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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Selfie


Assume o papel de um alerta para com o presente, cognominado futuro próximo.

Jantar à dois, que se transforma em grupo interativo no WhatsApp: foto do prato, da bebida, do ambiente, do cardápio e, se duvidar, até do garçom; emojis, que denunciam os sentimentos demostrados a todos os contatos, amigos e seguidores; frases de efeitos que se memetizam instantaneamente e que, além de dissimular o verdadeiro status do autor, também serve para trollar seus desafetos na vida real; trilhas sonoras de gosto duvidoso, compostas por ringtones/MP3,  compartilhadas auditivamente com quem quer que esteja nas proximidades, independente da propiciedade do local; fotos postadas e intensamente filtradas pelo Instagram, depreciando o valor das imagens originais; a alegria fabricada pelo alcance de mais de três dígitos no perfil do Facebook - afinal, são todos “amigos”, diante dos quais a ostentação é mais importante do que ser genuíno. Jantar consumado. À mesa, duas pessoas em plena solidão à dois, uma vez que, até mesmo o sexo é virtual... Mas espere! Apesar de tudo, isso merece uma “Selfie” – “click”, “flash”, “cfgklos”!

 

Apenas uma ressalva: isso não se trata de uma sinopse do espetáculo objeto da presente resenha, mas uma percepção da essência de “Selfie” pelo Circuito Geral – um upload da realidade, sob o comando do perspicaz diretor Marcos Caruso, que executa um download dos arquivos necessários para que o público consiga navegar pela transmutação do real, onde a interação não é permitida, mas apenas a participação, sem buffering, porém, com qualidade ultra HD 4K.

Caruso desenha avatares personificados pela dupla de protagonistas - Mateus Solano e Miguel Thiré – que, com muito empenho e sensibilidade, em suas plataformas, nos entrega o sistema operacional programado através do conjunto de caracteres que compõem o conectado texto de Daniela Ocampo. Ao som de “Also sprach Zarathustra”, dá-se início ao espetáculo, estabelecendo-se um link entre o monolito de Kubrick e Clarke e o smartphone, em seu estado da arte - uma grande sacada de Lincoln Vargas para as cenas iniciais nas quais, a preparação corporal de Arlindo Teixeira já define a sua importância para a comunicação quase pantomímica de “Selfie”, complementada pelas falas escritas por Ocampo. Solano e Thiré desempenham seus papéis como operários do sistema tecnológico – devidamente uniformizados com macacões e calçados adequadamente definidos pelo figurinista Sol Azulay, sobre um cenário rebatido no palco - remetendo ao dispositivo portal da virtualidade animado pelo desenho de luz de Felipe Lourenço com base na tecnologia led, como se filtrado pelas telas dos smartphones. O conjunto complementar técnico do espetáculo transforma a apresentação numa experiência high-tech para o público, mas com o fatores comportamentais humanos intrigantes: o controle minuto a minuto do percentual de carga da bateria do dispositivo - num esforço sobre humano para que chegue ao final da jornada diária; e o medo de se deixar de existir como um simples perfil no mundo virtual, superando o temor da própria morte do mundo real.

 

Indo ao encontro do que profetizara Albert Einstein com “Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá uma geração de idiotas”, “Selfie” assume o papel de um alerta para com o presente, cognominado futuro próximo, com vistas ao saudável equilíbrio entre o desenvolvimento e o uso da tecnologia e a preservação e a evolução da essência humana.

 

https://www.facebook.com/curtocircuitocultural

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