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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Rudá – Um Sonho Real


Um adulto nunca perde a candura de sua infância - só não se lembra de exercitá-la.

A evolução da tecnologia no século XXI está estampada nos hábitos e costumes dos seres humanos, a começar pela infância, cuja percepção e interesse são maciçamente estimulados por equipamentos eletrônicos, dispositivos lógicos e aplicativos, alterando seu ciclo do sono, produtivo e de lazer – este, por sua vez modificado, substancialmente, na sua essência temporal, espacial e social.  Os momentos dedicados a jogos com colegas e amigos na rua ou em qualquer outro espaço lúdico, seja interno ou ao ar livre, contemplando brinquedos elementares, porém criativos e que estimulam a sociabilidade - tais como brincar de roda, amarelinha, carniça, pique, pular corda, jogar bola, rodar pião, empinar pipa ou, até mesmo, a leitura – foram, gradativamente, substituídos por jogos eletrônicos e por toda uma sorte de aplicativos e de acessos a redes sociais virtuais, através de smartphones e tablets - atualmente, os “amigos” inseparáveis das crianças, adolescentes e adultos.

Contudo, discretos, porém resistentes guardiões da essência humana visando o saudável convívio do homem com a tecnologia se dispõem a promover uma série de eventos e oportunidades para o público infantil, juvenil e adulto para que, de forma lúdica, possam resgatar a magia e a fantasia latente em cada um de nós. Através dessa bela e poética linha de pensamento, “Rudá – Um Sonho Real” é levado ao palco do OI Casa Grande, no Rio de Janeiro, presenteando o espectador com um enorme picadeiro adaptado ao palco italiano da casa de espetáculos, demostrando que a infância não é apenas uma fase, mas sim, uma constância em todos nós.

Prova disso, são as manifestações de alegria incontidas nas crianças, nos brados e aplausos por parte dos adultos e da emoção pulsante coletiva, como se todos fizessem parte de uma grande família. Cada quadro apresentado remete a uma lembrança soterrada pelo tempo, em alusivo contraste entre o lúdico e a realidade imposta pela vida - “pular corda”, como transposição dos obstáculos do dia a dia; “girar bambolê”, como administrar o jogo de cintura necessário para lidar com as situações; “jogar amarelinha”, como evoluir na jornada do ser; “dançar ciranda”, como demonstrar que a união é o que faz o mundo girar; “pular carniça”, como contornar os percalços previstos pelo aviso poético de Drummond: “no meio do caminho tinha uma pedra”; “esconde-esconde”, como a necessidade de sermos identificados pelo meio social; “passa-anel”, como a confiança ao se entregar coisas preciosas a quem de valor - além de muitas outras metáforas passíveis de serem identificadas pelo espectador atento pois, um sonho tão real, não poderia ter sido melhor materializado, não fosse por Rudá, o deus do amor que vive nas nuvens, segundo a mitologia Tupi.

A cenografia de Mauriomar Cid, Marcos Porto e André Cajaíba desempenha ativamente um papel num dos mais ovacionados números do espetáculo – um singelo sobrado estilo colonial cujas janelas assumem o papel de ponto de partida e de chegada de acrobatas que parecem voar, impulsionados por uma cama elástica. O figurino de Waldir Correia transporta a leitura das cenas para os anos 1950, repaginando a forma com que os malabaristas, acrobatas, equilibristas e palhaços são retratados pela arte circense clássica, mas mantendo a flexibilidade dos movimentos demandados pelas respectivas performances. A delicada, ao mesmo tempo, enfática trilha sonora, assinada por Alain Bradette, se integra ao roteiro, levando-o ao pé da letra, ascendendo toda a plateia em direção às nuvens, junto a Rudá – mais uma metáfora suportada pelo desenho de luz concebido por André Cajaiba, que incorpora o vibrante cerúleo como transporte da imaginação e pontua momentos nostálgicos com tênues e dramáticos archotes em meio à escuridão.

“Rudá – Um Sonho Real”, de uma forma curta e grossa, nos “manda na lata” que um adulto nunca perde a candura de sua infância - só não se lembra de exercitá-la.


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