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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Santa


Repleto de significados que não serão afogados pelas ondas do mar


Recepcionando seus espectadores, o Espaço Tom Jobim – Jardim Botânico, Rio de Janeiro – transfere sua entrada principal para a porta dos fundos. Ao adentrarem a sala de espetáculos transformada em galeria de arte, os espectadores são surpreendidos pela difusão lumínica, sobre um fundo infinito negro, filtrada pela atmosfera esfumaçada opalescente. Compartilhando o acesso aos pouco mais que noventa assentos, criteriosamente quantificados e distribuídos como postos de observação, uma bancada de operação de luz e de som recepciona um público prestes a experimentar momentos de perplexidade diante de uma instalação artística – como se permanentemente imersa em sonoridade proveniente da fauna noturna e do mar, e contemplando proporções surpreendentes, paulatinamente reveladas pela força dramática do desenho de luz de Tomás Ribas.

Desvirginada a boca de cena sugerida pelo breu, a platéia observadora passa por uma experiência única e intransferível pelas imagens que tomam forma e que são captadas pelos seus olhos e gravadas em sua mente, possivelmente por tempo considerável. Eis que surgem os agentes ativos da instalação – os atores Ângela Vieira e Guilherme Leme Garcia – cujas palavras proferidas em prosa e verso e gestuais bailados como num surto coreográfico, estimulam os sentidos de quem os observam, de forma mágica, ousada e impactante. Pouco à pouco, a percepção do espaço toma conta do observador, que passa a se sentir inserido na paisagem sonora, visual e quase táctil, tamanha a proximidade dos protagonistas em determinados momentos e, noutros, como se o casal fosse dragado pela profundidade das cenas, perspectivadas pelo cenário ilusionista concebido por Bia Junqueira que, através de um único material, sugere o céu, o mar e a terra, engenhosamente animado como se possuidor de vida própria, em plena relação simbiótica com os efeitos lumínicos de Ribas. Em meio a tudo isso, os dois amantes se entregam à solidão, de corpo e alma, empenhados na composição das cenas quase pictóricas, cujos recursos – além do secular teatro de sombras, sensualmente desempenhado por Vieira – promovem muito mais do que a imaginação dos observadores consegue processar naquele etéreo espaço de tempo, ao som forjado pela direção musical de Marcello H. e Marcelo Vig. A tríplice aliança é travada pela integração do figurino de Rui Cortez ao cenário de Junqueira e à luz de Ribas que, além do elegante corte e panejamento mais que adequados aos corpos esculturais de Vieira e Garcia, consegue inserir uma semi nudez de Garcia como parte de sua obra e como se figurino o fosse, tamanho o lirismo presente na cena em questão.

A direção das diversas disciplinas, sob responsabilidade de Guilherme Leme Garcia, resulta numa obra de arte estimulante aos sentidos do espectador que se permite esvaziar sua mente das lógicas e suposições, desmentindo a premissa de que cabeça vazia é oficina do diabo, pois, uma vez alcançado tal vazio, pode ser constatado que o mesmo está repleto de significados que não serão afogados pelas ondas do mar. Seguro em sua bóia salva-vidas, o espectador permanece flutuante, até que um farol indica o caminho da terra firme, trazendo sua mente de volta à realidade, de uma viagem surreal através da sua observação de “Santa”.


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