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segunda-feira, 30 de março de 2015

Tomo Suas Mãos Nas Minhas


Implacável habilidade de não nomenclaturar os sentimentos que nascem com o tempo

Um dos mais famosos escritores e dramaturgos russos de todos os tempos - Anton Pavlovitch Tchecov - é desnudado de forma poética e emocionante em “Tomo Suas Mãos Nas Minhas”, sob direção de Leila Hipólito. Também responsável pela tradução e adaptação do texto dessa sedutora montagem, Hipólito, imbuída de um profissionalismo desmedido e que salta aos olhos do público, elege uma ficha técnica que prima não menos do que pela excelência em qualidade.

Assistir a esse espetáculo equivale consumir visualmente a obra de Tchecov, fartamente ilustrada, onde a iluminação de Maneco Quinderé, concebida com requintes de pinturas clássicas renascentistas, pincela as cenas com inigualável jogo de luz, sombras e cores. O preciosismo cênico com que o trabalho de Hipólito é regido, também se deve aos conceituados projetos cenográficos e de figurino assinados, respectivamente, por Fernando Mello da Costa e por Kika Lopes, em harmoniosa fusão simbiótica. A aconchegante rusticidade da atmosfera amadeirada, quente e dramática, onde se passam as cenas, é capaz de estimular o olfato dos espectadores mais sensíveis ao mesmo tempo que captura a essência dos personagens envolvidos. Um terceiro sentido também recebe o afago da diretora – a audição, através do equilíbrio obtido entre a sedutora feminilidade da voz de Miriam Freeland – no papel de Olga Knipper, a companheira de correspondências e de vida do médico que se rendeu ao teatro; a aveludada masculinidade da voz de Roberto Bomtempo – no papel do protagonista, seu combalido esposo; e a sonoridade da trilha musical assinada por Alexandre Pereira, que de tempos em tempos, age como liga, engajando o contexto ao todo dessa obra teatral. Freeland traduz, de forma fascinante e suavemente palatável, a relação do escritor com suas obras – “As Três Irmãs”, “A Gaivota”, “Tio Vânia” e “O Jardim das Cerejeiras”, em perfeita sintonia com a autoridade técnica de Bomtempo que, imerso no personagem, consegue trazer à tona o fascínio por Tchecov, através do qual o espetáculo se propõe junto ao espectador.

“Tomo Suas Mãos Nas Minhas” transborda, em romantismo, uma história de vida com todos os ingredientes da melancolia, da tristeza e de muita dor, que transita pelo virtuosismo da distância à implacável habilidade de não nomenclaturar os sentimentos que nascem com o tempo.

O espetáculo cumpre a sua temporada no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, até o dia 12 de abril de 2015, às sextas e aos sábados, às 21:30 e aos domingos, às 20:00.



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