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terça-feira, 12 de maio de 2015

A Atriz


Demonstração de amizade, de compromisso, de parceria, de paciência, de pertinência e de perseverança

A última apresentação da carreira artística de uma atriz, encenando o clássico “O jardim das cerejeiras” – um dia tomado por lembranças, repleto de emoções, mistura de alegria com tristeza por parte de seus admiradores, de seus fãs, de seus colegas de trabalho – frente à realidade do recuo da oferta de papéis quando do avanço da idade dos atores.

Breve argumento do espetáculo “A Atriz”, em cartaz na Sala Marília Pêra – Teatro Leblon, Rio de Janeiro - cujo texto, classificado como comédia, é de autoria do dramaturgo inglês Peter Quilter. Para se discorrer sobre “A Atriz”, na atual conjuntura, se faz necessário lançar os merecidos holofotes em direção ao trabalho do produtor do espetáculo, Marcus Montenegro – como se esse nome próprio fosse sinônimo de capacidade e de competência. Montenegro surpreende, mais uma vez, ao ser bem sucedido na montagem desse espetáculo, em ínfimos quinze dias, levando-se em conta: escalação informal de elenco, memorização de texto, preparação dos personagens, execução de figurino, criação e impressão de programa, mobilização para a divulgação necessária e as mais variadas modalidades de direção, regidas pela direção geral – que não teria sido tão bem finalizada, não fosse o talento, a dedicação e o empenho de Susana Garcia. Comprovado o sucesso do desempenho global da ficha técnica, na estreia do espetáculo na noite de 8 de maio de 2015, se pode afirmar, mais do que nunca, que assistir um trabalho produzido pela Montenegro e Raman é uma garantia de qualidade de entretenimento para o público teatral.

No mesmo dia de estreia de “A Atriz”, Betty Faria – protagonizando o espetáculo como Lydia Martin, uma diva do teatro – completa cinquenta anos de carreira, em plena atividade profissional – um capricho de seu amigo Montenegro que agrega o marco daquela estrela à sua própria façanha. Brilha no palco, ao lado de Betty Faria, um elenco de primeira que abraça o compromisso de uma temporada de sucesso para com o espectador, composto por Cacau Higino – o empresário; Gabriel Gracindo – o produtor; Giuseppe Oristano – o ex-marido; Pedro Gracindo – o filho; Stella Freitas – a camareira; e Bemvindo Sequeira – o atual noivo que, além de assinar a tradução do texto original, naturalmente se apresenta como viga mestra da vertente cômica do espetáculo, estampando, em sua própria face, impulsos involuntários, extremamente controlados, a olhos vistos, prestes a proferir seus tão reconhecidos cacos.

O projeto cenográfico de José Dias é engenhosamente clássico, pela sua tendenciosa simetria, pela reprodução de elementos arquitetônicos e decorativos beirando à fidedignidade, pelo cromatismo neutro o suficiente para que se façam presentes os personagens e pela versatilidade transformista de um camarim que somente uma estrela do porte de Lydia Martin faz jus para uma boca de cena em meio à qual a atriz se apresenta, pela última vez. O desenho de luz de Paulo César Medeiros pincela o cenário com seus fachos luminosos concentradamente dramáticos quando da performance de Martin no palco, e de forma difusa com sutis destaques de relevantes elementos de cena, enquanto camarim da atriz. O figurino – cuja essência, mais inglesa anos 20, impossível - caracteriza os personagens formal e elegantemente, acusando Sônia Soares quanto ao zelo na pesquisa e execução empenhadas nesse trabalho. Complementar ao ofício de Soares, e realçado pelo de Medeiros, o dosado visagismo assinado por Melissa Paladino se responsabiliza pelo semblante carismático de cada um dos personagens.

Em “A Atriz”, o espectador não é simples consumidor de entretenimento e de lazer promovido por texto, estrelas, equipe técnica e direção, mas também é testemunho de demonstração de amizade, de compromisso, de parceria, de paciência, de pertinência e de perseverança, que brilham como estrelas, em meio a uma galáxia, repletas de imprevistos meteóricos dos quais, se esquivar, se torna um exercício diário em prol da sobrevivência.

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