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segunda-feira, 2 de março de 2015

Três Entas


Tem tudo para ser um sucesso, não somente por parte o público feminino.

Estariam todas as mulheres fadadas a enfrentar a crise existencial após os quarenta anos? A solidão, a falta de amor e a dependência financeira seriam as únicas responsáveis por tal crise? Seria a falta de informações essenciais ao amadurecimento antes dos 40 anos de idade, o fator predominante para uma eventual e desastrosa falência do ser feminino?

Essas e outras perguntas ficam nas entrelinhas do espetáculo “Três Entas” – inspirado no livro Entas, de Jô Salgado – sob direção da autora em parceria com Maurício Alves.

A partir de um texto de fácil assimilação sobre três vizinhas que fazem aniversário no mesmo dia - completando idades coincidentemente cronológicas - 40, 50 e 60 anos – desenvolve-se o enredo bem incomum e de difícil aceitação por parte de espectadores mais exigentes com visão pragmática.

“Três Entas” exagera na moral da história com foco na sexualidade e negligencia nos valores morais e de capacitação intelecto profissional feminino, se debruçando no amor-próprio, como uma expectativa à curto prazo, e na não aceitação da “falta”, como algo natural às mulheres que entram em seus “entas”.

Seus diálogos simplórios não requerem nenhum tipo de embasamento cultural e vivência prévia para fazer com que o espectador deixe de processar o texto como algo importante para a sua vida, embora, isso seja levado à sério pelas atrizes Alessandra Rodrigues, Carmem Costa e Gledy Goldbach, que se esforçam para transmitir, à plateia, a verdade desenhada para seus personagens.

“Três Entas” tem tudo para ser um sucesso, não somente por parte o público feminino pela sua temática, mas também pelos que apreciam um teatro bem concebido a partir da tentativa de acerto através da direção. O projeto cenográfico de Renato Marques, no que tange à sala de estar na qual as personagens interagem, não demanda significantes atributos de composição de interiores, mas agrega ao conjunto composto pelo eficiente projeto de luz de Rubia Ferreira, enquanto efeitos de dramaticidade, e pelos recursos de projeção, também assinado por Marques, que incluem personagens virtuais ao elenco - técnica recentemente utilizada com fartura pelas produções teatrais, através de painéis translúcidos, que também servem como recurso de teatro de sombras.

A introdução de “So Fxxxing Sorry”, de Phone Trio, na trilha sonora de responsabilidade de Emilio Carrera, embalando a comemoração do aniversário das três amigas, promove momentos de descontração à finalização de “Três Entas” - capazes de diluir qualquer ranço decorrente da natural falta de aceitação do passar dos tempos e das dificuldades assumidas por algumas mulheres de encará-lo com dignidade a partir de suas crises individuais – definindo a superação como pano de fundo e como um caminho árduo que só privilegia o processo da conquista de algo que nunca se teve e nem se sabe se terá.

Presente na estréia de “Três Entas”, no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, no dia 27 de fevereiro de 2015, o Circuito Geral toma a liberdade de apontar alguns possíveis incômodos que podem atingir a crescente plateia almejada pela produção e que demandam uma sintonia fina com vistas à otimização da apreciação do trabalho por parte dos futuros espectadores, a começar pela sonorização, cujo volume definido para os microfones das atrizes configura-se incompatível com as dimensões e propriedades acústicas da sala de espetáculo, tornando-se excessivo na maior parte da apresentação. Ruídos de fundo durante os momentos das projeções dão a impressão de uma colagem estranha à sonoridade inicialmente prevista durante o desenrolar das cenas. Percebem-se, também, hiatos e descompassos na fluência do texto e eventuais sobreposições das falas durante os diálogos entre as atrizes e delas com as falas gravadas, além de alguns fades, como se a declamação do texto sofresse algum tipo de desvio de atenção momentâneo.

Tudo isso pode ser justificado por um eventual estresse por parte da equipe, tão normal numa noite de estréia, mesmo em se tratando de uma nova temporada em um novo teatro. Mas nada como a continuidade das apresentações, acompanhada pela devida atenção da direção com foco nos pontos assinalados pelo Circuito Geral, sob a ótica do espectador, visando ao aperfeiçoamento do que é levado ao público como objeto de apreciação e lazer.

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