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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O Beijo no Asfalto



As engrenagens da instauração do preconceito


“Um museu de grandes novidades” -  fragmento poético de Cazuza que define a montagem de “O Beijo no Asfalto”, sob a direção de Marco Antônio Braz que, com todo o respeito à obra original de Nelson Rodrigues, transporta para o século XXI, relações sociais e hábitos latentes e ácidos do dia a dia da década de 1960, sob um ponto de vista crítico que já se encontrava muito à frente de seu próprio tempo.

Estrelado por um elenco – composto por Álvaro Gomes, Cal Titanero, Danielle Scavone, Josias Souza, Marcos Breda, Pamela Domingues, Pedro Paulo Eva, Stella Portieri e Leonardo Santos – coeso no processo de assimilação e reprodução do universo Rodriguiano, “O Beijo no Asfalto” reproduz, no palco do Teatro Solar de Botafogo, sob os olhares dos espectadores, as engrenagens da instauração do preconceito.

Encenar uma obra de Nelson Rodrigues dispensa recursos técnicos mirabolantes que possam desviar a atenção do público da denúncia ou do escárnio projetado no alvo da vez. A partir dessa premissa, Telumi Hellen, além de vestir os personagens, adequando o seu figurino à temporalidade da criação do roteiro, também concebe um cenário minimalista, contemplando um banco de pedra no centro de um quadrado - possivelmente, em alusão a uma praça onde a liberdade de expressão se manifesta respaldada pelo discutível Estado Democrático de Direito. Ladeando o palco, coxias visíveis ao público expõem todo o elenco que não se encontra em atividade cênica, mas tão atentos às aberrações e desvios durante a peleja verborrágica proferida pelos personagens, que incorporam seres tidos como humanos, porém, áridos em compaixão e compreensão de suas  próprias vidas. O desenho de luz de Aurélio de Simoni – em dados momentos, tão ofuscantes quanto revoltantes se fazem a hipocrisia e o preconceito - é fundamental em todos os momentos do espetáculo, pois, através dele, a dramaturgia é transmitida ao espectador atento, reflexivo e debruçado sobre a atualidade de um argumento de mais de 50 anos: Um beijo fora de contexto, explorado como algo não usual, até mesmo criminoso, dando margem a histórias inverídicas que se tornam verdades frente a uma sociedade hipócrita, manipulável e tolerante a tudo que seja lançado contra o seu próximo, desde que “esse tudo” não bata à sua porta. 


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