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sábado, 20 de junho de 2015

Neurótica



Obsessivamente no palco e na cabeça de todos os naturalmente neuróticos enrustidos na plateia. 

Alguns exemplos do universo das disfunções psíquicas - segundo suas variações e graus intensidade e interpretados sob a ótica da comédia - definem o mote do espetáculo “Neurótica”, protagonizado pela humorista Flávia Reis que, sob o consistente formato de humor da direção de Márcio Trigo, incorpora onze mulheres à beira de um ataque de nervos – “Vanda da van”, a pseudo hostess que abre o espetáculo e cujo propósito não vai além de escarniar os usuários de seus serviços de traslado; a “terapeuta” acometida por uma inicial e progressiva degeneração da memória, quando da busca de seu carro no estacionamento de um shopping; a “senhorinha” que, transtornada pela síndrome do pânico, anuncia infinitas catástrofes eminentes; “Fernanda”, a cerimonialista histérica e simultaneamente conectada aos dispositivos de comunicação telefônica; a “mulher evoluída”, eternamente preocupada e que sofre com os intermináveis e inevitáveis problemas pertinentes à essência humana; “Susaninha” (27), que se acha e discorre sobre o seu cotidiano social e suas relações enquanto frequentadora de academia de ginástica; “Regina”, a personificada genitália feminina que desabafa, junto ao público, sobre a sua triangular relação de amor e ódio com Armando Pinto e Custódio; a transtornada jovem que, como “animadora de festas infantis”, é uma excelente abatedora de carne bovina – dentre outros personagens, que fazem dos setenta minutos de apresentação, quase solo – não fosse pela participação especial de Anderson Cunha - algo lamentável ao cerrar das cortinas.

O texto, concebido por Henrique Tavares e Flávia Reis, dá o exato tom a todos os sintomas das neuroses contemporâneas abordados, sem perder o foco de levar a plateia a consistentes hilários momentos de descontração e que, de forma competente, chegam a conturbar o espectador, em alguns momentos, com relação ao limite entre a realidade e a ficção.

A direção musical e a trilha sonora original, assinados por Guilherme Miranda, dão ritmo atual ao espetáculo. Mina Quental e Aurélio de Simoni neurotizam o palco através da tridimensionalidade dos anteparos visuais das coxias e do pano de fundo, que se presta como tela de projeção – ambos formatados, estilizadamente, como estruturas de células nervosas, em perfeita simbiose entre projeto cenográfico e desenho de luz, respectivamente, que sofrem alterações cromáticas, conforme o estado de espírito das diversas protagonistas, a cada esquete. O figurino de Flávio Souza dá sentido e veracidade a todas as estressadas mulheres de Flávia Reis e que, mesmo após o espetáculo, permanecem obsessivamente no palco e na cabeça de todos os naturalmente neuróticos enrustidos na plateia. 

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