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domingo, 31 de maio de 2015

Como a Gente Gosta


Excesso de informações pode ser responsável por uma eventual dispersão da atenção da plateia

Irmão mais novo usurpa o poder de irmão mais velho, cria a filha dele juntamente com a sua; filha do irmão mais velho se apaixona por filho do melhor amigo de seu pai – dá-se início ao espetáculo “Como a Gente Gosta”, baseado no texto de William Shakespeare, “As You Like It”, sob a direção de Vinícius Coimbra. A partir de então, o turbilhão de papéis shakespearianos toma o palco do Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro, composto por duque, nobres, cortesão, criados, bobo da corte, vigário, pastores, camponesas, e caçadores.

“Como a Gente Gosta” restitui aos palcos, Pedro Paulo Rangel e Camilla Amado, após mais de quarenta anos sem trabalharem juntos no teatro e conta, em seu elenco, com outros nomes da dramaturgia - Priscila Steinmann, Gabriel Falcão, Patrícia Pinho, João Lucas Romero, Alexandre Contini, Xando Graça e Jitman Vibranovski.  A livre tradução de Coimbra e Gabriel Falcão e as letras das músicas contemporâneas inseridas, por diversas vezes, podem ser tomadas pelos espectadores como improvisos dos personagens, com vistas a potencializar o humor da dramédia. O projeto cenográfico e o figurino de Coimbra valorizam a simplicidade como fonte do processo cognitivo do “saber ver teatro”, contudo – o primeiro, através de uma sequência de esbeltos troncos alusivos a uma floresta, competem visualmente com o expressivo número de personagens em cena; o segundo, a partir de vestes contemporâneas, cujas camisetas estampam a identidade dos personagens, que não se bastam como instrumento de suporte à leitura dos papéis pelo espectador ao longo das inúmeras sequências de cenas. A complexa linguagem do texto aliada ao excesso de informações pode ser responsável por uma eventual dispersão da atenção da plateia, estendendo-se ao desenho de luz de Paulo César de Medeiros, que não poupa a visão do público das inúmeras e incompreensíveis alternâncias cromáticas - em muitos momentos, de intensidade extremamente ofuscante a partir de um fundo infinito que toma toda a parte posterior da cena.

Espetáculo consumado, o Circuito Geral respeita, mas leva consigo suas impressões quanto à produção de “Como a Gente Gosta”, bem no estilo “como eles gostam” e as frases integrantes do texto original da obra – "O mundo é um palco, e homens e mulheres, não mais que meros atores. Entram e saem de cena e durante a sua vida não fazem mais do que desempenhar alguns papéis."


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Eu e Ela

A vida não é isso tudo

“Eu e Ela” - espetáculo cujo texto é assinado por Guilherme Fiúza, estreante na dramaturgia teatral - é coestrelado por uma personagem um tanto quanto asquerosa: uma Barata que, por sua vez, é antagonizada por Bárbara - uma mulher solitária, sem amigos, mãe de uma filha ausente, esposa de um marido infiel e que leva uma vida profissional medíocre – interpretada, com muito humor, por Claudia Mauro.

A direção de Ernesto Piccolo dinamiza o timing do espetáculo, apesar do despretensioso, mas enigmático texto de Fiúza, que provoca risos na platéia e que passa a impressão de que existe algo mais nas entrelinhas naquilo que se passa no palco - constatação essa que pode não eclodir no decorrer do espetáculo mas talvez, na santa paz de seus lares, quando encurralados e reféns do onívoro inseto ao vivo e à cores ou figuradamente, expondo a falta de coragem de encarar a vida como ela é.

O sintético cenário desenha um apartamento idealizado por Clívia Coehn e que toma proporções claustrofóbicas e fundamentais para a exposição de uma histérica e desequilibrada psique e que também é o local onde, juntamente com “ela”, Bárbara toma as rédeas de sua vida. A iluminação de Tiago e Fernanda Mantovani se faz presente com qualidade e profissionalismo, definindo a dualidade simultânea presente da comédia e do drama, nas cenas de descontrole e de angústia, que retratam uma trajetória que passa pela depreciação humana em direção a uma “queda de ficha”.

“Eu e Ela” manipula qualitativamente o humor como ele deve ser - leve, reflexivo e com conteúdo, endossando o que é profetizado pela pensadora - a Barata, interpretada requintadamente, através de técnicas circenses, por Stella Brajterman: “a vida não é isso tudo”.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Eugênia


Não começa, tampouco acaba – simplesmente, acontece

Desprovido de qualquer pesar, o Circuito Geral assina embaixo da declaração de “Eugênia” de que, mesmo estando morta, está ótima – contando, para isso, com a desafiante interpretação de Gisela de Castro, que incorpora a morta-viva.

A partir do hilário, sarcástico e atual texto de Miriam Halfim, o espetáculo, cujo título herda o nome da falecida, é habilidosamente moldado pela atriz contadora de histórias, que se impõe, vigorosamente, diante da plateia e transforma o palco num picadeiro de circo cuja lona se estende, em meio à fronteira temporal dos séculos XVIII e XIX, – a partir de uma história que envolve D. João VI de Portugal, Dona Carlota Joaquina, uma filha bastarda e um rapto, num contexto repleto de Hipocrisia Real –  vez ou outra, lançando venenos e fazendo alusões, de forma sutil e inteligente, à nossa contemporaneidade.

A direção de Sidnei Cruz é notória, ao conceder, ao despretensioso monólogo, gestual, cenário, iluminação, figurino e visagismo de qualidade tal que ultrapassa as expectativas do público, diante do que o espetáculo, num primeiro momento, se propõe. Para isso, conta com uma equipe extremamente capaz, composta por: Morena Cattoni – cuja preparação corporal coloca em cena uma personagem cheia de dinamismo, desenvolta em intensos gestual e expressões faciais; José Dias  - com seu projeto cenográfico corbusiano, ao mesmo tempo engenhoso e lúdico, apesar de sua conotação fúnebre; Samuel Abrantes – responsável pelo design de aparência, veste e adorna a personagem zumbi de forma impactante, atingindo o imaginário dos espectadores como verdadeiros receptores de arte que o são; Aurélio de Simoni – desenhista de luz cênica que tira proveito da soturna atmosfera esfumaçada que toma conta da sala de espetáculos, projeta energia e cores dentro de um espectro que transporta os espectadores através da obscuridade do drama e do esplendor da comédia.

O espetáculo “Eugênia” não começa, tampouco acaba – simplesmente, acontece – e entra lista das revelações de 2015: Gisele - por seu humor ácido sem ranço apelativo e, “Eugênia” por seu efusivo retorno da terra dos mortos vivos.  

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Isto Não é Uma Guerra


Um bunker repleto de nada, prestes a ser detonado por aqueles que estão do lado de fora

Seguindo os moldes de uma graphic novel, a peça “Isto Não é Uma Guerra”, idealizada pelo grupo teatral “Os PataPHísicos” e dirigida por Raphael Vianna, contempla a estaticidade das cenas de diálogos, o dinamismo sugerido pelas cenas de confronto corporal, a fragmentação sequencial dos episódios e a violência, sempre presente nas HQs.

Estrelado por Edson Santiago, Henrique Juliano, Henrique Trés e Raphael Janeiro - que também assina o texto – e da participação em “voz off” de Marcos Caruso, o roteiro é estruturado a partir de uma verborragia, muitas vezes incompreensível, mesmo para os mais atentos ao display luminoso que indica o tempo que cada personagem vai ao encontro ou se desencontra de suas próprias ideologias. Estas, por sua vez, são os focos principais do Movimento Anti-Belicista de Reclusão - que deveria ter como base a não violência – mas que, por divergências ideológicas e diante das dificuldades na aquisição de insumos básicos para a subsistência dos quatro manifestantes, se transforma num sequencial de ameaças de disparos à queima roupa e de tortura em nome, acima de tudo, do poder. O conflito se passa num claustrofóbico bunker, cujo modus operandi político administrativo, guardadas as devidas proporções, se assemelha, em muito, à realidade do mundo exterior em que vivemos.  

A cenografia e o desenho de luz encabeçados por Raphael Vianna fazem parte de um único projeto, refletindo com a simplicidade da geometria dos elementos cenográficos e de cores promovidas pelas diferentes fontes de luz, numa sintonia sequencial de teatro de sombras a cada alternância entre “front light” e “back light”. Mesmo os espectadores não tão familiarizados com a linguagem estética das graphic novels, são hipnotizados pelo dinamismo das cenas, nas quais o deboche, a burocracia e as incoerências sociais são os focos de interesse da história que libera seus narradores para desempenhares papéis de meros portadores de seus males. O figurino, assinado por Thiago Ortiz e Denis Leandro,  é bem concebido e promove uma excelente paginação aos personagens.

A estética de “Isto Não é Uma Guerra” é ousada e seu conteúdo provoca reflexões que são levadas por cada um dos espectadores ao final do espetáculo - não pelo conteúdo da história, mas pelo que toda aquela ideologia representa: um bunker repleto de nada, prestes a ser detonado por aqueles que estão do lado de fora.


domingo, 24 de maio de 2015

2 x 2 = 5 O Homem do Subsolo




Lucidez e lógica ao acreditar que “ser consciente é uma doença”

Ao adentrar a Arena do Espaço SESC Copacabana, na noite do dia 21 de maio de 2015, o  Circuito Geral se depara, surpreendentemente, com o palco tomado por algo que lhe remete a uma impactante instalação artística. A aparente obra de arte é composta por um assoalho de madeira sem tratamento, como um tablado que se eleva, ligeiramente, acima do nível da primeira fila de poltronas da plateia. Sobre o tablado, um sofá vermelho e uma mesa – ambos apresentando nítidos sinais de desgaste, pela falta de zelo ao longo do tempo. Ao fundo, um diedro gradeado limita o ambiente sugerido, como um par de paredes, sendo uma delas vazada por uma janela de dimensões vis - aparentando ser o único elo entre o interior e o exterior – a partir da qual, pela altura em que foi construída, somente é possível observar o exterior, por meio de uma tosca estrutura de madeira provida de degraus. Despojadamente espalhadas, peças de vestuário feminino sugere uma mulher ausente, por tempo indefinido. Deitado sobre a mesa, um ser despido de qualquer traço de pudor quanto à sua aparência física e cujas vestes o qualificam como desprovido de auto estima, em destaque por um concentrado, ofuscante e pungente facho de luz, que atravessa a diminuta janela.

O espetáculo tem seu início com o despertar do fragmento vivo daquela suposta instalação – um homem gordo e sem qualquer atrativo físico, além de maduro e deprimido, que dá seus primeiros sinais de vida ao compartilhar com os espectadores, a moléstia que consome as suas entranhas, sua angústia, sua acidez, sua raiva, sua petulância e seu desprezo para com aqueles com quem é obrigado a lidar ao longo de sua nefasta existência. O desencanto daquele homem reage com a atenção dispensada pelo público – incomodando, desestruturando e provocando as mais diversas reações, que não teriam sido percebidas pelo Circuito Geral, não fosse o conveniente formato de palco daquele espaço cultural, definido por uma arena. Como coadjuvantes daquele drama psicológico: risadas fora do contexto, apatia diante do texto e estado de sonolência – possivelmente justificado pela necessidade de fuga provocada pela identificação com a profunda depressão do narrador; além do semblante daqueles que demonstram total concentração e êxtase - pelo privilegio em testemunhar a incorporação visceral do personagem do texto original do escritor russo - Fiódor Dostoiévski – por Cacá de Carvalho. Difícil de se qualificar esse ator à altura, diante de seu desempenho no palco – seu gestual, suas expressões faciais, as nuances de sua voz, seu olhar, sua emoção - e de sua abnegação diante do desafio de se produzir teatro arte num país onde não se reconhece o verdadeiro sentido da palavra “mérito”.

Por detrás de tudo isso: a peculiar direção de Roberto Bacci – atenta à entrega do corpo e da alma de Carvalho na produção do espetáculo; as qualidades do projeto cenográfico e figurino de Márcio Medina - implícitas na descrição da obra de arte que recepciona os espectadores; o desenho de luz de Fábio Retti – lançando concentração lumínica em destaque da dramaticidade daquele que se nega a comungar do convencional presente na sociedade, a difusividade necessária à percepção visual do entorno pela plateia e quanto baste de penumbra sobre os espectadores, revelando seu estado contemplativo, cada um a seu modo.

O inominado, habitante solitário da psicologia de seus próprios porões, age como muitos gostariam de fazê-lo - rejeitando positivismos baratos, negando o racionalismo politicamente correto, lutando contra a submissão a aqueles que automaticamente se submetem, questionando as leis que aviltam os direitos dos indivíduos e cultivando a consciência involuntária, tão bem vinda em momentos estratégicos de nossas vidas - mas que não o fazem, por mera acomodação, ou por terem se conectado ao modo automático de suas mentes.

O personagem de Dostoiévski demonstra lucidez e lógica ao acreditar que “ser consciente é uma doença” e ao negar a verdade como fruto do convencional decretado por dogmas da sociedade – a ponto de questionar e fazer com que o público leve para casa a dúvida sobre o por quê de duas vezes dois, não ser igual a cinco.

Antes de partir para a sua turnê internacional, “2 x 2 = 5 O Homem do Subsolo” se apresenta na Arena do Espaço SESC de Copacabana, Rio de Janeiro, até o dia 31 de maio de 2015.

sábado, 23 de maio de 2015

“Disney on Ice: Tesouros da Disney”


Os espectadores tomam o “rumo da segunda estrela à direita e então direto, até o amanhecer”.

Tarde de 21 de maio de 2015 – HSBC Arena, Rio de Janeiro. Aterrissam na pista de gelo, exclusivamente construída naquela casa de espetáculos, Mickey, Minnie, Pato Donald e Pateta - os anfitriões de “Disney on Ice: Tesouros da Disney”, acompanhados pela trupe de alguns dos mais belos clássicos do Mundo da Fantasia. Ainda no foyer, originalmente desprovido de qualquer atrativo que possa desviar a intenção do público, senão adentrar a sala de espetáculos, inúmeros stands e quiosques colorem o espaço e ofertam lanches, painéis temáticos que servem de fundo à livre fotografia, bonecos e outros objetos e acessórios e fazem os olhos das crianças brilharem desejosos de levarem consigo, para casa, algumas dessas lembranças.

Programado para sua realização em duas partes, com intervalo entre as mesmas, em seu primeiro tempo, o show apresenta “Alice no País das Maravilhas”, transportando toda a plateia, juntamente com a delicada e ingênua menina protagonista, para o incrível mundo habitado pelo Coelho Branco, pelo Gato Risonho, pelo trio composto por Chapeleiro Louco, Lebre de Março e Ratinho, pela Rainha de Copas e seu exército de cartas, e muitos outros – apresentando as cenas mais relevantes das histórias com todos os personagens patinando sobre a pista congelada.

Em seguida, como num passe de mágica, os espectadores tomam o “rumo da segunda estrela à direita e então direto, até o amanhecer”, chegando à Terra do Nunca, onde participam das aventuras de Peter Pan e da Fada Sininho, juntamente com Wendy, João, Miguel, os Garotos Perdidos, índios, sereias, Capitão Gancho, Barrica e demais marujos, além do temeroso crocodilo Tic Tac. Nos momentos em que Peter Pan e Sininho sobrevoam a pista de gelo, a plateia ovaciona os personagens, percebendo-se, também, de forma nítida, uma torcida quase que organizada, quando da aparição de Tic Tac, para que o mesmo aterrorizasse, ainda mais, o perverso pirata.

Da mesma forma que em Alice e nos clássicos que dão continuidade ao espetáculo - como forma de cativar o público adulto presente, após cada conto - os personagens se organizam em marcações precisas, desenvolvendo coreografias sobre os patins de gelo.

Após breve intervalo, a segunda parte do espetáculo é aberta por Rafiki – o velho e sábio babuíno que anuncia a todos os súditos da savana, o nascimento de Simba - “O Rei Leão”.  Daí em diante, os principais sucessos musicais compostos para o longa metragem, são acompanhados e “percussionados” pelo público, como se todos estivessem inseridos no contexto da história de um pai que morre para salvar o filho e de um ganancioso tio, em busca de poder. Timão e Bumba são celebridades à parte, provocando manifestações de prazer em revê-los, por parte de todas as crianças presentes na Arena, ao entoarem “Hakuna Matata”. Logo em seguida, a atmosfera romântica toma conta da casa, ao som de  “Can you feel the love tonight”, sob as vozes de Nala e Simba, emocionando adultos e pequeninos. “Circle of Life” anuncia o final daquela aventura na selva, e devolve o comando do espetáculo aos anfitriões Mickey, Minnie, Donald e Pateta que, por sua vez, anunciam a apresentação da história que deu origem ao primeiro  longa metragem de animação dos estúdios Disney - o clássico “Branca de Neve e os Sete Anões”, causando frisson no público, quando da entrada de Atchim, Dengoso, Dunga, Feliz, Mestre, Soneca e Zangado. Momento de total interatividade com o público infantil, no qual foi ofertada a maçã envenenada à Branca de Neve pela Bruxa Má – de um lado, a dúvida levada às crianças pela princesa, se deveria morder a maçã ou não; de outro, o autêntico manifesto infantil para que a princesa não o fizesse. Prosseguindo com o roteiro original da história, Branca de Neve morde a maçã e cai num sono profundo. A chegada do príncipe é vigorosamente aplaudida pelas crianças, na expectativa de que o grande amor de sua vida, a desperte com um beijo de amor.

Uma vez aberta a sessão de príncipes e princesas e, antes mesmo que os espectadores pudessem assimilar a máxima de que, a partir daquele momento, vivem “felizes para sempre”, ao final de “Branca de Neve”, o palco gelado se transforma, como por encanto, da floresta onde moram os “Sete Anões”, na  fictícia cidade árabe de Agrabah, onde mora “Aladdin”. Ao som de músicas compostas por Tim Rice, o compacto da história é contado e acompanhado por aplausos e gritos, frente às proezas do Gênio da Lâmpada, com direito a passeio no Tapete Mágico sobrevoando a pista de gelo – levando, à bordo, Aladdin e a princesa Yasmine.  Em seguida, como encantados por um “Bibbidi-Bobbidi-Boo” o palco congelado submerge nas profundezas do oceano da “A Pequena Sereia” - Ariel e emerge, em seguida, no bosque da torre de Rapunzel, de “Enrolados” e, em seguida, à superfície da lendária Nova Orleans de Tiana, de “A Princesa e o Sapo”.  

Em meio a tanta magia e fantasia, a viagem é acompanhada por música e luzes multicoloridas, extasiando todos os presentes no HSBC Arena, que retribuem o espetáculo com aplausos ininterruptos até o cerrar das cortinas de uma boca de cena que jamais deveria se apagar, eternizando príncipes, princesas e todos os personagens, já criados e que ainda o serão, pelos estúdios Disney, para o bem de todas as crianças que habitam nos nossos corações.

“Disney on Ice: Tesouros da Disney”, acontece até o dia 24 de maio de 2015, em três horários diários, a escolher.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

1 Milhão de Anos em 1 Hora


Um espetáculo acrimonioso, ousado e celerado em sua condensação. 

“1 Milhão de Anos em 1 Hora” – monólogo estrelado por Bruno Motta, inserido no rol das comédias, não é um espetáculo voltado para qualquer perfil dentre os apreciadores de humor. Este fato é justificado, primeiramente, pela sua proposta em discorrer sobre a evolução do homem neste pequeno planeta azul, em apenas cravados sessenta minutos - proeza essa que não é levada a cabo pelo comediante de forma leviana, mas com muita sagacidade, a tal ponto que se torna necessário estabelecer um divisor de águas entre formas de se fazer rir, para que os espectadores que vão em busca de uma comédia rasgada e de fácil assimilação não fiquem equivocadamente perdidos em meio às balas satírico intelectuais que Motta dispara contra a plateia.

O narrador inicia a sua alucinante retrospectiva, startando o seu relógio digital, após explicar o porquê do nome do espetáculo, cujo término, em exatamente uma hora, é um dos compromissos para com o público.  No palco, um balão alusivo a um globo terrestre, que também desempenha o papel de tela de projeção, altera imagens projetadas, sobre os assuntos em pauta, a cada mudança de época. Reconhecendo este elemento cenográfico como ícone do espetáculo, o Circuito Geral, sob a ótica do espectador, se sente no dever de observar o fato do globo repousar diretamente no palco e, à sua frente, o apoio do projetor e do cronômetro, obrigando muitos da plateia, que não conseguem visualizar as projeções sobre a esfera inflada de ar, oscilarem em suas poltronas à procura de um campo visual mais satisfatório. Em vista disso, nos permitimos sugerir a direção que lance mão de algum artifício que possa suspender o referido balão a uma altura que possibilite a sua visibilidade, eliminado os indesejados pontos cegos na plateia. Fora esse recomendável pequeno ajuste, longe de configurar algo que desabone o espetáculo, a direção de Cláudio Torres Gonzaga manda bem, nessa versão do texto original de Colin Quinn – monólogo que estreou na Broadway em 2010 - assinada por Marcelo Adnet, e que define uma meteórica trajetória, desde os primórdios da geração da vida terrena, que desagua no mar da atualidade, das redes sociais e da tecnologia.

Em meio a um cenário e um desenho de luz que muito se diferencia dos inexistentes recursos complementares de palco da maioria dos Stand Up Comedies normalmente produzidas, Bruno Motta consegue levar a plateia sem muitos percalços, mesmo quando algumas de suas piadas não são imediatamente compreendidas. Como antídoto contra a aparente falta de sagacidade por parte da plateia, o comediante chega a abusar de seu carisma e poder de persuasão, se empenhando em extrair alguma reação contrária à apatia manifesta – como por exemplo, ao conferir a autoria de uma determinada piada a Jerry Seinfeld, mesmo estando certo de que grande parte dos espectadores não estariam aptos a ligar aquele nome ao astro de uma das mais aclamadas sitcoms de todos os tempos. Como num surto submisso a uma programação neurolinguística deslavada, por mais incrível que possa parecer, sua técnica mostra resultados positivos, provocando diversas reações por parte do público, como se a ficha tivesse acabado de cair.

“1 Milhão de Anos em 1 Hora” sem sombra de dúvida, é um espetáculo acrimonioso, ousado e celerado em sua condensação. Enquanto as algumas produções apostam, cada vez mais, nos espetáculos que se classificam como comédia, de forma tal a atrair a fração do público disposta a rir por rir, e sem ter muito o que pensar para se manifestar através de gargalhadas automáticas, “1 Milhão de Anos em 1 Hora” se diferencia por se tratar de humor reflexivo e seleto, por sua própria natureza.

domingo, 17 de maio de 2015

Frida y Diego


É forte, quente, vermelho e sangra

“Frida y Diego” não é, exatamente, uma história de amor, mas um belo retrato dos sintomas de um amor patológico. O espetáculo traça um panorama desde ao inoculação do vírus da paixão, produzindo seus efeitos ao longo de toda uma vida, até o seu estado terminal.

A partir do instigante e inédito texto de Maria Adelaide Amaral, Leona Cavalli e José Rubens Chachá, protagonizando Fryda Kahlo e Diego Rivera, respectivamente, se entregam, de forma visceral, à representação de duas vidas marcadas pelo individualismo mascarado como parceria.  Tudo em “Fryda y Diego” é forte, quente, vermelho e sangra, como sintomas da doença do amor que afeta Kahlo de forma pungente. Diego é o contraponto – o antídoto para a cura de um amor tão doentio – entendendo amor como não sendo o maior laço possível entre duas pessoas. O espetáculo retrata a carência sentida por Frida, decorrente da parcela que lhe resta do companheirismo de Diego – este, declaradamente adepto à pluralidade de relacionamentos.

A precisão e o zelo empenhados pela direção de produção por Maurício Machado e pela direção por Eduardo Figueiredo endossam o respeito ao público, enquanto consumidor de teatro, e definem a linearidade presente no decorrer de toda a apresentação, eliminando qualquer vestígio de hiatos temporais, definindo, pouco a pouco, o quebra-cabeça que retrata a relação escolhida por Frida e Diego, como forma de expressar amor mútuo. As marcas do tempo e registros fotográficos da vida do casal, de suas obras, além de outras imagens que remetem ao drama encenado, são adequadamente inseridos no espetáculo através de projeções, como recursos cênicos contemporâneos, em positivo contraste com as impactantes máscaras usadas pelo elenco coadjuvante, durante momentos em que a dramaticidade compartilha seu espaço com a pantomima.

A realidade crua, perturbadora, cortante e devastadora é estampada como se através de tinta, transformando o projeto cenográfico – arquitetônica e cromaticamente bem concebido, o figurino – desenhado com riqueza de detalhes da cultura mexicana, e demais adereços, em verdadeiras composições concebidas pela direção de arte de Márcio Vinicius. A dramaticidade clássica se acentua a partir do visagismo por Anderson Bueno, do desenho de luz de Guilherme Bonfati e do gestual dirigido por Renata Brás. Tais disciplinas de palco, regidas com precisão ímpar, resultam numa infinita sequência de telas tão vivas quanto a própria realidade a partir da qual Frida se inspira para a produção de suas pinturas. Dessa forma, a obra de Amaral se materializa diante dos olhos dos espectadores que, por sua vez, são privilegiados por uma experiência teatral, traduzida através de cores e dores, e do testemunho de um paralelo entre produção de arte e eternização da vida.

Sem a menor intenção de desmistificar as pérolas cultivadas pela direção de “Frida y Diego” – mas somente um alerta para que sejam evitados atrasos para o início da peça – o Circuito Geral anuncia o surpreendente prólogo que ocorre ainda no foyeur do teatro, antes mesmo da abertura das portas da sala de espetáculos ao público. A partir de então, ainda à procura de seus assentos, os espectadores são agraciados com um envolvente fundo musical por Augustín Lara, Carmem Paris e Maria Dolores Pradera, dentre outros. Iniciando o espetáculo, se fazem presentes, no palco, as figuras de Wilson Feitosa, no acordeom e de Mauro Domenech, no baixo acústico, estampando o brilhantismo da direção musical e trilha de Guga Stroeter e Matias Capovilla.

Em “Frida y Diego”, a direção se permite envolver toda a plateia no contexto da história, ao transpor os limites da boca de cena para além do acesso à sala de espetáculos, fazendo dos seus corredores e paredes laterais, extensões do campo de visão dos espectadores que, por sua vez, se dão o direito à abstração de que contam com seus pés para se locomoverem, pois durante os noventa minutos de espetáculo, lhes são dadas asas para voar.

sábado, 16 de maio de 2015

Eu Te Amo


Prima pelo diálogo ágil, inteligente e, acima de tudo, mostrando que o amor não precisa ser piegas

Paulo foi abandonado por Bárbara – assim dá-se início ao espetáculo “Eu Te Amo”, uma adaptação do texto de Arnaldo Jabor.

A história se passa no apartamento de Paulo - um cineasta falido, recém separado - ambientado de forma muito simples: uma cadeira estilo diretor, um frigobar, uma pilha de livros e uma cama estilizada, caracterizando a falta de estabilidade emocional, econômica e de perspectiva de vida do personagem. Como pano de fundo, uma sequência de coxias direcionando os olhares da platéia para uma tentativa de fundo infinito - não fossem por indesejáveis irregularidades provocadas pelas costuras do tecido, realçadas de forma infeliz pela incidência da iluminação – conjunto esse onde são projetadas ora cenas de paisagem do Rio de Janeiro, ora os rostos das personagens femininas da história, ao mesmo tempo em que são sonorizados seus scripts específicos – um toque construtivo visando a uma sintonia fina por parte da direção.

Abrindo o espetáculo, o desabafo em off da bela Bárbara, interpretada por Ana Markun, transmite todas as suas neuras, revoltas e principalmente desamor de forma visceral e sincera, na intenção de apagar Paulo definitivamente de sua vida – intenção essa que atinge de forma pungente o personagem, interpretado, artisticamente amadurecido, por Marone. A partir de então, a essencial e intransferível sensualidade toma conta do palco, sem assumir qualquer traço erótico, apesar da exposição do torso desnudo de Marone durante boa parte do espetáculo e dos flashes de nudez parcial de Maria/Mônica, incorporada provocante e elegantemente por Juliana Martins. A sintonia entre os dois atores é um espetáculo à parte, tamanha a dignidade e profissionalismo com que conduzem as cenas nas quais se envolvem comercial, sexual e emocionalmente, passando longe de qualquer conotação erótico pornográfica, mas transmitindo à platéia a evolução de uma relação na qual, o sexo é fundamental, mas não essencial.

A direção de Rosane Svartman e Lírio Ferreira transforma os dois atores em um só personagem, de forma emblemática quase surrealista, tudo embebido de culpa, tristeza, solidão, falta de amor, desilusão e todos os outros males do coração, possíveis e imagináveis.

“Eu Te Amo” prima pelo diálogo ágil, inteligente e, acima de tudo, mostrando que o amor não precisa ser piegas – basta pagar para ver.

Resenha publicada no dia 15 de janeiro de 2015-05-08

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Olho Azul da Falecida


Espetáculo protagonizado pela mentira


LUTO pelos mesquinhos de mente pequena, que só valorizam o que se tem, e não o que se é.
LUTO pelos que são capazes de qualquer coisa para atingirem sua meta, independente do sofrimento imposto a quem se coloca à sua frente.
LUTO pela subversão travestida de modernidade, onde o sentimento é asfixiado pelo poder.
LUTO pela crueldade do amor que, quando não protagonista, torna-se coadjuvante medíocre.
LUTO pela ética incongruente levada a ser anti si mesma.
LUTO pela justiça cega dependente de cão guia para ser o que todos desejam que o fosse.
LUTO pela intervenção de um ser superior piedoso e consolador.

LUTO!

A partir desse prólogo repleto de ambiguidade, o Circuito Geral compartilha a sua visão de “O Olho Azul da Falecida”, espetáculo montado a partir do texto sagaz do dramaturgo inglês Joe Orton, com tradução de Bárbara Heliodoro. Apesar de datar de 1965, o argumento da história reflete a ambição, a ganância e a “Lei de Gerson” tão presentes no cenário político-social atual.

“O Olho Azul da Falecida”, é um espetáculo protagonizado pela mentira. A competente direção de Sidnei Cruz formata essa mixagem de thriller policial com humor ácido numa divertida sátira às aparências sociais e à tentativa de enriquecimento, custe o que custar. A boca de cena é estruturada por um cenário temático concebido por José Dias - que vai muito além da intenção de se reproduzir um cômodo de uma casa onde a história se passa - tomado por um ar sombrio, amadeirado, como se todos estivessem dentro de um enorme “caixão”, onde disputam a verdade na qual cada um acredita. O figurino inglês individualizado, por si só, define a verdade de quem é quem – proeza resultante de forte imersão na psicologia dos personagens, pelo figurinista Samuel Abrantes.
A direção musical de Wagner Campos, desperta o interesse do público pelo desfecho de cada um dos arrivistas, em conjunto com o desenho de luz dramático - em alguns momentos, macabro - de Rogério Wiltgen, fazendo com que os espectadores embarquem na trama sem se preocupar com o dia de amanhã.

Tuca Andrada se apresenta na pele do detetive Truscott – personagem tomado por forte desvio de caráter; Glaucia Rodrigues faz a Fay - uma psicopata alpinista social; Rafael Canedo é o Harold - controverso e perspicaz ao extremo, mas com um defeito que deveria ser uma virtude: ele nunca mente; Helder Agostini interpreta Dennis - amigo íntimo de Harold; Johnny Ferro, no papel de Meadows, é o guarda que acompanha o detetive Truscott; e Mário Borges, como Mac Leavy, representa o mocinho sofredor de uma história na qual, somente os mais fortes são aqueles que sabem mentir.

“O Olho Azul da Falecida” transita pela vida como uma bola de canhão explode a realidade em fragmentos de hipocrisia - no casamento, na religião, na justiça e na morte - de forma divertida, mas não menos reflexiva.


https://www.facebook.com/curtocircuitocultural


quarta-feira, 13 de maio de 2015

Divã a 2


Expõe, com muito bom humor, causas e efeitos de um casamento desgastado.

Longe de se tornar um clássico da cinematografia brasileira, o filme “Divã a 2” é prático e objetivo - repleto de piadas de fácil assimilação, recheado de surpresas que não causam qualquer espanto, transmitido através de uma linguagem linha pop e desenhado a partir de personagens de fácil identificação por parte do público – e pronto! A direção de Paulo Fontenelle cria um possível campeão de bilheteria nacional.

Caso essa previsão se torne realidade, o mérito não se deverá apenas ao enredo, mas também pela apropriada escolha de Vanessa Giácomo e de Rafael Infante, na paleta de atores em plena ascendência, para protagonizarem a ortopedista bem sucedida e o produtor de eventos, respectivamente. Em segundo plano, a história conta com personagens que servem de suporte para o desenvolvimento dos personagens interpretados por Giácono e Infante - muitos deles, excessivamente em suas interpretações, e outros sem a potência necessária para bater a bola com o simpático casal.

Divã a 2” expõe, com muito bom humor, causas e efeitos de um casamento desgastado, capaz de promover àqueles que acreditam nos finais do tipo “felizes para sempre”.

Apesar da inexistência de momentos antológicos, muito menos cenas imortais a serem lembradas pelo público cinéfilo, “Divã a 2” convence pela a sua verdade, mesmo quando o fim de algo aponta para um mero novo começo.


terça-feira, 12 de maio de 2015

A Atriz


Demonstração de amizade, de compromisso, de parceria, de paciência, de pertinência e de perseverança

A última apresentação da carreira artística de uma atriz, encenando o clássico “O jardim das cerejeiras” – um dia tomado por lembranças, repleto de emoções, mistura de alegria com tristeza por parte de seus admiradores, de seus fãs, de seus colegas de trabalho – frente à realidade do recuo da oferta de papéis quando do avanço da idade dos atores.

Breve argumento do espetáculo “A Atriz”, em cartaz na Sala Marília Pêra – Teatro Leblon, Rio de Janeiro - cujo texto, classificado como comédia, é de autoria do dramaturgo inglês Peter Quilter. Para se discorrer sobre “A Atriz”, na atual conjuntura, se faz necessário lançar os merecidos holofotes em direção ao trabalho do produtor do espetáculo, Marcus Montenegro – como se esse nome próprio fosse sinônimo de capacidade e de competência. Montenegro surpreende, mais uma vez, ao ser bem sucedido na montagem desse espetáculo, em ínfimos quinze dias, levando-se em conta: escalação informal de elenco, memorização de texto, preparação dos personagens, execução de figurino, criação e impressão de programa, mobilização para a divulgação necessária e as mais variadas modalidades de direção, regidas pela direção geral – que não teria sido tão bem finalizada, não fosse o talento, a dedicação e o empenho de Susana Garcia. Comprovado o sucesso do desempenho global da ficha técnica, na estreia do espetáculo na noite de 8 de maio de 2015, se pode afirmar, mais do que nunca, que assistir um trabalho produzido pela Montenegro e Raman é uma garantia de qualidade de entretenimento para o público teatral.

No mesmo dia de estreia de “A Atriz”, Betty Faria – protagonizando o espetáculo como Lydia Martin, uma diva do teatro – completa cinquenta anos de carreira, em plena atividade profissional – um capricho de seu amigo Montenegro que agrega o marco daquela estrela à sua própria façanha. Brilha no palco, ao lado de Betty Faria, um elenco de primeira que abraça o compromisso de uma temporada de sucesso para com o espectador, composto por Cacau Higino – o empresário; Gabriel Gracindo – o produtor; Giuseppe Oristano – o ex-marido; Pedro Gracindo – o filho; Stella Freitas – a camareira; e Bemvindo Sequeira – o atual noivo que, além de assinar a tradução do texto original, naturalmente se apresenta como viga mestra da vertente cômica do espetáculo, estampando, em sua própria face, impulsos involuntários, extremamente controlados, a olhos vistos, prestes a proferir seus tão reconhecidos cacos.

O projeto cenográfico de José Dias é engenhosamente clássico, pela sua tendenciosa simetria, pela reprodução de elementos arquitetônicos e decorativos beirando à fidedignidade, pelo cromatismo neutro o suficiente para que se façam presentes os personagens e pela versatilidade transformista de um camarim que somente uma estrela do porte de Lydia Martin faz jus para uma boca de cena em meio à qual a atriz se apresenta, pela última vez. O desenho de luz de Paulo César Medeiros pincela o cenário com seus fachos luminosos concentradamente dramáticos quando da performance de Martin no palco, e de forma difusa com sutis destaques de relevantes elementos de cena, enquanto camarim da atriz. O figurino – cuja essência, mais inglesa anos 20, impossível - caracteriza os personagens formal e elegantemente, acusando Sônia Soares quanto ao zelo na pesquisa e execução empenhadas nesse trabalho. Complementar ao ofício de Soares, e realçado pelo de Medeiros, o dosado visagismo assinado por Melissa Paladino se responsabiliza pelo semblante carismático de cada um dos personagens.

Em “A Atriz”, o espectador não é simples consumidor de entretenimento e de lazer promovido por texto, estrelas, equipe técnica e direção, mas também é testemunho de demonstração de amizade, de compromisso, de parceria, de paciência, de pertinência e de perseverança, que brilham como estrelas, em meio a uma galáxia, repletas de imprevistos meteóricos dos quais, se esquivar, se torna um exercício diário em prol da sobrevivência.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Byafra - 35 anos de carreira


Para que serve a utopia? 

Noite de 07 de maio de 2015 - o túnel do tempo, mais uma vez, é acoplado ao Teatro Rival, no Rio de Janeiro, transportando todos aqueles que viveram os anos 80 e ouviram as trilhas sonoras de novelas, embaladas ao som das músicas inéditas de Byafra.

O show começa com o artista em off - dois grandes sucessos de sua carreira, “Sonho de Ícaro” e “Seu Nome”, são apresentados pela harmoniosa e sintonizada banda composta por Aurélio Duarte – no baixo; Edgard Soares - na guitarra; Márcio Fábregas, no teclado; e Pedro Don – na bateria, diante de uma plateia, aparentemente, ainda apática e sem muita energia, como se à espera dos primeiros acordes de “Helena”, seguida por “Vinho Antigo”. A partir de então, como num passe de mágica, o público reage da forma à qual o ícone da MPB dos anos 80 faz jus. Impactado pela resposta do espectador, Byafra homenageia outros cantores emblemáticos daquela década – Dalton, com “Olhos D’água” e “Muito Estranho”; Marcos Sabino, com “Reluz”; e Marcelo, com “Explode Coração”. Desperta e contagiada pelo carisma do compositor e intérprete, a plateia do Rival é presenteada com a sua inédita “Quando Você Bate a Porta”. Fazendo das palavras de Eduardo Galeano, suas palavras, Byafra pergunta e replica - “Para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar” – como introdução a “Estoy Enamorado”, de Donato y Estéfano – transmitindo, sutilmente, que sua carreira ainda tem muito a nos oferecer.  Dando continuidade ao seu rol de homenagens, Byafra canta Chico Buarque - “Todo Sentimento”, acompanhado pela musicista Clarisse Assad, seguidos pela participação mais do que especial da plateia, em “Meu Bem Querer”, de Djavan.

Quase um tributo aos anos 80, no show de Byafra não poderia faltar as inesquecíveis “Último Romântico”, de Lulu Santos; “Menina Veneno”, de Ritchie e “Cheia de Charme”, de Guilherme Arantes. Com a derradeira “Rua Ramalhete”, de Tavito – Byafra cede o backing vocal à plateia, que declama, consigo, o refrão desta como se fosse um lampejo de esperança e não uma despedida – uma alusão a “Será que algum dia ‘ele volta’ aqui”. Pela fidelidade e pelo carinho demonstrado por seus fãs durante o espetáculo, o Circuito Geral e todos os presentes esperam que isso ocorra, muito em breve.


domingo, 10 de maio de 2015

Répétition


Enredo – que não busca um final feliz, mas satisfatório


Repetições, sejam redundantes ou não, podem ser tomadas como atos indiferentes às razões pelas quais alguém passa a vida se repetindo – moto contínuo involuntário – ou ato intencional focando um objetivo.

Em “Répétition”, o despretensioso texto de autoria de Flavio de Souza surpreende, a partir de seu título ao promover um leque de possíveis interpretações quanto ao seu significado – num jogo de palavras que se define nos primeiros minutos do espetáculo. Dualidade também se faz presente, de forma marcante e perturbadora, até que a percepção do espectador se alinhe com o fio condutor da história, identificando os papéis atribuídos a cada um dos atores - Alex Nader, como Dinho e Fernando, Tatianna Trinxet, como Laura e Silvia e Paulinho Serra, como Luis e Marcelo, que formam um triângulo paralelo de relacionamento, enquanto atores – repassando o texto de uma peça, e amantes na vida real.

O icônico projeto cenográfico de Ronald Teixeira transporta os espectadores aos camarins, a partir de fragmentos de bastidores e de um gigantesco espelho pontilhado por lâmpadas em sua periferia, contracenando com os personagens como nos clássicos da literatura, por Louis Carol, e do cinema, por Woody Allen com seus respectivos Alice no País do Espelho e Rosa Púrpura do Cairo, respectivamente. O desenho de luz de Fernanda Mantovani dramatiza o que não se propõe a ser uma história de amor, com uma poça de luz concentrada que se desbota na escuridão da periferia da boca de cena, sugerindo a presença dos refletores superiores, em primeiro plano, como elementos coadjuvantes no cenário de Teixeira. O figurino de Elisa Faulhaber veste, proposital, indistinta e despojadamente, os “seis personagens”, demandando ainda maior atenção da plateia para as passagens dos personagens da vida real para a ficção – dinâmica do enredo – que não busca um final feliz, mas satisfatório, estampando, a cada cena, a desimportância dos verbos amar, casar, desejar, fantasiar, trair, e a importância da conjugação do verbo viver, no presente do indicativo e, promissoramente, no futuro deste mesmo presente.

Em segunda parceria de sucesso com de Souza, o diretor Walter Lima Jr. transita pelos padrões convencionais de interpretação e constrói uma dramaturgia instigante – o teatro que reflete sobre o “fazer teatro”, dando forma, habilidosamente, à produção de Tatianna Trinxet, nesta temporada, no placo do Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro.


quinta-feira, 7 de maio de 2015

S’imbora, o musical – A História de Wilson Simonal


Cumpre, com louvor, seu papel frente à sólida produção de espetáculos biográficos de celebridades brasileiras.

O ano é 1971 - o local, uma delegacia. Simonal – Ícaro Silva tenta se desvincular da acusação de ter sequestrado e torturado o seu ex-contador.

Dá-se início ao show. Carlos Imperial – Thelmo Fernandes, surge em cena apresentando o seu programa. A partir de então, “S’imbora, o musical – A História de Wilson Simonal” diz para o que veio: fazer o espectador conhecer o artista - sua infância pobre, sua primeira vez no Beco da Garrafa junto com Miele – Gabriel Staufer, seu estilo apregoado pela “Pilantragem” da qual Imperial acabou se autodeclarando “Rei”, suas apresentações nos programas de televisão dos anos 60, seu show do Maracanãzinho lotado por mais de 40 mil pessoas, sua evidência e popularidade junto à seleção brasileira de futebol na copa do mundo no México em 1970, seu contrato como garoto propaganda da Shell, seu nome envolvido com o regime militar, sutilmente endossado a partir da sua regravação de “País Tropical”, de Jorge Ben, nos anos 70.

“S’imbora” condensa todo esse acervo de informações em três horas de espetáculo que transcorrem de forma imperceptível graças à qualidade da produção desse emocionante trabalho, dando vida ao dinâmico, objetivo e esclarecedor texto escrito a quatro mãos, por Nelson Motta e Patrícia Andrade. Como um caleidoscópio psicodélico, o cenário, cujo projeto é assinado por Hélio Eichbauer, emerge de um obscuro buraco da ditadura e vem à tona num auditório de programa de televisão para que, logo em seguida, se transforme no lar de Simonal e Terezinha – Gabriela Carneiro da Cunha, sua primeira esposa – e por aí, vai. Tomas Ribas de Farias potencializa o visual das cenas com focos e difusão das luzes a partir de cromatismo, brilho e contraste técnicos impecáveis, como um alquimista que transporta as cenas através do tempo e do espaço, fazendo do cenário e dos surpreendentes recursos de projeção, ingredientes de uma poção capaz de levar o espectador a um transe segundo o espírito alucinógeno dos anos 60. Para completar a festa, o figurino de Marília Carneiro, fruto de minuciosa pesquisa, resgata a moda e estilos dos anos rebeldes e dos anos de chumbo no Brasil. Não se pode deixar de lado a marcante e singela campanha do boneco de pano preto, de forma arredondada, de olhos esbugalhados, cabelo vermelho e calça xadrez, vendido como amuleto da sorte para o ano de 1967 – que inspirou Simonal a compor o “Samba do Mug”. Tudo isso representa pontos a favor da impecabilidade e grandiosidade do musical dirigido por Pedro Brício – profissional participante da seleta galeria de diretores que têm qualificado o Brasil como país altamente capacitado com vistas à montagem de musicais.

No presente momento, “S’imbora” cumpre, com louvor, seu papel frente à sólida produção de espetáculos biográficos de celebridades brasileiras, homenageando um ídolo que serviu de bode expiatório de ações revolucionárias e que, por vinte anos, foi apagado da história da música popular brasileira, em função de um erro cometido e que nunca foi anistiado – conforme transmitido pelo texto. Fazendo do ditado clichê, suas palavras – “só se dá valor a algo quando se o perde” – o Circuito Geral lamenta o tempo durante o qual foi deixado de veicular os sucessos que tanto fizeram parte da vida de gerações. Em tempo, extensivamente a “S’imbora, o musical – A História de Wilson Simonal”, sugerimos a todos que possam se interessar pelo estilo do espetáculo discorrido por esta resenha, que não o percam, para que depois, não se arrependam de não tê-lo assistido.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Sorria, Você Está Sendo Filmado – O Filme


Cabe sob medida nos palcos e, quem sabe, um dia poderá se tornar
 “A Peça” 

Prólogo - as luzes da sala de espetáculo se apagam, e dá-se início à história: um homem, supostamente solitário, em frente ao seu computador ajeita a webcam e, chorando, dá um tiro na cabeça - cena apenas sugerida, não exibida - diante do equipamento  que faz o registro de todos os momentos durante e após o suicídio.

Primeiro e único plano - ouvem-se as vozes dos vizinhos e, em seguida, a porta é aberta por quem parece ser a diarista e, com ela, entram o porteiro, a vizinha e o síndico, trazendo com eles toda uma carga de vaidade explícita e doses de hipocrisia latente, prestes a serem detonadas no momento oportuno. Em cena, a síntese dualista do ser somente quem se pode ser - egocêntrico, mas somente se pode ser altruísta; ambicioso, mas somente se pode ser abnegado; pilantra, mas somente se pode ser honesto; medíocre, mas somente se pode ser virtuoso; agressivo, mas somente se pode ser educado; sofrido, mas somente se pode ser indene; prepotente, mas somente se pode ser humilde; amoral, mas somente se pode ser moralista.

Imersa em tantos predicados, a história se desenrola num único ambiente – a sala do morto – composta por cenas hilariantes e fortemente pontuadas na dualidade de seus personagens: o síndico dipsomaníaco e sua mulher – uma fracassada ex-atriz da Rede Globo; o porteiro – indivíduo cujo objeto de desejo, no momento, se resume uma furadeira que o morto, supostamente havia prometido, um dia, lhe dar; a esposa do porteiro - a diarista que procura o envelope com o dinheiro de sua diária; a vizinha – a fofoqueira abalada pela recente ocorrência, mas que não deixa de fazer uma selfie junto ao defunto; o “papa defuntos” – profissional medíocre que chega antes mesmo da ambulância e da polícia, ávido pela venda de um enxoval completo de primeira para os que partem dessa – “para melhor?”; o corretor de imóveis – especulador que, à despeito da cena presente, apresenta o apartamento a uma improvável compradora; paramédicos – funcionários públicos frios e alheios às suas obrigações, mas atentos aos seus interesses particulares; policias – autoridades tomadas pela arrogância, agressividade e que não inspiram confiança; o entregador de pizza – “pau mandado” que não abandona o recinto até que lhe seja pago o valor da encomenda; o auxiliar de portaria - aproveitador que faz a vez de recepcionista na porta do apartamento do suicida; e, por fim, o técnico de TI – pragmático como desfecho da história, que dispensa qualquer vestígio de trilha sonora.

Elenco estelar escalado: Lázaro Ramos, Suzana Vieira, Otávio Augusto, Lucio Mauro Filho, Deborah Secco, Roberta Rodrigues, Marcos Caruso, Juliano Cazarré, Aramis Trindade, Thiago Martins, Thiago Rodrigues, Bruce Gromlevsky, Thereza Amayo, Luiz Guilherme Favati, Gustavo Pereira, Cris D’Amato, Kika Freire e Pedro Nercessian – dirigido pela genialidade de Daniel Filho.

“Sorria, Você Está Sendo Filmado – O Filme”, pode ser compreendido como uma sequência de esquetes temperados à base de humor acidamente bem sacado – uma crítica ao comportamento social sob o ponto de vista da hierarquia e da, ainda sobrevivente, “carteirada”.  “Sorria, Você Está Sendo Filmado” também cabe sob medida nos palcos e, quem sabe, um dia poderá se tornar “A Peça”, graças à flexibilidade e despojamento do roteiro de Fernando Ceylão, semi pronto para tal adaptação, com grande potencial para se tornar um grande sucesso teatral, da mesma forma que deverá ocorrer nas diversas telas programadas para a sua exibição 



terça-feira, 5 de maio de 2015

Paula Toller - Transbordada


Púbico conquistado e dominado

Generosamente lotada, a plateia do Citibank Hall Rio de Janeiro recebe o público afeto de Paula Toller, em seu show, com vistas à apresentação das músicas de seu novo CD “Transbordada”, das quais somente seis delas fizeram parte do playlist - a começar por “Ohayou”, dando início à sua performance, sob um profundo “deep blue” lumínico. Aos poucos, a intensidade e cores da iluminação – cujo desenho e operação fizeram toda a diferença na dinâmica visual da boca de cena – trazem à tona a bela e sensual compositora e intérprete, ainda tomada por uma aparente timidez que não faz jus ao seu perfil artístico e ao repertório escolhido para iniciar o espetáculo, que não explode da forma que merece e que se espera, nem mesmo ao som das palmas de acompanhamento de “Fixação”, por parte da plateia.

Contudo, a participação do público – ainda sentado à mesa sem dar verdadeira expansão às suas emoções em resposta aos ritmos dançantes - facilita a interação de Toller, que dá seguimento ao show, intercalando momentos de diálogo em clima de humor e descontração, prosseguindo com “Calmaí”. A mixagem de “Oito Anos” com “Ando Meio Desligado” conta com um solo de guitarra, digno de festival de rock, por Liminha, coprodutor do CD e compositor de algumas de suas músicas. O vigor da apresentação do guitarrista faz com que o show encontre o seu rumo junto ao público, acompanhando Toller em “Trasnbordada” e “Nada Por Mim”. Contrapondo à carga de excitação crescente, Toller sensualiza a atmosfera da sala de espetáculos, cantando um dos grandes sucessos de Chris Isaak - “Wicked Game”, em consonante duo com Caio Fonseca, prosseguindo em tom mais pop com ajuda de Juju Gomes com “Deus (Apareça na Televisão)” e fechando a sequência homenageando Chorão, com “Céu Azul”.

Púbico conquistado e dominado, Toller, a dona do show concede a alforria para que todos se levantem de seus lugares pois é chegada a hora de dançar ao som dos sucessos que fizeram a história de muitas vidas nas últimas décadas, como: “Nada Sei”, “No Seu Lugar”, “Te Amo Pra Sempre” e terminando com “Eu Tive Um Sonho”. Logo após as já tão desacreditadas despedidas e retiradas do palco que precedem o bis, Toller e sua banda – composta por Márcio Alencar, na bateria; Maurício Curinga, no baixo; Caio Fonseca, no violão; Gustavo Corsi, no teclado; e com a participação especial de Liminha no baixo e na guitarra – dão início ao fim de  “Transbordada” embalando a plateia com “Your Song”, “Grand Hotel” e “Os Outros” – este, com a participação especial de toda a plateia, numa capela em alto e bom tom.

O grand finale, com “Pintura Íntima”, só faz lembrar que Paula Toller e Kid Abelha são indissociáveis.


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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Bom Crioulo


Foi consumado o delito contra o usual

A realidade gélida, perniciosa e cruel de um segmento da sociedade em franca decadência discursiva, com base na dicotomia entre o certo e o errado, extensivo aos brancos e aos negros, ainda trava uma guerra moral, onde a perversão tem conotação estritamente sexual e de ser a única causadora do desequilíbrio social e da família que, na visão dos moralistas, somente pode ser composta pelo triângulo homem, mulher e filho. Desse quadro, o afeto é excluído como parte essencial, fosse o amor, simplesmente, uma invenção dos romancistas para fomentar a venda de seus livros. Partindo-se dessa premissa e com base na visão dos paladinos dos bons costumes, juntamente com a sua massa de manobra, qualquer composição que não se enquadre a partir daquela formação triangular, nunca terá direito a ser considerada uma família, uma vez que o amor e o afeto não são considerados como base fundamental de um relacionamento familiar. Tudo fica ainda mais complexo, ao se qualificar um homem negro de boa índole, que tenta fugir da escravidão travestida de intolerância por parte da sociedade, que encontra na marinha e em alto mar, o sentido da vida sem censuras e tabus, que se entrega a um homem branco, frágil e delicado, com ele forma um casal e, por fim, se depara com uma avalanche de preconceitos, comportamentos amorais e casualidades que provocam substanciais alterações no curso de seus destinos. Tudo isso são fatos que vêm se arrastando por todo um passado e que são radiografados pelo texto datado de 1895, assinado por Adolfo Caminha, intitulado “Bom Crioulo”, considerado o primeiro romance homossexual de toda a literatura ocidental.
                                      
No presente momento, a obra de Caminha sofre uma livre adaptação de Luis Salém e se transforma no espetáculo com o mesmo título do livro, cuja direção é assinada por Gilberto Gawronski. O escândalo generalizado da critica literária, a omissão do público, o conteúdo com sexo inter-racial, o amor entre iguais, e a ira militar pelo romance entre patentes, àquela época, em pleno ano de 2015, vem à tona à bordo de uma escuna navegante pela Baía de Guanabara – um diferencial da produção de “Bom Crioulo”, que oferece traslado do estacionamento gratuito no Monumento dos Pracinhas até o cais localizado na Marina da Glória, onde os espectadores embarcam e são recebidos por um serviço de bar “all inclusive”, demonstrando total respeito e zelo da produção para com o público teatral e para com o trabalho de Salém que, explicita e informalmente descreve Caminha como um homem “da pá virada”.

O monólogo de Salém discorre, de forma didática e poética, sobre o texto vanguardista, como um contador de histórias competente em manter a conexão com seus ouvintes espectadores, apesar da atmosfera e do cenário naturais passíveis de dispersão da atenção, tão bem incorporados para a apresentação desse espetáculo, estimulando os sentidos de todos os presentes – a brisa noturna, a fragrância do mar, o som das ondas contra a embarcação, o cintilar das luzes da cidade, o estrondoso som de uma aeronave que parte do aeroporto, como coincidente coadjuvante em determinados momentos dramáticos da narrativa. Em paralelo, “Bom Crioulo” conta com a direção musical de André Poyart, músico que acompanha Salém em seus devaneios, inserindo como trilha incidental “Nature Boy” - de Eden Ahbez, que se mistura com “Descobridor dos Sete Mares” - de Michel e Gilson Mendonça, “Inigualável Paixão” - de Adilson Bispo e Zé Roberto, dentre outras pérolas musicais.

A dupla Salém e Poyart é instintiva na manipulação do conjunto da obra apresentada, seduzindo o espectador até o desfecho do espetáculo, quando Salém interage com o público se colocando à disposição dos interessados, autografar seu livro à venda à bordo.

Ancorado de volta ao cais, a escuna é desembarcada pelo Circuito Geral, juntamente com os demais espectadores, e faz o seu translado de volta ao estacionamento, ciente de que naquela noite “foi consumado o delito contra o usual”.


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