Counter

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Belle


Charme, sensualidade e erotismo

Severine - mulher rica, bem casada, mas sexualmente insatisfeita. Leva vida dupla exacerbada tanto enquanto uma dama da sociedade comprometida matrimonialmente, quanto enquanto uma mulher da vida que trabalha num bordel – papel que assume durante suas misteriosas ausências do lar nos períodos vespertinos.

Com base nesse argumento, a Cia de Dança Deborah Colker – respaldada por um currículo que contempla dez espetáculos ao longo de seus vinte e um anos de existência, desde a sua primeira apresentação no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1994 – transporta para os palcos uma coreografia baseada no roteiro da obra do escritor Joseph Kessel, “Belle de Jour”, publicada em 1928. Esse é o segundo trabalho de Colker baseado numa obra literária, depois de sua releitura do romance em versos “Eugênio Oneguin”, de autoria de Alexander Púshkin, a partir do qual passa a investir em enredos que envolvem personagens humanos – o espetáculo “Tatyana”, em 2011.

Concebido e dirigido por Deborah Colker, “Belle” contamina o palco do Teatro João Caetano - Rio de Janeiro, com charme, sensualidade e erotismo, e segue um roteiro que contempla o clássico “início, meio e fim”, característico dos conteúdos teatrais. Nessa condição, os bailarinos de Colker dissecam a vida da burguesinha e expõem sua intimidade e seus medos através de um balé alucinado, simultaneamente delicado e vigoroso, extasiando os espectadores a cada quadro.

O cenário, do também diretor de arte Grinco Cardia, dirige os olhares da plateia como se os espectadores folheassem as páginas de um livro, através da sobreposição de telas translúcidas, ilustradas por elementos arquitetônicos e mobiliário “bauhausianos”, transportando a obra de Kessel para a contemporaneidade de uma coreografia que se atualiza a cada novo espetáculo. Surpreendentemente, a criatividade de Colker digladia com a percepção ótica do espectador, provocando ilusões que permitem a levitação de bailarinos, que os fazem escalar um flamulante plano vertical têxtil que, por sua vez, se moldam aos volumes dos corpos dos bailarinos – acompanhando, de forma precisa, a cadência da trilha sonora sob a direção musical de Bernas Ceppas, e do frio e cortante desenho de luz de Jorginho de Carvalho. A temática erótico-sensual do espetáculo é sofisticamente traduzida através do desempenho, muitas vezes acrobáticos, dos corpos semi desnudos dos bailarinos, em cenas sutilmente provocantes e viris, onde elementos cenográficos – escadas, patamares, sofás, um gigante abajur e cabides de pé que assumem funções desde passarelas até “pole dances” coletivos. Impregnado a tudo isso, o ousado, pulsante e libertador figurino de Samuel Cirnansck se incorpora às coreografias, assumindo o formato dos corpos e acompanhando a amplitude de seus movimentos. Complementando o vestual dos bailarinos e acentuando a dramaturgia dirigida por Deborah Colker e João Elias, o visagismo assinado por Celso Kamura pincela mascaras artísticas e individualizas em suas faces. Destaque para a dramática e pulsante coreografia que rouba a identidade visual dos sete bailarinos masculinos a partir de um figurino unificado e da ocultação de suas faces por máscaras e que lhes concede a liberdade limitada dos movimentos, coordenados a partir de um padrão mecanizado.

Ao som de Venus in Furs, de Rodolphe Burger, o espetáculo chega ao seu ápice, apresentando um balé marcado pela profusão de vibrações sensoriais e pelo autoconhecimento - quando Severine se percebe como um ser meramente sexual e vislumbra sua vida como uma fantasia erótica porém, sem amor, sem donos, sem alianças – mas apenas, “Belle”.


Nenhum comentário:

Postar um comentário