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domingo, 10 de maio de 2015

Répétition


Enredo – que não busca um final feliz, mas satisfatório


Repetições, sejam redundantes ou não, podem ser tomadas como atos indiferentes às razões pelas quais alguém passa a vida se repetindo – moto contínuo involuntário – ou ato intencional focando um objetivo.

Em “Répétition”, o despretensioso texto de autoria de Flavio de Souza surpreende, a partir de seu título ao promover um leque de possíveis interpretações quanto ao seu significado – num jogo de palavras que se define nos primeiros minutos do espetáculo. Dualidade também se faz presente, de forma marcante e perturbadora, até que a percepção do espectador se alinhe com o fio condutor da história, identificando os papéis atribuídos a cada um dos atores - Alex Nader, como Dinho e Fernando, Tatianna Trinxet, como Laura e Silvia e Paulinho Serra, como Luis e Marcelo, que formam um triângulo paralelo de relacionamento, enquanto atores – repassando o texto de uma peça, e amantes na vida real.

O icônico projeto cenográfico de Ronald Teixeira transporta os espectadores aos camarins, a partir de fragmentos de bastidores e de um gigantesco espelho pontilhado por lâmpadas em sua periferia, contracenando com os personagens como nos clássicos da literatura, por Louis Carol, e do cinema, por Woody Allen com seus respectivos Alice no País do Espelho e Rosa Púrpura do Cairo, respectivamente. O desenho de luz de Fernanda Mantovani dramatiza o que não se propõe a ser uma história de amor, com uma poça de luz concentrada que se desbota na escuridão da periferia da boca de cena, sugerindo a presença dos refletores superiores, em primeiro plano, como elementos coadjuvantes no cenário de Teixeira. O figurino de Elisa Faulhaber veste, proposital, indistinta e despojadamente, os “seis personagens”, demandando ainda maior atenção da plateia para as passagens dos personagens da vida real para a ficção – dinâmica do enredo – que não busca um final feliz, mas satisfatório, estampando, a cada cena, a desimportância dos verbos amar, casar, desejar, fantasiar, trair, e a importância da conjugação do verbo viver, no presente do indicativo e, promissoramente, no futuro deste mesmo presente.

Em segunda parceria de sucesso com de Souza, o diretor Walter Lima Jr. transita pelos padrões convencionais de interpretação e constrói uma dramaturgia instigante – o teatro que reflete sobre o “fazer teatro”, dando forma, habilidosamente, à produção de Tatianna Trinxet, nesta temporada, no placo do Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro.


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