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quinta-feira, 21 de maio de 2015

1 Milhão de Anos em 1 Hora


Um espetáculo acrimonioso, ousado e celerado em sua condensação. 

“1 Milhão de Anos em 1 Hora” – monólogo estrelado por Bruno Motta, inserido no rol das comédias, não é um espetáculo voltado para qualquer perfil dentre os apreciadores de humor. Este fato é justificado, primeiramente, pela sua proposta em discorrer sobre a evolução do homem neste pequeno planeta azul, em apenas cravados sessenta minutos - proeza essa que não é levada a cabo pelo comediante de forma leviana, mas com muita sagacidade, a tal ponto que se torna necessário estabelecer um divisor de águas entre formas de se fazer rir, para que os espectadores que vão em busca de uma comédia rasgada e de fácil assimilação não fiquem equivocadamente perdidos em meio às balas satírico intelectuais que Motta dispara contra a plateia.

O narrador inicia a sua alucinante retrospectiva, startando o seu relógio digital, após explicar o porquê do nome do espetáculo, cujo término, em exatamente uma hora, é um dos compromissos para com o público.  No palco, um balão alusivo a um globo terrestre, que também desempenha o papel de tela de projeção, altera imagens projetadas, sobre os assuntos em pauta, a cada mudança de época. Reconhecendo este elemento cenográfico como ícone do espetáculo, o Circuito Geral, sob a ótica do espectador, se sente no dever de observar o fato do globo repousar diretamente no palco e, à sua frente, o apoio do projetor e do cronômetro, obrigando muitos da plateia, que não conseguem visualizar as projeções sobre a esfera inflada de ar, oscilarem em suas poltronas à procura de um campo visual mais satisfatório. Em vista disso, nos permitimos sugerir a direção que lance mão de algum artifício que possa suspender o referido balão a uma altura que possibilite a sua visibilidade, eliminado os indesejados pontos cegos na plateia. Fora esse recomendável pequeno ajuste, longe de configurar algo que desabone o espetáculo, a direção de Cláudio Torres Gonzaga manda bem, nessa versão do texto original de Colin Quinn – monólogo que estreou na Broadway em 2010 - assinada por Marcelo Adnet, e que define uma meteórica trajetória, desde os primórdios da geração da vida terrena, que desagua no mar da atualidade, das redes sociais e da tecnologia.

Em meio a um cenário e um desenho de luz que muito se diferencia dos inexistentes recursos complementares de palco da maioria dos Stand Up Comedies normalmente produzidas, Bruno Motta consegue levar a plateia sem muitos percalços, mesmo quando algumas de suas piadas não são imediatamente compreendidas. Como antídoto contra a aparente falta de sagacidade por parte da plateia, o comediante chega a abusar de seu carisma e poder de persuasão, se empenhando em extrair alguma reação contrária à apatia manifesta – como por exemplo, ao conferir a autoria de uma determinada piada a Jerry Seinfeld, mesmo estando certo de que grande parte dos espectadores não estariam aptos a ligar aquele nome ao astro de uma das mais aclamadas sitcoms de todos os tempos. Como num surto submisso a uma programação neurolinguística deslavada, por mais incrível que possa parecer, sua técnica mostra resultados positivos, provocando diversas reações por parte do público, como se a ficha tivesse acabado de cair.

“1 Milhão de Anos em 1 Hora” sem sombra de dúvida, é um espetáculo acrimonioso, ousado e celerado em sua condensação. Enquanto as algumas produções apostam, cada vez mais, nos espetáculos que se classificam como comédia, de forma tal a atrair a fração do público disposta a rir por rir, e sem ter muito o que pensar para se manifestar através de gargalhadas automáticas, “1 Milhão de Anos em 1 Hora” se diferencia por se tratar de humor reflexivo e seleto, por sua própria natureza.

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