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domingo, 26 de julho de 2015

Killer Joe


Os mais obscuros sentimentos 

O Circuito Geral alerta - “Killer Joe” não é um espetáculo de fácil degustação. Portanto, dele, só os fortes sobrevivem.

O pesado e brutal sadismo soam como uma marca registrada da direção de Mário Bortolotto, que parece escarnecer do espectador, fazendo dele mais um de seus submissos violentados e humilhados.

O texto de Tracy Letts, habilmente traduzido por Mauricio Arruda Mendonça, lança a plateia, num piscar de olhos, nas entranhas de um roteiro dominado pela crueldade, fazendo com que cada um dos espectadores aguarde excitado, os próximos castigos elucubrados pelos personagens nada ortodoxos: o pai, Ansel – Fernão Lacerda; o filho Chris Smith – Gabriel Pinheiro; a filha Dottie – Ana Hartmann; a madrasta Sharla – Aline Abovsky; e Joe Cooper, “Killer Joe” – Carcarah. A sordidez que envolve a história poderia fazer com que a mesma corresse o risco de passar em branco, não fossem as interpretações viscerais do elenco.

A mediocridade vem com força maior, quando um cenário – concebido por Mariko e Seiji Ogawa e caracterizado pela sua simplicidade – remete o espectador a um trailer tematicamente mobiliado, retratando a falta de zelo doméstico, onde uma TV se destaca por permanecer a maior parte do espetáculo ligada – refletindo a precisão da leitura da família em questão. O figurino, assinado por Letícia Madeira, propositalmente beira ao ridículo de forma tal a caracterizar a personalidade dos seres eleitos para conduzirem a história, e brinda a todos com a sua verdade nua e crua. Fernando Azevedo dramatiza cada quadro do espetáculo com seu desenho de luz, naturalmente morno e seco, contemplando blackouts que surpreendem o espectador, de tempos em tempos, como em rounds de uma peleja que expõem, não só o externamente perceptível, mas as atitudes dos personagens diante de suas fraquezas amorais. As incursões sonoras de Gabriella Spaciari e de Ninguém abusam deliciosamente do ritmo Blues, de forma certeira como a cereja do bolo, deixando o espectador atônito ao som de “Xmas Prison Blues, de autoria de Seasick Steve.

“Killer Joe” acirra os mais obscuros sentimentos de seu espectador - talvez pelo possível fato de fazer com que ele se identifique com o perfil íntimo de algum personagem, constate a natural e inevitável imposição das famílias pelo destino, imagine a sempre crível e desejada vida “abençoada” com os filhos, creia no seu próximo, paradoxalmente acredite que o crime compensa, constate o eventual desamor pelos seus pais, tenha vergonha de suas limitações e insucessos ou até mesmo, entenda a sua livremente arbitrada escolha mal feita em sua breve existência.

“Killer Joe” é um coito interrompido e priva o espectador do prazer do clímax, após introduzi-lo ao que há de mais hard no desejo humano, como um desdém autografado por Bortolotto pelo que mais é desejado pelos artistas ao final de um espetáculo, antagonizando aquilo que Ariano Suassuna apregoa ao final de um de seus clássicos - “se não há quem queira pagar, peço pelo menos uma recompensa que não custa nada e é sempre eficiente: Seu aplauso”.

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