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sábado, 28 de março de 2015

Quem Matou Laura Fausto?



Um produto de qualidade, lapidado a partir da valorização de fragmentos transformados em espetáculo.

Na sala de espetáculos, ainda imersa no breu da escuridão, antes mesmo do descerramento do palco, ouvem-se gritos de mulher, supostamente, vítima de uma ação violenta. O espectador atônito, não sabe do que se trata, o que ocorreu, como se sucedeu e o que teria sido o agente detonador de tal desespero. Abrem-se as cortinas - luz, olhares dos espectadores, ação – dá-se início a uma instigante e criativa história de suspense envelopada por uma pergunta latente e perturbadora: “Quem Matou Laura Fausto?” - uma trama concebida sob a solidez do texto de Gustavo Berriel e Raphael Antony, que aproxima a plateia em fina sintonia com os personagens e aguça a curiosidade de todos quanto à identidade do assassino. Como num transe coletivo, o espectador se resguarda em silêncio, até mesmo nos momentos que o texto sugere algum humor, de certa forma, não muito correspondido pela plateia como se qualquer manifestação de riso pusesse em risco a sua linha de raciocínio em busca de alguma pista que possa levar ao homicida de Laura.

Conduzidas por um elenco bem entrosado, a partir da direção de Antony e de seu assistente Felipe Miguel, as cenas se tornam prazerosas aos olhos de quem as vê, gerando toda uma instantânea empatia junto ao público a partir dos dilemas e personalidades dos personagens: a conturbada relação entre as irmãs Arieta e Rebeca, incorporadas por Adriana Torrres e Katya Alessi; os segredos do genro Egídio, vivido por Raphael Antony; a lascívia da secretária Sheila, encenada por Ilona Wirth; a fidelidade do mordomo e da “criada muda”, defendida por Gustavo Berriel e Cecília Vaz; e o alter ego inflado do inspetor Lino Martino, dominado por Marcello Andreata.

“Quem matou Laura Fausto?” é um espetáculo no qual, o mais importante é a história contada, que não se prende à temporalidade, dando margem para que, tanto os projetos de figurino e de cenário, assinados pela Cia Objetores se permitam ousar na falta de escala e na mistura de estilos, de forma quase caricata, contudo, mantendo a atmosfera tipicamente inglesa, conforme a veia criativa condutora desse thriller – o que torna a sua concepção, pessoal e intransferível. A Iluminação de Ericeira Jr. corrobora com o mistério instaurado na mansão e, algumas vezes, atua como spoiller, para a compreensão de algumas cenas que exigem textos longos. A trilha sonora é um outro tiro certeiro, ratificando a liberdade temporal inserida no espetáculo, com a execução de “It Had To Be You”, conduzida pelo vocal de um dos personagens, de forma surpreendente e inesperada, quebrando o suspense e ratificando a veia irônica do espetáculo.

A produção de “Quem Matou Laura Fausto?”, sob responsabilidade de Cecília Vaz e Marcello Andreata, ganha o público pelo seu despojamento e pela sua criatividade, pois o que se vê no palco não é, de fato, a morte de uma personagem, mas sim, um produto de qualidade, lapidado a partir da valorização de fragmentos transformados em espetáculo, digno de ovação pelo público teatral.

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