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terça-feira, 26 de maio de 2015

Eugênia


Não começa, tampouco acaba – simplesmente, acontece

Desprovido de qualquer pesar, o Circuito Geral assina embaixo da declaração de “Eugênia” de que, mesmo estando morta, está ótima – contando, para isso, com a desafiante interpretação de Gisela de Castro, que incorpora a morta-viva.

A partir do hilário, sarcástico e atual texto de Miriam Halfim, o espetáculo, cujo título herda o nome da falecida, é habilidosamente moldado pela atriz contadora de histórias, que se impõe, vigorosamente, diante da plateia e transforma o palco num picadeiro de circo cuja lona se estende, em meio à fronteira temporal dos séculos XVIII e XIX, – a partir de uma história que envolve D. João VI de Portugal, Dona Carlota Joaquina, uma filha bastarda e um rapto, num contexto repleto de Hipocrisia Real –  vez ou outra, lançando venenos e fazendo alusões, de forma sutil e inteligente, à nossa contemporaneidade.

A direção de Sidnei Cruz é notória, ao conceder, ao despretensioso monólogo, gestual, cenário, iluminação, figurino e visagismo de qualidade tal que ultrapassa as expectativas do público, diante do que o espetáculo, num primeiro momento, se propõe. Para isso, conta com uma equipe extremamente capaz, composta por: Morena Cattoni – cuja preparação corporal coloca em cena uma personagem cheia de dinamismo, desenvolta em intensos gestual e expressões faciais; José Dias  - com seu projeto cenográfico corbusiano, ao mesmo tempo engenhoso e lúdico, apesar de sua conotação fúnebre; Samuel Abrantes – responsável pelo design de aparência, veste e adorna a personagem zumbi de forma impactante, atingindo o imaginário dos espectadores como verdadeiros receptores de arte que o são; Aurélio de Simoni – desenhista de luz cênica que tira proveito da soturna atmosfera esfumaçada que toma conta da sala de espetáculos, projeta energia e cores dentro de um espectro que transporta os espectadores através da obscuridade do drama e do esplendor da comédia.

O espetáculo “Eugênia” não começa, tampouco acaba – simplesmente, acontece – e entra lista das revelações de 2015: Gisele - por seu humor ácido sem ranço apelativo e, “Eugênia” por seu efusivo retorno da terra dos mortos vivos.  

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