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terça-feira, 21 de abril de 2015

Bergman - Através de um Espelho


Cumpre o seu papel de transmitir Bergman de forma palatável

Uma linha tênue que separa o psicológico e o patológico é claramente percebida nas obras de Ingmar Bergman, geralmente protagonizadas por personagens envolvidos com problemas familiares, conjugais ou simplesmente imersos na depressão causada pela incerteza do ser. De forma perturbadora, Bergman, tende colocar seus personagens-vítimas nas mãos de algo alheio à compreensão de terceiros, circunstancialmente sob uma aura maniqueísta, mas cujas perturbações acabam sempre diagnosticadas com base em fatos reais e concretos.

Excepcionalmente, a versão de “Através de um Espelho” para os palcos, por Jenny Worton, não sacia um eventual plausível questionamento do espectador sobre as razões para tanta angústia,  bipolaridade e histeria, em paralelo a tanta sede de viver por parte da protagonista - mesmo que, em seu mundo particular, seja válido vivenciar algo que beira à esquizofrenia, contanto que se esteja vivo.

Com total domínio sobre o texto de Bergman, a técnica direção de Ulisses Cruz compensa estrategicamente, através das cenas, as palavras que, possivelmente, foram deixadas nas entrelinhas, pela adaptação de Marcos Daud. Com isso, Cruz dribla eventuais questões e acalma o que pode ser motivo de aflição do espectador ao longo dos setenta e cinco minutos durante os quais se presencia a oscilante doença degenerativa de Karin, interpretada por Gabriela Duarte – que oportunamente, consagra a sua versatilidade frente aos desafios impostos por personagens de complexidade diversa. David, o misantrópico escritor, pai de Karin e o mais “bergmaniano” dentre os quatro personagens, interpretado por Joca Andreazza, se infiltra no olho do furação, com sua personalidade mesquinha, egoísta e com objetivo único de fazer com que suas anotações sobre o que ocorre com sua filha, se torne argumento para o seu próximo romance. Max, jovem que vislumbra seguir a carreira de escritor, irmão de Karin e pára-raios daquele triângulo familiar, se agiganta em cena, tamanho o empenho na dramatização do personagem, incorporado por Lucas Lentini. Marcos Suchara, no papel de Martin, esposo da protagonista, simboliza o meio termo necessário visando ao prumo dessa angustiante história, sofrendo pelo sofrimento de sua esposa e tentando trazê-la à realidade quando da ocorrência de seus muitos surtos psicóticos.

Projeto cenográfico, figurino, vizagismo, desenho de luz, e trilha sonora, assinados por Lu Bueno, Cassio Brasil, Lab. Duda Molinos, Domingos Quintiliano e Daniel Maia, respectivamente, além de cumprirem técnica e impecavelmente seu papel na contextualização e enriquecimento sensorial da obra, se apresentam como manifestações complementares de um todo, sujeitas a apreciação e deleite pelo público teatral.


A atual produção de “Através de um Espelho” cumpre o seu papel de transmitir Bergman de forma palatável - mas como toda a obra do dramaturgo, é voltada para um público que possa se interessar em assistir um psicodrama como forma de lazer ou como simples agregado à sua bagagem cultural.  

https://www.facebook.com/curtocircuitocultural

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