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domingo, 17 de maio de 2015

Frida y Diego


É forte, quente, vermelho e sangra

“Frida y Diego” não é, exatamente, uma história de amor, mas um belo retrato dos sintomas de um amor patológico. O espetáculo traça um panorama desde ao inoculação do vírus da paixão, produzindo seus efeitos ao longo de toda uma vida, até o seu estado terminal.

A partir do instigante e inédito texto de Maria Adelaide Amaral, Leona Cavalli e José Rubens Chachá, protagonizando Fryda Kahlo e Diego Rivera, respectivamente, se entregam, de forma visceral, à representação de duas vidas marcadas pelo individualismo mascarado como parceria.  Tudo em “Fryda y Diego” é forte, quente, vermelho e sangra, como sintomas da doença do amor que afeta Kahlo de forma pungente. Diego é o contraponto – o antídoto para a cura de um amor tão doentio – entendendo amor como não sendo o maior laço possível entre duas pessoas. O espetáculo retrata a carência sentida por Frida, decorrente da parcela que lhe resta do companheirismo de Diego – este, declaradamente adepto à pluralidade de relacionamentos.

A precisão e o zelo empenhados pela direção de produção por Maurício Machado e pela direção por Eduardo Figueiredo endossam o respeito ao público, enquanto consumidor de teatro, e definem a linearidade presente no decorrer de toda a apresentação, eliminando qualquer vestígio de hiatos temporais, definindo, pouco a pouco, o quebra-cabeça que retrata a relação escolhida por Frida e Diego, como forma de expressar amor mútuo. As marcas do tempo e registros fotográficos da vida do casal, de suas obras, além de outras imagens que remetem ao drama encenado, são adequadamente inseridos no espetáculo através de projeções, como recursos cênicos contemporâneos, em positivo contraste com as impactantes máscaras usadas pelo elenco coadjuvante, durante momentos em que a dramaticidade compartilha seu espaço com a pantomima.

A realidade crua, perturbadora, cortante e devastadora é estampada como se através de tinta, transformando o projeto cenográfico – arquitetônica e cromaticamente bem concebido, o figurino – desenhado com riqueza de detalhes da cultura mexicana, e demais adereços, em verdadeiras composições concebidas pela direção de arte de Márcio Vinicius. A dramaticidade clássica se acentua a partir do visagismo por Anderson Bueno, do desenho de luz de Guilherme Bonfati e do gestual dirigido por Renata Brás. Tais disciplinas de palco, regidas com precisão ímpar, resultam numa infinita sequência de telas tão vivas quanto a própria realidade a partir da qual Frida se inspira para a produção de suas pinturas. Dessa forma, a obra de Amaral se materializa diante dos olhos dos espectadores que, por sua vez, são privilegiados por uma experiência teatral, traduzida através de cores e dores, e do testemunho de um paralelo entre produção de arte e eternização da vida.

Sem a menor intenção de desmistificar as pérolas cultivadas pela direção de “Frida y Diego” – mas somente um alerta para que sejam evitados atrasos para o início da peça – o Circuito Geral anuncia o surpreendente prólogo que ocorre ainda no foyeur do teatro, antes mesmo da abertura das portas da sala de espetáculos ao público. A partir de então, ainda à procura de seus assentos, os espectadores são agraciados com um envolvente fundo musical por Augustín Lara, Carmem Paris e Maria Dolores Pradera, dentre outros. Iniciando o espetáculo, se fazem presentes, no palco, as figuras de Wilson Feitosa, no acordeom e de Mauro Domenech, no baixo acústico, estampando o brilhantismo da direção musical e trilha de Guga Stroeter e Matias Capovilla.

Em “Frida y Diego”, a direção se permite envolver toda a plateia no contexto da história, ao transpor os limites da boca de cena para além do acesso à sala de espetáculos, fazendo dos seus corredores e paredes laterais, extensões do campo de visão dos espectadores que, por sua vez, se dão o direito à abstração de que contam com seus pés para se locomoverem, pois durante os noventa minutos de espetáculo, lhes são dadas asas para voar.

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