Counter

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Acompanhamento


Belo e revigorante

Com o passar dos anos, não há quem não se confronte com as mais variadas situações impostas pela vida e pela sociedade, independente do estágio etário em que o indivíduo se encontra. O fato é que, a todo momento, somos espectadores de nós mesmos e, de acordo com o nível de acuidade que se possa assistir ao espetáculo de nossas próprias vidas, se pode perceber a idade indo ou a idade chegando. Dependendo do estímulo externo, toda uma sorte de reações pode ser demonstrada, tais como: o choro de um bebê informando que algo o incomoda; da manha de uma criança ao demandar por atenção; da blindagem da invencibilidade por parte de um adolescente quando nota que não passa de um mero mortal; do desespero de um adulto decorrente da fraqueza frente às responsabilidades; e da reverberação de um idoso diante de um retrospecto de toda uma vida já vivida em contraste com a solidão. Retomando o ponto de vista do espectador, num espetáculo teatral, somos todos observadores da vida alheia concebida pelo autor do texto e, acolhidos pela segurança que a plateia nos proporciona, temos a certeza de que aquela história chegará a um termo e a vida de quem assiste – à sombra da incerta segurança ou da fatalidade da incerteza - continuará. 

O Circuito Geral se dá o direito de publicar esse preâmbulo visando compartilhar o seu ponto de vista de “O Acompanhamento” - cuja adaptação do texto original de autoria de Carlos Gorostiza é assinada a quatro mãos, por Wilmar Amaral e Daniel Archangelo que, apesar de terem dado vida a personagens da terceira idade como protagonistas, nos permitiu compreender que a história não define a temática da solidão e do abandono como exclusividade passíveis das pessoas idosas. Em suma, não se trata de uma espetáculo sobre a velhice.

A zelosa direção de Daniel Archangelo presenteia o espectador com espetáculo dramático atemporal marcado pelo desgaste, como retratado pelo projeto cenográfico, esteticamente bem concebido por Carlos Augusto Campos, que define limites fragmentados e cores desbotadas, numa alusão à total desatenção de seu ocupante e de seus familiares – com base nessa segunda hipótese, sinal de omissão por conveniência ou por mero castigo, são ambos passíveis de serem julgados como crime. Como profissional polivalente, Archangelo também assina o projeto de luz, evidenciando a dramaticidade dos diálogos mais conflitantes - entre Tuco, interpretado por Wilmar Amaral, e Sebastian, por Roberto Frota - e acalentando, com luz difusa, momentos de maior descontração entre os dois amigos. O figurino de Ricardo Rocha traduz, com a simplicidade que a realidade demanda, o presente vivenciado por Tuco – como o homem que abre mão de sua vida real, supostamente frustrante, para se entregar a planos fantasiosos que lhe enchem de prazer e que pode ser interpretado como o seu modo de chamar atenção para si; e por Sebastian – um homem realizado com aquilo que, até então, conseguiu na vida e que naquele momento, se dispõe a realinhar os planos de seu onírico amigo.

“O Acompanhamento” é belo e revigorante – o tipo de espetáculo que não deixa o espectador no vácuo e o faz refletir sobre a importância da amizade diante de uma eventual falência do núcleo familiar tradicional, sobre a possibilidade da escolha de sua própria família independente dos laços de sangue, e sobre a verdadeira cumplicidade que não acaba com o passar do tempo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário