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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Incêndios


Promessa não é dívida - é dúvida

Mãe, último desejo, morte, filhos, pais, irmãos, preconceito, religião – “Incêndios” reedita a máxima musicalizada – “Promessa não é dívida - é dúvida”. A crueldade, a falta de piedade e a implacável ironia da vida excepcionaliza a capacidade de direção de Aderbal Freire-Filho que lança os personagens concebidos por Wajdi Mouawad num poço dramático sem fundo, transformando “Incêndios” em espetáculo único e insuperável, que consome o palco com a força de labaredas famintas pela destruição de toda e qualquer dúvida sobre a existência do amor incondicional. As faíscas da desconstrução dos personagens coruscam de forma crescente e agonizante, aos olhos nus dos espectadores, como um pavio aceso e alimentado pela carga explosiva presente na atuação de Marieta Severo, Fabianna de Mello e Souza, Felipe de Carolis, Flávio Tolezani, Isaac Bernart, Keli Freitas, Kelzy Ecard e Marcio Vito.

A força do texto de Mouawad é gradativamente esmagadora, chegando ao ponto de revelar, em meio a tanta angústia e sem aviso prévio, o porquê do título da obra, quando da descrição de uma cena na qual a guerrilha, provocada pela intolerância e pela ignorância de uma guerra civil, ateia fogo num ônibus diante do olhar aterrorizado da protagonista. Em momento algum materializadas ou sequer sugeridas através de efeitos especiais que pudessem torná-las óbvias, as chamas de “Incêndios” consomem toda a boca de cena, através do consistente e seletivo desenho de luz assinado por Luiz Paulo Neném, que se estende de forma tênue sobre a plateia, ruborescendo simbolicamente através de seu calor, o semblante dos espectadores e incorporando toda a sala de espetáculos, propositalmente, no contexto da história. O projeto cenográfico, assinado por Fernando Mello da Costa, transporta os espectadores para a guerrilha, para os limites das grades enferrujadas pelo tempo, que permeiam as projeções lumínicas de Neném enquanto transposição de cenas fora do alcance olhar do público e inclusão de coxias auxiliares como portas. O figurino concebido por Antônio Medeiros é seco e cromaticamente anêmico e se basta para o que se propõe na contextualização do drama, concebido segundo espaço e tempo não precisamente definidos. Da mesma forma, a trilha sonora de Tato Taborda, é pungente, perturbadora e alinhada aos acontecimentos durante todo o desenrolar do drama, ainda que, na maior parte do tempo, se faça presente através de sutis e quase inaudíveis ruídos, ainda assim, com efeitos intencionalmente catatônicos sobre o espectador, até mesmo após o término do espetáculo.

Simplesmente testemunhar a excelência de “Incêndios” é pouco para tanto trabalho empenhado pela sua equipe técnica e produção, mas se faz essencial a reflexão sobre as imposições dualísticas, sincréticas e sociais, versus as fatalidades conduzidas pelo destino, que, por muitas vezes, se encontra fora do controle dos indivíduos. A opção pela degustação de “Incêndios” deve ser acompanhada pela certeza de que o espetáculo queima, arde, consome e finda, como a realidade que enterramos todos os dias, para que o dia seguinte, nasça sem um epitáfio público, pois, “há verdades que não podem ser reveladas”. 

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