Counter

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Tribos


Obra de arte em franca composição

Nove cenas compõem uma das mais emudecedoras montagens da história do teatro, traduzindo o silêncio das palavras mortas e dos sentimentos insensíveis ao toque. A tônica - a deficiência da mente, da visão e da audição, refletidas na decomposição do intelecto, da família e do ser humano.

A turbulência assume o status de arte a partir da entrada do espectador na sala de espetáculos ao se deparar com o cenário, beirando ao minimalismo, de Lu Bueno – uma parede de tijolos cuja imagem é projetada sobre um pano de fundo; à beira do palco, uma bola de futebol das antigas, ainda marrom, aparentando não estar totalmente inflada; entre a bola e a parede de tijolos, uma mesa de jantar capaz de acomodar até seis pessoas; e, sentado sobre a mesa, um ser solitário contempla o muro de tijolos – conjunto de símbolos a ser processado durante o desenrolar das nove cenas.

Em instantes que antecedem o horário marcado para o início do espetáculo, uma composição incidental, transmitida com notável qualidade sonora, ecoa pela plateia, com vistas a transportar os espectadores para o clima daquilo que está prestes a acontecer no palco, reforçado pelas “três batidas de Molière” substituídas por três impactantes badaladas – um capricho voluntário e contrastante com um roteiro que gira em torno da incapacidade de ouvir e de escutar.

De volta ao ser sobre a mesa que, mesmo sem denunciar, traduz a solidão que lhe é consciente e que aumenta e aflora, alheia à sua aparente “ineficiência” em seu núcleo familiar – cujos membros são individualmente apresentado ao público presente, assim que as luzes da plateia são apagadas e os holofotes do palco dão início a “Tribos”.

O que acontece à partir desse momento, sob os olhares do público, é uma obra de arte em franca composição - seca e marcantemente acre, atenuada com doses de comicidade momentâneas – por meio de pinceladas fortes e precisas, cujo mérito é devido, em grande parte, à tradução escaldante do texto de Nina Raine, por Rachel Ripani. A direção de Ulysses Cruz, de tão afinada, passa a falsa impressão de dissonância, ao expor os espectadores, frente à frente, aos seguintes personagens: um jovem surdo de nascença, espantosamente interpretado por Bruno Fagundes; um pai intelectualmente abrasivo, personificado pela essência humana de Antônio Fagundes; uma progenitora apoplética, defendida por Eliete Cigaarini; dois irmãos tensos e sem perspectiva na vida, brilhantemente esculpidos por Guilherme Magon e Maíra Dvorek; e, finalmente, uma jovem em vias de perder a sua audição, desenhada com a garra de Arieta Correa. Domingos Quintiliano assina a partitura luminotécnica do espetáculo, definindo cada argumento, exposto nas nove cenas carregadas de sentimentos e subsidiados pela poesia incrustada nos empáticos personagens. André Abujamra impacta toda a plateia com sua trilha sonora que se torna uma ponte de comunicação entre o espectador e a percepção obtusa da família em questão - fazendo do ato de presenciar a finalização da obra de arte, uma inesquecível e emocionante experiência.

“Tribos” disseca cada um dos indivíduos que ocupam territórios distintos sob um mesmo teto, onde o mais capacitado para a compreensão do que se passa naquele núcleo familiar é aquele que escuta, com seus olhos, aqueles que não se ouvem - um espetáculo que se sustenta pela credibilidade do público conquistada pela sua equipe e que assina com gestos, o que muitos conseguem entender, somente se desenhado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário