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terça-feira, 29 de setembro de 2015

As Aventuras do Menino Iogue


Consciência iogue

O espetáculo infantil – “As Aventuras do Menino Iogue”, uma adaptação do livro homônimo de Antônio Tigre, descreve a jornada de Shridhara – um abnegado jovem príncipe indiano – que busca preencher a lacuna existente dentro de si, enquanto membro da nobreza. Auxiliado pela magia, por divindades e por seres da natureza, Shridhara é introduzido aos conceitos da ioga e, como se por um archote que lança luz em sua consciência acobertada pela sombra dos obstáculos naturais da vida, se permite conectar seus sentimentos à energia emanada por cada elemento e por cada ser que fazem parte do planeta em que vivemos.

A dupla direção de Arlindo Lopes e Juliana Terra manipula o despertar do interesse do público ao longo de todo o espetáculo, como se o espectador contemplasse, fascinado, o universo sagrado e essencial à história. A trilha sonora original de Antônio Tigre, executada ao vivo e à cores por uma banda presencial, componível com os elementos de palco e munida  com  instrumental indiano, encanta crianças e adultos e evolui, progressivamente e de forma esotérica, reverenciando do ocultismo à fraternidade. Em se tratando de uma cultura estranha ao ocidente, a direção de movimento de Juliana Terra se faz essencial ao espetáculo, tornando-se a base de cada sentimento e da percepção de unidade astral que o espetáculo exige de seus intérpretes. O desenho de luz, assinado por Paulo César Medeiros, evoca a humanidade e o destino dos personagens por ele revelado, envolvendo a todos com o simbolismo cromático inerente à cultura e à filosofia hindu. O figurino de Beth Passi de Moraes, Joana Passi e Rebeca Dallmaier permite a metamorfose dos personagens humanos em animais e divindades que contracenam com o menino Shridhara – um boneco criado pelo artista plástico Alexandre Guimarães, que ganha vida através das mãos de sua aura adulta. O cenário de Gabi Windmuller e Alberta Barros completa a paisagem que transporta os espectadores à Índia, para um autêntico lugar nas montanhas, induzindo a platéia à meditação conduzida pelo protagonista, entoando o mantra Oum.

A perspicaz forma de contar a história de “As Aventuras do Menino Iogue” transforma o sentimento de apego em amor consciente, como uma lição importante para os adultos repassarem às suas crianças que saem do teatro, imaginando quando será o dia em que participarão de uma jornada interior, na qualidade de sua própria consciência iogue. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Intocáveis


Limitações à parte

Relacionamento autêntico - limitações à parte. O encantador argumento de “Intocáveis” conjugado à generosa e humana modelagem do tema pela direção geral regida por Iacov Hillel, faz com que o binômio sintetize a essência da adaptação do filme homônimo por José Rubens Siqueira, levada ao palco do Theatro Net Rio. “Intocáveis” têm como paradigma a exclusão social sob duas vertentes que conferem um espetáculo à parte, ao se chocarem, como dois rios que se unem para a formação de um manacial potencialmente maior.  

Marcelo Airoldi – no papel de Philipe, um homem desprovido de autopiedade, e Ailton Graça – que dá vida a Driss, um diamante bruto, se  superam ao transformar, em pleno palco, o conformismo em motivação.

O cenário, concebido por Luiz Roque, extrapola a boca de cena e cintila sob a forma de dois gigantescos dispositivos luminosos de cristal que ladeiam os extremos do pano de boca, como uma figuração das fagulhas emanadas pelo choque entre classes sociais. Roque lança mão do recurso de projeção, de telas translúcidas para definição de diversos cenários e de profundidade às cenas – técnicas conjugadas ao criterioso desenho de luz, também assinado por Iacov, promovendo o desejado equilíbrio entre o drama e seu respectivo antídoto – a dose certa de humor. O contemporâneo figurino de Olívia Arruda Botelho transita adequadamente entre a ostentação e o despojamento, permitindo, juntamente com os demais recursos cênicos que, a essência do espetáculo parta do desempenho dos atores e da sua familiaridade e descontração na condução do texto. A contagiante trilha sonora de Túnica remete todos da platéia a uma festa de confraternização entre amigos – alegres e descolados – mas sem perder a seriedade implícita na temática espetáculo.

O elenco composto por Eliana Guttman, Bruna Miglioranza, Livia La Gatto, Ricardo Ripa e Fernando Oliveira se destaca pela tênue dualidade presente nos seus personagens, cujo sutil crescimento, ao longo de toda a apresentação, é perceptível aos espectadores mais sensíveis capazes de saírem da sala de espetáculos como se injetados por dose cavalar de endorfina.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Personalidades


Autêntica ingenuidade

Sabe aquele garoto da escola que adorava imitar seus professores, os amiguinhos e era considerado o cara mais engraçado da turma? Pois bem, Filipe Pontes poderia ser esse garoto.

Com o seu stand up comedy – “Personalidades”, Pontes prova que cresceu e apareceu. Sob a direção despojada de Alexandre Regis, o artista faz imitações de diversas personalidades e de alguns personagens familiares do dia a dia do espectador. A semelhança com seus imitados vai muito além do vocal, mas trata-se de uma habilidade que contempla a leitura e reprodução do gestual e de expressões faciais beirando a fidedignidade. Dentre as personalidades vítimas do scanner e da reprodução do humorista, o espectador se depara com Luciano Huck, com o personagem de “Avenida Brasil” – o jogador Tufão, interpretado por Murilo Benício, com Tony Ramos, com Fábio Assunção, com José Wilker e com Marília Gabriela entrevistando Antônio Fagundes.

O ranço de comédia datada, com potencial duvidoso como piada presente no texto de Hugo Veríssimo, pode ser encarado como possível recurso voluntário do autor, diante da autêntica ingenuidade desejada como marca registrada desse trabalho específico de Pontes. O espetáculo não carece de recursos cênicos mirabolantes, tendo em vista ser o foco de atenção, o carismático artista. Porém, cabe destacar o figurino de Dayana Silveira, cujas peças de vestuário fazem parte do espetáculo, enquanto a troca as vestes são realizadas ao vivo e em cores, expostas ao público em araras durante todo o espetáculo como num camarim – expositores que definem os limites úteis da boca de cena, ao mesmo tempo em que desempenham papel de elementos cenográficos. Quanto à luminotecnia cênica, deixemos os fachos de luz sob a responsabilidade do brilho da talentosa veia cômica do humorista.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Amargo Fruto – A Vida de Billie Holiday


Brilho natural

Sob a densa direção de Ticiana Studart, o espetáculo “Amargo Fruto – A Vida de Billie Holiday” estimula os sentidos do espectador de tal forma a tornar o espetáculo perceptivelmente extraordinário aos seus ouvidos e aos seus olhos, com reflexos inevitáveis ao seu coração. Studart apresenta a chaga do preconceito racial sem elevá-lo ao patamar de tônica do espetáculo, pois, mesmo que essa fosse sua intenção, tal tentativa não resistiria ao brilho natural de Lilian Valeska – a “nossa” Billie Holiday – vitoriosa por sintetizar as feridas abertas de sua personagem entoando suas belas canções.

O espetáculo conta com a poderosa direção musical de Marcelo Afonso Neves em conjunto com o quase laboratorial trabalho de Sueli Guerra, no comando da direção de movimento – ambos responsáveis por transmitir ao espectador uma roupagem musical capaz de acolher a melancolia de um trompete suavemente agudo contida na voz de Valezka, conduzida pelo gestual e expressões de Billie Holiday ao longo de todo o espetáculo, com especial menção à cena em que a protagonista trava um momento de disputa com uma dançarina, ao som de “All of Me”. A vida dramática da cantora é pontuada pelo devastador desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros, que dilacera o fundo infinito negro com cones luminosos que projetam mandalas de luz e sombras sobre o piso do palco e que refletem as cores cênicas contidas na solidão de Billie, dentre outros recursos a serem identificados e apreciados pelo espectador atento. O projeto cenográfico concebido por Aurora dos Campos em três segmentos faz com que o espectador assista ao espetáculo sob o encantamento e magia dos músicos dispostos como num night club, compartilhe os momentos em que Billie Holiday se entrega ao álcool e seja testemunho de sua intimidade, ora em seu camarim, ora na inexistente paz de seu lar.  

O elenco, também composto por Vilma Melo e Milton Filho, comunga da mesma dor, desespero e esperança, em doses homeopáticas, fazendo com que o espetáculo tenha alma e força cênica, em momentos cruciais, como através dos fatídicos amores de Billie, da sua relação com a bebida, das várias apreensões policiais por porte de droga, da perda de seu grande amor e da morte de sua mãe. O espetáculo chega ao Carnegie Hall, com Billie interpretando “Sophisticated Lady” e sendo ovacionada pelo público até a descoberta de sua doença fatal.

 “Lady Day” – apelido tomado de sua mãe e pelo qual gostava de ser chamada – morre aos quarenta e quatro anos em 17 de julho de 1959, mas eterniza a artista “Billie Holiday” por toda uma eternidade.

Fotos - Circuito Geral

domingo, 20 de setembro de 2015

Estamos Indo Embora


Crescei, multiplicai, subjugai, dominai

“Crescei, multiplicai, subjugai, dominai” - ordens expressas de Deus a Adão e Eva, segundo as Sagradas Escrituras em Gênesis. Trata-se de uma bela história, mas sem as perguntas que deveriam ser formuladas pelos convocados futuros progenitores em potencial ao Todo Poderoso – “Porque o homem surgiu nesse planeta? Uma vez nele radicado, como sobreviverá?” As respostas a esse par de questionamentos, até os dias de hoje, são transmitidas, por vias metafóricas, a todos os tementes a Deus - pobres criaturas que não conseguem processar a essência do conteúdo de suas palavras e, muito menos, perceber que, em função de sua fé acometida pela cegueira, muitos povos não conseguem conter o crescimento do número alarmante de seus habitantes.

A intolerância ortodoxa contra os meios contraceptivos com vistas ao controle da natalidade ainda é forte nos dias de hoje, levando um grande número de indivíduos ao sofrimento decorrente dos dogmas impostos pelas instituições religiosas. A esses, que fazem parte da estatística dos sete entre dez que nascem numa nação miserável ou no seio de uma família sem qualquer recurso, restam-lhes apenas o pedido de perdão por parte daqueles que pensam de forma distinta. A verdade dos fatos é que, o planeta encontra-se em estado de alarmante escassez de suas reservas naturais, devido ao aumento da sua população, que se dá em proporção geométrica.

Com base nesse quadro, Luiz Felipe Reis estréia como diretor teatral, com pompa de veterano, através de um projeto ousado e inquietante para quem dele participa ativamente ou, simplesmente, como espectador. Os protagonistas desempenhados por Julia Lund e Márcio Machado alcançam a meta da imparcialidade, num primeiro momento, incorporando dois cientistas: um alarmista e outro apaziguador – diante do estado da arte da vida no planeta em que vivemos – até que, num estágio mais avançado do espetáculo, se formaliza um dialogo entre um homem e uma mulher com visões diferentes sobre um assunto que se confunde entre a gravidez e a doença.

Trata-se de um espetáculo visual – com o indissociável recurso cênico de “back projection” que toma conta do fundo do palco, contemplando toda uma sorte de imagens alusivas às catástrofes que assolam o planeta – imagens que contam uma história em paralelo ao desempenho da dupla de atores, resultando num trabalho que consagra a competência da criação visual e técnica de projeção de Júlio Parente. A direção musical e sonora assinada por Luiz Felipe Reis e Thiago Vivas fomenta a tensão junto ao espectador, misturando-se às imagens e ao texto que se posiciona em riste contra a platéia, ora acusando-a como parcialmente culpada pela destruição, ora delegando-lhe a responsabilidade pela salvação do planeta. O figurino de Antônio Guedes encarcera todo e qualquer movimento natural dos atores, tornando-os, em muitos momentos, figuras futuristas e plasticamente belas aos olhos do espectador. A iluminação de Alessandro Boschini, de tão eficiente, pleiteia nada menos do que o futuro catastrófico e perverso, anunciado pelos protagonistas pelos fachos de luz que lhes são direcionados.

Reis prima pela engenharia desse momento de reflexão sobre o crescimento demográfico e pelas alterações ambientais que se processa natural e inevitavelmente por todo o planeta, que um dia poderá levá-lo a perecer. E pelo simples fato de permanecermos no passado, num presente sem futuro – “Estamos indo embora”.


sábado, 19 de setembro de 2015

Blackbird


Mistura composta por desejo e atração

Cena contemporânea: uma criança vestida como adulto, assumindo agendas semi executivas, compromissadas com colégio, com aulas de lutas, de dança e de idiomas, com a prática de esportes, com os compromissos sociais festivos – um retrato da prole imitando seus progenitores, fato que estabelece uma linha tênue entre a infância e a maturidade e da eventual transferência dos anseios daqueles capazes de gerar vidas, naqueles que colocam no mundo.

A infância, muitas vezes comprometida com temáticas genuínas de um mundo adulto, tais como independência, competitividade e sexualidade, recebe uma carga além de sua capacidade, comprometendo a construção do indivíduo ao longo de seu desenvolvimento, contemplando aquela faixa etária. O amor é figurativamente transmitido como um sentimento a longo prazo e conceituado com base na incondicionalidade, a despeito do mundo adulto ser marcado pela sexualidade e pela atração, e, o pequeno mundo infantil, pela ternura e pela ingenuidade. Porém, quando da colisão entre esses dois mundos, os sentimentos de quer quem seja o seduzido ou o sedutor, tornam-se complexos diante do julgamento daqueles que não estão envolvidos nessa mistura composta por desejo e atração.

David Harrower, inspirado numa história real cujo argumento é baseado num fato julgado como crime sexual, assina o texto “Blackbird”, traduzido por Alexandre J. Negreiros e cuja atual montagem – no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro – é dirigida por Bruce Gomlevsky. Una - mulher de 27 anos, vivida por Viviani Rayes – procura, obsessivamente, por Ray – de 56 anos, interpretado por Yashar Zambuzzi. Se reencontram quinze anos após a condenação de Ray pelo crime de pedofilia, por ter mantido um relacionamento com Una, ainda aos doze anos, enquanto ele com quarenta e um. Uma vez cumprida a sua pena privativa de liberdade, Ray se vê obrigado a mudar sua identidade para começar uma nova vida, como Peter.

O confronto entre Una e Ray acontece num cenário concebido por Pati Faedo, como um container de dimensões singulares, onde o lixo e outros resíduos inservíveis de escritório, em meio a destroços sentimentais, representam o descarte psíquico e do corpo a corpo travado por um amor não correspondido em sua totalidade. A instabilidade dos personagens é muito bem caracterizada por Ticiana Passos em seu figurino, que introduz Una como uma mulher sexualmente defasada que experimenta a vergonha imbuída de emoção no amarrotado Ray. O projeto de iluminação cênica de Elisa Tandeta não é amigável, mas dramático e soturno, uma vez que fere com luz, subjetivamente, os agentes dos sentimentos que carregam consigo a selvageria, a agressividade, o trauma e a doença definida como amor. A instabilidade emocional manifestada com requintes de agressividade verbal e física vem acompanhada pela trilha sonora de Marcelo Alonso Neves, ao longo do processo no qual a dupla de personagens, como pupas que, sem passarem pelo processo de metamorfose, simplesmente, se descartam de suas crisálidas emocionais.

O espetáculo não faz apologia a luxúria, não cria expectativas, não define o que é certo e o que é errado, nem mesmo identifica os sentimentos de seus protagonistas. “Blackbird” apenas sobrevoa em meio ao que pode ser tomado como o bem e o mal, com a inocência e ingenuidade de uma criança naturalmente comprometida com a sua sexualidade.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

War


Um jogo de estratégia

Vida - um jogo competitivo. Dessa forma, o Circuito Geral encara o espetáculo “War”, onde o vencedor é aquele que subjuga o derrotado, lançando mão de estratégias delineadas pela direção de Diego Molina, que dá conta da dicotomia presente no texto de Renata Mizrahi com grande maestria.

“War” acontece numa noite, quando três casais se encontram para um jogo circunstancial através do qual, ao invés de conquistarem territórios lúdicos, conforme as instruções do tabuleiro, os jogadores, incorporados por Ricardo Gonçalves – André; Natasha Corbelino – Marília; Verônica Reis – Roberta; Fabrício Polido – Gustavo; Camilo Pellegrini – Sergio e Clara Santhana – Laura, transferem o foco de atenção do fogo cruzado para desfazerem alianças, encontrarem culpados, protegerem segredos e formalizar ataques de acordo com as fraquezas e cumprimentos de promessas – dívidas impagáveis, que jamais serão quitadas.

O “mundo” inserido no contexto da cenografia de Lorena Lima fica afastado da cidade, cercado pela natureza, e cujo acesso é dificultado pela distância dos núcleos de conveniências. O interior da casa é despojado, simples e conservador, mobiliado com peças retrô, equipado com vitrola onde são reproduzidos discos de vinil e é considerado pelos jogadores como ambiente “clean”. Diante dos olhares apopléticos dos espectadores, a moradia do casal, figurativamente interpretada como um bunker familiar, pelo Circuiito Geral, vai se desfazendo aos pedaços, como se a cada jogada, todo o pseudo cenário montado pelos donos da casa, como uma dissimulação da instabilidade de suas próprias vidas, fosse bombardeado pelos exércitos de “inimigos”, descortinando a miopia da autoestima de cada um dos participantes. O desenho de luz de Anderson Ratto delimita o território da guerrilha, delineando o cenário de Lima como se fossem as células de uma batalha naval e explicita, através de uma luz difusa, todas as nuances de distúrbios psíquicos e sentimentalismo, definido por sintomas característicos de transtorno obsessivo compulsivo e de bipolaridade. A trilha sonora de Renata Mizrahi, ausente de pieguice, interage a cada jogada e coopera na apreciação da essência humana que, antes mesmo do início do jogo, já se encontrava blindada por todos os envolvidos na lúdica guerra. Patricia Muniz ousa combinar bermuda com camisa social mais gravata, calça saruel com sandálias de couro, e calça xadrez e dupla camisa, além de outras composições e estilos com objetivo único de marcar o seu figurino como lente de aumento da psique de cada personagem.

“War” é um espetáculo elaborado com base em teoria lúdica, como se a platéia estivesse contemplando um jogo de estratégia no qual, o fato de apenas haver um ganhador, não é necessariamente lesivo aos demais participantes - ao contrário da constante batalha da vida real, onde a subida de somente um vencedor ao pódio pode representar danos coletivos irreparáveis.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Vanya e Sonia e Masha e Spike


Um agradável e nostálgico humor

A simplicidade e a inocência contida no espetáculo “Vanya e Sonia e Masha e Spike”, carrega consigo um agradável e nostálgico humor, que nos remete aos clássicos de teatro e de cinema, envolvido num texto criativo de Christopher Durang e traduzido por Bianca Tadini e Luciano Andrey. O elenco composto por Marília Gabriela, Elias Andreato, Patrícia Gasppar, Bruno Narchi, Teça Pereira e Juliana Boller em sintonia fina com a história, oferece bons momentos de diversão.

O cenário de Attilio Baschera e Gregório Kramer dá as boas vindas aos espectadores que contemplam a montagem cromaticamente esfuziante, mas com ares de um ancestral teatro infantil televisivo – na ocasião, ainda em preto e branco. O som de avezinhas cantarolantes define um ar bucólico à boca de cena tomada por uma casa com quintal frontal ajardinado, remetendo todos da platéia a um lugar que pertence às mágicas cenas de histórias da carochinha, atmosfera dissipada a partir do  momento em que os moradores da casa se apresentam em cena: a depressiva Sonia – interpretada por Patrícia Gasppar, e seu afetado irmão Vanya – por Elias Andreato. O desenho de luz multicolorido de Ney Bonfante alegra e agrega alto astral ao espetáculo, conseguindo fazer com  que o espectador não perca o fio condutor de cada personagem, em suas várias nuances que se abrilhantam pela iluminação competente. O figurino de Theodoro Cochrane acompanha a qualidade exigida pela direção de Jorge Takla, tornando-se ferramenta cênica fundamental para o melhor entendimento da essência de cada um dos papéis. A quase imperceptível sonoplastia de Fernando Fortes toma vulto e se faz presente de forma linear, não induzindo as reações do espectador, mas se colocando apenas como fundo cênico.

O espetáculo “Vanya e Sonia e Masha e Spike”, é uma reunião de família com agregados e vizinhos – nestes dois últimos casos, seus espectadores.

domingo, 13 de setembro de 2015

Guerra Doce


Motivo para reflexão

Tal e qual uma infecção viral que ataca sistema imunológico, os sintomas do espetáculo “Guerra Doce”, num primeiro momento, se manifestam no espectador como se esse tivesse sido submetido, propositalmente, ao processo de uma incubação virótica, pelo diretor William Vita que, por sua vez, presta esclarecimento a todos os presentes, logo em seguida, sobre o mal que se estabelece no romance de André e Gustavo, vividos respectivamente por Edu Porto e William Vita.

Os anti-corpos produzidos por “Guerra Doce” não conseguem sanar o mal-estar contido no denso texto de Porto. O combate corpo a corpo entre as células de defesa e as rápidas mutações de seu oponente comprometem os diálogos já datados, que se perduram durante todo o espetáculo, cuja contaminação vem acompanhada por febre, suores noturnos e emagrecimento repentino. Tudo isso faz com que a história, baseada em fato real, torne-se motivo para reflexão, diante das mentiras, dos desvios de caráter e das injustiças praticadas pelos que não se enxergam doentes – tais como o empresário Gustavo e a personagem assumida por Kel Braga – a amiga de André.

A baixa imunidade - simbolicamente identificada pelo Circuito Geral no desenho de luz de Eder Nascimento – permite o espectador perceber a fraqueza atingir o seu estágio avançado junto ao filósofo artista – André. A trilha sonora assinada por Guto Rodrigues se insere no contexto contemplando sentimentos de tristeza e de depressão, a partir de um som incidental que movimenta as dúvidas correntes de cada personagem – em seguir ou não seguir adiante.

“Guerra Doce” passa, em diversos momentos, por situações de risco, mas demonstra estar no domínio da capacidade de se proteger e, dessa forma, manter-se vivo.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Entourage – Fama e Amizade


Diverte pela ironia e arrogância


A extinta série “Entourage – Fama e Amizade”, produzida pela HBO e levada ao ar desde 2004 dá fruto - um longa metragem dirigido pelo mesmo produtor da série – Doug Elin.

Mesmo para quem nunca assistiu à série da TV, a versão cinematográfica se faz compreensível, com seus personagens muito peculiares quanto aos seus estilos de vida, ostentações e conservadorismos pós moderno que definem aqueles que não fazem parte da “turma”, como algo descartável e sem utilidade.

Doug retrata uma Hollywood preconceituosa, no sentido amplo da palavra, provando que mesmo quem tem muito dinheiro, pode não ser aceito pela cidade e, adicionalmente, pela “turma”.

“Entourage – Fama e Amizade” é um filme que diverte pela ironia e arrogância presentes, fazendo com que alguns espectadores possam encarar a película como uma produção sem fundamento, esquecendo-se, porém, que personagens semelhantes já atuam de acordo com o mesmo padrão comportamental, bem debaixo de seus narizes.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Será que a Gente Influencia o Caetano?


Irradia as frustrações presentes em duas vidas


Mário Bortolotto desenha, com sarcasmo e fidelidade, uma fração da juventude dos nascidos em 1980 que assume a configuração de egocêntricos, preguiçosos e narcisistas, em texto de sua autoria – “Será que a Gente Influencia o Caetano?” Intencionalmente ou não, o dramaturgo retrata esses jovens como os preocupantes adultos da atualidade – imersos em prepotência, acometidos pela falta de iniciativa e confiantes quanto à sua passiva entrega aos seus próprios sonhos.

A direção do espetáculo por Marcello Gonçalves é dinâmica e define uma linha dramática ao longo da apresentação, já que o fracasso se configura como marca registrada dos personagens. No entanto, sugere um comportamento para a dupla comicamente caricata, numa possível forma de amenizar o tom crítico-social do texto. Nesse processo, a direção de movimento de Márcia Vieira assume papel de extrema importância, inserindo uma linguagem quase pantomímica ao gestural de Andrey Lopes e Fábio Guará, no papel dos jovens protagonistas, que fazem com que o constante processo de decadência a que estão sujeitos, se torne o mote para risos e possível patamar de superação de muitos dos presentes na platéia. Contudo, nenhum texto de Bortolotto é o que parece ser e, após o espetáculo, a história contada deixa de ser uma comédia, correndo o risco de se tornar uma constatação da derrocada de membros de um conceito social conhecido como geração Y.

O desenho de luz de Felipe Lourenço segue coerentemente dramático, destacando os personagens e elementos cenográficos cuja disposição remete à desordem estacionária, pelo acúmulo de coisas inservíveis, em meio a um fundo infinito negro – expondo o espectador, de forma quase punitiva, a uma profunda ausência de cor além do palpável, numa possível alusão ao fato de que nem todos sonham colorido.


“Será que a Gente Influencia o Caetano?” irradia as frustrações presentes em duas vidas que, pouco a pouco, tomam formas e contornos, de acordo com cada receptor da mensagem presente nas entrelinhas do texto, carente de obviedade, de Bortolloto. Ao final do espetáculo, o espectador que se permite refletir sobre o tema, corre o risco de se identificar como protagonista no contexto da triste comédia e constatar – a partir da máxima de que sonhar é o combustível da vida – que só lhe resta voltar para casa e dormir. 

domingo, 6 de setembro de 2015

O Agente da U.N.C.L.E


A ponto de possibilitar uma promissora continuidade da franquia

Guy Ritchie presenteia os amantes do cinema com sua direção de “O Agente da U.N.C.L.E” – baseado num seriado dos anos de 1960 - oferecendo estilo, qualidade técnica, desempenho artístico e injetando elevada carga de carisma em seus personagens.

Solo - agente da CIA, interpretado por Henry Cavill e Illya - agente da KGB, por Armie Hammer recebem a missão de impedir uma catástrofe mundial prestes a ser detonada pela a vilã Victoria, por Elizabeth Debicki. Com vistas ao sucesso da missão, a dupla depende da ajuda de Gaby, por Alicia Vikander – personagem chave para a concretização dos planos da vilã.

“O Agente da U.N.C.L.E” de Ritchie conquista o público alvo apreciador de filmes de espionagem e ação, por suas sacadas cômicas sem obviedade e pela excelente química que dá liga a todo o elenco - Cavill, por sua extrema elegância; Hammer, por sua impecável credibilidade; Vikander, por sua cativante presença; e Debicki, por ser, simplesmente, fantástica em seu desempenho.

“O Agente da U.N.C.L.E” é um filme de espionagem que poderia simplesmente entrar para o rol de filmes mesma linhagem, como um outro qualquer. Contudo, Ritchie se dignou a qualificar a sua ficha técnica com extrema expertise – com especial destaque para a trilha sonora que, surpreendentemente, contempla, até mesmo, Tom Zé com “Jimmy, Renda-se”.

O muito que se possa dizer sobre “O Agente da U.N.C.L.E” ainda é pouco diante do mérito da película de promover o mais que merecido retorno de bilheteria à sua produção, a ponto de possibilitar uma promissora continuidade da franquia.



sábado, 5 de setembro de 2015

Cock – Briga de Galo


O troféu é a indecisão crônica


A difícil arte da decisão é o fio condutor da história de John – o protagonista interpretado com jovialidade e rebeldia, por Felipe Lima – centro de uma disputa entre um homem divertidamente perverso – defendido por Luiz Henrique Nogueira – e uma mulher delicadamente ativa – por Débora Lamm. Tudo pronto para o início da rinha – a platéia em formato de arena acomoda os espectadores que assumem o papel de apostadores de uma briga que transcende o delito da contravenção e peca pela hesitação diante de um caminho bifurcado na trilha por um bom relacionamento.

Em meio ao breu sangrado pela platéia que se faz presente pela penumbra, o “rinhadeiro” é delineado por segmentos de luz projetados no piso e cujo preenchimento se dá tão logo os “rinheiros” se auto lançam no quadrilátero. Responsáveis pela emissão de toda a sorte de fachos de luz, projetores em zênite e nivelados definem um plano superior finito sobre a área de palco visível. A tal sistema de caráter técnico e simbiótico não cabe responsável único, mas uma parceria entre o projeto cenográfico de Flávio Graff e o desenho de luz de Renato Machado, endossando a capacidade de ambos no processo criativo e executivo cênico. Julia Marini assina autoria de um figurino básico, como se projetado após intensa pesquisa sobre biotipo e o perfil psicológico de cada um dos personagens. Os movimentos dos confrontos duplos, triplos e quádriplos dinamizam o jogo de cena, retratando cada avanço, recuo, acirramento e confronto, graças à direção de movimento por Dani Amorim.

O conflitante texto de Mike Bartlett se torna denso sob o processo de tradução de Eduardo Muniz e Ricardo Ventura, deixando claro que o combate não acontece somente como tábua de salvação de um relacionamento a dois, mas de uma disputa em meio a um triângulo amoroso, onde o troféu é a indecisão crônica personificada em John. Inez Viana, com a sua direção existencialmente independente da orientação sexual dos galos em questão, joga no ringue o pai, dramatizado por Hélio Ribeiro, de forma desafiante e vital ao filho, que almeja o grande prêmio - John.

“Cock – Briga de Galo” pode ser somente um passatempo para aqueles que se encontram na arquibancada, como reles torcedores que enxergam a vida pelos olhos dos outros, ou podem se enxergar no ringue e planejarem a briga por aquilo que desejam, mesmo que, para isso, se utilizem de persuasão como forma ilícita e única de se tornarem vencedores frente à inércia do fim da luta. 


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Que Horas Ela Volta?


Atropela, desinibidamente, o comportamento da burguesia brasileira


Bom humor e ironia definem a linha mestra da surpreendente direção do filme “Que Horas Ela Volta?”, por Anna Muylaert.

A película atropela, desinibidamente, o comportamento da burguesia brasileira, até transformá-la em pista de asfalto para que, Regina Casé, sutilmente, a atravesse, sob os olhares de superioridade daqueles que acreditam na capacidade do dinheiro comprar, até mesmo, a essência humana – ledo engano. Tal premissa é jogada ladeira à baixo, a partir da introdução de uma personagem, em caráter temporário, no núcleo de uma família pertencente à classe A, para a qual, a pernambucana Val, interpretada por Regina Casé, trabalha há mais de 12 anos – inicialmente como babá, que passou a empregada doméstica que dorme no emprego. O devastador elemento estranho à família é Jéssica, filha de Val - personificada por Camila Márdila. Mesmo tendo vivido longe da mãe, Jéssica pede a Val para que a receba, em São Paulo, para prestar vestibular para arquitetura, coincidentemente, como também o fará, Fabinho, filho dos patrões de Val – interpretado por Michel Joelsas.

Camila Márdila, com sua Jéssica, rouba, engenhosamente, o filme para si. Confere dignidade a Jessica, por sua vez, sujeita ao mesmo dilema pelo qual passou sua mãe, ao deixá-la para que fosse criada pela tia – um endosso à máxima que afirma que “tudo é feito em prol de seu rebento” – mesmo que, para isso, fosse obrigada a desconhecer totalmente a infância de sua cria.

“Que Horas Ela Volta?” termina como se consumado por um final feliz. Contudo, a veracidade dos personagens não deixa seus espectadores muito seguros dessa tal felicidade.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

BR - Trans


Grito, que ecoa e reverbera

O submundo da sociedade tradicional é exposto e questionado, de maneira impactante, pela dramaturgia de Silvero Pereira que, com muita integridade, contraria a visão parca daquela sociedade costumeira, que coloca à margem tudo que é diferente ao padrão pré-selecionado por aqueles que ditam normas, leis, modas, religiões, filosofias, políticas e, com base em tudo isso, inventam histórias.

A tal felicidade, apregoada como algo a ser conquistado ao longo de toda a vida, vem disfarçada na pele de indivíduos e moldada em pseudo liberdade, democraticamente ditatorial, religiosamente pecadora, politicamente incorreta no que lhe é peculiarmente correto e humanamente desumana. A atípica direção de Jezebel De Carli demonstra o grau de saturação provocado por esse tipo de gente e grita um por basta. “BR – Trans” insere o espectador como parte desse grito, que ecoa e reverbera – vez em quando de forma poética, outras vezes violentamente e noutras, beirando à revoltada, tamanhos são os absurdos proferidos contra aqueles que simplesmente desejam ser o que, de fato, os são – homens femininos, que não ferem o lado masculino de quem quer que seja. A personificação de Silvero Pereira em Gisele define a vida dupla do personagem que constrói, diante do espectador, o universo sofrido e difícil dos travestis, transexuais e transformistas, com auxílio de poemas e imagens projetadas de atos preconceituosos, incorporando a violência física e assassinatos de integrantes do universo trans.

O cenário, simples o suficiente com vistas a atender as necessidades básicas do monologuista, é de autoria do próprio Silvero Pereira em parceria com Marco Krug, contemplando movimentações no palco tão plausíveis de serem dirigidas quanto o gestual do protagonista, como a penteadeira sobre rodas equipada com luzes de camarim. Quando o milagroso desenho de luz de Lucca Simas não atende a dramaticidade em sua plenitude, spots portáteis satisfazem o desempenho desejado, movimentados pelas mãos de Silvero Pereira. De resto, o palco despojado de sofisticação, hora aparenta ares de cabeça de porco, hora de palco de boate e, até mesmo, do aconchego do lar, onde o desempenho de Silvero Pereira desabrocha como uma linda borboleta ao sair do casulo, para logo ser morta por um Narciso qualquer, que acha feio, o que não é espelho.

A trilha sonora é o esteio do processo de incorporação dos personagens, contemplando temas originais de Rodrigo Apolinário, com base na pesquisa de Silvero Pereira, que elege “Geni” - de Chico Buarque, “Shake It Out” - de Florence and the Machine e “Balada de Gisberta” - de Pedro Ambrunhosa, pela voz de Maria Bethânia, homenageando o transexual brasileiro que sofreu todo o tipo de violência física e verbal por mais de dois dias, antes de ser assassinado pelas “inocentes mãos” de um grupo de indivíduos inimputáveis, com idades entre 12 e 16 anos.

 

“BR – Trans” incomoda e as risadas resultantes das exposições de Gisele são pontuais e têm prazo de validade tão efêmero quanto os momentos de glória experimentados pelos que diminuem seu semelhante com base em diferenças que não têm a menor importância para a definição do status no quesito humanidade.