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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Auto da Compadecida


Um texto, surpreendentemente, ainda atual e que, por muito tempo, inevitavelmente, ainda o será

“Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna, cujo texto original data de 1955, retorna aos palcos Cariocas - dessa vez, no Teatro Maison de France, com vigor e agilidade cênica fomentadas pelo amadurecimento das performances desde abril de 2012, pela Cia Limite 151.
O aperfeiçoamento desse trabalho conquistado por Sidnei Cruz é retratado pela forte sintonia entre os atores que promovem um harmonioso consenso cênico durante todo o espetáculo, permitindo se destacarem pelo mérito da incorporação de cada um de seus personagens – em especial, os protagonistas João Grilo e Chicó, interpretados por Gláucia Rodrigues e Rafael Canedo, respectivamente.
O brasileiríssimo cenário policromático de José Dias cumpre o papel de trazer ao público, de forma estática, a atmosfera da cultura nordestina, miscigenada desde o descobrimento do Brasil. Enquanto isso, o figurino assinado por Samuel Abrantes promove o dinamismo desses símbolos culturais através do gestual dos atores que movimenta o colorido das vestes e adereços, alterando a cromaticidade da boca de cena tal e qual a de um caleidoscópio. Efeitos de cores, de claros e de escuros, não teriam sido possíveis não fosse o criterioso projeto de luz de Aurélio de Simoni, definindo a temporalidade dos momentos dramáticos, trágicos e cômicos. Musicalizando o espetáculo com peças originais, Wagner Campos completa o cenário cultural concebido por Suassuna a partir de sua direção específica.
Seja nas páginas literárias, nas telas ou nos palcos, “Auto da Compadecida” cumpre com o seu papel de entreter e levar leitores e espectadores à reflexão sobre as influências religiosas e políticas que contagiam os homens e sobre o antagonismo sempre presente em suas vidas - o bem e o mal, a riqueza e a pobreza, a traição e fidelidade, a avareza e generosidade, a condenação e a salvação, o céu e o inferno - a partir de um texto, surpreendentemente, ainda atual e que, por muito tempo, inevitavelmente, ainda o será.

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