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quarta-feira, 4 de março de 2015

Um Estranho no Ninho


Brilhante, emocionante e, acima de tudo, questionador quanto à democracia presente na liberdade e quanto à disciplina como rascunho desta.

O Centro Cultural Justiça Federal abre suas portas para o público, apresentando o clássico “Um Estranho no Ninho” de Dale Wasserman, produzido por Rafael Fleury e Tatsu Carvalho, baseado no livro de Ken Kesey.
A meticulosa direção de Bruce Gomlevsky materializa, com extrema realidade, o conturbado cotidiano de um hospital psiquiátrico, estampando seu empenho em levar ao público uma obra teatral, tecnicamente irretocável. Durante os cento e dez minutos de espetáculo, Gomlevskytransforma o teatro do CCJF numa das dependências de uma instituição total, retratando a vigilância, a punição e o poder, imersos numa atmosfera sedenta por uma análise foucaultiana que, inevitavelmente, induz cada um dos espectadores à reflexão sobre os sistemas e seus efeitos junto às sociedades, representados pelos funcionários do hospital, seus internos “voluntários” e por Randle Patrick McMurphy - um condenado que simula problemas mentais visando ser poupado dos trabalhos forçados na prisão, onde cumpre sua pena privativa de liberdade.
Difícil dissociar a atuação de cada um dos dezesseis atores que compõem o elenco, de um todo, desde o protagonista, incorporado por Carvalho, até os que representam os papéis desprovidos de qualquer fala, tendo em vista ser imprescindível e notória a complexa atuação pantomímica que estes exercem. Personagens são criteriosamente lapidados pela direção de movimento como obras de arte e valorizados pelo dramático desenho de luz, concebido com precisão cirúrgica, assinado por Elisa Tandera - também responsável pela dimensionalidade virtual do cenário de Pati Faedo. Tal parceria define volumes, planos transparentes e pontos de luz sobre um fundo negro infinito, como camadas responsáveis por uma coletiva ilusão de ótica cênica. Faedo, sutilmente incorpora a estrutura original da sala de espetáculo, composta por colunas metálicas, como limites laterais da boca de cena, numa total sinergia entre elementos construtivos e de composição da arquitetura segundo o contexto de ambientação da história. Os figurinos de Alassandra Padilha e de Jerry Rodrigues endossam uma imersão, quase laboratorial, no vestual concebido para cada papel, da mesma forma que o visagismo, cujo mérito é do próprio elenco, define a hierarquia funcional e os estados de saúde e de degradação física e mental dos internos. A trilha sonora de Mauro Berman introduz a música incidental – impactando e potencializando a dramaticidade ao longo da história, alternando ritmos, de acordo com as variações das emoções do espetáculo e atenuando a agressividade e a angustia presentes na maioria das cenas.
“Um Estranho no Ninho” é brilhante, emocionante e, acima de tudo, questionador quanto à democracia presente na liberdade e quanto à disciplina como rascunho desta. Um trabalho imperdível para os apreciadores da excelência da Arte Dramática.


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