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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Beija-me Como nos Livros


A vida nem sempre é boa e ninguém deixa de amá-la

Amor romântico – substantivo qualificado que se torna objeto de reflexão da trilogia composta por: “Amores” – de Domingos de Oliveira, “Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir” -  de Tennessee Williams e “Beija-me Como nos Livros” cuja dramaturgia e direção são assinadas por Ivan Sugahara.

Ciente das dificuldades de se explicar e de se compreender sentimento tão controverso e contaminado por paradigmas, simplesmente, através de palavras, Sugahara inventa o idioma gromelô que, durante os noventa minutos de encenação de “Beija-me Como nos Livros” é a única língua verbalizada pelos personagens, transformando a plateia num sistema sensitivo, com função única de decifrar as mensagens contidas no desempenho de Ângela Câmara, de Claudia Mele, de José Karini e de Julio Adrião.

No contexto da apresentação de uma trama amorosa contemporânea, através de um processo de encenação randômica contemplando resíduos de quatro clássicos históricos do amor romântico – “Tristão e Isolda”, representando o período medieval inglês; “Romeu e Julieta”, o renascimento italiano; “Don Juan”, o iluminismo francês; e “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, o romantismo alemão – o pragmático e esclarecedor figurino de Bruno Perlatto se faz co-responsável pela identificação das cenas desempenhadas no palco, juntamente com a dramatização específica de cada obra – sob a direção de movimento e preparação corporal de Duda Maia e do dramaturgismo assinado Juliana Pamplona – poupando os expectadores do peso de um exaustivo e silencioso quiz de conhecimento literário. A iluminação de Renato Machado é precisamente dramática e fundamental no desenho das fisionomias dos atores, através dos traços definidos pela incidência da luz e da projeção de sombras, possibilitando a compreensão dos sentimentos como se fossem legendas visando à tradução de uma língua desconhecida. Palavras que se volatizam perante consistentes entonações e interpretações potencializadas pela direção vocal e pesquisa fonética de Ricardo Góes são harmoniosamente transportadas pela trilha sonora defendida por Sugahara, que transmite mais do que o texto, reforçando que a ideia de que o amor não se entende, apenas se contrai – da mesma forma que se dança conforme a música. André Sanches concebe as cenas dentro de um cenário minimalista, enquadrando os quatro amantes num espaço onde caberia nada além do sentimento em questão - o amor.

“Beija-me Como nos Livros” não é um espetáculo facilitador - mas a vida nem sempre é boa e ninguém deixa de amá-la. 


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