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quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Olho Azul da Falecida


Espetáculo protagonizado pela mentira


LUTO pelos mesquinhos de mente pequena, que só valorizam o que se tem, e não o que se é.
LUTO pelos que são capazes de qualquer coisa para atingirem sua meta, independente do sofrimento imposto a quem se coloca à sua frente.
LUTO pela subversão travestida de modernidade, onde o sentimento é asfixiado pelo poder.
LUTO pela crueldade do amor que, quando não protagonista, torna-se coadjuvante medíocre.
LUTO pela ética incongruente levada a ser anti si mesma.
LUTO pela justiça cega dependente de cão guia para ser o que todos desejam que o fosse.
LUTO pela intervenção de um ser superior piedoso e consolador.

LUTO!

A partir desse prólogo repleto de ambiguidade, o Circuito Geral compartilha a sua visão de “O Olho Azul da Falecida”, espetáculo montado a partir do texto sagaz do dramaturgo inglês Joe Orton, com tradução de Bárbara Heliodoro. Apesar de datar de 1965, o argumento da história reflete a ambição, a ganância e a “Lei de Gerson” tão presentes no cenário político-social atual.

“O Olho Azul da Falecida”, é um espetáculo protagonizado pela mentira. A competente direção de Sidnei Cruz formata essa mixagem de thriller policial com humor ácido numa divertida sátira às aparências sociais e à tentativa de enriquecimento, custe o que custar. A boca de cena é estruturada por um cenário temático concebido por José Dias - que vai muito além da intenção de se reproduzir um cômodo de uma casa onde a história se passa - tomado por um ar sombrio, amadeirado, como se todos estivessem dentro de um enorme “caixão”, onde disputam a verdade na qual cada um acredita. O figurino inglês individualizado, por si só, define a verdade de quem é quem – proeza resultante de forte imersão na psicologia dos personagens, pelo figurinista Samuel Abrantes.
A direção musical de Wagner Campos, desperta o interesse do público pelo desfecho de cada um dos arrivistas, em conjunto com o desenho de luz dramático - em alguns momentos, macabro - de Rogério Wiltgen, fazendo com que os espectadores embarquem na trama sem se preocupar com o dia de amanhã.

Tuca Andrada se apresenta na pele do detetive Truscott – personagem tomado por forte desvio de caráter; Glaucia Rodrigues faz a Fay - uma psicopata alpinista social; Rafael Canedo é o Harold - controverso e perspicaz ao extremo, mas com um defeito que deveria ser uma virtude: ele nunca mente; Helder Agostini interpreta Dennis - amigo íntimo de Harold; Johnny Ferro, no papel de Meadows, é o guarda que acompanha o detetive Truscott; e Mário Borges, como Mac Leavy, representa o mocinho sofredor de uma história na qual, somente os mais fortes são aqueles que sabem mentir.

“O Olho Azul da Falecida” transita pela vida como uma bola de canhão explode a realidade em fragmentos de hipocrisia - no casamento, na religião, na justiça e na morte - de forma divertida, mas não menos reflexiva.


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