro Rival sejam lotados, no dia de hoje, com muito calor e emoção, na segunda e última apresentação do Cavaleiro Marginal – Beto Guedes.

quinta-feira, 12 de março de 2015

As Bondosas


O espectador é colocado em um terreno arenoso e crítico


Muito se especula e se testemunha sobre a morte – da possibilidade do falecido estar presente e confuso ao seu velório, do eventual insucesso quanto ao desprendimento do apego à existência que já se encerrou ou quanto ao fato da morte ser mera passagem para uma nova modalidade de vida. Mas pouco se fala sobre a genuína imagem daquele que teve seus sonhos e desejos interrompidos, daquele que experimentou uma vida repleta de limitações e preconceitos, e daquele que desejava ser reconhecido pela sua história de fato, e não por aquela que inventara para a sociedade. 

Num primeiro momento, parece que todos que morrem se tornam Santos e merecedores de redenção e de perdão, uma vez que já não se encontram mais, piedosamente, entre nós e não mais servem como berços de substantivos abstratos, tais como astúcia, angústia ou prudência.

Marcando sua presença no Teatro dos Quatro, Rio de Janeiro, em 10 de março de 2015, o Circuito Geral inicia esta resenha pelo ponto de vista daquela que elegeu para si, como a protagonista de “As Bondosas” - a falecida que usa sapatos vermelhos; que é representada por caixas, permanentemente movimentadas durante o espetáculo; que no palco, se resume em caixão, santuários e ponto de apoio para que seus anseios se tornem algo público para os que já não podem mais lhe ouvir. Tal feito é possível pela competente concepção do desnudo cenário assinado por Sidcley Batista que torna visível aos olhos, o que é invisível à lógica. 

O espectador é colocado em um terreno arenoso e crítico, com muita propriedade e bom humor, demandando reflexão sobre o substantivo feminino e, possivelmente, sobre de quem, de fato, se trata a eleita possível protagonista. A hipocrisia em que todos vivemos imbuídos, possivelmente é a razão pela qual nos leva a acreditar que a falecida se trata de uma meretriz, fomentado pelos preceitos de Astúcia, Angústia e Prudência, personagens, consequentemente coadjuvantes, que podem ser reconhecidas como consciência post mortem da mulher encaixotada.

O trio, interpretado com alma feminina, possui a marca da pegada masculina de Gerson Lobo, Leandro Mariz e Sidcley Batista que conta com o respaldo do figurino de Leandro Mariz - peça fundamental para compreensão da essência das personagens que não choram, mas observam e rezam sob o manto de um dosado desenho de luz, que marca cada momento das profissionais carpideiras e da exposição da sua visão sobre a moral amoral.

“As Bondosas” é um surpreendente espetáculo - sob a despretensiosa, ao mesmo tempo, engenhosa direção de Tom Pires - para aqueles se permitem não acreditar no que simplesmente vêm, mas conseguem enxergar o que, de fato, espelha a concepção do texto por seu autor - Ueliton Rocon. 

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quarta-feira, 11 de março de 2015

Cássia Eller - O Musical



Como bem a descreve, sua companheira Maria Eugênia: “Um cometa que passou em nossas vidas”.

Ao entrar na sala de espetáculo do Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, o público é recebido e impactado pelas grandiosas proporções dadas à descortinada boca de cena, promovidas pelo pano de fundo do cenário - timidamente iluminado e habilidosamente executado com requintes de uma instalação artística, a partir de material que não peca pelo seu inusitado despojamento e cujo efeito visual remete a superfícies rochosas - concebido por Nello Marrese e Natália Lana. Em sua base, repousam os instrumentos de uma banda, em total conformidade com as expectativas de todos, como se capazes de pressupor o que, dali, iria rolar. Contemplando o minimalismo conceitual nas boas vindas dadas ao público, “Cássia Eller – O Musical” traduz e preserva a essência tímida e simples da protagonista, mas se agiganta, de forma surpreendente ao longo do espetáculo, comovendo toda a plateia.

O musical idealizado e sob a direção de produção de Gustavo Nunes, com base no dinâmico texto de Patrícia Andrade, é turbilhonado no palco, sob a habilidosa direção de João Fonseca e Vinícius Arneiro. Não bastasse seu competente trabalho junto a Tacy de Campos, a dupla de diretores desmembra, mágica e ludicamente, os demais impecáveis e versáteis seis atores - Eline Porto, Emerson Espíndola, Evelyn Castro, Jana Figarella, Jandir Ferrari e Thainá Gallo - em vinte personagens. A capacidade de interpretação e a dinâmica de palco de cada um, juntamente com o prático e adequado figurino assinado por Marília Carneiro e Lydia Quintaes, lhes permitem metamorfoses, quase instantâneas, além das tarefas adicionais de posicionamento e remoção dos elementos complementares de cenografia do palco. O recurso é sutilmente viabilizado pelo coordenado jogo de luzes que transforma os atores em meras silhuetas circulantes, em contraste com a luz difusa promovida pela translucidez do pano de fundo do versátil cenário. Tal operação demonstra, mais uma vez, a personalizada e constante renovação do desenho de luz de Maneco Quinderé, em atendimento às demandas da produção, através de efeitos luminotécnicos e cromáticos que verticalizam cenas, que definem a temporalidade da história e que permitem transpor os limites do palco para o centro da plateia – numa alusão à grandiosidade de um Rock in Rio - fontes de luz são estrategicamente posicionadas onde fachos são potencializados pela permanente atmosfera esfumaçada durante todo o espetáculo. Pincelando artisticamente as faces e corpos da trupe, o visagismo de Beto Carramanchos garante a identidade física dos papéis, enquanto que, Márcia Rubin dirige seus movimentos com especial semelhança aos personagens na vida real.

O subtítulo do espetáculo é respaldado pelas explosivas e irretocáveis direção e codireção musical de Lan Lan e Fernando Nunes, respectivamente, que, em função da experiência profissional que tiveram junto à protagonista, imprimem, com total segurança, a marca da renovação nas interpretações das trinta e quatro músicas contempladas pelo roteiro musical, sem que, com isso, percam a autenticidade do espírito dos artistas que, através desses sucessos, se expressaram no passado - em especial, Cássia Eller.

Seguindo a linha do despojamento e da simplicidade inerentes à protagonista, a competente banda se expõe, empaticamente, no fundo do palco e aos olhares de todos da plateia, como verdadeiros parceiros de todo o elenco, enquanto equipe de espetáculo, composta pelo pianista Felipe Caneca, pelo baixista Pedro Coelho, por Diogo Viola no violão elétrico, pelo baterista Maurício Braga e pelo violinista Fernando Caneca.

“Cássia Eller – O Musical” é uma obra intensa, alegre, saciante e repleta de emoções, que discorre, sem polêmicas e, essencialmente, sobre a efêmera trajetória da vida artística e afetiva de Cássia, mas não menos eterna, por aqueles que, de forma ou de outra, tiveram suas vidas tocadas pela sua voz - como bem a descreve, sua companheira Maria Eugênia: “Um cometa que passou em nossas vidas”.


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domingo, 8 de março de 2015

Lente de Aumento



Um grande espetáculo, por um artista de peso, para um público faminto por humor.

O stand up comedy “Lente de Aumento” não admite um público inerte. Portanto, o Circuito Geral adianta aos espectadores que procuram ocupar as últimas poltronas na tentativa de se esconderem de eventuais interatividades dos artistas com a plateia, em hipótese alguma, estarão à salvo da lente de aumento de Leandro Hassum, que os acharão, onde quer que estejam - do mais desavisado retardatário para o início do espetáculo, aos que ousam fazer da plateia um local para registrar uma selfie com o artista. 

Hassum, de forma curta e cativantemente escrachada, coloca todos em seus devidos lugares, com sua incrível capacidade de improviso e de total monitoramento do seu público, fazendo dele, carinhosa e respeitosamente, gato e sapato.

Na curta temporada nos dias 28 de fevereiro e 1º, 7 e 8 de março de 2015, no Teatro Bradesco, no Rio de Janeiro, Hassun discorre sobre sua cirurgia bariátrica e fatos correlatos, sobre a sua infância e da relação com sua mãe e com sua tia rica, sobre o convívio com sua filha na idade da demência e sobre seu casamento com sua bela esposa, que marca presença na plateia, no penúltimo dia de apresentação e que também, impiedosamente, não escapa da sua ferina lente de aumento.

O texto, de autoria do próprio Hassum, e o espetáculo sob direção de Daniela Ocampo, endossam sua detonadora capacidade de apresentação solo, que torna os recursos técnicos de palco, iluminação e trilha sonora, meros detalhes complementares ao espetáculo, apesar de muito bem concebidos e executados ao longo da apresentação, da mesma forma que o trabalho invisível de todo o restante de sua equipe em off.

“Lente de Aumento” é um grande espetáculo, por um artista de peso, para um público faminto por humor.


Sexo, Drogas & Rock 'N' Roll



Um grande jogo de espelhos, onde o espectador pode ou não se ver refletido.

O conceito do politicamente correto é posto em cheque, de forma elegante, inteligente e regado à ironia peculiar de seu porta-voz, Bruno Mazzeo.
Exercendo com extrema habilidade a sua capacidade de diálogo, tanto com a plateia quanto com personagens virtuais, Mazzeo dá vida a seis personagens, levando o público à reflexão quanto ao grau de culpa que cabe à geração X  ao nos fazer engolir sua prole - geração Y, que por falta de conhecimento e respeito ao próximo, não tem a menor idéia de como lidar com a sua herdeira – a ditadora geração Z – todas presentes no palco, de forma direta ou indireta.
Geração que gera gente folgada, como o menos favorecido que se acha no direito de ameaçar a sociedade - nesse caso, a plateia, que se omite em ajudá-lo com alguns trocados, justificados pela máxima: “em vez de pedir, poderia estar matando”.
Geração que gera gente inútil, como o Rock Star que só pensa no próximo se este tiver um beck para lhe oferecer.
Geração que gera gente sem limites, como o jovem sem a menor noção da essência da palavra respeito.
Geração que gera gente egoísta, como o empresário que só valoriza as pessoas se lhe possam retornar algum lucro.
Geração que gera gente arrogante, como o morador da Barra da Tijuca que se sente péssimo quando não consegue ostentar.
Geração que gera gente cínica, como o artista em crise com a arte.
Finalmente, geração que não gerou gentileza – resumo esse que representa a compreensão do Circuito Geral das entrelinhas transmitida pelo espetáculo, não só pelo incrível e instigante texto de Eric Bogosian, sob a dinâmica direção de Victor Garcia Peralta, potencializando a capacidade de domínio do palco e do público por Mazzeo - tudo ao mesmo tempo agora. Fazem parte desse empenho: o vídeo de abertura e os sequenciais do espetáculo, por Rico e Renato Vilarouca,  contemplando linguagem e requintes como as de um programa televisivo transportado para o palco; o cenário minimalista e cromaticamente bem definido por Dina Salem Levy, promovendo o devido destaque ao foco do show; o desenho de luz, por Daniela Sanchez que acompanha e define os esquetes; e finalmente, a trilha sonora, por Plínio Profeta, que endossa o título dado ao espetáculo.
“Sexo, Drogas & Rock ‘N’ Roll” é um grande jogo de espelhos, onde o espectador pode ou não se ver refletido através das gargalhadas de concordância e risos soltos alheios ao texto, para cada tiro dado ao que consideram politicamente correto para si, mas não tão corretamente para com o próximo.

Who's Bad - The Ultimate Michael Jackson Tribute




Emoção à flor da pele - é o que melhor define o espetáculo, um tributo ao rei do pop, Michael Jackson.

Emoção à flor da pele - é o que melhor define o espetáculo “Who’s Bad”, um tributo ao rei do pop, Michael Jackson.
Vamsi Tadepalli, responsável por essa cartarse, desde 2004, reúne artistas da Carolina do Norte, extremamente competentes em suas performances, coreografias e, acima de tudo, dotados de uma estrondosa qualidade musical, longe da intenção de se apresentarem como verossímeis parodiadores, mas imbuídos de prestarem um genuíno tributo ao artista, em meio a uma festa onde o público se insere no alto escalão da hierarquia do espetáculo.
O Teatro Bradesco Rio, foi palco de uma única apresentação de “Who’s Bad” na cidade maravilhosa, no dia 4 de março de 2015 onde, crianças, adolescentes e adultos – muitos deles caracterizados com vestes e acessórios tal e qual usados por Michael – se manifestaram como se estivessem numa de suas apresentações ao vivo e a cores. Fãs declaravam, visceralmente e aos gritos, o seu amor pelo seu ídolo e, juntamente com incontáveis espectadores das mais diversas faixas etárias - sob o caloroso comando dos artistas presentes no palco para que o público subisse ao tablado - deram uma surpreendente demonstração de alegria, frente a frente com o cover que assumiram ser Michael Jackson, em carne e osso – todos sob incrível transe dançante, com direito a passos e coreografias imortalizadas pelo artista, ao som de seus grandes sucessos, tais como: Human Nature, Thriller, Beat it, Bad e muitos outros.
A banda composta por baixo, saxofone e trompete, revezava seus componentes, de temos em tempos, permitindo que os mesmos dessem vazão aos seus dons performáticos – uma alusão às espetaculares, contagiantes e inusitadas coreografias e ao especial solo do guitarrista em Beat it que, na apresentação original com Michael, contou com a instrumentação de Eddie Van Halen.
“Who’s Bad” é energia pulsante do início ao fim - uma viagem no tempo que além de ilustrar algumas das mudanças físicas pelas quais Michael passou, reaviva os imortais sucessos durante a sua trajetória artística, incluindo pérolas de seu genesis na banda The Jackson Five. Através da riqueza presencial do público na casa de espetáculos e de sua reação ao show, constata-se, cada vez mais que a importância de Michael no mundo fonográfico passa de geração em geração.
Em função da essência da produção e do legado de Michael Jackson, o Circuito Geral faz das palavras presentes na versão da letra de “Black or White” para o português, suas palavras – “Eu não vou passar a minha vida sendo uma cor” – conferindo ao show The Ultimate Michael Jackson Tribute, um ponto de convergência de seus apreciadores e amantes, provenientes de origens e histórias distintas, da mesma forma que Michael se tornou a mistura de todas as cores.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Um Estranho no Ninho


Brilhante, emocionante e, acima de tudo, questionador quanto à democracia presente na liberdade e quanto à disciplina como rascunho desta.

O Centro Cultural Justiça Federal abre suas portas para o público, apresentando o clássico “Um Estranho no Ninho” de Dale Wasserman, produzido por Rafael Fleury e Tatsu Carvalho, baseado no livro de Ken Kesey.
A meticulosa direção de Bruce Gomlevsky materializa, com extrema realidade, o conturbado cotidiano de um hospital psiquiátrico, estampando seu empenho em levar ao público uma obra teatral, tecnicamente irretocável. Durante os cento e dez minutos de espetáculo, Gomlevskytransforma o teatro do CCJF numa das dependências de uma instituição total, retratando a vigilância, a punição e o poder, imersos numa atmosfera sedenta por uma análise foucaultiana que, inevitavelmente, induz cada um dos espectadores à reflexão sobre os sistemas e seus efeitos junto às sociedades, representados pelos funcionários do hospital, seus internos “voluntários” e por Randle Patrick McMurphy - um condenado que simula problemas mentais visando ser poupado dos trabalhos forçados na prisão, onde cumpre sua pena privativa de liberdade.
Difícil dissociar a atuação de cada um dos dezesseis atores que compõem o elenco, de um todo, desde o protagonista, incorporado por Carvalho, até os que representam os papéis desprovidos de qualquer fala, tendo em vista ser imprescindível e notória a complexa atuação pantomímica que estes exercem. Personagens são criteriosamente lapidados pela direção de movimento como obras de arte e valorizados pelo dramático desenho de luz, concebido com precisão cirúrgica, assinado por Elisa Tandera - também responsável pela dimensionalidade virtual do cenário de Pati Faedo. Tal parceria define volumes, planos transparentes e pontos de luz sobre um fundo negro infinito, como camadas responsáveis por uma coletiva ilusão de ótica cênica. Faedo, sutilmente incorpora a estrutura original da sala de espetáculo, composta por colunas metálicas, como limites laterais da boca de cena, numa total sinergia entre elementos construtivos e de composição da arquitetura segundo o contexto de ambientação da história. Os figurinos de Alassandra Padilha e de Jerry Rodrigues endossam uma imersão, quase laboratorial, no vestual concebido para cada papel, da mesma forma que o visagismo, cujo mérito é do próprio elenco, define a hierarquia funcional e os estados de saúde e de degradação física e mental dos internos. A trilha sonora de Mauro Berman introduz a música incidental – impactando e potencializando a dramaticidade ao longo da história, alternando ritmos, de acordo com as variações das emoções do espetáculo e atenuando a agressividade e a angustia presentes na maioria das cenas.
“Um Estranho no Ninho” é brilhante, emocionante e, acima de tudo, questionador quanto à democracia presente na liberdade e quanto à disciplina como rascunho desta. Um trabalho imperdível para os apreciadores da excelência da Arte Dramática.


Noite Infeliz


A Comédia Musical das Maldades tem compromisso com absolutamente nada

Deliciosamente demente - é assim que o Circuito Geral radiografa o espetáculo “Noite Infeliz – A Comédia Musical das Maldades”, uma retomada do besteirol transportado para o palco do Teatro dos Quatro, na Gávea, na temporada de 8 de janeiro a 29 de março de 2015.
Os requintes e sutilezas da maldade presente no ser humano – linha mestra do texto de Maurício Guilherme – transpassa os limites da sala de espetáculo e promove uma atmosfera que permeia os arredores do teatro, podendo ser detectada desde a bilheteria, onde uma extensa fila se forma visando à disputa pela aquisição dos ingressos. Uma vez na plateia, em busca de seus lugares, o público é recepcionado por uma trilha musical contemplando, dentre outros sucessos dos anos 70, “Disco Inferno” de autoria da banda disco The Trammps. Assentos localizados, os espectadores se acomodam em seus “limbos” individuais e, a partir da abertura das cortinas do “inferno”, se tornam testemunhas do que há de mais nonsense na concepção do dramaturgo, que deixa portas abertas para uma diversidade de cacos e enxertos repletos de atualidade e improviso, introduzidos com a maior propriedade e naturalidade.
A cada apresentação de um novo esquete, a produção transporta toda a plateia para as “trevas”, transformando-a em vítima das desordens provocadas pelas maldades presentes em todos nós, sob as encenações da trupe divertidamente composta por Érico Brás, Maria Bia, Mariana Santos, Rodrigo Fagundes e Françoise Forton - como atriz convidada. Os atores ateiam, com destreza, o fogo da comicidade e irreverência no palco, sem o menor receio de serem infelizes nessa missão e cujo êxito é comprovado pelas espontâneas e genuínas gargalhadas por parte do público.
A direção de Victor Garcia Peralta dá autonomia e induz os atores usarem e abusarem de seus condutores, tornando-os hilariamente “ridículos” – ao mesmo tempo que demonstram a sua capacidade performática no palco. “Noite Infeliz – A Comédia Musical das Maldades” é um mix de teatro de revista e de costumes, com roteiro musical e versões assinados por Guilherme, direção musical e arranjos de Paula Leal e coreografado por Sueli Guerra, também responsável pela direção de movimentos. Relevante enquanto informação não detectável, até mesmo pelo espectador mais atento, a produção musical exclusiva, a cargo de Amora Pêra, é orquestrada por piano, sax tenor, trombone, baixo e bateria, gravada por Igor Ferreira e reproduzida em perfeita sincronia com as cenas, atestando a excelência da qualidade da equipe de operações de som, luz e vídeo. A irretocável iluminação de Maneco Quinderé – que dispensa descrições técnicas e maiores elogios - dá todo o colorido à festa e, juntamente com o fabuloso videografismo de Rico e Renato Vilaroucaque, valoriza o cenário de Cristina Novaes e Renata Pittigliani, metamorfoseando a boca de cena, de forma mágica e encantadora, numa diversidade de dimensões, ambientes e localidades, dando ênfase na atemporalidade do espetáculo e caracterizando cada esquete de acordo com a sua temática, introduzindo recursos de uma tecnologia “do capeta” à produção. As cores e brilhos do figurino de Antônio Guedes e do visagismo de Rodrigo Fuentes são de um exagero impar, mas eficazes como um alerta para os atores não se permitirem “desencarnar” de seus personagens, induzidos por tamanha descontração e interação que experimentam junto ao espectador.
“Noite Infeliz – A Comédia Musical das Maldades” tem compromisso com absolutamente nada, mas transfere para seu público, de forma lúdica e divertida, a responsabilidade de encontrarem algo de bom nas pequenas maldades que a vida nos reserva.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Três Entas


Tem tudo para ser um sucesso, não somente por parte o público feminino.

Estariam todas as mulheres fadadas a enfrentar a crise existencial após os quarenta anos? A solidão, a falta de amor e a dependência financeira seriam as únicas responsáveis por tal crise? Seria a falta de informações essenciais ao amadurecimento antes dos 40 anos de idade, o fator predominante para uma eventual e desastrosa falência do ser feminino?

Essas e outras perguntas ficam nas entrelinhas do espetáculo “Três Entas” – inspirado no livro Entas, de Jô Salgado – sob direção da autora em parceria com Maurício Alves.

A partir de um texto de fácil assimilação sobre três vizinhas que fazem aniversário no mesmo dia - completando idades coincidentemente cronológicas - 40, 50 e 60 anos – desenvolve-se o enredo bem incomum e de difícil aceitação por parte de espectadores mais exigentes com visão pragmática.

“Três Entas” exagera na moral da história com foco na sexualidade e negligencia nos valores morais e de capacitação intelecto profissional feminino, se debruçando no amor-próprio, como uma expectativa à curto prazo, e na não aceitação da “falta”, como algo natural às mulheres que entram em seus “entas”.

Seus diálogos simplórios não requerem nenhum tipo de embasamento cultural e vivência prévia para fazer com que o espectador deixe de processar o texto como algo importante para a sua vida, embora, isso seja levado à sério pelas atrizes Alessandra Rodrigues, Carmem Costa e Gledy Goldbach, que se esforçam para transmitir, à plateia, a verdade desenhada para seus personagens.

“Três Entas” tem tudo para ser um sucesso, não somente por parte o público feminino pela sua temática, mas também pelos que apreciam um teatro bem concebido a partir da tentativa de acerto através da direção. O projeto cenográfico de Renato Marques, no que tange à sala de estar na qual as personagens interagem, não demanda significantes atributos de composição de interiores, mas agrega ao conjunto composto pelo eficiente projeto de luz de Rubia Ferreira, enquanto efeitos de dramaticidade, e pelos recursos de projeção, também assinado por Marques, que incluem personagens virtuais ao elenco - técnica recentemente utilizada com fartura pelas produções teatrais, através de painéis translúcidos, que também servem como recurso de teatro de sombras.

A introdução de “So Fxxxing Sorry”, de Phone Trio, na trilha sonora de responsabilidade de Emilio Carrera, embalando a comemoração do aniversário das três amigas, promove momentos de descontração à finalização de “Três Entas” - capazes de diluir qualquer ranço decorrente da natural falta de aceitação do passar dos tempos e das dificuldades assumidas por algumas mulheres de encará-lo com dignidade a partir de suas crises individuais – definindo a superação como pano de fundo e como um caminho árduo que só privilegia o processo da conquista de algo que nunca se teve e nem se sabe se terá.

Presente na estréia de “Três Entas”, no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, no dia 27 de fevereiro de 2015, o Circuito Geral toma a liberdade de apontar alguns possíveis incômodos que podem atingir a crescente plateia almejada pela produção e que demandam uma sintonia fina com vistas à otimização da apreciação do trabalho por parte dos futuros espectadores, a começar pela sonorização, cujo volume definido para os microfones das atrizes configura-se incompatível com as dimensões e propriedades acústicas da sala de espetáculo, tornando-se excessivo na maior parte da apresentação. Ruídos de fundo durante os momentos das projeções dão a impressão de uma colagem estranha à sonoridade inicialmente prevista durante o desenrolar das cenas. Percebem-se, também, hiatos e descompassos na fluência do texto e eventuais sobreposições das falas durante os diálogos entre as atrizes e delas com as falas gravadas, além de alguns fades, como se a declamação do texto sofresse algum tipo de desvio de atenção momentâneo.

Tudo isso pode ser justificado por um eventual estresse por parte da equipe, tão normal numa noite de estréia, mesmo em se tratando de uma nova temporada em um novo teatro. Mas nada como a continuidade das apresentações, acompanhada pela devida atenção da direção com foco nos pontos assinalados pelo Circuito Geral, sob a ótica do espectador, visando ao aperfeiçoamento do que é levado ao público como objeto de apreciação e lazer.