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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Incêndios


Promessa não é dívida - é dúvida

Mãe, último desejo, morte, filhos, pais, irmãos, preconceito, religião – “Incêndios” reedita a máxima musicalizada – “Promessa não é dívida - é dúvida”. A crueldade, a falta de piedade e a implacável ironia da vida excepcionaliza a capacidade de direção de Aderbal Freire-Filho que lança os personagens concebidos por Wajdi Mouawad num poço dramático sem fundo, transformando “Incêndios” em espetáculo único e insuperável, que consome o palco com a força de labaredas famintas pela destruição de toda e qualquer dúvida sobre a existência do amor incondicional. As faíscas da desconstrução dos personagens coruscam de forma crescente e agonizante, aos olhos nus dos espectadores, como um pavio aceso e alimentado pela carga explosiva presente na atuação de Marieta Severo, Fabianna de Mello e Souza, Felipe de Carolis, Flávio Tolezani, Isaac Bernart, Keli Freitas, Kelzy Ecard e Marcio Vito.

A força do texto de Mouawad é gradativamente esmagadora, chegando ao ponto de revelar, em meio a tanta angústia e sem aviso prévio, o porquê do título da obra, quando da descrição de uma cena na qual a guerrilha, provocada pela intolerância e pela ignorância de uma guerra civil, ateia fogo num ônibus diante do olhar aterrorizado da protagonista. Em momento algum materializadas ou sequer sugeridas através de efeitos especiais que pudessem torná-las óbvias, as chamas de “Incêndios” consomem toda a boca de cena, através do consistente e seletivo desenho de luz assinado por Luiz Paulo Neném, que se estende de forma tênue sobre a plateia, ruborescendo simbolicamente através de seu calor, o semblante dos espectadores e incorporando toda a sala de espetáculos, propositalmente, no contexto da história. O projeto cenográfico, assinado por Fernando Mello da Costa, transporta os espectadores para a guerrilha, para os limites das grades enferrujadas pelo tempo, que permeiam as projeções lumínicas de Neném enquanto transposição de cenas fora do alcance olhar do público e inclusão de coxias auxiliares como portas. O figurino concebido por Antônio Medeiros é seco e cromaticamente anêmico e se basta para o que se propõe na contextualização do drama, concebido segundo espaço e tempo não precisamente definidos. Da mesma forma, a trilha sonora de Tato Taborda, é pungente, perturbadora e alinhada aos acontecimentos durante todo o desenrolar do drama, ainda que, na maior parte do tempo, se faça presente através de sutis e quase inaudíveis ruídos, ainda assim, com efeitos intencionalmente catatônicos sobre o espectador, até mesmo após o término do espetáculo.

Simplesmente testemunhar a excelência de “Incêndios” é pouco para tanto trabalho empenhado pela sua equipe técnica e produção, mas se faz essencial a reflexão sobre as imposições dualísticas, sincréticas e sociais, versus as fatalidades conduzidas pelo destino, que, por muitas vezes, se encontra fora do controle dos indivíduos. A opção pela degustação de “Incêndios” deve ser acompanhada pela certeza de que o espetáculo queima, arde, consome e finda, como a realidade que enterramos todos os dias, para que o dia seguinte, nasça sem um epitáfio público, pois, “há verdades que não podem ser reveladas”. 

sábado, 25 de abril de 2015

STOMP


Endossando seu profissionalismo artístico às custas de muito barulho


Ruído, ritmo, cadência, harmonia, barulho – muito barulho. Essa é a tônica da performance do grupo de percussão STOMP – que se apresenta dentro de um formato de show inusitado no qual, qualquer coisa que esteja ao alcance das mãos e dos pés de seus performadores, se torna fonte e efeito sonoro.

Diante de um cenário que remete a um ferro velho – cuja composição artística se enquadra no sonho de consumo para ambientação de qualquer loft nova-iorquino - os oito percussionistas da trupe desta temporada no Brasil que acumulam uma sorte de outros talentos, desempenham suas habilidades coreográficas, malabaristas, comunicativas e criativas, através de uma série de esquetes impregnados de autêntico bom humor.  Seis homens e duas mulheres – cada um deles dotados de forte caráter e estilo próprio, denunciados pelos seus desempenhos comportamentais e figurino - instrumentam latas, latinhas e latões, caixas e bastões, bolas e câmaras de ar, sacos plásticos, de papel e jornais, bancadas e pias de aço inox, tambores plásticos, sifões corrugados e isqueiros, carrinhos de supermercado, areia, água e até o próprio ar, para que deles sejam tirados os mais incríveis efeitos de som e acústica. Bater palmas, estalar dedos e sapatear são outros recursos que os componentes do grupo lançam mão para apresentação de diversos outros números e para interagirem com a plateia - cuja participação acaba transformando a sala de espetáculo numa enorme caixa acústica. De volta ao monumental cenário, trata-se nada mais, nada menos de uma gigantesca bateria verticalizada, onde utensílios plásticos e metálicos pousados em plataformas e pendurados na estrutura daquela instalação, são todos partes de uma insólita estação musical. Toda aquela ação presente no palco é precisamente acompanhada pela projeção de multicoloridos focos de luz, cujo projeto e operação são tão ritmados quanto as mais variadas partituras sonoras e respectivas coreografias processadas pelos artistas.


Hipnotizado pela experiência sensorial pela qual se entrega durante o literal espetáculo, no Teatro Bradesco Rio, no dia 23 de abril de 2015, o Circuito Geral não pode dissociar o estado da arte das performances do STOMP com o transe apoteótico provocado pelas baterias carnavalescas e com as origens embrionárias das batidas apresentadas no palco, não tão distantes, daquelas uma vez personalizadas por Cyro Monteiro – ao ritmar suas canções acompanhado por uma caixinha de fósforos – e por Miriam Batucada, cuja o nome se deve ao fato de cantar seus sucessos batucando em objetos e mesas ou simplesmente com as mãos. Diante de tudo isso, nos permitimos inferir que o grupo não poderia ter sido melhor batizado, mas com a nomenclatura da língua inglesa que define, onomatopeicamente, o ato de projetar os pés de forma violenta contra o chão ou qualquer outra superfície, causando um estrondoso STOMP – endossando seu profissionalismo artístico às custas de muito barulho.

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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Christina Perri - Head or Heart World Tour


Um planeta que vai gradativamente sendo iluminado por sua estrela solar

Em sua atual turnê pelo Brasil - “Head or Heart World Tour”, cuja estreia ocorreu no palco do Teatro Bradesco Rio, no dia 22 de abril, tendo sua continuidade no Teatro Bradesco São Paulo, no próximo dia 24 de abril de 2015, Christina Perri marca a sua presença, cândida e jovialmente, embalando a plateia, lotada de fãs, com suas canções que mais parecem fazer parte de uma trilha sonora de uma “história cantada”.

Perri surge do breu, como um planeta que vai gradativamente sendo iluminado por sua estrela solar, marcando o início de um roteiro que dura pouco mais que noventa minutos - tempo suficiente para levar a casa de espetáculo ao auge da emoção. Com sorriso permanentemente estampado na face, saltitante como uma adolescente que se realiza a partir de seus próprios predicados e contagiando toda uma legião de “teens” e jovens adultos, a cativante vocalista e musicista dá início ao seu espetáculo com “Trust”, prosseguindo com “Run” - do álbum que dá origem à turnê. Dando sequência à sua apresentação, Perri  retoma sucessos de seu álbum anterior – “Lovestrong”, com sucessos não menos românticos tais como: “Distance”, “Arms” e o tão esperado “A Thousand Years” - música do não tão menos cultuado “Breaking Dawn”.

Por diversas vezes, à frente de um translúcido panejamento através do qual brilham pontos de luz, como um céu estrelado, a emoção das canções de Christina Perri comandam banhos de luz no palco, contagiando a atmosfera em tons escarlate, dourado e celúreo, aconchegando a plateia, cada vez mais, em torno de si. Tendo participado anteriormente de um flashmob pelas redes sociais, seus fãs, mais uma vez, cumprem a sua parte na interatividade junto à artista e levantam balões ao primeiro acorde de “Human”, promovendo um show à parte. Dando sequência às calorosas manifestações frente ao seu ídolo, os fãs acenam, embalados por “I Believe”, com corações vermelhos rusticamente recortados em cartolina, mas que expressaram, da forma mais nobre e sincera, o seu amor por Christina, com direito a gritos e lágrimas.  Crédito mais que merecido para o trabalho em equipe – guitarra, baixo, teclado, bateria e vocal de apoio – elementos distintos que dão liga ao conjunto.

Como tudo na vida, a história tão bem conduzida por Christina Perry chega ao seu final, com um desejo que é compartilhado por todos os seus seguidores - “I Dont Wanna Break”.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Acompanhamento


Belo e revigorante

Com o passar dos anos, não há quem não se confronte com as mais variadas situações impostas pela vida e pela sociedade, independente do estágio etário em que o indivíduo se encontra. O fato é que, a todo momento, somos espectadores de nós mesmos e, de acordo com o nível de acuidade que se possa assistir ao espetáculo de nossas próprias vidas, se pode perceber a idade indo ou a idade chegando. Dependendo do estímulo externo, toda uma sorte de reações pode ser demonstrada, tais como: o choro de um bebê informando que algo o incomoda; da manha de uma criança ao demandar por atenção; da blindagem da invencibilidade por parte de um adolescente quando nota que não passa de um mero mortal; do desespero de um adulto decorrente da fraqueza frente às responsabilidades; e da reverberação de um idoso diante de um retrospecto de toda uma vida já vivida em contraste com a solidão. Retomando o ponto de vista do espectador, num espetáculo teatral, somos todos observadores da vida alheia concebida pelo autor do texto e, acolhidos pela segurança que a plateia nos proporciona, temos a certeza de que aquela história chegará a um termo e a vida de quem assiste – à sombra da incerta segurança ou da fatalidade da incerteza - continuará. 

O Circuito Geral se dá o direito de publicar esse preâmbulo visando compartilhar o seu ponto de vista de “O Acompanhamento” - cuja adaptação do texto original de autoria de Carlos Gorostiza é assinada a quatro mãos, por Wilmar Amaral e Daniel Archangelo que, apesar de terem dado vida a personagens da terceira idade como protagonistas, nos permitiu compreender que a história não define a temática da solidão e do abandono como exclusividade passíveis das pessoas idosas. Em suma, não se trata de uma espetáculo sobre a velhice.

A zelosa direção de Daniel Archangelo presenteia o espectador com espetáculo dramático atemporal marcado pelo desgaste, como retratado pelo projeto cenográfico, esteticamente bem concebido por Carlos Augusto Campos, que define limites fragmentados e cores desbotadas, numa alusão à total desatenção de seu ocupante e de seus familiares – com base nessa segunda hipótese, sinal de omissão por conveniência ou por mero castigo, são ambos passíveis de serem julgados como crime. Como profissional polivalente, Archangelo também assina o projeto de luz, evidenciando a dramaticidade dos diálogos mais conflitantes - entre Tuco, interpretado por Wilmar Amaral, e Sebastian, por Roberto Frota - e acalentando, com luz difusa, momentos de maior descontração entre os dois amigos. O figurino de Ricardo Rocha traduz, com a simplicidade que a realidade demanda, o presente vivenciado por Tuco – como o homem que abre mão de sua vida real, supostamente frustrante, para se entregar a planos fantasiosos que lhe enchem de prazer e que pode ser interpretado como o seu modo de chamar atenção para si; e por Sebastian – um homem realizado com aquilo que, até então, conseguiu na vida e que naquele momento, se dispõe a realinhar os planos de seu onírico amigo.

“O Acompanhamento” é belo e revigorante – o tipo de espetáculo que não deixa o espectador no vácuo e o faz refletir sobre a importância da amizade diante de uma eventual falência do núcleo familiar tradicional, sobre a possibilidade da escolha de sua própria família independente dos laços de sangue, e sobre a verdadeira cumplicidade que não acaba com o passar do tempo.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Vingadores: Era de Ultron


A mais perfeita materialização sensorial a partir dos quadrinhos Marvel

“Vingadores: Era de Ultron”, sob a direção de Joss Whedon, é a mais perfeita materialização sensorial a partir dos quadrinhos Marvel, de todos os tempos – um filme dotado de agilidade cênica surpreendente, repleto de efeitos especiais eletrizantes, imperdível no modo de exibição 3D.
Nesse segundo filme da franquia “Vingadores”, o inimigo surge a partir do alter ego de Tony Stark. A incoerência de Ultron, totalmente dominado por James Spader que lhe empresta a voz, parece propositalmente óbvia pois, “Vingadores: Era de Ultron” se atreve tangenciar a complexidade moral, ausente até então. Coloca em pauta a necessidade da guerra para se obter a paz - estratégia defendida por uma inteligência artificial tomada pela “síndrome de Pinóquio”.
“Vingadores: Era de Ultron” introduz os mutantes Mercúrio e Feiticeira Escarlate, personificados por Aaron Taylor-Johnson e Elizabeth Olsen, respectivamente. Responsável pela vertente psicológica da história, Escarlate expõe a psique bélica dos heróis ao controlar suas mentes, mesmo quando se imaginam em lugares bucólicos. J.A.R.V.I.S., o sistema de inteligência artificial auxiliar do Homem de Ferro, se torna O Visão, interpretado por Paul Bettany, que nessa sequencia, se torna o nêmesi de Ultron – embora sua importância se evidencie somente nas cenas finais.
O equilíbrio entre ação e humor é forte neste filme, o que valoriza o conteúdo da obra como entretenimento e desperta para algo além da simples diversão. “Vingadores: Era de Ultron” define a armageddon como o início de uma nova era na qual, a lei da causa e efeito independe da boa ação do indivíduo, seja ele um herói ou, simplesmente, um ser humano sem poder algum.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Mas Por Quê??! A Historia de Elvis


É brilhante e emocionante

“Morte - mas por quê?; Bichinhos também morrem - mas por quê?; Morreram e foram para o céu - mas por quê?” - são perguntas inocentes com direito a respostas infantilóides, tais como: “Papai do Céu chamou”; “Virou uma estrelinha”; “Transformou-se num anjinho”.

Na contramão de tudo isso, entra em cartaz, no Teatro NetRio, “Mas Por Quê??! A Historia de Elvis” -  um espetáculo substancial para crianças, jovens e maiores de idade. O conto interage com os espectadores, promovendo uma percepção menos esquizofrênica dos adultos que costumam assumir que, para se proteger, se faz necessário mentir, apelando para o sobrenatural para explicar o natural da vida.

A partir de uma direção impecável, Renato Linhares abusa da irreversibilidade anti-maniqueísta, com maturidade ímpar, em se tratando de uma obra classificada como infantil. O respeito apregoado às mais diversas faixas etárias de espectadores é um diferencial no texto de Rafael Gomes e Vinicius Calderoni, que de tão bem concebido, pode ser classificado como o núcleo de uma das mais belas montagens do gênero. O mágico cenário idealizado por Bia Junqueira encobre toda a boca de cena que se transforma, ludicamente, ao longo do espetáculo, em formas de sabedoria e conhecimento de causa. A iluminação de Luiz Paulo Neném oscila entre o espectro que vai da neutralidade até a apoteose - encantadora, em especial, quando dos momentos musicais. No mesmo ritmo em que formas e cores pululam no palco, a trilha sonora é outra sacada da produção composta por Felipe Lima e Mariana Serrão, que lança mão dos sucessos de Elvis Presley para embasar a moral de cada interação entre a pequena Cecília - personagem interpretada por Letícia Colin, que não entende o motivo de seu passarinho ter morrido – e seus quatro mais recentes conhecidos: Gilda - interpretada de forma suave e reveladora por

Júlia Gorman; Sebastião - bicho de pelúcia dotado de muito swing, incorporado por Pedro Lima; Max - pirata desempenhado por Marcel Octávio, tão pueril e ativo quanto tivesse o personagem pulado das páginas de um conto infanto-juvenil; e Lili - amiga imaginária de Cecília que se torna real na pele da divertida e carismática Simone Mazzer, que com sua interpretação, lança um desejo nostálgico nos adultos de voltar a ser criança para tê-la como uma amiga imaginária. Injusto seria despejar todo o mérito do musical em Mazzer, uma vez que, apesar das incríveis apresentações individuais de cada um dos personagens, o vocal em conjunto, acompanhado pelo instrumental de primeira, presenteia a plateia adulta e prepara a infanto-juvenil com o que de melhor um espetáculo daquela especificidade pode oferecer.


“Mas Por Quê??! A Historia de Elvis” é brilhante e emocionante, deixando metade dos olhos do Circuito Geral debulhados em lágrimas e nos trazendo à baila uma frase de Shel Silverstein, que traduz o que acontece no Theatro Net Rio, aos sábados e domingos, até o dia 10 de maio de 2015, às 16:30 - “Não existem finais felizes, pois o fim é sempre a parte mais triste”. A partir dessa máxima, o Circuito Geral demanda da produção um “Feliz Meio e um Começo mais legal ainda” - que se repitam as apresentações de “Mas Por Quê??! A Historia de Elvis”, por muitas e muitas temporadas.

Bergman - Através de um Espelho


Cumpre o seu papel de transmitir Bergman de forma palatável

Uma linha tênue que separa o psicológico e o patológico é claramente percebida nas obras de Ingmar Bergman, geralmente protagonizadas por personagens envolvidos com problemas familiares, conjugais ou simplesmente imersos na depressão causada pela incerteza do ser. De forma perturbadora, Bergman, tende colocar seus personagens-vítimas nas mãos de algo alheio à compreensão de terceiros, circunstancialmente sob uma aura maniqueísta, mas cujas perturbações acabam sempre diagnosticadas com base em fatos reais e concretos.

Excepcionalmente, a versão de “Através de um Espelho” para os palcos, por Jenny Worton, não sacia um eventual plausível questionamento do espectador sobre as razões para tanta angústia,  bipolaridade e histeria, em paralelo a tanta sede de viver por parte da protagonista - mesmo que, em seu mundo particular, seja válido vivenciar algo que beira à esquizofrenia, contanto que se esteja vivo.

Com total domínio sobre o texto de Bergman, a técnica direção de Ulisses Cruz compensa estrategicamente, através das cenas, as palavras que, possivelmente, foram deixadas nas entrelinhas, pela adaptação de Marcos Daud. Com isso, Cruz dribla eventuais questões e acalma o que pode ser motivo de aflição do espectador ao longo dos setenta e cinco minutos durante os quais se presencia a oscilante doença degenerativa de Karin, interpretada por Gabriela Duarte – que oportunamente, consagra a sua versatilidade frente aos desafios impostos por personagens de complexidade diversa. David, o misantrópico escritor, pai de Karin e o mais “bergmaniano” dentre os quatro personagens, interpretado por Joca Andreazza, se infiltra no olho do furação, com sua personalidade mesquinha, egoísta e com objetivo único de fazer com que suas anotações sobre o que ocorre com sua filha, se torne argumento para o seu próximo romance. Max, jovem que vislumbra seguir a carreira de escritor, irmão de Karin e pára-raios daquele triângulo familiar, se agiganta em cena, tamanho o empenho na dramatização do personagem, incorporado por Lucas Lentini. Marcos Suchara, no papel de Martin, esposo da protagonista, simboliza o meio termo necessário visando ao prumo dessa angustiante história, sofrendo pelo sofrimento de sua esposa e tentando trazê-la à realidade quando da ocorrência de seus muitos surtos psicóticos.

Projeto cenográfico, figurino, vizagismo, desenho de luz, e trilha sonora, assinados por Lu Bueno, Cassio Brasil, Lab. Duda Molinos, Domingos Quintiliano e Daniel Maia, respectivamente, além de cumprirem técnica e impecavelmente seu papel na contextualização e enriquecimento sensorial da obra, se apresentam como manifestações complementares de um todo, sujeitas a apreciação e deleite pelo público teatral.


A atual produção de “Através de um Espelho” cumpre o seu papel de transmitir Bergman de forma palatável - mas como toda a obra do dramaturgo, é voltada para um público que possa se interessar em assistir um psicodrama como forma de lazer ou como simples agregado à sua bagagem cultural.  

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domingo, 19 de abril de 2015

Yentl Em Concerto


Essencial quanto à sua capacidade de abastecer a alma daqueles que anseiam pela genuinidade da vida

Baseado no conto de autoria de Isaac Bashevis Singer, Alessandra Maestrini dá vida à protagonista, de forma singular, em seu pocket show “Yentl Em Concerto”, em cartaz no Centro Cultural Midrash, do Leblon, Rio de Janeiro, todas as quintas-feiras, até o dia 07 de maio de 2015, às 21:00.

Como exímia contadora de histórias, Maestrini apresenta a essência de Yentl - filha única do viúvo Rebbe e que lhe ensina secretamente as codificações do Talmude – conjunto de leis judaicas cuja leitura, proferimento e aprendizado eram vedados às mulheres. Na tentativa de driblar tais restrições, após a morte de seu pai, Yentl se traveste em Anshel - homem que ingressa numa escola de teologia e que, acidentalmente, se apaixona por Avigdor - que por sua vez, é noivo da jovem Hadass. A partir de então, se desenvolve um triângulo amoroso que, até os dias de hoje, ainda é considerado nada convencional, graças à hipocrisia latente em nossa sociedade. 

Ao longo da narrativa de Maestrini, a imaginação do espectador alça vôo, alimentada por suas palavras. Entre um bloco narrativo e outro, uma canção é ecoada com instrumental e sonoridade que se diferem, de forma surpreendente, por sua qualidade. Num total de treze músicas compostas por Michel Legrand, Maestrini apresenta a trilha sonora composta para o filme homônimo de 1983. A lapidar direção musical do pianista João Carlos Coutinho faz com que drama e romantismo se fundam através da música nesse recital, cuja dimensão se adéqua, desde aos pequenos espaços multiusos com limitações de recursos técnicos - de forma intimista - até às grandes e suntuosas salas de espetáculo contempladas por tecnologia de ponta – magnanimamente – flexibilidade essa que se deve ao carisma e ao domínio vocal, dissertativo e musical de Maestrini.

Na atual temporada, a produção expõe Yentl como uma pérola a ser apreciada pela calorosa comunidade judaica que, quase numa composição de ouvintes coadjuvantes ao espetáculo, faz com que qualquer gentio, dentre aqueles presentes, se sinta acolhido por uma grande família. A cativante informalidade de Maestrini e de sua destreza na quebra de qualquer protocolo entre palco e plateia, são espontaneamente comprovadas, em plena noite de estreia de 16 de abril de 2015. Fato presenciado pelo Circuito Geral e pelos demais espectadores, sem qualquer aviso prévio, a tampa da visita do elevador do projetor da sala multiuso, instalado acima do nível do forro de teto, por duas vezes, é acidentalmente acionada por interferências técnicas. Sem constrangimento e hesitação, as ocorrências são imediata e informalmente diagnosticadas por Maestrini, em alto e bom-tom, como atividade paranormal de autoria de "Geléia" - personagem monstro do filme norte americano “Os Caça-Fantasmas”, que estaria presente dentre nós. De forma descontraída, o despretensioso comentário promove gargalhadas coletivas dentre todos, fomentando uma atmosfera que permeia o espetáculo que, sem script previamente definido, assume o formato de um livro repleto de surpreendentes improvisos.

“Yentl Em Concerto”, de tão encantador, é essencial quanto à sua capacidade de abastecer a alma daqueles que anseiam pela genuinidade da vida, longe de preconceitos e de desinclusões sociais.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Casa Encaixotada


Dizem que na hora da morte, a vida passa como um filme diante de nós, numa fração de segundos.

Dizem que na hora da morte, a vida passa como um filme diante de nós, numa fração de segundos - a radiografia de alguém proveniente de uma família incapaz de amar, uma vida profissional aquém das expectativas, um amor sem correspondência, uma casa repleta de angústia – através desse subterrâneo do subconsciente de um homem, Ruy Filho, assina a direção geral de um monólogo que impressiona pela estranheza de suas marcações e surpreende por sua obstinação pelo vazio existencial.

Sem dó nem piedade, Ruy amputa as pernas de todos os espectadores que ousam entrar na sala de espetáculo abarrotada de medos e fracassos, o que promove uma paralisia coletiva frente à dramática performance de Frank Borges que incorpora um personagem colecionador de lembranças traumáticas ao longo de sua existência, indiferente à total ausência de manifestação por parte da plateia. Borges é persistente durante cinquenta minutos de apresentação, invadindo a alma de cada um dosamputadosque, sem força e sem muletas, não conseguem esboçar a mínima possibilidade de sair da sala na qual entraram por livre e espontânea vontade.

As tentativas do monologuista de clarificar seus sentimentos perante a plateia, se obscurecem gradativamente, independente do intensidade lumínica do dramático desenho de luz de Ruy, perturbador e atemorizador, diante do inevitável – abandonar aquele espaço e enfrentar as mudanças que não ocorrerão após a apresentação. A cada espetáculo, a efemeridade da vida é retratada na destruição do cenário compactuado por Ruy e Borges, que não fica atrás de qualquer instalação de mostra de arte, construído a partir de caixas de papelão, de uma trama nonsense tecida com fita adesiva - cujas sobras de rolos voltam a ser encaixotadas - e muitos outros objetos marcados por profundo simbolismo. Como um rolo compressor metafórico, diretor, ator, luz e cenário assolam qualquer sentimento de amor, demostram desinteresse pela figura materna, se utilizam do repúdio como um instrumento de negação, e eclodem na manifestação de alguém que nunca se permitiu viver, mas somente presenciar os acontecimentos da vida tal e qual um espectador.

Ao final do espetáculo, uma eventual reticente manifestação dos aplausos pode ser interpretada pelo confronto entre a possível constrangedora ovação à essência do drama levado a cabo versus a constatação da merecida aclamação ao reconhecimento do trabalho de Borges e de sua equipe técnica. Ainda temeroso pela iniciativa individual de ser o primeiro a se dirigir à saída da sala de espetáculo, cada um dos espectadores, certamente leva consigo a pergunta que, por bom momento, não se cala: quem de fato estará saindo da “Casa Encaixotada”.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Closer - Perto Demais


Carga de realismo e da pluralidade de sentimentos capazes de fazer com que um estranho qualquer, esteja simplesmente assistindo ao espetáculo ao seu lado, ou indo para casa, no seu carro

De longe, aparentemente, todos são normais - até que a proximidade retrate a sua essência, a ponto de se questionar a existência dessa tal normalidade. 

Daniel é um jornalista encarregado da seção de obituários e domina a técnica de redigi-los de tal forma a dar o devido valor a quem já morreu – a despeito do fato de que, nem sempre, as pessoas sejam boas, os amantes sejam amados, os pares formem um casal.

Anna é uma fotógrafa que registra closes de desconhecidos, com rostos que estampam seus sentimentos, aproximando fantasiosamente a fotógrafa criadora do seu modelo criatura - cuja existência depende de sua expressão diante das lentes para um close.

Larry é um dermatologista que lida com o envoltório de seres humanos cuja superficialidade se reflete com a maneira com que se aproxima deles em busca de satisfação sexual, através de chats de encontros – instrumento do qual se utiliza, de forma antagônica, para manter contato à distância.

Jane é uma stripper cujo corpo é o seu templo - e talvez a única fonte de certeza de quem ela é, quando despida de qualquer sentimento amoroso.

O amor em “Closer – Perto Demais” – espetáculo adaptado e dirigido emblematicamente por Andrea Avancini, é um grande jogo de lentes, flashes e de fundo infinito, como num ensaio fotográfico, através do qual, a cada clique, se passam dias, semanas e anos. Tal sutileza não teria sido tão bem retratada não fosse o competente projeto de luz de Ricardo Fujii, o que poria a perder a compreensão do texto original de Patrick Maber que, de tão complexo e frívolo, beira à genialidade. Contudo, o crédito à iluminação não se desconecta da concepção cenográfica de Jairo de Sender que viabiliza a diversidade espacial definida ao longo do texto através de um fundo infinito, base do trabalho de Fujii, e da versatilidade de peças de mobiliário que segue a linha do “menos ser mais”. O figurino de Jô Resende cumpre eficientemente seu papel, caracterizando os personagens de acordo com seu estilo e perfil profissional.

Os estranhos anteriormente descritos são interpretados de forma robusta e tecnicamente sensuais por Rafael Sardão, Paula Moreno, Luciano Szafir e Karen Mota, respectivamente. 

“Closer – Perto Demais” é surpreendente ao deslumbrar o espectador com uma história que teria tudo para ser romântica, mas que, de fato, o faz pela exposição da carga de realismo e da pluralidade de sentimentos capazes de fazer com que um estranho qualquer, esteja simplesmente assistindo ao espetáculo ao seu lado, ou indo para casa, no seu carro.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Consertam-se Imóveis


Psicopatia do sofrimento em grupo

“Psicopatia do sofrimento em grupo” – dessa forma o Circuito Geral define “Consertam-se Imóveis”, peça sob direção de Cynthia Reis, contemplando o cotidiano de uma família na qual todos são patologicamente perturbados e retratando a total falência das relações interpessoais, a partir de indivíduos conectados a uma única obsessão - poupar da verdade, uma mulher que com base na observação do comportamento dos personagens em cena, possivelmente, teria sido a responsável pelo desenvolvimento da mitomania no seio daquele núcleo familiar.
O desenrolar da história tende para um drama com foco no campo de visão de seus personagens em torno de uma mesa de refeições, orbitada por outros elementos cenográficos cuja localização é precisamente definida e delimitada por marcações no palco, executadas in loco quando da entrada do público na plateia, numa alusão à estaticidade de cada um dos personagens, imobilizados dentro dos limites de seus próprios territórios.
Na atual temporada, com apresentação na sala multiuso do Teatro Sesc – Copacabana, os recursos da iluminação cênica são bem explorados e criativos diante das limitações do espaço, contudo, se mostra, muitas vezes, em descompasso com as marcações de palco. Percebem-se falhas - ou resquícios intencionais por parte da direção - nas operações de contrarregras, tão notórias quanto o passar de semanas, após as quais ainda se pode visualizar objeto de cena já ocorrida e que, em dado momento, já se encontra fora do contexto. Com especial destaque, “Psicopatia do sofrimento em grupo” oferece uma original trilha sonora executada, ao vivo, pelo violoncelista Frederico Puppi, dramatizando as cenas num clima de horror suspense. Quanto à configuração física do teatro, contemplando palco e plateia, a modalidade escolhida para a disposição dos assentos não foi das mais felizes, devido à pouca declividade da plateia, prejudicando, em muito, a visibilidade dos espectadores ocupantes das filas de cadeiras que não aquelas imediatamente junto ao palco, por sua vez, ao “res do chão”. Sob a ótica do espectador, o Circuito Geral se permite sugerir uma sintonia fina com relação aos pontos observados, que podem receber atenção especial da direção, se não nesta, em futuras temporadas.
Apesar dos esforços empenhados na produção de “Consertam-se Imóveis”, a começar pelo texto de autoria de Keli Freitas, a temática sobre a falta de perspectiva diante da vida e a intimidação diante da morte, longe de ser perturbadora e instigante dificilmente conduz o espectador à reflexão após o término da apresentação, fazendo com que leve consigo um vazio como produto final daquilo que assistiu – o que pode ser considerado intencional e louvável por parte da produção, como aquela carga emocional que faz valer um espetáculo.

sábado, 11 de abril de 2015

Casa Grande


O enredo não abre espaço para o debate entre ser bom ou mau, mas somente a constatação de seres humanos, passíveis de acertos e erros 

Percebe-se um clima de renovação em “Casa Grande” que se diferencia, em muito, dos filmes nacionais atuais - a começar pela direção do novato Felipe Barbosa.
A partir de uma história contemporânea e, de certa forma, documental, “Casa Grande” retrata a decadência da economia e da sociedade, o conformismo para com a violência, a exploração do trabalhador e a implantação de cotas raciais pelo sistema - com uma fluidez surpreendente, apesar de seus personagens complexos e ricos em conteúdo. A despeito da introdução de diálogos de cunho preconceituoso e moralista, o enredo não abre espaço para o debate entre ser bom ou mau, mas somente a constatação de seres humanos, passíveis de acertos e erros - mas humanos. A hierarquia social apregoada no filme contribui para a definição de uma atmosfera plena de realidade que, ao mesmo tempo, ostenta um casarão localizado num dos bairros mais sofisticados do Rio de Janeiro, contrapondo com as vielas típicas de grandes comunidades cariocas.
“Casa Grande” é um filme sobre o desnudamento do relacionamento familiar, amoroso, comercial, empresarial e social, expondo, de forma plena, toda a miopia com foco nos mais e nos menos privilegiados pela vida.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Auto da Compadecida


Um texto, surpreendentemente, ainda atual e que, por muito tempo, inevitavelmente, ainda o será

“Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna, cujo texto original data de 1955, retorna aos palcos Cariocas - dessa vez, no Teatro Maison de France, com vigor e agilidade cênica fomentadas pelo amadurecimento das performances desde abril de 2012, pela Cia Limite 151.
O aperfeiçoamento desse trabalho conquistado por Sidnei Cruz é retratado pela forte sintonia entre os atores que promovem um harmonioso consenso cênico durante todo o espetáculo, permitindo se destacarem pelo mérito da incorporação de cada um de seus personagens – em especial, os protagonistas João Grilo e Chicó, interpretados por Gláucia Rodrigues e Rafael Canedo, respectivamente.
O brasileiríssimo cenário policromático de José Dias cumpre o papel de trazer ao público, de forma estática, a atmosfera da cultura nordestina, miscigenada desde o descobrimento do Brasil. Enquanto isso, o figurino assinado por Samuel Abrantes promove o dinamismo desses símbolos culturais através do gestual dos atores que movimenta o colorido das vestes e adereços, alterando a cromaticidade da boca de cena tal e qual a de um caleidoscópio. Efeitos de cores, de claros e de escuros, não teriam sido possíveis não fosse o criterioso projeto de luz de Aurélio de Simoni, definindo a temporalidade dos momentos dramáticos, trágicos e cômicos. Musicalizando o espetáculo com peças originais, Wagner Campos completa o cenário cultural concebido por Suassuna a partir de sua direção específica.
Seja nas páginas literárias, nas telas ou nos palcos, “Auto da Compadecida” cumpre com o seu papel de entreter e levar leitores e espectadores à reflexão sobre as influências religiosas e políticas que contagiam os homens e sobre o antagonismo sempre presente em suas vidas - o bem e o mal, a riqueza e a pobreza, a traição e fidelidade, a avareza e generosidade, a condenação e a salvação, o céu e o inferno - a partir de um texto, surpreendentemente, ainda atual e que, por muito tempo, inevitavelmente, ainda o será.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A Magia das Fadas, Príncipes e Princesas





Materializa o valor ideológico dos contos de fadas, de forma habilidosa e contundente.

Deleite para a imaginação do público infantil e dos adultos – por essa mesma poção, o Circuito Geral é enfeitiçado e invadido pela fantasia do espetáculo “A Magia das Fadas, Príncipes e Princesas”, em cartaz no Teatro Bradesco Rio.

O musical conta com a direção do italiano Billy Bond - que transporta toda a plateia numa viagem ao mundo das fadas, repleta de impactantes efeitos especiais visuais, olfativos e, porque não dizer, sentimentais. A história é protagonizada pela jovem Anna que, juntamente com seu companheiro alpinista, procura colher o fluído do amor verdadeiro de quatro princesas para salvar a vida de sua irmã. Essa busca os leva percorrer e compartilhar com a plateia, as páginas dos contos de A Bela Adormecida, de A Bela e a Fera, da Branca de Neve e de Cinderela. A partir de então, o teatro é tomado por fadas, bruxas, seres encantados, príncipes e princesas que percorrem todas as dimensões da sala de espetáculo. De tempos em tempos, sentem-se suaves fragrâncias da natureza perfumando toda a plateia, aproximando, ainda mais, os espectadores da atmosfera concebida por Bond.

A cada introdução de um novo conto, projeções ilustram o resumo das histórias narrados de forma doce e clara, cenários com riqueza de detalhes acirram o imaginário dos espectadores, figurinos de primeira linha caracterizam cada um dos personagens, trilha musical e potência sonora contagiam os corações – tudo isso em meio a efeitos de frio e fumaça, neve, pozinho mágico, levitações, recursos 4D e telões sob tecnologia Led Light, aproximando, ainda mais, a realidade da fantasia.

“A Magia das Fadas, Príncipes e Princesas” reserva as crianças como a parte integrante de maior relevância durante o musical e, em especial, ao término da aventura de Anna – no foyer do teatro, antes do acesso do público à sala de espetáculo,  quatro meninas, todas em igualdade de condição, são eleitas para terem direito a mini camarins, onde são vestidas como princesas para participarem do baile para o qual, foram convidadas, todas a jovens solteiras, inclusive, Cinderela.


“A Magia das Fadas, Príncipes e Princesas” materializa o valor ideológico dos contos de fadas, de forma habilidosa e contundente, ao extrair todos os significados possíveis da moral para jovens e para aqueles que, um dia, se permitiram crescer, mantendo a sua essência infantil.

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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sam Alves - ID




Cativa o público mais antenado na cena pop atual


Noite de 31 de março de 2015, numa única apresentação no Theatro Net Rio, dá-se início à nova turnê “Sam Alves – ID”. O palco, ainda tomado pelo semi breu, é ocupado por cada um dos componentes da banda - Heitor Lima na bateria, Viny Melanio no baixo, Lipe Bade no violão e guitarra, e Vitor Cortez no teclado. Uma vez alocada, a banda emite seus primeiros acordes pré aquecendo a plateia, num preparo para a entrada de Sam Alves que, despretensiosamente, inicia o show com a interpretação de “Frágil”, seguindo com “Amanhecer” e descontraindo com “Esse Mistério” – música que abre o CD homônimo do espetáculo.  

Após a apresentação de “Tired”, o compositor e intérprete, já em total domínio do palco e interagido com a plateia, se entrega aos fãs, de corpo e alma, dando sequência à sua paleta musical com “Dangerous” de David Guetta, “Be With Me” e “Me Beija” – ambas de sua autoria. No ápice do espetáculo, um surpreendente convite de Sam Alves emociona o público presente – sua mãe sobe ao palco, onde, em seus braços, é homenageada ao som de “A Thousand Years” de Christina Perri, levando todos à comoção com seu discurso proferido com amor e reconhecimento. Em meios a gritos, selfies e aplausos incessantes, Sam Alves faz de tudo um pouco para não deixar qualquer de seus admiradores sem resposta ou demonstração de carinho, tamanho o assédio promovido pelos fãs, em peso na plateia, dando a impressão de se tratar de uma grande família aplacada por amor incondicional. A totalidade das músicas do novo álbum é reconhecida e conta com o acompanhamento vocal dos fãs, abrindo espaço para Sam Alves introduzir músicas do seu CD anterior, para o deleite de todos os presentes.

Sam Alves percorre e preenche todos os espaços livres do palco como um veterano, trazendo consigo uma produção composta por profissionais gabaritados - a que tem direito e à qual responde empreendedora e profissionalmente. Proporcional ao seu talento, a simplicidade com que se apresenta diante da plateia, cativa o público mais antenado na cena pop atual, tendo em vista o sutil refino da seleção de seu repertório. Menção especial para a sua versão de “Chandelier”, de Sia, somando à qualidade e ao prazer em assistir ao espetáculo já próximo ao seu final. A inédita “I Wanna Fall”, é a eleita para o término dessa apresentação única no Rio de Janeiro, com continuidade garantida em outras cidades do Brasil, numa demonstração incontestável do crescimento artístico de Sam Alves.



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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Fim de Semana em Paris


Embarca os espectadores numa viagem inquietante, conformista, realista, extenuante e nostálgica

Que casal não ficaria deslumbrado com a possibilidade de celebrar seus trinta anos de união, na Cidade Luz?

O filme “Fim de Semana em Paris” apresenta um rol de motivos para que uma comemoração dessa natureza acabe em fiasco – a maturidade sem a menor perspectiva de progressão na vida; a rotina do casamento devastada pela falta de admiração pelo companheiro; os filhos que, após crescerem, deixamde ser uma graça divina e não conseguem se sustentar sem a suposta obrigatória ajuda de seus abençoados progenitores; a deterioração do desejo manifestada por um ou por ambos os cônjuges; a falência financeira; e para finalizar, a busca por um culpado pelas suas próprias carências.

Através desse cenário, “Fim de Semana em Paris” embarca os espectadores numa viagem inquietante, conformista, realista, extenuante e nostálgica, no sentido negativo deste último. Apesar de sua temática, o filme, sob a direção do veterano Roger Michell, se sustenta pela sua convincente retratação da incapacidade de um casal se manter unido, não pela total falta de amor, mas lamentável e não raramente, por pura acomodação e inércia.

Jim Broadbent e Lindsay Duncan dão vida aos personagens Nick e Meg, de forma natural e sem maneirismos, despojados de qualquer intenção de criarem empatia junto ao espectador, mas sim fazê-lo refletir sobre as diversas bases que sustentam um relacionamento onde a mediocridade é uma linha tênue entre a felicidade e o final feliz.