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segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Casa dos Budas Ditosos


Puro fluído para que seja degustado, tendo como limites quatro paredes ou nenhuma

A opinião alheia nada significa para a sexagenária a quem Fernanda Torres empresta sua voz flexionada, segundo sutil sotaque baiano e seu charme, dignos de uma personagem nada fictícia, mas uma projeção da essência de João Ubaldo Ribeiro - enquanto um homem dotado de visão que transcende preconceitos, tabus e hipocrisia - em “A Casa dos Budas Ditosos”, no Teatro Oi Casa Grande, em curtíssima temporada, de 26 de junho a 12 de julho de 2015.

A atual temporada de “A Casa dos Budas Ditosos” – monólogo estreado em 2003 e reeditado por diversas vezes, sempre protagonizado por Fernanda Torres – é a primeira após a morte do escritor e acadêmico autor do texto. A dramaturgia e direção despudorada e provocativa de Domingos de Oliveira e Fernanda Torres conseguem, de forma brilhante, acentuar a habilidade conquistada por esta na condução do texto e na incorporação da senhora indulgente, sem qualquer filtro moral, mas, surpreendentemente real.

Apesar dos momentos hilários provocados pelas sacadas do texto original, o Circuito Geral não considera “A Casa dos Budas Ditosos” comédia, tampouco ficção, mas um deslavado e genuíno auto testemunho imbuído de forte teor sociológico, no qual palavras classificadas como de baixo calão e atos marginalizados pela proibição, vergonha e impudícia assumem conotações formalmente anatômicas, fisiológicas e naturais ao serem proferidas por Fernanda Torres.

A produção técnica é tão simples e eficiente quanto basta, mas não menos merecedora de observações capazes de denunciar o cuidado da direção para com as disciplinas técnicas complementares. O cenário se resume num conjunto de três peças de mobiliário composto por mesa de trabalho, cadeira e mesa lateral - cuja esbeltez das estruturas e transparência do tampo de vidro permeiam a figura da inominada personagem, sem ocultar qualquer expressão corporal durante toda a extensa narrativa – sobre um tapete cuja forma e cromatismo são tão contemporâneos quanto o conjunto anteriormente descrito. A concepção de luz cênica por Wagner Pinto é objetivamente dramática, conferindo destaque à personagem, sem dispersão do foco da atenção dos espectadores – vez em outra, lançando cones de luz adicionais contra o assoalho do palco, cujo cromatismo se diferencia dos fachos de luz sobre a atriz, provavelmente, visando dinamizar a necessária e natural estaticidade do desenho de luz. O figurino assinado por Cristina Camargo é deslumbrante e confere à senhora protagonista, a mesma elegância e sensual charme com os quais expõe sua vida à plateia, sem o menor pudor. A trilha sonora por Jonas Rocha e Domingos de Oliveira se faz presente de forma pontual, como se vinhetas introduzidas de modo a promover estímulo sensorial auditivo diferenciado da percepção linear discursiva do espetáculo por parte do público.

Confirmando a intimidade com o texto e sua habilidade no domínio do espetáculo, na noite de estréia dessa temporada, testemunhados pelo Circuito Geral, Fernanda Torres dá um tempo na personagem e dirige um pedido ao operador de som – caco que provoca gargalhadas e aplausos por parte dos espectadores – para que contivesse o volume do som do berimbau e, rindo de si mesma, leva as mãos em direção à face em sinal de intolerância para com o ruído e promove um espetáculo à parte.

Mais do que um produto decorrente da composição entre capacidade literária e potencial interpretativo, “A Casa dos Budas Ditosos” é puro fluído para que seja degustado, tendo como limites quatro paredes ou nenhuma, conforme a capacidade de auto entrega do espectador.

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