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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Bom Crioulo


Foi consumado o delito contra o usual

A realidade gélida, perniciosa e cruel de um segmento da sociedade em franca decadência discursiva, com base na dicotomia entre o certo e o errado, extensivo aos brancos e aos negros, ainda trava uma guerra moral, onde a perversão tem conotação estritamente sexual e de ser a única causadora do desequilíbrio social e da família que, na visão dos moralistas, somente pode ser composta pelo triângulo homem, mulher e filho. Desse quadro, o afeto é excluído como parte essencial, fosse o amor, simplesmente, uma invenção dos romancistas para fomentar a venda de seus livros. Partindo-se dessa premissa e com base na visão dos paladinos dos bons costumes, juntamente com a sua massa de manobra, qualquer composição que não se enquadre a partir daquela formação triangular, nunca terá direito a ser considerada uma família, uma vez que o amor e o afeto não são considerados como base fundamental de um relacionamento familiar. Tudo fica ainda mais complexo, ao se qualificar um homem negro de boa índole, que tenta fugir da escravidão travestida de intolerância por parte da sociedade, que encontra na marinha e em alto mar, o sentido da vida sem censuras e tabus, que se entrega a um homem branco, frágil e delicado, com ele forma um casal e, por fim, se depara com uma avalanche de preconceitos, comportamentos amorais e casualidades que provocam substanciais alterações no curso de seus destinos. Tudo isso são fatos que vêm se arrastando por todo um passado e que são radiografados pelo texto datado de 1895, assinado por Adolfo Caminha, intitulado “Bom Crioulo”, considerado o primeiro romance homossexual de toda a literatura ocidental.
                                      
No presente momento, a obra de Caminha sofre uma livre adaptação de Luis Salém e se transforma no espetáculo com o mesmo título do livro, cuja direção é assinada por Gilberto Gawronski. O escândalo generalizado da critica literária, a omissão do público, o conteúdo com sexo inter-racial, o amor entre iguais, e a ira militar pelo romance entre patentes, àquela época, em pleno ano de 2015, vem à tona à bordo de uma escuna navegante pela Baía de Guanabara – um diferencial da produção de “Bom Crioulo”, que oferece traslado do estacionamento gratuito no Monumento dos Pracinhas até o cais localizado na Marina da Glória, onde os espectadores embarcam e são recebidos por um serviço de bar “all inclusive”, demonstrando total respeito e zelo da produção para com o público teatral e para com o trabalho de Salém que, explicita e informalmente descreve Caminha como um homem “da pá virada”.

O monólogo de Salém discorre, de forma didática e poética, sobre o texto vanguardista, como um contador de histórias competente em manter a conexão com seus ouvintes espectadores, apesar da atmosfera e do cenário naturais passíveis de dispersão da atenção, tão bem incorporados para a apresentação desse espetáculo, estimulando os sentidos de todos os presentes – a brisa noturna, a fragrância do mar, o som das ondas contra a embarcação, o cintilar das luzes da cidade, o estrondoso som de uma aeronave que parte do aeroporto, como coincidente coadjuvante em determinados momentos dramáticos da narrativa. Em paralelo, “Bom Crioulo” conta com a direção musical de André Poyart, músico que acompanha Salém em seus devaneios, inserindo como trilha incidental “Nature Boy” - de Eden Ahbez, que se mistura com “Descobridor dos Sete Mares” - de Michel e Gilson Mendonça, “Inigualável Paixão” - de Adilson Bispo e Zé Roberto, dentre outras pérolas musicais.

A dupla Salém e Poyart é instintiva na manipulação do conjunto da obra apresentada, seduzindo o espectador até o desfecho do espetáculo, quando Salém interage com o público se colocando à disposição dos interessados, autografar seu livro à venda à bordo.

Ancorado de volta ao cais, a escuna é desembarcada pelo Circuito Geral, juntamente com os demais espectadores, e faz o seu translado de volta ao estacionamento, ciente de que naquela noite “foi consumado o delito contra o usual”.


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