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domingo, 24 de maio de 2015

2 x 2 = 5 O Homem do Subsolo




Lucidez e lógica ao acreditar que “ser consciente é uma doença”

Ao adentrar a Arena do Espaço SESC Copacabana, na noite do dia 21 de maio de 2015, o  Circuito Geral se depara, surpreendentemente, com o palco tomado por algo que lhe remete a uma impactante instalação artística. A aparente obra de arte é composta por um assoalho de madeira sem tratamento, como um tablado que se eleva, ligeiramente, acima do nível da primeira fila de poltronas da plateia. Sobre o tablado, um sofá vermelho e uma mesa – ambos apresentando nítidos sinais de desgaste, pela falta de zelo ao longo do tempo. Ao fundo, um diedro gradeado limita o ambiente sugerido, como um par de paredes, sendo uma delas vazada por uma janela de dimensões vis - aparentando ser o único elo entre o interior e o exterior – a partir da qual, pela altura em que foi construída, somente é possível observar o exterior, por meio de uma tosca estrutura de madeira provida de degraus. Despojadamente espalhadas, peças de vestuário feminino sugere uma mulher ausente, por tempo indefinido. Deitado sobre a mesa, um ser despido de qualquer traço de pudor quanto à sua aparência física e cujas vestes o qualificam como desprovido de auto estima, em destaque por um concentrado, ofuscante e pungente facho de luz, que atravessa a diminuta janela.

O espetáculo tem seu início com o despertar do fragmento vivo daquela suposta instalação – um homem gordo e sem qualquer atrativo físico, além de maduro e deprimido, que dá seus primeiros sinais de vida ao compartilhar com os espectadores, a moléstia que consome as suas entranhas, sua angústia, sua acidez, sua raiva, sua petulância e seu desprezo para com aqueles com quem é obrigado a lidar ao longo de sua nefasta existência. O desencanto daquele homem reage com a atenção dispensada pelo público – incomodando, desestruturando e provocando as mais diversas reações, que não teriam sido percebidas pelo Circuito Geral, não fosse o conveniente formato de palco daquele espaço cultural, definido por uma arena. Como coadjuvantes daquele drama psicológico: risadas fora do contexto, apatia diante do texto e estado de sonolência – possivelmente justificado pela necessidade de fuga provocada pela identificação com a profunda depressão do narrador; além do semblante daqueles que demonstram total concentração e êxtase - pelo privilegio em testemunhar a incorporação visceral do personagem do texto original do escritor russo - Fiódor Dostoiévski – por Cacá de Carvalho. Difícil de se qualificar esse ator à altura, diante de seu desempenho no palco – seu gestual, suas expressões faciais, as nuances de sua voz, seu olhar, sua emoção - e de sua abnegação diante do desafio de se produzir teatro arte num país onde não se reconhece o verdadeiro sentido da palavra “mérito”.

Por detrás de tudo isso: a peculiar direção de Roberto Bacci – atenta à entrega do corpo e da alma de Carvalho na produção do espetáculo; as qualidades do projeto cenográfico e figurino de Márcio Medina - implícitas na descrição da obra de arte que recepciona os espectadores; o desenho de luz de Fábio Retti – lançando concentração lumínica em destaque da dramaticidade daquele que se nega a comungar do convencional presente na sociedade, a difusividade necessária à percepção visual do entorno pela plateia e quanto baste de penumbra sobre os espectadores, revelando seu estado contemplativo, cada um a seu modo.

O inominado, habitante solitário da psicologia de seus próprios porões, age como muitos gostariam de fazê-lo - rejeitando positivismos baratos, negando o racionalismo politicamente correto, lutando contra a submissão a aqueles que automaticamente se submetem, questionando as leis que aviltam os direitos dos indivíduos e cultivando a consciência involuntária, tão bem vinda em momentos estratégicos de nossas vidas - mas que não o fazem, por mera acomodação, ou por terem se conectado ao modo automático de suas mentes.

O personagem de Dostoiévski demonstra lucidez e lógica ao acreditar que “ser consciente é uma doença” e ao negar a verdade como fruto do convencional decretado por dogmas da sociedade – a ponto de questionar e fazer com que o público leve para casa a dúvida sobre o por quê de duas vezes dois, não ser igual a cinco.

Antes de partir para a sua turnê internacional, “2 x 2 = 5 O Homem do Subsolo” se apresenta na Arena do Espaço SESC de Copacabana, Rio de Janeiro, até o dia 31 de maio de 2015.

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