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quinta-feira, 30 de julho de 2015

D.U.F.F.



A temática traz à baila a utilização dos indivíduos próximos como degraus

Uma garota tida como a mais popular da escola que, além de bela, é perversa; um capitão de um time da mesma escola que, por ser bonitão, namora a garota mais popular da escola; professores engraçados e legais; garota CDF que não encontra o seu lugar na tchurma; as amigas da garota mais popular da escola; mãe sem noção; o garoto mais desejado da escola pela garota CDF e a trilha sonora com que há de mais novo na cena pop teen – uma sequência de clichês que, a cada mudança de cena, a ficha cai como se o espectador estivesse sendo acometido por um quase palpável déjà vu.

O extenso check list dos lugares comuns, muito presentes em filmes direcionados ao público adolescente, não faz de “D.U.F.F.” uma exceção. A antenada direção de Ari Sandel confere uma nova roupagem ao que já é de conhecimento de todos e o transforma numa deliciosa comédia focando no público jovem e nos adultos cujas mentes joviais são mantidas. O mutante conceito de adolescência, percebido por Sandel, é retratado através do abuso da linguagem das redes sociais e de termos geeks, sem a menor intenção de separar o bem do mal – elementos antagônicos que andam lado a lado em “D.U.F.F.”- Designated Ugly Fat Friend ou “a(o) amiga(o) feia(o) e gorda(o)”.

O termo pode ser prejulgado por intitular um filme preconceituoso e, até mesmo, grosseiro. Ledo engano. A temática traz à baila a utilização dos indivíduos próximos como degraus para atingirem os patamares da vida, com o objetivo de ascender ou se dar bem.

Portanto, mesmo que alguém seja a pessoa mais bela, mais popular, mais bem sucedida, mais inteligente, com mais sex appeal ou, até mesmo, seja, simplesmente, uma pessoa comum, ela já foi ou continua sendo um “D.U.F.F.” pois, querendo ou não, a vida não passa de uma escada onde todos sobem – alguns estacionam em seus degraus, alguns sobem mais do que outros e, muito poucos, chegam a patamares mais elevados, onde o limite, é o infinito.



segunda-feira, 27 de julho de 2015

Silêncio!










Nada tem apenas um lado


Espaço Furnas Cultural, 26 de julho de 2015 - o Circuito Geral assume, mais uma vez, a condição de espectador frente à remontagem do espetáculo “Silêncio!” – em curtíssima temporada.
“Silêncio!” se passa na casa de uma tradicional família judaica onde um jantar, preparado por uma das filhas, visa à comemoração do aniversário da mãe, que coincide com um Shabat.

O auge do drama eclode quando o tema “as prostitutas judias polacas no Rio de Janeiro” vem à tona e impacta a todos, a partir do comportamento reacionário e preconceituoso da matriarca da família, interpretada por Suzana Faini, cujo talento, marca de sua trajetória como atriz televisiva e teatral, dispensa elogios. As interpretações não menos vigorosas do elenco de primeira linha, complementado por Alexandre Mofati, Gabriela Estevão, Elisa Pinheiro, Léo Wainer, Verônica Reis e Vicente Coelho, comprovam a qualidade atemporal e provocativa do texto de Renata Mizrahi, dirigido eficientemente pela autora e por Priscila Vidca. O espetáculo instiga o espectador, naturalmente, sobre as razões pelas quais a grande maioria dos encontros informais em família ou em datas definidas nos diversos calendários religiosos e pagãos, acabam, paradoxalmente, em desentendimento.

“Silêncio!” também pode ser traduzido nas rodas familiares como a negativa à abordagem de determinados temas tidos como tabus ou segredos de família, através do “Vamos mudar de assunto”. A introdução das judias polacas como tema da obra, mira num alvo e acerta noutro, não tão menos importante - a hipocrisia de uma sociedade constituída, não inerente à totalidade de seus indivíduos, mas a grupos que se consideram os defensores das tradições e respeito incondicional à família, mesmo que esse núcleo seja um nêmesis de suas convicções.

 “Silêncio!” grita ao final do espetáculo, demonstra que nada tem apenas um lado e nos força a conhecer o outro.


domingo, 26 de julho de 2015

Killer Joe


Os mais obscuros sentimentos 

O Circuito Geral alerta - “Killer Joe” não é um espetáculo de fácil degustação. Portanto, dele, só os fortes sobrevivem.

O pesado e brutal sadismo soam como uma marca registrada da direção de Mário Bortolotto, que parece escarnecer do espectador, fazendo dele mais um de seus submissos violentados e humilhados.

O texto de Tracy Letts, habilmente traduzido por Mauricio Arruda Mendonça, lança a plateia, num piscar de olhos, nas entranhas de um roteiro dominado pela crueldade, fazendo com que cada um dos espectadores aguarde excitado, os próximos castigos elucubrados pelos personagens nada ortodoxos: o pai, Ansel – Fernão Lacerda; o filho Chris Smith – Gabriel Pinheiro; a filha Dottie – Ana Hartmann; a madrasta Sharla – Aline Abovsky; e Joe Cooper, “Killer Joe” – Carcarah. A sordidez que envolve a história poderia fazer com que a mesma corresse o risco de passar em branco, não fossem as interpretações viscerais do elenco.

A mediocridade vem com força maior, quando um cenário – concebido por Mariko e Seiji Ogawa e caracterizado pela sua simplicidade – remete o espectador a um trailer tematicamente mobiliado, retratando a falta de zelo doméstico, onde uma TV se destaca por permanecer a maior parte do espetáculo ligada – refletindo a precisão da leitura da família em questão. O figurino, assinado por Letícia Madeira, propositalmente beira ao ridículo de forma tal a caracterizar a personalidade dos seres eleitos para conduzirem a história, e brinda a todos com a sua verdade nua e crua. Fernando Azevedo dramatiza cada quadro do espetáculo com seu desenho de luz, naturalmente morno e seco, contemplando blackouts que surpreendem o espectador, de tempos em tempos, como em rounds de uma peleja que expõem, não só o externamente perceptível, mas as atitudes dos personagens diante de suas fraquezas amorais. As incursões sonoras de Gabriella Spaciari e de Ninguém abusam deliciosamente do ritmo Blues, de forma certeira como a cereja do bolo, deixando o espectador atônito ao som de “Xmas Prison Blues, de autoria de Seasick Steve.

“Killer Joe” acirra os mais obscuros sentimentos de seu espectador - talvez pelo possível fato de fazer com que ele se identifique com o perfil íntimo de algum personagem, constate a natural e inevitável imposição das famílias pelo destino, imagine a sempre crível e desejada vida “abençoada” com os filhos, creia no seu próximo, paradoxalmente acredite que o crime compensa, constate o eventual desamor pelos seus pais, tenha vergonha de suas limitações e insucessos ou até mesmo, entenda a sua livremente arbitrada escolha mal feita em sua breve existência.

“Killer Joe” é um coito interrompido e priva o espectador do prazer do clímax, após introduzi-lo ao que há de mais hard no desejo humano, como um desdém autografado por Bortolotto pelo que mais é desejado pelos artistas ao final de um espetáculo, antagonizando aquilo que Ariano Suassuna apregoa ao final de um de seus clássicos - “se não há quem queira pagar, peço pelo menos uma recompensa que não custa nada e é sempre eficiente: Seu aplauso”.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Beija-me Como nos Livros


A vida nem sempre é boa e ninguém deixa de amá-la

Amor romântico – substantivo qualificado que se torna objeto de reflexão da trilogia composta por: “Amores” – de Domingos de Oliveira, “Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir” -  de Tennessee Williams e “Beija-me Como nos Livros” cuja dramaturgia e direção são assinadas por Ivan Sugahara.

Ciente das dificuldades de se explicar e de se compreender sentimento tão controverso e contaminado por paradigmas, simplesmente, através de palavras, Sugahara inventa o idioma gromelô que, durante os noventa minutos de encenação de “Beija-me Como nos Livros” é a única língua verbalizada pelos personagens, transformando a plateia num sistema sensitivo, com função única de decifrar as mensagens contidas no desempenho de Ângela Câmara, de Claudia Mele, de José Karini e de Julio Adrião.

No contexto da apresentação de uma trama amorosa contemporânea, através de um processo de encenação randômica contemplando resíduos de quatro clássicos históricos do amor romântico – “Tristão e Isolda”, representando o período medieval inglês; “Romeu e Julieta”, o renascimento italiano; “Don Juan”, o iluminismo francês; e “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, o romantismo alemão – o pragmático e esclarecedor figurino de Bruno Perlatto se faz co-responsável pela identificação das cenas desempenhadas no palco, juntamente com a dramatização específica de cada obra – sob a direção de movimento e preparação corporal de Duda Maia e do dramaturgismo assinado Juliana Pamplona – poupando os expectadores do peso de um exaustivo e silencioso quiz de conhecimento literário. A iluminação de Renato Machado é precisamente dramática e fundamental no desenho das fisionomias dos atores, através dos traços definidos pela incidência da luz e da projeção de sombras, possibilitando a compreensão dos sentimentos como se fossem legendas visando à tradução de uma língua desconhecida. Palavras que se volatizam perante consistentes entonações e interpretações potencializadas pela direção vocal e pesquisa fonética de Ricardo Góes são harmoniosamente transportadas pela trilha sonora defendida por Sugahara, que transmite mais do que o texto, reforçando que a ideia de que o amor não se entende, apenas se contrai – da mesma forma que se dança conforme a música. André Sanches concebe as cenas dentro de um cenário minimalista, enquadrando os quatro amantes num espaço onde caberia nada além do sentimento em questão - o amor.

“Beija-me Como nos Livros” não é um espetáculo facilitador - mas a vida nem sempre é boa e ninguém deixa de amá-la. 


terça-feira, 21 de julho de 2015

Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera



Muita vontade de acertar

Em homenagem ao ator, dramaturgo e apresentador de televisão – Glaucio Gill, o ator, diretor e produtor – André Segatti resgata para o palco, um dos clássicos cinematográficos da comédia da década de 1960  - “Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera”.
  
A partir de uma modesta produção, mas com muita vontade de acertar, Segatti dá tudo de si para agradar aqueles que buscam o teatro como uma forma de espairecer, sem a menor intenção de dissecar entrelinhas filosóficas e mensagens subliminares contidas em textos dramatúrgicos. Sem qualquer demérito ao público e à fonte de satisfação de tal busca, “Toda donzela ...” tem tudo para agradar gregos ou troianos.

A adaptação para o palco é bem arquitetada, conseguindo envolver e, até mesmo surpreender, aqueles que não conhecem a história original. Fica muito claro que a direção de Segatti aposta tudo na história, deixando o desempenho dramatúrgico em segundo plano, dessa forma, valorizando a essência e não a embalagem, que conta com um elenco composto por André Segatti, Raquel Nunes, Marcos Holanda, Andréia Segatti, Anderson Carvalho e Louise Nagel, que se deparam com a dificuldade de fazerem críveis os valores morais vigentes na metade do século passado e trazidos à baila durante o espetáculo, em plena segunda década do século XXI.

O cenário de Carlos Machado é pragmático, ilustrativo e atemporal, em desconexão com o contexto do roteiro com raízes na época da ditadura militar, apresentando a quitinete habitada por Porfírio – desempenhado pelo próprio Segatti – onde toda a história se desenrola, com muitas entradas, saídas, encontros e desencontros entre os personagens. O figurino de Iódice e Luidgi Specciale endossa a falta de compromisso temporal dessa adaptação, a não ser pelo uniforme que veste o general, pai da “donzela” Dayse.  O desenho de luz, também assumido por Segatti, atende na medida do necessário à difusidade, ao destaque, à dramaticidade e aos efeitos de ambientação requeridos pelas cenas. A sonoplastia segue a moda ditada pelos programas levados ao ar pelas emissoras de TV aberta, com a participação ativa dos presentes no palco, da plateia convidada e dos telespectadores que estão em casa – um festival de claques e de emissão de ruídos e vinhetas, supostamente engraçados, como se anunciando ao público o momento de detonar suas gargalhadas, denunciando eventual falta de confiança na genuína comicidade do texto.

“Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera” é um exercício de palco muito bem vindo pelo qual o Circuito Geral torce, visando ao amadurecimento e aperfeiçoamento da iniciativa.

Marina Lima - No Osso




Sem o ranço da nostalgia e do saudosismo


Teatro Rival, 18 de julho de 2015 – Marina Lima apresenta o show “No Osso” –  uma volta no tempo num formato acústico, através do qual, o canto e encanto de Marina e seu diversificado conjunto de vilões e guitarras, promovem momentos sem o ranço da nostalgia e do saudosismo.

 

Marina dá partida ao show com o seu mais recente sucesso - “Partiu”, dando seguimento com “It’s Not Enough” e interage com a plateia, justificando o nome do show - desossando nota por nota de seu violão que se enquadra de forma harmônica à meia-voz com que a artista conduz o espetáculo. “O Chamado” detona as cores e luzes que tomam conta do palco do Rival enquanto, como uma “gata-garota”, Marina retira seus sapatos os coloca defronte a uma poltrona onde se aninha, fazendo daquele encontro musical, uma reunião intimista como na casa de amigos, conforme proposta do próprio Rival junto aos seus frequentadores. Entoando “1°de Abril (Eu Negar)?”, Marina ratifica a sua máxima que define a música como um inconsciente coletivo e aproveita para prestar homenagem a seu irmão Antônio Cícero, com o poema de autoria deste que, segundo ela, é doído, porém belo. Dessa forma, os acordes de “O Solo da Paixão” toma conta da sala de espetáculos, com lirismo e emoção, seguida de “Na Minha Mão” – mais uma homenagem prestada por Marina, dessa vez, a Alvim L..

 

Durante uma de suas pausas no decorrer de seu colóquio musical com seus fãs, Marina, que há cinco anos reside na cidade de São Paulo, levanta a possibilidade de voltar ao seu lugar – a cidade do Rio de Janeiro, causando uma comoção de boas vindas antecipadas por parte da plateia. Em retribuição a tamanha demonstração de carinho e afeto, Marina canta “Virgem”, declara a sua amizade pelo seu ex-baterista – Lobão, com “Noite e Dia” e segue com “Carente Profissional”, lembrando o poeta Cazuza.

 

Como uma exímia contadora de histórias, Marina discorre sobre um evento ocorrido juntamente com Leo Jaime, Lobão e Tavinho Paes, na época em que o seu pai decide levar toda a família para morar em Búzios - para desespero da cantora. Continuando, justifica que, para fugir da mesmice, convida o trio de amigos para uma pescaria, que teve o seu término decretado por uma revista efetuada por uma blitz que nada encontrou para incriminá-los, muito embora tivessem tudo para que fossem arrestados pelos duras. Concluindo, Marina dá o devido crédito a esse episódio, do sucesso “Acho que dá”, apresentado em seguida.

 

Uma outra homenagem também é prestada ao compositor e cantor Dalto com “Pessoa”, finalizada, emocionantemente, com “Leão Ferido”.

 

Dando a impressão de que a noite parece estar apenas começando, a plateia estremece ao som de “À Meia-Voz”.  Ao filosofar sobre a nova geração que ama samba, Marina justifica a composição de “Da Gávea”, como forma de ter tido o ímpeto de agradar o seu atual amor.

 

“Can't Help Falling In Love”, imortalizada na voz de Elvis, traz momentos de serenidade ao espetáculo, mas somente até o momento em que Marina se desloca para o pedestal onde, através de um microfone previamente instalado, divide com a plateia, o fato de que, devido ao avanço tecnológico, tem composto suas músicas com o auxílio da informática, e emite os sons eletrônicos e soturnos, apresentando “Não Me Venha Mais Com Amor”.  Com isso, uma Marina, armada com sua guitarra, pede licença à introspecção e dá vez a um “flash” de show de rock, com direito a palavras de ordem para elevação dos níveis de som e de luz, num papo reto com a mesa de operações. Marina prossegue o momento “hard” do espetáculo com “Ainda é Cedo”, exaltando a sua paixão por Renato Russo.

 

“Fulgaz” traz “No Osso” de volta para a sua condição inicial, intimista acústica, acompanhada, em peso, pelo vocal de todos os presentes, abrindo espaço para a tentativa de abandono do palco ao estilo francês por parte de Marina – felizmente, sem sucesso, pois, uma vez ausente, a plateia se manifesta até ser bem sucedida com o retorno de seu ídolo que, mais uma vez, no aconchego de sua poltrona, bisa com “Criança”, “Grávida”, “Eu te Amo Você” e para sair de vez do palco, “À Francesa”.

 


domingo, 19 de julho de 2015

Maria do Caritó


Um verdadeiro show 

O premiadíssimo espetáculo montado a partir do texto de Newton Moreno, “Maria do Caritó” retorna aos palcos, iniciando sua nova turnê em curtíssima temporada no Theatro Net Rio, em cuja noite de estreia, dia 17 de julho de 2015, o Circuito Geral se faz presente e constata o mérito da consagração daquela obra teatral.  

Lilia Cabral, como protagonista, ratifica seu merecimento ao Prêmio Arte Qualidade Brasil 2010 que lhe fora concedido como melhor atriz, no papel da personagem que se confunde com a essência de uma cultura genuinamente brasileira - cheia de encanto e inocência, com nuances de humor e romantismo. O prêmio também reconhece “Maria do Caritó” como o melhor espetáculo do gênero comédia de 2010 – o que vem ao encontro da percepção do Circuito Geral como um espetáculo que, além da emoção, desperta a reflexão, de uma forma saudavelmente cômica, sobre as “verdades” do mundo que são impostas pelas hierarquias nas diversas escalas do poder e pela temência às entidades divinas. João Fonseca também é agraciado com aquele prêmio pela direção que lapida o espetáculo imerso na cultura mambembe numa pérola que ainda se apresenta como valioso presente para os consumidores da arte de representar. Naquele mesmo ano, Dani Barros é premiada pela Associação dos produtores de Teatro do Rio de Janeiro – APTR, como melhor atriz coadjuvante que, em “Maria do Caritó”, empresta seu talento a diversos personagens que cativam a plateia.

O cenário, aparentemente simples, carrega uma gama de simbolismos concebidos pelo estudioso desenho de Nello Marrese que transporta os espectadores para um nordeste lúdico, lírico e religioso, com nítida inspiração “Volpiana” marcada pelo multifuncional elemento cenográfico que se presta como anteparos das coxias, como totem e como arco gótico de uma igreja, composto pelas bandeirinhas típicas das festas juninas, em contraste com as rendas bordadas pelas inúmeras artistas anônimas do nosso nordeste, projetadas como pano de fundo.  No mesmo compasso, o figurino de J. C. Serroni se debruça sobre a atmosfera regional e circense do espetáculo. Sensível ao grafismo e cromatismo do cenário e dos ricos detalhes e padronagens têxteis do figurino, Paulo Cesar Medeiros os acentua como se inspirados nos pontos, traços e manchas cintilantes presentes na Arte Naif.

A direção musical de Alexandre Elias presta todo o suporte à alegria e a suavidade da ingênua virgem do Caritó, contaminando a plateia com o entusiasmo presente no palco durante a apresentação do espetáculo, diante de um público tão participativo quanto uma claque previamente ensaiada que se diverte, exponencialmente, ao perceber os divertidos e genuínos momentos de frouxos de risos pelos quais passam os próprios atores, diante das suas respectivas falas e

Fotos do Espetáculo- Fan Page -CircuitoGeral

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Homem-Formiga


Um filme atual e com potencial para se tornar uma franquia

Os fãs dos super heróis acabam de ser contemplados, neste mês de julho de 2015, com mais um lançamento da Marvel Entertainment – o divertido longa “Homem-Formiga”.


Apesar de recheado por extravagantes efeitos especiais, o filme, cujo roteiro não passa de regular, é estrelado por um elenco marcado por clichês, tais como: um ex-presidiário de bom coração, vivido por Paul Rudd que se vê obrigado a recomeçar a vida como atendente de sorveteria e que divide apartamento com seu ex-companheiro de cela, interpretado por Michael Peña; a nova vida do personagem de Rudd, após a sua separação matrimonial, marcada pelos laços afetivos mantidos com sua filha e integrando à sua rotina, o novo namorado de sua ex-esposa, personificado por Bobby Cannavale; uma proposta de dinheiro fácil de forma ilícita aproveitando-se da ausência de um milionário, expert em tecnologia, incorporado por Michael Douglas; uma filha distante do personagem de Douglas, pela atriz Evangeline Lilly, que mantêm um relacionamento íntimo com o vilão da trama, estrelado por Corey Stoll.

A missão insólita toma corpo a partir desse rascunho, com a presença da S.H.I.E.L.D. e da Hydra. “Homem-Formiga” também ousa lançar mão de gags, tendo como fio condutor a incapacidade do ex-companheiro de cela do herói de manter o foco durante a exposição de suas idéias e explicações sobre fatos diversos - mas sempre com apelo cômico e gerando empatia pelo personagem e respectivo déficit de atenção.

O Diretor Peyton Reed parece seguir à risca a característica original dos quadrinhos, agregando efeitos tecnológicos e fazendo de “Homem-Formiga” um filme atual e com potencial para se tornar uma franquia.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Tribos


Obra de arte em franca composição

Nove cenas compõem uma das mais emudecedoras montagens da história do teatro, traduzindo o silêncio das palavras mortas e dos sentimentos insensíveis ao toque. A tônica - a deficiência da mente, da visão e da audição, refletidas na decomposição do intelecto, da família e do ser humano.

A turbulência assume o status de arte a partir da entrada do espectador na sala de espetáculos ao se deparar com o cenário, beirando ao minimalismo, de Lu Bueno – uma parede de tijolos cuja imagem é projetada sobre um pano de fundo; à beira do palco, uma bola de futebol das antigas, ainda marrom, aparentando não estar totalmente inflada; entre a bola e a parede de tijolos, uma mesa de jantar capaz de acomodar até seis pessoas; e, sentado sobre a mesa, um ser solitário contempla o muro de tijolos – conjunto de símbolos a ser processado durante o desenrolar das nove cenas.

Em instantes que antecedem o horário marcado para o início do espetáculo, uma composição incidental, transmitida com notável qualidade sonora, ecoa pela plateia, com vistas a transportar os espectadores para o clima daquilo que está prestes a acontecer no palco, reforçado pelas “três batidas de Molière” substituídas por três impactantes badaladas – um capricho voluntário e contrastante com um roteiro que gira em torno da incapacidade de ouvir e de escutar.

De volta ao ser sobre a mesa que, mesmo sem denunciar, traduz a solidão que lhe é consciente e que aumenta e aflora, alheia à sua aparente “ineficiência” em seu núcleo familiar – cujos membros são individualmente apresentado ao público presente, assim que as luzes da plateia são apagadas e os holofotes do palco dão início a “Tribos”.

O que acontece à partir desse momento, sob os olhares do público, é uma obra de arte em franca composição - seca e marcantemente acre, atenuada com doses de comicidade momentâneas – por meio de pinceladas fortes e precisas, cujo mérito é devido, em grande parte, à tradução escaldante do texto de Nina Raine, por Rachel Ripani. A direção de Ulysses Cruz, de tão afinada, passa a falsa impressão de dissonância, ao expor os espectadores, frente à frente, aos seguintes personagens: um jovem surdo de nascença, espantosamente interpretado por Bruno Fagundes; um pai intelectualmente abrasivo, personificado pela essência humana de Antônio Fagundes; uma progenitora apoplética, defendida por Eliete Cigaarini; dois irmãos tensos e sem perspectiva na vida, brilhantemente esculpidos por Guilherme Magon e Maíra Dvorek; e, finalmente, uma jovem em vias de perder a sua audição, desenhada com a garra de Arieta Correa. Domingos Quintiliano assina a partitura luminotécnica do espetáculo, definindo cada argumento, exposto nas nove cenas carregadas de sentimentos e subsidiados pela poesia incrustada nos empáticos personagens. André Abujamra impacta toda a plateia com sua trilha sonora que se torna uma ponte de comunicação entre o espectador e a percepção obtusa da família em questão - fazendo do ato de presenciar a finalização da obra de arte, uma inesquecível e emocionante experiência.

“Tribos” disseca cada um dos indivíduos que ocupam territórios distintos sob um mesmo teto, onde o mais capacitado para a compreensão do que se passa naquele núcleo familiar é aquele que escuta, com seus olhos, aqueles que não se ouvem - um espetáculo que se sustenta pela credibilidade do público conquistada pela sua equipe e que assina com gestos, o que muitos conseguem entender, somente se desenhado.

domingo, 12 de julho de 2015

Tarzan – O Homem das Selvas



Timing acelerado que não prejudica a compreensão da história

A densa floresta, o som de animais, a luz do sol que atravessa a nevoa presente em meio às árvores, a sensação de perigo iminente – a selva concebida cenograficamente, e transportada para o palco por Sérgio Gabriel, dá as boas vindas aos pequeninos e adultos, tão logo acessam a sala de espetáculos, para participarem da magia da história contada por uma trupe de atores, dançarinos e cantores infanto-juvenis – “Tarzan – O Homem da Selva”, produzido a partir da versão clássica de “Tarzan” pelos estúdios Disney, incluindo sua premiada trilha sonora, composta por Phil Collins, com as respectivas letras traduzidas para o português.

A partir de um timing acelerado que não prejudica a compreensão da história, o musical, divertidamente coreografado por Rodrigo Marcell, resume a história do bebê humano adotado por uma mamãe gorila, logo após a perda de seu filhote que fora atacado pelo leopardo Zabur, personificado por Beatriz França com toda a suavidade e beleza de uma fera felina. A história, em dois tempos, apresenta Tarzan na sua fase infantil interpretado por Higor Castro e coadjuvado por seus descolados parceiros – a gorila Terk, incorporada por Cynthia Amaral; e o elefante Tantor, por Gabriel Felipe, que por sua vez, comanda a animada manada mirim que percorre os corredores da sala de espetáculos até se posicionarem no palco, cantando e coreografando “Um Elefante Incomoda Muita Gente” e estimulando, a já esperada, autêntica participação do público infantil. Da mesma forma que o figurino de Simone Silva e o visagismo de Rodrigo Fernando caracterizam deliciosamente os animais, ainda filhotes, a fase adulta de Tarzan é ancorada em valores estéticos contemplando tais recursos cênicos complementares de forma muito bem concebida e elaborada. Enquanto que Ruan Victor, adequadamente selecionado pela sua compleição física atlética, assume um Tarzan selvagem, de corpo e alma, Nathália Bazoli encarna uma bela, doce e civilizada Jane. Tal contraste é retratado pelo primeiro encontro entre os dois personagens sob a manifestação de todos na plateia diante do cômico confronto entre os dois mundos. Menção muito bem merecida à direção de movimentos que se reflete no desempenho de todos os símios e que, em função do numeroso elenco, o Circuito Geral se limita a expressar o seu reconhecimento através do trabalho corporal de Luciana Soares e de Gustavo Guimarães, literalmente, na pele de Kala e Kechark. Outro destaque para a coreografia ao som da música “Trashin’ The Camp” fazendo com que todos queiram dançar junto com os carismáticos personagens.

O roteiro toma a liberdade de inserir novos personagens – Janete, mãe de Jane, interpretada por Barbarah Pitangui e Bah, uma espécie de guia local, por Duda Félix – em substituição a personagens da versão clássica. Janete e Bah, juntamente com o viril e inescrupuloso caçador Kleiton, interpretado por Ruan Baldissara, compõem a expedição que, num primeiro momento, se embrenha na selva visando ao estudo da vida dos gorilas. A atual versão também concede, ao antagonista, um final contemplando uma pena mais branda pelos seus erros, poupando, de forma coerente, os espectadores mirins do trágico final que lhe é imposto originalmente.

Produtora da Cia de Teatro Fazart e responsável pelo roteiro e pela direção do espetáculo, Grazi Luz inicia, com “Tarzan – O Homem das Selvas” – em cartaz até o dia 26 de julho – uma série de seis peças integrantes do Festival
Fazart de Teatro Infantil, que será apresentada até o final do mês de novembro de 2015 no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro.

Fotos do Espetáculo- Fan Page - CircuitoGeral

Hyldon – 40 anos de “Na Rua, na Chuva, na Fazenda



Interatividade com seu público, de forma muito bem humorada

Os 40 anos de “Na Rua, na Chuva, na Fazenda foram celebrados pelo seu autor – Hyldon – no Teatro Net Rio, no dia 29 de junho de 2015 – espetáculo ao qual o Circuito Geral teve o enorme privilégio e prazer de presenciar. Partindo do repertório revisitado do seu primeiro álbum lançado em 1975, o compositor, cantor e instrumentista se apresenta com a simplicidade e o carisma de sempre, interagindo com a plateia como numa roda de amigos, e relembra a forma pela qual uma de suas mais famosas composições – “As Dores do Mundo” – foi concebida: no momento em que atravessava determinado túnel no bairro de Copacabana. Sob aplausos esfuziantes, Hyldon interpreta aquele sucesso que considera não mais lhe pertencer, mas ao seu público.

Ao entoar “Balanço do Violão”, fala de seu prazer em jogar futebol e demonstra a falta que sente de Tim Maia, relembrando quando, num show naquele mesmo palco – outrora, carinhosamente conhecido como Teatro Tereza Rachel, vulgo Teresão – o “síndico” lhe pedira para dar uma palinha, tomando-lhe quase o todo o tempo de sua apresentação. E por falar em saudade, Hyldon mata não só a sua, mas a de todo o público presente, interpretando “Velho Camarada” – em meio à participação da plateia que o acompanha no vocal e que se manifesta coreograficamente com aceno das mãos – seguida de “Primavera” e de “A Lua e Eu”, de autoria de Tim Maia e de Cassiano, respectivamente.

Mantendo a força da interatividade com seu público, de forma muito bem humorada, o soulman discorre sobre os efeitos colaterais decorrentes das letras “H” e “Y” presentes em seu nome, o que lhe custou, por muito tempo, ser chamado das mais variadas formas, tais como “Rildon” e “Raydon” – contaminando, cada vez mais, a sala de espetáculos, com um clima descontraído e intimista naquela atípica noite musical de segunda-feira.

O carisma de Hyldon derruba todas as barreiras entre palco e plateia com sua interpretação, cheia de emoção e nostalgia, de “Coleção”, de autoria de Cassiano e, como num passe de mágica, transporta todos para uma pista de dança estilo anos setenta, ao som de sua nova música, “Foi no Baile Black” e com “17 Beijos”, de Arnaldo Antunes. Próximo ao final de sua apresentação, Hyldon manda ver com “Homem Pássaro” – música que compõe a trilha sonora do filme Carandiru e, finalmente, encerra o espetáculo, com chave de ouro, com “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”.

Despretensiosamente, o show de Hyldon conta com uma banda impecável e com um suporte técnico de primeira, responsável pelas operações de som e de luz, e pelo figurino – promovendo a todos uma emocionante viagem ao passado e um retorno ao presente como experiência única, pessoal e intransferível.

Demonstrando ser um artista antenado, Hyldon informa, generosamente, que as músicas do seu mais novo CD, podem ser baixadas, gratuitamente, em sua amigável página da web www.hyldon.com.br

Fotos do Espetáculo- Fan Page - Circuito Geral


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Elza & Fred




Doce comédia romântica

Receita para uma doce comédia romântica – tomar como ingrediente principal, um texto consagrado de Marcos Carnevale e Marcela Guerty; processar o texto junto a Rodrigo Paz, resultando numa tradução impregnada de empenho e de muito bom humor; reservar o produto anterior pelo tempo necessário para que, sob a direção de Elias Adreato, seja obtido o correto equilíbrio entre drama, comédia e romance; acrescentar a essência dos personagens principais incorporados por Ana Rosa e Umberto Magnani, que surpreendem os degustadores da arte de representar, seja no palco ou na televisão; extrair e misturar suavemente o potencial de Ando Camargo, David Geraldi, David Leroy, Fernando Peterlinkar, Igor Dib, Isadora Ferrite e Luciano Schwab, visando à sua aglutinação química com os protagonistas; caracterizar a trupe com um adequado figurino por Fábio Namatame; despejar toda a mistura num palco ornamentado por um cenário simples, mas eficiente e criativamente plural, assinado por Fábio Namatame; lançar fachos de luz sobre a guloseima, desenhando, cromatizando e dramatizando, sob a concepção do iluminador cênico Wagner Freire, de acordo com cada um dos setenta minutos de encenação que se faz presente no seleto menu das atuais produções teatrais nos palcos Cariocas – sem a sofisticação de uma nouvelle cuisine, mas com a autenticidade de uma apetitosa comida caseira, simplesmente – “Elza & Fred”.

Nessa iguaria, o amor é a tônica na vida de dois septuagenários que, sob a obra do acaso, têm suas vias tangenciadas e, a partir de então, as conduzem sob o manto da égide mútua – Elza, como uma senhora turbinada pela vontade de viver; Fred, um generoso ser que tenta superar uma dolorosa perda pessoal. Talvez, por isso mesmo, seja uma receita que depende de empenho e dedicação, durante seu preparo, para não desandar, uma vez que lida com sentimentos genuínos e presentes em cada espectador.





domingo, 5 de julho de 2015

Alice no País das Maravilhas – O Musical


Com a precisão de um relógio suíço

O espetáculo “Alice no País das Maravilhas – O Musical”, cuja direção geral é assinada pelo italiano Billy Bond, teve a sua temporada encerrada no Teatro Bradesco Rio de Janeiro no dia 28 de junho de 2015. Naquela ocasião, o Circuito Geral conferiu o estilo dramatúrgico e a adaptação da história de autoria de Lewis Carol, para os quais Bond conta com Andrew Mettine e Lilio Alonso, respectivamente.

A atual leitura do clássico – cujo lançamento do livro comemora 150 anos, em 2015 – apresenta a curiosa menina Alice em dois momentos etários. Dessa forma, Bond reserva a Alice - ainda menina, porém um pouco mais velha - a aventura na qual é conduzida ao surreal e fantástico País das Maravilhas, repleto de estranhos personagens. Com a precisão de um relógio suíço, as sequencias clássicas de “Alice no País das Maravilhas” se misturam ao linguajar pop e ao aparato tecnológico jamais introduzido num espetáculo voltado ao público infantil no Brasil – mas uma consequente evolução do trabalho do próprio Billy Bond, com suas versões, igualmente bem sucedidas de “Cinderela”, “Branca de Neve” e “A Magia das Fadas , Príncipes e Princesas” que, além das apresentações no Rio de Janeiro, brilharam nos palcos de São Paulo.

Cenários virtuais projetados em telões de altíssima definição e efeitos especiais que simulam levitações, interagem com a percepção auditiva, olfativa e visual dos espectadores, transportando toda a plateia para o País das Maravilhas, juntamente com a protagonista. O desenho de luz de Kuka Batista funciona como recurso tridimensional, acentuando o cromatismo das cenas, contrastando com o brilho dos painéis de led e interagindo com o cenário 4D. O figurino “bellepoqueano” de Carlos Gardin é trabalhado a partir de uma gama de materiais têxteis de modo a promover o volume, estrutura e brilho desejados às cento e oitenta peças que vestem os trinta atores, em perfeita sintonia com os objetos cênicos e grandes bonecos concebidos por Silvio Galvão e Inês Sacay. As trinta e duas músicas inéditas – compostas por Bond em parceria com Villa, especialmente para o espetáculo – conta a história com clareza e muito bom humor pelos diversos personagens, cada um ao seu modo, a partir de coreografias e estilos musicais diversificados.


Tudo em “Alice no País das Maravilhas – O Musical” é grandioso, generoso, respeitoso e surpreendente, potencializado pelo carisma de seus personagens circulando em meio à plateia e se comunicando diretamente com crianças e pelas chuvas de fragmentos de papel coloridos e cintilantes e de bolhas de sabão, em meio a fragrâncias e a nuvens de fumaça que tomam conta de toda a grandiosidade da sala de espetáculos. Tomados pela emoção, os espectadores sentem seu tamanho tão reduzido - como se tivessem bebido do conteúdo do frasco misterioso, que possibilitou a curiosa menina atravessar a menor porta que ela já viu - e, com Alice, viverem as incríveis aventuras no País das Maravilhas.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Rita Benneditto - Encanto
















Ideal, para quem sabe “com viver”.


Teatro SESC Ginástico, Rio de Janeiro, dia 23 de junho de 2015 - o Circuito Geral presencia a apresentação única, no palco daquele teatro, do show de Rita Benneditto - “Encanto”.

Através desse trabalho, Benneditto demonstra a sua devoção aos macumbeiros – esclarecido, pela mesma, se tratarem de tocadores de macumba, antigo instrumento de percussão.

Simbioticamente respaldada pela banda “Os Encantados”- composta por Fred Ferreira, na guitarra; Pedro Dantas, no contrabaixo; Ronaldo Silva, na percussão e Lúcio Vieira, na bateria - Benneditto dá início à apresentação do espetáculo sob cores e adereços alusivos a Inhasã – segundo um figurino concebido por Victor Dzenk, como marca de “Encanto”, que lhe permite total autonomia dos seus passos e passes – apresentando a sua adaptação, em parceria com Felipe Pinaud, de “Centro da Mata”, ainda em meio ao breu que toma a sala de espetáculos. Gradativamente, o palco se ilumina ao som da belíssima “De Mina”, de autoria de Josias Sobrinho. A partir de então, a plateia se entrega à competência musical da banda, assimila entusiasticamente cada acorde emitido e faz com que o show tome proporções de um espetáculo dançante, sob o mágico cromatismo e a pulsante cadência do desenho de luz de Daniela Sanchez e das ricas projeções que preenchem o fundo cenográfico.

O domínio do palco por Rita Benneditto denuncia a sua densa veia artística mixada com seu estilo de vida, lhe assegurando a confiança que somente uma artista, generosamente cercada de profissionais de ponta e trabalhando em conjunto com os mesmos, sabe que possui, mas não ostenta – naturalmente demonstra. Em resposta a tudo isso, muitos da plateia saem de suas poltronas e embarcam num crescente frenesi coletivo – quando de sua interpretação da adaptação de “Santa Clara Clareou” - de Jorge Ben Jor, de “É D’Oxum” - de Gerônimo e Vevê Calazans, e de “Banho de Manjericão”, de João Nogueira. A sua indagação sobre quem é Jorge é seguida pela oração de Jorge da Capadócia, induzindo ainda maior número de espectadores ao saudável transe musical e à rogação por toda a proteção possível e imaginável ao poderoso Santo Soldado Romano, depositário da confiança de tantos fiéis.

Um breve intervalo, na sequência de sucessos com teor sincrético religioso, dá vez à consagrada “Babalú” - de Margarita Lecuona, redefinida por uma roupagem eletrônica, potencializando o delírio dançante coletivo acometido por boa parte dos espectadores.

Retomando a temática de “Encanto”, Benneditto impulsiona “Jurema” mixada com um ponto cantado de Oxossi. O refrão de “Batmacumba” - de Gilberto Gil, eternizada pelos Mutantes, é entoado como uma introdução ao discurso em torno do caos, da tolerância e da energia cósmica, frente a uma plateia silenciosa e assimilativa, e dá seguimento a “Fé”, de autoria de Roberto Carlos, endossando o conteúdo de sua enunciação como um ser que acredita no planeta encanto, como ela mesma define - o lugar ideal, para quem sabe “com viver”.

O momento político e ideológico é introduzido com “Extra” - de Gilberto Gil, em estilo rasta, anunciando o fim do espetáculo que, uma vez percebido pelos espectadores, é combatido com o clamor antecipado por bis, prontamente atendido com “O Que é dela é Meu”- de Arlindo Cruz, por uma artista totalmente dominada pela energia do público.  Em retribuição a toda essa alegria, Rita Benneditto distribui uma fartura de rosas vermelhas, tão generosa quanto a qualidade de seu espetáculo, dentre os presentes na plateia - dando por finalizado, mas não quebrando o encanto de uma noite inesquecível. 


quinta-feira, 2 de julho de 2015

O Exterminador do Futuro: Gênesis

                                                                                                                         





Experiência rançosa

Quinta produção da franquia lançada em 1984, cujo primeiro filme – “O Exterminador do Futuro” – fora dirigido por James Cameron, “O Exterminador do Futuro: Gênesis” por Alan Taylor resgata um Arnold Schwarzenegger aparentemente cansado. A auto justificativa do personagem - o exterminador modelo T800 - de estar “velho, mas não obsoleto”, serve como saída estratégica para as inevitáveis alterações físicas sofridas pela idade pelo ainda protagonista. Contudo, o toque de comicidade inserido um par de vezes via expressões faciais de Schwarzenegger, certamente bate nos fãs da franquia como um sinal de decadência e, até certo ponto, de desrespeito à imagem daquele que, um dia, aterrorizou as telonas como o indestrutível ciborgue assassino.

O instigante e criativo resgate de cenas e personagens dos dois primeiros filmes – somente identificado pelos cinéfilos assíduos da franquia - sugere um looping prestes a esclarecer o roteiro de “Gênesis” mas que, lamentavelmente vai se desfazendo a olhos nus, através de um processo impregnado de argumentos excessivos visando tornar crível as confusas viagens no tempo objetivando a destruição da famigerada Skynet.

Apesar das eventuais contrariedades causadas aos seguidores de “O Exterminador do Futuro”, torna-se impossível não dar o merecido crédito a Taylor pelas cenas de ação e apocalípticas muito bem dirigidas, os respectivos efeitos visuais potencializados pela tecnologia 3D e da releitura e confronto de Kyle Reese e John Connor – induzindo ao crédito por uma história inteligentemente conclusiva, ficando somente na promessa.

Mesmo que “O Exterminador do Futuro: Gênesis” passe a impressão de promover uma experiência rançosa, cheirando a naftalina, para os que acompanharam a sequência de longas e da série, é um programa que não deve ser declinado, muito porque, da mesma forma que Arnold Schwarzenegger vem ameaçando nos últimos trinta anos, de uma forma ou de outra, ele “estará de volta”.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Jessabelle – O Passado Nunca Morre


Sem convencer os fãs do gênero

“Jessabelle – O Passado Nunca Morre”, contemplando um pouco de mistério, uma pitada de suspense e um cadinho de drama, se estabiliza em cima do muro na tentativa de se classificar como filme de terror - dosado homeopaticamente.

O roteiro gira em torno do espírito de Jessabelle, atormentado por fúria mortal decorrente de circunstâncias misteriosas em torno de seu nascimento, tormento esse que recai sobre a jovem Jessie - interpretada de forma convincente por Sarah Snook - que, após sofrer um fatal acidente de automóvel, juntamente com seu namorado, fica entrevada numa cadeira de rodas, sendo obrigada a voltar para a casa de seu pai.

Daí em diante, a direção de Kevin Greutert não consegue mais do que tornar o roteiro confuso e provocar sustos nos espectadores quando da ocorrência de apavorantes e repentinas imagens, mas sem convencer os fãs do gênero.