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quinta-feira, 19 de março de 2015

Barbaridade - Uma Comédia Musical


Um deboche contra a ditadura que impõe as mais variadas técnicas utilizadas para se conquistar a eterna aparência – aparentemente - jovial. 

O Circuito Geral se faz presente ao ensaio aberto de “Barbaridade - Uma Comédia Musical”, no dia 17 de março de 2015, no Teatro Oi Casa Grande, Rio de Janeiro – espetáculo produzido a partir do texto de Rodrigo Nogueira, fruto da fértil concepção conjunta dos consagradíssimos autores brasileiros - o cronista Luis Fernando Veríssimo, o cartunista Ziraldo e o escritor Zuenir Ventura. O texto se debruça no processo de envelhecimento dos indivíduos contemporâneos e de consequentes sintomas apresentados por aqueles que estão prestes a ingressar ou que já ingressaram na terceira idade – desde a gerascofobia, até as expectativas de se manterem produtivamente integrados na sociedade, a despeito das marcas físicas deixadas pelo tempo. Esse tema - cujo tabu, atrelado ao ostracismo social, muitas vezes eclodido no núcleo familiar e agravado por fatores financeiros - vem sendo atenuado, gradativamente, permitindo que a faixa etária pós sessenta anos, seja desfrutada dignamente, demandando, cada vez mais, uma visão mais acurada sobre como envelhecer.

O tema, aparentemente mórbido, é levado aos espectadores à luz da comédia, sob a orgânica direção geral, de movimento e coreografia de Alonso Barros que trabalha atores das mais variadas gerações - todos, sem exceção, inseridos no contexto da representação, do canto e da coreografia - respeitando uma cadência fundamental para o andamento e timing do espetáculo. Sob a ótica do espectador, o Circuito Geral vislumbra a possibilidade de uma correlação simbólica entre os três autores – Veríssimo, Ziraldo e Ventura – com os três idosos protagonistas, interpretados por Edwin Luisi, Marcos Oliveira e Osmar Prado, que são contratados para escreverem uma peça sobre a velhice. Embora, aparentemente familiarizados com o tema, os idosos sofrem um bloqueio mental que os impedem de desenvolver o trabalho, demandando um pacto com um ancião do além – proveniente da criatividade e da liberdade literária assumida por os envolvidos com a idealização da obra, apelando para o realismo fantástico - para que, após uma imersão nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais da velhice, pudessem dar início ao seu processo criativo. Em oposição ao trio que vive o seu momento cronológico com toda dignidade, se impõe Daniela Gordon - a impetuosa e gerascofóbica produtora de espetáculos que sente ojeriza a todo e qualquer ser desprovido de colágeno e elastina, que não tem a menor paciência com atores novatos e que tudo faz para se manter, aparentemente, na flor da idade - que ganha vida por meio do talento, beleza e elegância de Susana Vieira.

O espetáculo, dividido em dois atos, é um verdadeiro festival de divertidas paródias escritas a partir de sucessos da MPB, tais como: “Perigosa”, interpretada por Luisi; “Amante Profissional”, por Oliveira; e “Show das Poderosas”, por Prado – num pout pourri capaz de provocar duradoura e espontânea ovação por parte da plateia. A personagem Daniela Gordon, por sua vez, entoa “Malandragem”, eternizada por Cássia Eller, desta vez, relida em compasso de tango, transformando o título original e conteúdo da letra em “Maquiagem” e empunhando o seu lema: “Eu sou mulher e não vou despencar” - um deboche contra a ditadura que impõe as mais variadas técnicas utilizadas para se conquistar a eterna aparência – aparentemente - jovial. Dando sequência a esses e outros sucessos que endossam a máxima que proclama que “saudade não tem idade”, Guilherme Leme Garcia - que dá vida a um personagem que, embora seja o diretor da peça ainda carente de texto, possui um currículo que inclui alguns fracassos no mundo dos musicais – assume o momento nostálgico de “Barbaridade” interpretando "They Can't Take That Away From Me”.  Mas não só de paródias vive “Barbaridade”, mas de toda voz e coreografia desempenhada pela trupe de atores cantores e exímios bailarinos que movimentam espetáculo, sob direção musical e preparação vocal de Felipe Habib e da coreógrafa convidada, não menos que, Dalal Achcar.

O engenhoso cenário mecanicamente articulado, concebido pelo Estúdio Radiográfico, reproduz os bastidores de um teatro que acolhe uma orquestra regida por um maestro pianista e composta por um seleto time de instrumentistas à frente de bateria e percussão, guitarra e violão, baixo elétrico e acústico, trompete, clarinete, sax alto, clarone, clarinete, sax tenor, flauta e trombone, cujo contagiante impacto na percepção auditiva dos espectadores é potencializado pelo desenho de som concebido por Carlos Esteves. Apesar da marcante presença da orquestra no palco, devido às suas proporções, que ocupa, visualmente, quase um terço do campo visual da boca de cena, o preciso e dinâmico desenho de luz de Daniela Sanchez, conjugado à atmosfera esfumaçada prevista ao longo do espetáculo, ressalta as composições em primeiro plano e transporta o conjunto de músicos para um plano secundário como se camuflado como elemento cenográfico. O despojado figurino de Claudio Tovar e o visagismo de Martim Macias colorem o espetáculo e caracterizam os atores, de forma alegórica, em conformidade com a proposta da produção, em alguns momentos, quase que circense.

Com estreia prevista para o dia 19 de março, às 21:00, “Barbaridade - Uma Comédia Musical” revela, de forma descontraída, a construção de uma etapa do melhor da vida, a qual só é desconhecida por quem parte desta sem saber como envelhecer.


https://www.facebook.com/curtocircuitocultural

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