Counter

domingo, 2 de agosto de 2015

Beije a Minha Lápide


Tudo pode remeter a um sonho ou a um pesadelo - dependendo do estado de inércia do espectador

Regulamentação e ideologia - consonância ou antagonismo em se tratando de direitos individuais? Normas que regem os deveres e direitos de um cidadão, também são capazes de deixá-lo à míngua, pela simples falta de cumprimento às suas posturas - uma via de mão única, na qual o indivíduo não tem sua integridade garantida e o poder regulador não passa de um processador de letras-mortas.

Em “Beije a Minha Lápide”, o espectador se depara com esse divisor de águas, mas de forma diluída e quase imperceptível, graças ao esplêndido traçado do texto de Jô Bilac – permitindo que a direção de Bel Garcia escoe de maneira a não provocar polêmica e, muito menos, levantar bandeira sobre quaisquer assuntos pertinentes ao texto.

Em “Beije a Minha Lápide”, Marco Nanini, com toda a capacidade dramatúrgica que sua brilhante carreira lhe confere, interpreta Bala - um renomado escritor, admirador de Oscar Wilde, condenado à pena de prisão por ter destruído a proteção de vidro do túmulo de seu ídolo, considerado uma obra de arte de autoria do escultor Jacob Epstein, localizado no cemitério Père Lachaise, em Paris.

No palco, uma vez explicitados os limites privativos da liberdade de Bala, o espectador se encontra imerso num dilema, que o coloca hora dentro, hora fora do grande cubo de vidro que aprisiona o protagonista e que se torna um forte elemento coadjuvante dentre os demais papeis que conduzem a intrigante história – a advogada de Bala - Roberta, interpretada por Carolina Pismel; a filha de Bala - Ingrid, por Renata Guida; e o carcereiro Tommy, incorporado por Paulo Verlings.

O eventual estigma que o pesado e dramático texto de Bilac possa assumir é diluído pela técnica dos recursos cênicos disponibilizados pela direção do espetáculo, como um espetáculo à parte, que não devem passar despercebidos pelo menos atento dentre os espectadores - a começar pela trilha sonora de Rafael Rocha, recepcionando o público ainda à procura de seus lugares na plateia, com uma sonoridade incidental que prepara todos os presentes para a atmosfera dramática que se encontra prestes a ser instaurada. O figurino de Antônio Guedes veste cada um dos três atores coadjuvantes de acordo com suas funções laborativas – uma advogada, uma guia turística e um policial – segundo um estilo adequadamente francês. Já o sexagenário protagonista Bala, averso às condutas tidas como politicamente corretas, assume uma vestimenta que o caracteriza como interno e senil. Uma simbiótica parceria, cuja paternidade tríplice se deve à sintonia entre o projeto cenográfico de Daniela Thomas, o desenho de luz de Beto Bruel e o videografismo de Julio Parente, confere ao palco uma composição cênica minimalista. Uma mesa de trabalho remete ao ofício da bacharel em direito, como um ponto singular, eventualmente em destaque luminoso, em meio à escuridão e penumbra que predominam na boca de cena. Um simples cubo – como um módulo arquitetônico de Mies Van Der Rohe – representa uma cela, cujas faces verticais envidraçadas permitem a visão de Bala pela plateia e cuja refração da iluminação promove um efeito visual como se a aura do protagonista pudesse ser percebida pelo público. Precisamente calculados efeitos de fachos de luz, concentrados e difusos, fazem do grande cubo, limites através dos quais que enxerga a vida de dentro para fora, enquanto os que estão fora, a enxergam de fora para dentro, mas que desaguam no mesmo rio de insatisfação imposto pelo sistema. A translucidez se transforma em opacidade como num passe de mágica, não só pela luz de Bruel mas pelas projeções de imagens de Parente que se materializam nas superfícies envidraçadas e no assoalho do palco, competindo com o ilusionismo, quase circense, que faz com que a figura de Bala esteja presente num momento e, noutro, surpreendentemente, ausente.

Em “Beije a Minha Lápide”, tudo pode remeter a um sonho ou a um pesadelo - dependendo do estado de inércia do espectador, frente aos mandos e desmandos que acabam por determinar o curso da sua vida ou da sua predisposição, em tomar o curso da mesma por suas próprias mãos, sem qualquer garantia de sucesso, mas um insistente empenho sob a ótica de Wilde, ao proclamar que “os loucos, às vezes, se curam, os imbecis nunca”.



Nenhum comentário:

Postar um comentário