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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Casa Encaixotada


Dizem que na hora da morte, a vida passa como um filme diante de nós, numa fração de segundos.

Dizem que na hora da morte, a vida passa como um filme diante de nós, numa fração de segundos - a radiografia de alguém proveniente de uma família incapaz de amar, uma vida profissional aquém das expectativas, um amor sem correspondência, uma casa repleta de angústia – através desse subterrâneo do subconsciente de um homem, Ruy Filho, assina a direção geral de um monólogo que impressiona pela estranheza de suas marcações e surpreende por sua obstinação pelo vazio existencial.

Sem dó nem piedade, Ruy amputa as pernas de todos os espectadores que ousam entrar na sala de espetáculo abarrotada de medos e fracassos, o que promove uma paralisia coletiva frente à dramática performance de Frank Borges que incorpora um personagem colecionador de lembranças traumáticas ao longo de sua existência, indiferente à total ausência de manifestação por parte da plateia. Borges é persistente durante cinquenta minutos de apresentação, invadindo a alma de cada um dosamputadosque, sem força e sem muletas, não conseguem esboçar a mínima possibilidade de sair da sala na qual entraram por livre e espontânea vontade.

As tentativas do monologuista de clarificar seus sentimentos perante a plateia, se obscurecem gradativamente, independente do intensidade lumínica do dramático desenho de luz de Ruy, perturbador e atemorizador, diante do inevitável – abandonar aquele espaço e enfrentar as mudanças que não ocorrerão após a apresentação. A cada espetáculo, a efemeridade da vida é retratada na destruição do cenário compactuado por Ruy e Borges, que não fica atrás de qualquer instalação de mostra de arte, construído a partir de caixas de papelão, de uma trama nonsense tecida com fita adesiva - cujas sobras de rolos voltam a ser encaixotadas - e muitos outros objetos marcados por profundo simbolismo. Como um rolo compressor metafórico, diretor, ator, luz e cenário assolam qualquer sentimento de amor, demostram desinteresse pela figura materna, se utilizam do repúdio como um instrumento de negação, e eclodem na manifestação de alguém que nunca se permitiu viver, mas somente presenciar os acontecimentos da vida tal e qual um espectador.

Ao final do espetáculo, uma eventual reticente manifestação dos aplausos pode ser interpretada pelo confronto entre a possível constrangedora ovação à essência do drama levado a cabo versus a constatação da merecida aclamação ao reconhecimento do trabalho de Borges e de sua equipe técnica. Ainda temeroso pela iniciativa individual de ser o primeiro a se dirigir à saída da sala de espetáculo, cada um dos espectadores, certamente leva consigo a pergunta que, por bom momento, não se cala: quem de fato estará saindo da “Casa Encaixotada”.

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