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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Foi Você Quem Pediu Para Eu Contar a Minha História


Um puzzle de angustias, medos, preconceitos, invejas e indiferenças

Caso lhe desperte interesse numa história em nove tempos, contada, ludicamente, em alternância duo, pelo Circuito Geral, continue:

- ”Quatro mulheres emprestam seus corpos para dar vida aos papéis de quatro crianças, as quais não encaram as maldades como algo perverso, mas sim, como a essência da inocência...”
- “... riem, por acharem graça das travessuras infantis e já se demonstram bem familiarizadas com o uso de palavreado cortante...”
- “... se iludem com a promessa de que o futuro se encontra nas crianças, mas têm a certeza que já são o futuro de seu presente insatisfatório para o mundo...”
- “... vivem o positivismo ao zanzarem pela vida, antes que o negativismo, com o ranço da morte, bata em suas caras e as acordem para a vida real...”
- “... desfocam o próximo que não comunga com suas supostas certezas - talvez por vislumbrarem a ética somente em seus delírios...”
- “... questionam sempre, como se a dúvida fosse companheira de brincadeiras...”
- “... defendem a máxima de que se não se sabe brincar, não se deve descer para o play...”
- “... ousam se perderem, pois o que elas acham sobre si mesmas, não tem serventia para o que pretendem encontrar...”
- “... experimentam amar, antes mesmo de aprenderem o valor mercadológico da palavra.”

Na verdade, não se trata de uma história concebida pelo Circuito Geral, mas de um retrato do que aguarda o espectador - que saboreia a arte teatral como alimento da alma – frente à mirabolante adaptação do texto de Sadrine Roche por Thereza Falcão para o espetáculo “Foi Você Quem Pediu Para Eu Contar a Minha História”, sob a encantadora e, ao mesmo tempo, sombria e dramática direção de Guilherme Piva – em cartaz na Sala Fernanda Montenegro, no Teatro Leblon, todas as quartas e quintas-feiras às 21:00, desde o dia 28 de maio de 2015.

“Foi Você...” é um puzzle de angustias, medos, preconceitos, invejas e indiferenças – sentimentos esses que passam de pais para filhos, além da apregoação pelo devido respeito a todos os seres humanos, não incluindo, na maioria das vezes,  o próximo mais próximo de si.

Fernanda Vasconcellos, Bianca Castanho, Karla Tenório e Talita Castro, abusando de seu potencial artístico, se anulam como mulheres e permeiam, aos olhares do espectador, lindas e, aparentemente, inocentes crianças, que um dia serão o futuro idealizado pelos sonhadores, incautos e cegos de visão periférica, de um mundo que já teve vários futuros, mas que amarga um presente que contrasta com aquele vislumbrado por muitos pais, avós, e demais ascendentes. Crianças – com seus pueris e provocativamente figurinos rodriguianos concebidos por Carol Lobato – conseguem imprimir imagens das estudantes ingênuas, mas figurativamente, ofídicas em suas atitudes. Crianças que revezam seus lugares no balanço e se articulam em meio a um trepa-trepa e a um par de bancos de cimento, como verdadeiras usuárias do lúdico e maquiavélico cenário de Paula Santa Rosa e Rafael Pieri que, por sua vez, geometrizam as personalidades cruéis dessas crianças que afloram como ervas daninhas por toda a boca de cena. Crianças que assumem o lúdico e dramático jogo de luzes e sombras, juntamente com os elementos cenográficos, destacados como obras de arte pelo certeiro desenho de luz de Renato Machado – inserindo a plateia no blackout interior daquelas belas meninas.

“Foi Você Quem Pediu Para Eu Contar a Minha História” é liricamente cruel como uma criança – que, conforme é dito, é sempre sincera mas, que na verdade, mente para crer naquilo que cria. 


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