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domingo, 30 de agosto de 2015

A Gangue


O silêncio reina plena, pomposa e furiosamente

Sem diálogos verbais e sem legendas capazes de traduzir a linguagem dos sinais, o diretor Ucraniano Myroslav Slaboshpytskiy surpreende o espectador com o seu filme “A Gangue” – estrelado por um elenco composto, em sua totalidade, por atores surdos-mudos – ao logo do qual, o silêncio reina plena, pomposa e furiosamente, durante os cento e trinta e dois minutos de projeção. A genialidade da obra de Myroslav é comprovada a partir de suas imagens perturbadoras e atitudes introduzidas no contexto do roteiro que induz à reflexão sobre a fúria intrínseca na essência humana.

Ao ingressar num internato voltado para alunos deficientes, um garoto surdo-mudo, percebendo o comportamento hostil dos colegas, decide participar das ações do grupo - praticando furtos, agenciando prostituição e cometendo atos contemplando muita violência, com vistas à garantia de sua integridade física.

“A Gangue” se destaca por sua proposta inovadora, sugerindo que tudo o que é apresentado, faz parte da realidade e não deve ser varrido para debaixo do tapete. Por se tratar de portadores de limitações físicas, tais indivíduos acabam sendo considerados por muitos, como passíveis de piedade e, em função de suas deficiências, seriam isentos de uma característica que faz parte da essência de todos os seres humanos - a perversidade.

“A Gangue” é desprovido de qualquer trilha musical, contemplando somente sons que fazem parte da paisagem sonora, permitindo que o espectador mergulhe em seu próprio silêncio durante a projeção e, após o término do filme, encare suas próprias deficiências como normalidades congênitas e originais de fábrica. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Santa


Repleto de significados que não serão afogados pelas ondas do mar


Recepcionando seus espectadores, o Espaço Tom Jobim – Jardim Botânico, Rio de Janeiro – transfere sua entrada principal para a porta dos fundos. Ao adentrarem a sala de espetáculos transformada em galeria de arte, os espectadores são surpreendidos pela difusão lumínica, sobre um fundo infinito negro, filtrada pela atmosfera esfumaçada opalescente. Compartilhando o acesso aos pouco mais que noventa assentos, criteriosamente quantificados e distribuídos como postos de observação, uma bancada de operação de luz e de som recepciona um público prestes a experimentar momentos de perplexidade diante de uma instalação artística – como se permanentemente imersa em sonoridade proveniente da fauna noturna e do mar, e contemplando proporções surpreendentes, paulatinamente reveladas pela força dramática do desenho de luz de Tomás Ribas.

Desvirginada a boca de cena sugerida pelo breu, a platéia observadora passa por uma experiência única e intransferível pelas imagens que tomam forma e que são captadas pelos seus olhos e gravadas em sua mente, possivelmente por tempo considerável. Eis que surgem os agentes ativos da instalação – os atores Ângela Vieira e Guilherme Leme Garcia – cujas palavras proferidas em prosa e verso e gestuais bailados como num surto coreográfico, estimulam os sentidos de quem os observam, de forma mágica, ousada e impactante. Pouco à pouco, a percepção do espaço toma conta do observador, que passa a se sentir inserido na paisagem sonora, visual e quase táctil, tamanha a proximidade dos protagonistas em determinados momentos e, noutros, como se o casal fosse dragado pela profundidade das cenas, perspectivadas pelo cenário ilusionista concebido por Bia Junqueira que, através de um único material, sugere o céu, o mar e a terra, engenhosamente animado como se possuidor de vida própria, em plena relação simbiótica com os efeitos lumínicos de Ribas. Em meio a tudo isso, os dois amantes se entregam à solidão, de corpo e alma, empenhados na composição das cenas quase pictóricas, cujos recursos – além do secular teatro de sombras, sensualmente desempenhado por Vieira – promovem muito mais do que a imaginação dos observadores consegue processar naquele etéreo espaço de tempo, ao som forjado pela direção musical de Marcello H. e Marcelo Vig. A tríplice aliança é travada pela integração do figurino de Rui Cortez ao cenário de Junqueira e à luz de Ribas que, além do elegante corte e panejamento mais que adequados aos corpos esculturais de Vieira e Garcia, consegue inserir uma semi nudez de Garcia como parte de sua obra e como se figurino o fosse, tamanho o lirismo presente na cena em questão.

A direção das diversas disciplinas, sob responsabilidade de Guilherme Leme Garcia, resulta numa obra de arte estimulante aos sentidos do espectador que se permite esvaziar sua mente das lógicas e suposições, desmentindo a premissa de que cabeça vazia é oficina do diabo, pois, uma vez alcançado tal vazio, pode ser constatado que o mesmo está repleto de significados que não serão afogados pelas ondas do mar. Seguro em sua bóia salva-vidas, o espectador permanece flutuante, até que um farol indica o caminho da terra firme, trazendo sua mente de volta à realidade, de uma viagem surreal através da sua observação de “Santa”.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Hitman: Agente 47



Tenta aliar, ao máximo, a estética do game à seriedade do cinema


Tomando as palavras do provérbio que diz que uma coisa é uma coisa e que outra coisa é outra coisa, o Circuito Geral chama a atenção para o fato de que “Hitman: Agente 47”, de 2015, nada tem a ver com o anterior “Hitman”, de 2007, tratando-se de histórias distintas, sem qualquer ligação entre elas, a não ser pelo roteirista de ambas - Skip Woods.

Nesse novo filme, dirigido por Aleksander Bach, o agente 47 é estrelado por Rupert Friend - que dá um ar mais suave ao ser geneticamente modificado e desprovido de qualquer vestígio de sentimento. A atual versão incumbe o agente 47 de acabar com uma corporação que almeja formar um exército de assassinos a partir da mesma técnica de manipulação genética de seres pela qual passou o protagonista. Para isso, a corporação precisa encontrar o geneticista criador e responsável pela implantação descontinuada do projeto. A partir de um roteiro dinâmico, característico dos filmes de ação, e de uma história que não exige conhecimento prévio do game no qual se baseia o filme, “Hitman: Agente 47” presenteia os espectadores com uma excelente fotografia - a partir das quais, as cenas de morte são trabalhadas de tal forma que mais parecem uma obra de arte, e não meras imagens de violência gratuita; com uma poderosa trilha sonora de Marco Beltrami; com uma artística coreografia marcial como um espetáculo à parte; e com as deslumbrantes tomadas cênicas em Cingapura.

“Hitman: Agente 47” pode não ser o início de uma franquia nos moldes da frustrada tentativa em 2007, mas num primeiro momento, mesmo como produção única, tenta aliar, ao máximo, a estética do game à seriedade do cinema.


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

E Foram Quase Felizes Para Sempre


Reinicia quando todos acham que o espetáculo chegou ao seu fim

O difícil relacionamento entre um homem e uma mulher se encontra, mais uma vez, na mira dos holofotes – nesta última semana da atual temporada no palco do Teatro Clara Nunes – Rio de Janeiro, sob a quase dramática exposição verbal de Heloísa Périssé, que também assina a autoria de “E Foram Quase Felizes Para Sempre”. O espetáculo não se sustenta pelo texto que, mais do que banalizado nos diversos veículos de comunicação, é tão incolor, inodoro e insípido quanto água. Porém, o empenho da excelente equipe de produção, atuando como agente fomentador de credibilidade e de admiração da humorista pelo público habilita o espetáculo a saciar os espectadores sedentos por momentos de descontração.

O sucesso do monólogo não se deve ao que é dito, mas à maneira como o assunto é transmitido. Isso se deve, não só ao talento de Périssé, mas à eficiente direção de Susana Garcia - descompromissada, porém, técnica. A iluminação cênica que acompanha as oscilações emocionais da personagem, num ritmo quase que dançante, tem como “coreógrafo” o  desenhista de luz Maneco Quinderé. Em meio ao jogo de luz e sombra, a personagem de Périssé transita por uma composição de pórticos, cuja concepção cenográfica de Miguel Pinto Guimarães, foi interpretada pelo Circuito Geral, como uma alusão a molduras cujos espelhos inexistentes, não respondem ao desespero da personagem em despertar do pesadelo com um amor frustrado, tampouco à sua ânsia em busca de um amor que a faça feliz, configurando-se em passagens que se abrem ou que já estiveram sempre abertas. O figurino de Rita Murtinho, sem compromisso com a temática, veste  Périssé com elegância a cada espetáculo, enquanto que a atriz se desnuda da real Périssé, se exibindo ao público, simplesmente, em seu papel e permitindo que a trilha musical de Alexandre Elias, informe aos espectadores bem mais sobre a personagem do que a Périssé em seu figurino.

 

Na direção contrária da mulher moderna, decidida e livre da fantasia do “foram felizes para sempre”, “E Foram Quase Felizes Para Sempre” reinicia quando todos acham que o espetáculo chegou ao seu fim, como um vinil que se apresenta arranhado na última faixa.


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Chaplin – O Musical


















Não peca pela obviedade

A síntese da vida do atordiretor, produtorhumorista, empresárioescritor, comediantedançarino, roteirista e músico britânico - Charles Chaplin, desde a sua infância até a sua consagração mundial, é brilhantemente levada aos palcos sob a forma de um musical, com base no pragmático texto de Thomas Meehan e Christopher Curtis, sendo deste, a autoria das músicas e letras originais, cuja versão brasileira se deve ao criterioso trabalho de Miguel Falabella.

Da Londres do século XIX até a Hollywood do século XX, a trajetória de Vagabundo Carlitos é delineada com muito requinte e com suporte técnico-artístico que atesta o status da produção de musicais no mercado do “showbiz” nacional, estampando a altíssima qualidade exigida pela direção de Mariano Detry. Pelos traços de Matt Kiley, a base cenográfica permanente remete a platéia ao interior de um estúdio hollywoodiano onde tudo acontece e se transforma com fantástica precisão e cronometria, a partir de fragmentos de painéis, panejamentos, mobiliário e adereços transportados e dispostos em seus devidos lugares pelos próprios atores. Como numa convincente viagem ao passado, a atmosfera cênica é complementada pelo deslumbrante figurino assinado por Fábio Namatame e pelo videografismo por Luciana Ferraz e Otavio Juliano, projetado em diversos planos que compõem o dinâmico cenário, potencializando as cenas antológicas de “O Garoto”, “O Circo”, “Tempos Modernos” e “O Grande Ditador”. Consolidando a máxima de que a arquitetura não existe se não iluminada, a luminotecnia cênica de José Possi Neto e Drika Matheus abusa do seu indissociável vínculo com cada elemento e individuo presentes no palco, como jóias raras lapidadas pela incidência concentrada de fachos de luz. O sentido da audição, por sua vez, é alimentado pelo desenho de som de Mariano Detry que estremece a casa de espetáculos com instrumental – através de uma orquestra oculta pelo cenário e surpreendentemente revelada à platéia em meio a uma das mais emocionantes cenas do espetáculo - e com vocal de qualidade indiscutível.

“Chaplin – O Musical” conta mais sobre o homem Chaplin do que sobre o personagem Vagabundo - a sua essência empreendedora e política, seus muitos amores, sua relação com sua mãe e seu irmão mais velho, as colunas de fofocas e a fundação dos estúdios Keystone. O musical não peca na obviedade e não percorre os sucessos cinematográficos de Chaplin, mas os sugere, inseridos nas passagens concebidas por Curtis e Meelan, com tamanha sutileza capaz de despertar no espectador atento, o sentimento de satisfação ao identificá-los ao longo do espetáculo.

Coestrelando em “Chaplin – O Musical”: Marcello Antony defende dignamente Sidney - o irmão mais velho de Chaplin; Paulo Goulart Filho atua como Mack Sennett, um dos empresários de Chaplin, cujos textos se destacam pela simplicidade com que o ator os engrandece a cada palavra que profere; e grande elenco. Mais que supreendentemente, Jarbas Homem de Mello incorpora o protagonista como uma osmose humanizada, tomando-lhe emprestado seu eterno sorriso e olhar imersos em inigualável ingenuidade e ternura, e presenteando-os ao público - como a flor dada ao Vagabundo pela florista, ao final de Luzes da Cidade, contaminando o coletivo cênico, merecedor da ovação do público por muitos minutos, ao final do espetáculo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Exorcistas do Vaticano
















Um equívoco 


No limiar da comicidade, “Exorcistas do Vaticano” conta a história de Ângela, interpretada pela atriz Olivia Taylor Dudley - após ferir o dedo partindo o seu bolo de aniversário, dá-se início à sua “nova vida” possuída pelo “demo”, com direito a surtos psicóticos, violência desmedida e corvos à espreita - um conto de fadas às avessas. No outro prato da balança, o “vale tudo” entre o céu e o inferno é protagonizado pelo o talentoso Michael Peña, no papel do sacerdote que acompanha o cardeal exorcista exportado diretamente do Vaticano, para remover o “capeta” que, possivelmente, acometido pelo ócio, resolve tomar conta do corpo de Ângela. O oscilante fiel da balança fica por conta da direção de Mark Neveldine e de seu roteiro, em coautoria com Christopher Borelli, que não sustenta minimamente o filme dentro de sua classificação, tendo em vista a evolução das produções com base na temática, ao longo da história do cinema.

“Exorcistas do Vaticano” se apresenta no mercado cinematográfico como um equívoco tão certo quanto a perda de tempo dos desavisados que possam adentrar uma sala de projeção na qual a película esteja em cartaz.


sábado, 22 de agosto de 2015

Linda de Morrer

















Só mesmo um milagre para salvar o filme

Glória Pires, como uma renomada dermatologista, promete abalar a indústria da beleza feminina com sua grande descoberta - uma pílula capaz de eliminar a celulite. O nome da droga é tão “criativo” quanto o roteiro do filme - Milagra.

A partir da concepção de tal argumento, só mesmo um milagre para salvar o filme, sob a direção desfocada e mediana de Cris D’Amato, cujo roteiro, assinado por  Carolina Castro e Marcelo Saback, beira à chanchada, e estrelado por um clã de artistas de ponta mal aproveitados e visivelmente desconfortáveis em seus desempenhos. O sincretismo apelativo cruza o candomblé e o espiritismo em prol do riso fácil, frustrado pela fragilidade do apelo cômico, levando a tentativa beirar o constrangimento – fazendo com que “Linda de Morrer” seja apenas uma droga que infelizmente não tem o mesmo efeito colateral do fármaco “milagroso”, naqueles que conseguem achar algo de risível no filme.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Godspell



Unificando um ponto de vista doutrinário para mostrar a diversidade humana

A partir de um elenco que agrega ao seu currículo, o canto, a dança e a dramatização, a direção de João Fonseca leva, ao público, “Godspell” - espetáculo musical que transforma as parábolas do Evangelho de São Matheus numa mensagem de amor e paz, como apregoada nos anos 70 – numa demonstração de capacidade em lidar com jovens e talentosos atores e de gerar uma produção homogênea sob o ponto de vista técnico e artístico.  

O produto final também conta com o profissionalismo de Tony Luchessi, responsável pela direção dos números musicais, e de Victor Maia à frente da coreografia, que colaboram positivamente no desenrolar do roteiro e, consequentemente, no desempenho de cada um dos personagens. Da mesma forma, o desenho de luz assinado por Luiz Paulo Neném, se enquadra como um recurso técnico que atende, na medida certa, o que se propõe o espetáculo, promovendo bons momentos visuais, principalmente no segundo ato, quando se torna essencial para o final já conhecido por todos - a crucificação do Messias.

Apesar de seu caráter amador, num primeiro momento, devido ao empenho de toda a ficha técnica, “Godspell” conquista o status de produção profissional, no Teatro Ipanema, até o dia 23 de agosto de 2015. Tal sucesso se deve à competência e à maturidade da produção, desde a escolha da obra de Stephen Schwartz e John-Michael Telebak, passando pelo esforço pessoal de cada membro da equipe em doar ao espetáculo o melhor de si, pelo empenho na introdução de uma banda, ao vivo, composta por teclado, guitarra, baixo e bateria, e pelo brilhante enxerto de sucessos musicais consagrados de Beyoncé, Adelle, Sia e Sam Smith que, na atual versão, fazem toda a diferença.

No palco, “Godspell” se resume a doze artistas que, em cena aberta, passam preceitos religiosos essenciais, sem transformá-los em regra geral, unificando um ponto de vista doutrinário para mostrar a diversidade humana, onde, o verbo amar, não passa despercebido.

O Pequeno Príncipe


















A diária magia do alvorecer das manhãs e com a eterna dúvida sobre se, de fato, o sol brilhará ou estará encoberto pelas nuvens. 


Sob uma apaixonada direção de “O Pequeno Príncipe”, Mark Osborne faz uma releitura do romance de autoria do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry e insere a essência do menino que habita um pequeno asteróide - juntamente com uma rosa e três vulcões - em duas vidas: a de uma mãe e a de uma filha - a primeira, encarando a sua existência como uma ciência exata e a outra, seguindo a exatidão da sua jornada inexata, cujos fatos lhes são paciente e didaticamente revelados por seu vizinho – um idoso e sonhador aviador.

A animação de Osborne nos mostra o pequeno asteróide como o espaço ocupado por cada um de nós em nossas próprias vidas, com nossas rosas, nossos vulcões – alguns deles extintos e outros em plena atividade, com a diária magia do alvorecer das manhãs e com a eterna dúvida sobre se, de fato, o sol brilhará ou estará encoberto pelas nuvens. Da mesma forma que no conto do menino príncipe, nosso mundo também contempla personagens reais ou inventados - representados pelas nossas rosas, jiboias, elefantes, carneiros e raposas - e normas de sucesso que muitas vezes são consideradas bênçãos, golpes de sorte ou, simplesmente, obra do destino – por sua vez, ilustradas pelas provas as quais nos submetemos e pela carreira e ascensão social as quais almejamos.

A versão de Osborne dá margem para que as “pessoas grandes” se tornem personagens ativos, proporcionalmente às responsabilidades que assumem junto aos seus pequeninos, ao contrário dos adultos passivos da obra original de Saint-Exupéry, que vivem, essencialmente, a sua vaidade, o seu poder, o seu conhecimento, a sua ganância e a sua rotina - tão efêmeros quanto a própria vida.

Osborne explora os equívocos de avaliação pessoal e de auto aceitação, a partir da falta de consciência dos reais valores do Pequeno Príncipe adolescente, por si mesmo e pelos adultos com quem lida.  Como num sonho, a pequena menina, co-protagonista da versão do diretor, o ajuda a se conscientizar de tais valores. Pelas mãos de mãe e filha, presenciamos as crianças que fomos, as que somos, e as que ainda seremos, pois, “O Pequeno Príncipe” é enigmático, porém dotado de profundos sentimentos que provocam inevitáveis lágrimas quando nos deixamos cativar.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O Beijo no Asfalto



As engrenagens da instauração do preconceito


“Um museu de grandes novidades” -  fragmento poético de Cazuza que define a montagem de “O Beijo no Asfalto”, sob a direção de Marco Antônio Braz que, com todo o respeito à obra original de Nelson Rodrigues, transporta para o século XXI, relações sociais e hábitos latentes e ácidos do dia a dia da década de 1960, sob um ponto de vista crítico que já se encontrava muito à frente de seu próprio tempo.

Estrelado por um elenco – composto por Álvaro Gomes, Cal Titanero, Danielle Scavone, Josias Souza, Marcos Breda, Pamela Domingues, Pedro Paulo Eva, Stella Portieri e Leonardo Santos – coeso no processo de assimilação e reprodução do universo Rodriguiano, “O Beijo no Asfalto” reproduz, no palco do Teatro Solar de Botafogo, sob os olhares dos espectadores, as engrenagens da instauração do preconceito.

Encenar uma obra de Nelson Rodrigues dispensa recursos técnicos mirabolantes que possam desviar a atenção do público da denúncia ou do escárnio projetado no alvo da vez. A partir dessa premissa, Telumi Hellen, além de vestir os personagens, adequando o seu figurino à temporalidade da criação do roteiro, também concebe um cenário minimalista, contemplando um banco de pedra no centro de um quadrado - possivelmente, em alusão a uma praça onde a liberdade de expressão se manifesta respaldada pelo discutível Estado Democrático de Direito. Ladeando o palco, coxias visíveis ao público expõem todo o elenco que não se encontra em atividade cênica, mas tão atentos às aberrações e desvios durante a peleja verborrágica proferida pelos personagens, que incorporam seres tidos como humanos, porém, áridos em compaixão e compreensão de suas  próprias vidas. O desenho de luz de Aurélio de Simoni – em dados momentos, tão ofuscantes quanto revoltantes se fazem a hipocrisia e o preconceito - é fundamental em todos os momentos do espetáculo, pois, através dele, a dramaturgia é transmitida ao espectador atento, reflexivo e debruçado sobre a atualidade de um argumento de mais de 50 anos: Um beijo fora de contexto, explorado como algo não usual, até mesmo criminoso, dando margem a histórias inverídicas que se tornam verdades frente a uma sociedade hipócrita, manipulável e tolerante a tudo que seja lançado contra o seu próximo, desde que “esse tudo” não bata à sua porta. 


terça-feira, 18 de agosto de 2015

Salute to Sinatra



Emana requinte

Noite de 10 de agosto de 2015 - o Circuito Geral marca a sua presença no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e confere o talento do britânico Louis Hoover, considerado “O Sinatra do Milênio” pelos críticos americanos. Em “Salute to Sinatra”, o cantor esbanja todo o seu charme diante de uma plateia perplexa pela sua aparente semelhança com aquele, também reconhecido como “The Voice”.

O palco emana requinte, estampando “The Hollywood Orquestra”, evidenciando, através de criterioso projeto de luz cênica, o teclado, as cordas, os metais, os tambores e as respectivas partituras. Os galantes músicos, ao primeiro preciso sinal do maestro Chris Dean, dão início ao espetáculo e anunciam a entrada de Louis Hoover, cantando “Almost Like Being In Love” de Frederick Loewe e Alan Jay Lerner. É evidente o zelo da produção para com o que mais importa para o público – o glamour da era das grandes orquestras através do instrumental e a interpretação de “Frankie” na voz de Hoover. Para isso, a equilibrada incidência da luz cênica, não privilegia gregos ou troianos, mas são tratados de forma quase homogênea – hora lancetados por fachos de luz cerúleos, hora banhados por difusões lumínicas escarlate, magenta, verdejante e alva, em meio a uma atmosfera esfumaçada. Homenageando o astro, de tempos em tempos, uma esplendorosa chuva de estrelas pontilha o fundo infinito negro do palco.

Abrindo mão de qualquer formalidade, Hoover conquista imediatamente o público presente. Ao interpretar “All The Way” de Jimmy Van Heusen e Sammy Cahn, arrebata os corações daqueles que ainda se deixam idolatrar o artista, como uma manifestação saudosista dos tempos em que Sinatra se apresentava às multidões em carne e osso. O cantor atinge todos, de forma certeira, ao homenagear os cariocas com “The Girl From Ipanema” de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e torna a noite ainda mais sofisticada cantando Cole Porter – “I’ve Got You Under My Skin”. Hoover esbanja talento e carisma a cada canção interpretada e habilidade ao manter o público atento a cada gesto ou brincadeira de sua parte. Em dado momento, sentado próximo ao teclado, saboreia uma dose de whisky, como se totalmente à vontade em meio a amigos. No vácuo desse clima de descontração, parte para “Let Me Try Again”, de Paul Anka, provocando comoção geral, tamanha a carga emotiva com que a canção é interpretada como, da mesma forma, “Night And Day”, de Cole Porter.

Ensaiando o “grand finale”, o carismático intérprete transporta a plateia para o mês de janeiro de 1980, quando Frank Sinatra, no Estádio do Maracanã, insere Ari Barroso em sua paleta musical com “Aquarela do Brazil”, segue com “New York, New York, de John Kander e Fred Ebb e define com “My Way”, de Paul Anka, o encerramento do deslumbrante espetáculo que, não é agraciado com um bis, mas que deposita em cada um dos espectadores, o brilho de “Old Blue Eyes”. Salute, Hoover!














segunda-feira, 17 de agosto de 2015

11º Festival Anual de Fondues do Otto


Um estilo gastronômico

Se o assunto é fondue, a Desguste - Circuito Geral atesta que a Suíça está muito bem representada no coração da Tijuca pelo Restaurante Otto – casa que, desde a sua inauguração em 30 de julho de 2004, vem se consagrando como muito mais que um simples restaurante, mas como um estilo gastronômico cuja excelência na elaboração de seus pratos e na prestação de atendimento aos seus clientes são diferenciais que definem o conceito e o padrão de qualidade de sua marca.

Neste inverno carioca, o 11º Festival Anual de Fondues do Otto ainda pode ser conferido, até o dia 30 de agosto de 2015, pelos mais exigentes apreciadores dessa iguaria de fama internacional.

O Festival de Fondues, orquestrado pelo brasileiríssimo chef Baiano, é constituído por três sequências, iniciando com o Fondue de Queijos, a partir da fusão predominante dos tipos Gruyère e Golda em vinho branco, e cujo sabor é acentuado pela adição de temperos e de um “savoir faire” que confere ao prato a capacidade de promover uma experiência inesquecível aos seus degustadores – servido com cesta de pães, couve-flor, batata calabresa e cebolinhas temperadas. O Festival segue com o Fondue de Carnes, contemplando filé mignon e filé de frango, cuja fritura se dá, de forma diferenciada e exclusiva, numa infusão de vinho tinto com ervas e outros temperos que revelam o sabor das carnes – servido com batata rostie e seis molhos especiais, tais como: rosé, mostarda, alho picante, abacaxi, barbecue e chutney de pimentão. Por final, adocicando a gustação dos clientes Otto, o Fondue de Chocolate, preparado com os tipos meio amargo e ao leite, é servido com frutas da estação.

A casa tem capacidade para atender os mais diversificados paladares dentre os apreciadores de um bom vinho e profissionais para sugerir a melhor combinação para acompanhar seus clientes durante o Festival de Fondue.


Na noite de 9 de agosto de 2015, a frequência da casa foi percebida pela Deguste - Circuito Geral, representada por uma clientela predominantemente familiar local. Otto, que promove música ao vivo diariamente, naquela noite, estava sob a musicalidade das cordas de Jimmy Santacruz e do teclado de Luiz Otávio, com qualidade sonora associada à qualidade acústica da casa que, por sua vez, adicionalmente, oferece aos seus clientes, uma descontraída e informal varanda. O salão principal e o anexo, contemplando um generoso bar, são ambientados com uma iluminação tênue e intimista, e decorado de forma aconchegante e que exalta a produção artística brasileira.

sábado, 15 de agosto de 2015

Chá da Tarde



 Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa

O Programa: um requintado Chá da Tarde com Musical. O local: Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, no Flamengo - um dos mais nobres bairros da zona sul do município do Rio de Janeiro. O Chá: fugindo da rotina gastronômica carioca, o Chá da Tarde contempla uma seleta variedade de pães, bolos, frios, salgados, doces e bebidas, com apresentação e qualidade ímpares. 

Cardápio

Pães e Bolos
  • croissant simples
  • pão dinamarquês
  • mini pão francês
  • torradas Mr. Serpa

Frios
  • sanduíche de rosbife com mostarda dijon e rúcula no pão árabe
  • queijo prato, presunto e salame fatiados
  • vol au vent com creme de aneto e salmão defumado
  • pão de Miga recheado com queijo
  • sanduíche no pão-de-batata com mussarela de búfala e tomate seco
  • manteiga e um tipo de geleia

Salgados
  • croquete de Mignon
  • empadinha de Palmito

Doces
  • mil folhas
  • quindim
  • bombinha de chocolate
  • brigadeiro
  • torre de chocolate
  • bolo

Bebidas
  • chás importados e nacionais
  • chocolate quente
  • café
  • leite
  • água mineral
  • suco de frutas (laranja e melancia)

Missão: Impossível – Nação Secreta















Pura ação

Cento e trinta e dois minutos de pura ação e adrenalina - é o que “Missão: Impossível – Nação Secreta” oferece, tanto aos que vêm acompanhando o primeiro trabalho de Tom Cruise como o agente secreto - Ethan Hunt, quanto a aqueles que o assistem pela primeira vez, nesta quinta produção da franquia. Em “Nação Secreta”, Cruise tira partido da sua maturidade e empresta a sua credibilidade ao mais importante componente da Impossible Mission Force - IMF. Os incontáveis momentos de apneia involuntária, pelos quais passam os espectadores, são tão asfixiantes quanto eletrizantes são as cenas das quais participam, juntamente com o seleto elenco - dessa vez, na Áustria, na França, na Inglaterra e no Marrocos – destacando-se a presença feminina – tão crível quanto o desempenho de Cruise – da personagem dúbia Ilsa Faust, incorporada por Rebecca Ferguson.

A direção de Christopher McQuarrie transmite, claramente, seu empenho na evolução de M:I:V, imprimindo-lhe um ritmo bem mais frenético em comparação aos das anteriores. O roteiro é inteligente e bem construído, explodindo em cenas de ação do início ao fim da película - em especial, em Viena, durante a apresentação da ópera Turandot, de Giacomo Puccini, quando é posta em prática uma tentativa de assassinato duplo. Enquanto Ethan e Ilsa tentam cumprir suas missões distintas, percorrendo e escalando as varandas de carga e de manobra da Ópera Estatal de Viena, sob o impactante ato III de Turandot, o espectador segue à risca o demando da célebre ária Nessun dorma (Que ninguém durma),  não se arriscando a um piscar os olhos, muito menos dormir.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A Dama Dourada






Final instigante

“Arte lapidada e reluzente” – dessa forma, o Circuito Geral encara a película “A Dama Dourada” que, de forma atual, reproduz a desgraça pós-guerra com perseguições, extermínios e roubos de bens valiosos dos judeus, dentre eles, uma famosa pintura do artista plástico Gustav Klimt que retrata a aristocrata Adele Bloch-Bauer - denominada “Woman in Gold”, por sua vez, ‘confiscada’ da família Bloch-Bauer – primeiramente, pelos nazistas. O roteiro faz parte das lembranças de Maria Altman - brilhantemente interpretada por Helen Mirren - que se empenha em reaver a obra de arte, através de um processo contra o governo austríaco, defendendo a tese de que a tela pertence à sua família.

Ryan Reynolds impregna, com beleza e humanidade, o papel do advogado Randol Schoenberg que, apesar de sua inexperiência, mas com seu idealismo nato, consegue vislumbrar um lampejo de esperança na luta de Helen contra o governo da Áustria.

A direção de Simon Curtis redesenha extraordinariamente a década de 1980 para apresentar a história verídica, com base no livro da jornalista Anne-Marie O’Connor.

“A Dama Dourada”, além de presentear o espectador com um final instigante, o atinge com a arrogância, a prepotência e a presunção daqueles que, mesmo cientes de seus erros, são capazes de se manterem convictos e partidários do indefensável.


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Lisbela e o Prisioneiro – um musical circense
















O circo chegou!


A partir do texto de autoria Osman Lins e da adaptação e supervisão geral de Francisca Braga, “Lisbela e o Prisioneiro – um musical circense” assume um belíssimo formato para o palco, eminentemente regional e lúdico, em decorrência de uma zelosa e dedicada pesquisa e de um afinado trabalho de equipe, dirigido por Dan Rosseto e Ligia Paula Machado.

A história, singela mas cheia de graça - de um artista de circo que se apaixona por uma moça comprometida às vésperas de seu casamento, tornando-se prisioneiro desse amor mútuo - é contada em meio a uma diversidade de números circenses concebidos e coordenados por Roger Pendezza, que toma como paradigma o artista mambembe brasileiro. No palco, um autêntico picadeiro de circo itinerante, cujo engenhoso projeto cenográfico, de autoria de Kleber Montanheiro, é responsável pela plástica e equilíbrio visual das performances acrobáticas, coreográficas e ginásticas rítmicas – idealizadas por Ligia de Paula Machado. Responsável pela definição do repertório musical, Francisca Braga possibilita a atualização sonora e interpretativa de sucessos consagrados, segundo apaixonantes arranjos assinados pelo maestro e diretor musical Dyonisio Moreno, que ousa mesclar instrumentos musicais com eletrônicos, dando uma leve vestimenta pop rock às músicas regionais. Como um pintor de telas com proporções de bocas de cenas, Montanheiro também assina o desenho do figurino – a partir de uma releitura atualizada do clássico circense porém, com a mesma força da simplicidade dos materiais regionais - e pincela todos os layers cênicos com seu design de luz explosivamente cromático.

O musical circense tem início com a música “Sonhos de um Palhaço” de Antônio Marcos, interpretada por Luiz Araujo - Leléu, seguida por Ligia Paula Machado - Lisbela, apresentando um deslumbrante balé circense, entoando a música “Purpurina” - de Gaúcho Jerônimo Jardim, superando, em muito, a sua versão original. Durante todo o espetáculo, a plateia é testemunha da competência e do profissionalismo dos demais atores que compõem o elenco de “Lisbela...” – Beto Marden, Millene Ramalho, Nill de Pádua, Jonatan Motta e Milene Vianna, cujos desempenhos são imersos nas versões poéticas dos seguintes sucessos consagrados da MPB: “Rosa” - de Pixinguinha; “Foi Deus Quem Fez Você” - de Luiz Ramalho; “Céu de Santo Amaro” - de Caetano Veloso; e “Somos Todos Iguais Nesta Noite” - de Ivan Lins, dentre outras, musicalizados pela guitarra e pelo violão de João Paulo Pardal, pela flauta de Renan Cacossi, pelo piano de Maristela Silvério, pelo violino de Jonatan Motta, pela bateria de Azael Rodrigues, pelo o acordeon de Daniel Warschauer e pelo baixo de Augusto Brambilla. A diluição da trupe de acrobatas formada por Lucas Garavatti, Roger Pendezza e Tarik Henrique, em meio ao dinamismo do elenco e à embriagante sonoridade da banda, é responsável pela liga lúdica e específica do espetáculo circense e transforma os desempenhos individuais num complexo uníssono, no estilo grande produção.

Diante da promessa do projeto “Lisbela e o Prisioneiro” ficar em cartaz até 2017, com temporadas previstas em diversas cidades brasileiras, o Theatro Net Rio cumpre o dever de anunciar que, em sua sala de espetáculos, “o circo chegou”, mas vai embora, em breve, tão logo termine a sua curta temporada no Rio de Janeiro, no dia 30 de agosto de 2015. 

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