Counter

quinta-feira, 12 de março de 2015

As Bondosas


O espectador é colocado em um terreno arenoso e crítico


Muito se especula e se testemunha sobre a morte – da possibilidade do falecido estar presente e confuso ao seu velório, do eventual insucesso quanto ao desprendimento do apego à existência que já se encerrou ou quanto ao fato da morte ser mera passagem para uma nova modalidade de vida. Mas pouco se fala sobre a genuína imagem daquele que teve seus sonhos e desejos interrompidos, daquele que experimentou uma vida repleta de limitações e preconceitos, e daquele que desejava ser reconhecido pela sua história de fato, e não por aquela que inventara para a sociedade. 

Num primeiro momento, parece que todos que morrem se tornam Santos e merecedores de redenção e de perdão, uma vez que já não se encontram mais, piedosamente, entre nós e não mais servem como berços de substantivos abstratos, tais como astúcia, angústia ou prudência.

Marcando sua presença no Teatro dos Quatro, Rio de Janeiro, em 10 de março de 2015, o Circuito Geral inicia esta resenha pelo ponto de vista daquela que elegeu para si, como a protagonista de “As Bondosas” - a falecida que usa sapatos vermelhos; que é representada por caixas, permanentemente movimentadas durante o espetáculo; que no palco, se resume em caixão, santuários e ponto de apoio para que seus anseios se tornem algo público para os que já não podem mais lhe ouvir. Tal feito é possível pela competente concepção do desnudo cenário assinado por Sidcley Batista que torna visível aos olhos, o que é invisível à lógica. 

O espectador é colocado em um terreno arenoso e crítico, com muita propriedade e bom humor, demandando reflexão sobre o substantivo feminino e, possivelmente, sobre de quem, de fato, se trata a eleita possível protagonista. A hipocrisia em que todos vivemos imbuídos, possivelmente é a razão pela qual nos leva a acreditar que a falecida se trata de uma meretriz, fomentado pelos preceitos de Astúcia, Angústia e Prudência, personagens, consequentemente coadjuvantes, que podem ser reconhecidas como consciência post mortem da mulher encaixotada.

O trio, interpretado com alma feminina, possui a marca da pegada masculina de Gerson Lobo, Leandro Mariz e Sidcley Batista que conta com o respaldo do figurino de Leandro Mariz - peça fundamental para compreensão da essência das personagens que não choram, mas observam e rezam sob o manto de um dosado desenho de luz, que marca cada momento das profissionais carpideiras e da exposição da sua visão sobre a moral amoral.

“As Bondosas” é um surpreendente espetáculo - sob a despretensiosa, ao mesmo tempo, engenhosa direção de Tom Pires - para aqueles se permitem não acreditar no que simplesmente vêm, mas conseguem enxergar o que, de fato, espelha a concepção do texto por seu autor - Ueliton Rocon. 

https://www.facebook.com/curtocircuitocultural

Nenhum comentário:

Postar um comentário