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domingo, 19 de abril de 2015

Yentl Em Concerto


Essencial quanto à sua capacidade de abastecer a alma daqueles que anseiam pela genuinidade da vida

Baseado no conto de autoria de Isaac Bashevis Singer, Alessandra Maestrini dá vida à protagonista, de forma singular, em seu pocket show “Yentl Em Concerto”, em cartaz no Centro Cultural Midrash, do Leblon, Rio de Janeiro, todas as quintas-feiras, até o dia 07 de maio de 2015, às 21:00.

Como exímia contadora de histórias, Maestrini apresenta a essência de Yentl - filha única do viúvo Rebbe e que lhe ensina secretamente as codificações do Talmude – conjunto de leis judaicas cuja leitura, proferimento e aprendizado eram vedados às mulheres. Na tentativa de driblar tais restrições, após a morte de seu pai, Yentl se traveste em Anshel - homem que ingressa numa escola de teologia e que, acidentalmente, se apaixona por Avigdor - que por sua vez, é noivo da jovem Hadass. A partir de então, se desenvolve um triângulo amoroso que, até os dias de hoje, ainda é considerado nada convencional, graças à hipocrisia latente em nossa sociedade. 

Ao longo da narrativa de Maestrini, a imaginação do espectador alça vôo, alimentada por suas palavras. Entre um bloco narrativo e outro, uma canção é ecoada com instrumental e sonoridade que se diferem, de forma surpreendente, por sua qualidade. Num total de treze músicas compostas por Michel Legrand, Maestrini apresenta a trilha sonora composta para o filme homônimo de 1983. A lapidar direção musical do pianista João Carlos Coutinho faz com que drama e romantismo se fundam através da música nesse recital, cuja dimensão se adéqua, desde aos pequenos espaços multiusos com limitações de recursos técnicos - de forma intimista - até às grandes e suntuosas salas de espetáculo contempladas por tecnologia de ponta – magnanimamente – flexibilidade essa que se deve ao carisma e ao domínio vocal, dissertativo e musical de Maestrini.

Na atual temporada, a produção expõe Yentl como uma pérola a ser apreciada pela calorosa comunidade judaica que, quase numa composição de ouvintes coadjuvantes ao espetáculo, faz com que qualquer gentio, dentre aqueles presentes, se sinta acolhido por uma grande família. A cativante informalidade de Maestrini e de sua destreza na quebra de qualquer protocolo entre palco e plateia, são espontaneamente comprovadas, em plena noite de estreia de 16 de abril de 2015. Fato presenciado pelo Circuito Geral e pelos demais espectadores, sem qualquer aviso prévio, a tampa da visita do elevador do projetor da sala multiuso, instalado acima do nível do forro de teto, por duas vezes, é acidentalmente acionada por interferências técnicas. Sem constrangimento e hesitação, as ocorrências são imediata e informalmente diagnosticadas por Maestrini, em alto e bom-tom, como atividade paranormal de autoria de "Geléia" - personagem monstro do filme norte americano “Os Caça-Fantasmas”, que estaria presente dentre nós. De forma descontraída, o despretensioso comentário promove gargalhadas coletivas dentre todos, fomentando uma atmosfera que permeia o espetáculo que, sem script previamente definido, assume o formato de um livro repleto de surpreendentes improvisos.

“Yentl Em Concerto”, de tão encantador, é essencial quanto à sua capacidade de abastecer a alma daqueles que anseiam pela genuinidade da vida, longe de preconceitos e de desinclusões sociais.


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