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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Pulsões


A razão é inexistente e, o afeto, de mãos dadas à loucura, é mero coadjuvante de emoções.

Fragmentos de um passado temporal e espacialmente indefinido contaminam a vida de dois personagens que, em comum, só têm devaneios. O porquê é algo que não se cogita, mas cabe às testemunhas assumirem o papel de espectadores do sentimento ambíguo que une aqueles dois, para os quais a razão é inexistente e, o afeto, de mãos dadas à loucura, é mero coadjuvante de emoções.

A partir de tais condicionantes, o texto de Dib Carneiro Neto é mesclado a um indissociável fundo musical que contamina, de forma doce e relaxante, o subconsciente daqueles que se deixam ser invadidos pelo desenrolar das cenas.

Responsável pela quase hipnótica presença musical, Marco França dirige João Bitencourt, ao piano e, Maria Clara Valle, ao violoncelo que se posicionam no palco sob uma penumbra que oculta a beleza da caracterização e do figurino com os quais são tratados, mas que torna sugestiva, a mágica e compensadora sonoridade em meio ao drama que se apresenta.

A direção de Kika Freire rege a consistente preparação vocal de Ana Frota e assume o comando dos movimentos de Fernanda de Freitas – a bailarina, e de Cadu Fávero - o maestro, como “marionetes” presos a cordões ludicamente travestidos da leveza e do colorido como os dos objetos cinéticos “palatnikianos”, assinado por Cabeção, no contexto de um cenário concebido por Teca Fichinski. As vestes dos insanos protagonistas não podem ser creditadas a outro profissional que não a própria Fichinski, que se permite refletir e reproduzir exponencialmente os elementos cenográficos como estampas - incluindo a mandala que define o centro do palco como um epicentro em torno do qual a loucura estremece. Da mesma forma, as palavras alopradamente proferidas ao longo do espetáculo, são capturadas e impressas nas vestes e paredes como se fossem puçás lançados a esmo, visando à captura de insetos.

A caracterização dos personagens, assinada por Rose Verçosa, apesar de exageradamente pesada, fortalece a credibilidade do processo de mortificação naquele exílio onde os protagonistas oscilam entre o amor e o desamor.

Se por um lado o desenho de luz de Fran Barros poupa, de forma consciente, os músicos dos merecidos “holofotes” durante a apresentação, a criteriosa intensidade dos fachos dos refletores promove o devido contraste de luz e sombra sobre a bailarina e o maestro, acentuando a tensa dramaticidade de “Pulsões” – que  culmina em confissões de atos cometidos por quem os julgaram necessários, por impulso ou por instinto, à despeito da razão.



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