Counter

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Amargo Fruto – A Vida de Billie Holiday


Brilho natural

Sob a densa direção de Ticiana Studart, o espetáculo “Amargo Fruto – A Vida de Billie Holiday” estimula os sentidos do espectador de tal forma a tornar o espetáculo perceptivelmente extraordinário aos seus ouvidos e aos seus olhos, com reflexos inevitáveis ao seu coração. Studart apresenta a chaga do preconceito racial sem elevá-lo ao patamar de tônica do espetáculo, pois, mesmo que essa fosse sua intenção, tal tentativa não resistiria ao brilho natural de Lilian Valeska – a “nossa” Billie Holiday – vitoriosa por sintetizar as feridas abertas de sua personagem entoando suas belas canções.

O espetáculo conta com a poderosa direção musical de Marcelo Afonso Neves em conjunto com o quase laboratorial trabalho de Sueli Guerra, no comando da direção de movimento – ambos responsáveis por transmitir ao espectador uma roupagem musical capaz de acolher a melancolia de um trompete suavemente agudo contida na voz de Valezka, conduzida pelo gestual e expressões de Billie Holiday ao longo de todo o espetáculo, com especial menção à cena em que a protagonista trava um momento de disputa com uma dançarina, ao som de “All of Me”. A vida dramática da cantora é pontuada pelo devastador desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros, que dilacera o fundo infinito negro com cones luminosos que projetam mandalas de luz e sombras sobre o piso do palco e que refletem as cores cênicas contidas na solidão de Billie, dentre outros recursos a serem identificados e apreciados pelo espectador atento. O projeto cenográfico concebido por Aurora dos Campos em três segmentos faz com que o espectador assista ao espetáculo sob o encantamento e magia dos músicos dispostos como num night club, compartilhe os momentos em que Billie Holiday se entrega ao álcool e seja testemunho de sua intimidade, ora em seu camarim, ora na inexistente paz de seu lar.  

O elenco, também composto por Vilma Melo e Milton Filho, comunga da mesma dor, desespero e esperança, em doses homeopáticas, fazendo com que o espetáculo tenha alma e força cênica, em momentos cruciais, como através dos fatídicos amores de Billie, da sua relação com a bebida, das várias apreensões policiais por porte de droga, da perda de seu grande amor e da morte de sua mãe. O espetáculo chega ao Carnegie Hall, com Billie interpretando “Sophisticated Lady” e sendo ovacionada pelo público até a descoberta de sua doença fatal.

 “Lady Day” – apelido tomado de sua mãe e pelo qual gostava de ser chamada – morre aos quarenta e quatro anos em 17 de julho de 1959, mas eterniza a artista “Billie Holiday” por toda uma eternidade.

Fotos - Circuito Geral

Nenhum comentário:

Postar um comentário